Afetos · Das palavras das cartas · infinitamente

Nunca mais regressaste a casa 

Nunca mais regressaste a casa desde agosto.
 Eu fiquei sentado na soleira da porta à espera 
da cura. Brincava ocasionalmente com o fogo, 
porque era a tua voz que me trazia o outono, 
era a fuligem nas tuas mãos que me ensinava
a hermenêutica dos dilúvios e a mecânica 
da extinção das espécies. 

  Mas nunca mais regressaste a casa e eu aprendi
a soletrar silenciosamente o teu regresso. 

 José Rui Teixeira

Mãe,

mais uma vez eu conto os anos e venho dizer do tempo que voa… sabe, já faz uma vida inteira que você se foi e confesso que em dias como os atuais não me acostumei com sua ausência – nem sei se um dia vou me acostumar.

Hoje fiz os biscoitos de polvilho e ficou tão iguais aos seus que liguei para cada um dos irmãos – erámos sete, mas hoje, só temos seis vivos e um está em um lugar que não tem como ligar – que consegui para contar. Uma das minhas irmãs me disse que havia feito de chá de canela e louro e a gente riu junto chorando… você sabe como somos bobas quando falamos de você.

A outra, falou do barulho da máquina de costura e de como aquele som soava para a gente como uma canção. E um dos irmãos disse que olhou a fotografia na carteira. Pareceu, mãe, que estávamos em sintonia em seu nome, em lembranças e em amor.

E de repente, enquanto falávamos sobre tudo isso… choveu. Depois de mais de 160 dias sem chuva, choveu e ficamos ali, um junto do outro em enlace ao seu nome. A chuva do caju sobressaiu em cada conversa e contei também das sementes do meu ipê que se espalharam pelo quintal inteiro.

Acho que era só isso que queria te contar, mãe… da saudade que ainda reina por aqui, do vazio de sua presença em nossas casas e do seu regresso que nunca aconteceu.

Te amo,
Beijo meu

Mariana

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