Das palavras das cartas · Lunna Guedes · Scenarium Livros Artesanais

29 – …ela pensou que algumas viagens são mais partidas que as chegadas.

Bambina mia,

a lua aparece no quadrante leste do quintal e a cena que se apresenta para mim traz esse misto de sensação que você sabe bem. A emoção do seu dia Coloco tua playlist no celular e vou me envolvendo de carinho por você.

A lua está cheia e deslumbrante! Já é manhã de 29 – madrugada ainda – e assim como acontece quando chove, quando vejo a lua chamo seu nome: Lunna tu! É o nome da “sua” playlist. Sempre ouço. Acho que é uma maneira de me ligar a você, mesmo dentro dessa distância que nos separa.

Já tivemos algumas partidas e chegadas e nossa história tem algumas cenas no aeroporto e pelas ruas do seu lugar. Eu mais cheguei aí do que parti? E se eu disser que sempre que parti me deixei aí no seu abraço e do tuo bambino?

Hoje, revendo as lembranças, percebi que os anos e essas datas não cabem em nós. A gente é de antes, desse e de outros tempos e algumas coisas nos ligam para além de outras pessoas e tão somente nós sabemos.

Você, comigo, é sempre oferta.. e confesso que algumas datas me tocam mais do que outras, como hoje. Tuo dia e você já sabe dos desejos do mio cuore para o tuo.

Então, para além das palavras e meu amor todinho dedicado para você vim trazer meu abraço.

Já te disse que sou grata ao universo e todas as folhas das árvores do mundo por você em minha vida? Já te disse que para além de partidas e chegadas nossos caminhos se cruzam, de alguma maneira, em outro tempo, outra história como se fosse a mesma?

Eu te amo e eu te amo tanto! Você é um dos melhores presentes que o universo me deu.

Auguri!
Grazie Mille!!!
Bacio
Mariana Gouveia
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Lunna Guedes – Obdúlio Ortega 

Das palavras das cartas · Scenarium Livros Artesanais

28 – caminhar pelo mundo de braços dados com o outro, com os outros

Lisa,

eu me lembro bem quando te vi de longe, atravessar a avenida com seu riso largo… o lenço tão peculiar na cabeça e o jeito leve de andar com os outros. Podia ser qualquer um, os invisíveis da esquina, os animais de rua.. lá ia você junto, sendo caminhante e oferta de abraço. Foi paixão ao primeiro passo.

Você nunca me deixou caminhar sozinha, mesmo longe, lá estava você e seu olho de amparo. com os ditados populares na ponta da língua: quem tem amigo tem tudo e você desfiava vários fatos onde um amigo te socorreu.

A minha mãe dizia que você era uma corda, dessas que puxa a gente de qualquer lugar e levanta. E você respondia sempre com um sorriso. A gente sabe que em alguns caminhos há labirintos – e esses, a gente tem de desvendar sozinho – qualquer coisa assim, de atalhos e desvios e dentro dos seus ditados conhecidos você diria que é muito importante saber que mesmo que sentíssemos sozinhos, haverá alguém nos esperando no fim da estrada.

O dar os braços ao outro já é parte sua e dessa estrada bonita que você desenha no seu dia a dia. Não só aos comuns seus, mas aos desiguais dos outros. E hoje, quando na maioria das pessoas está frio por dentro, você é o colo quentinho que eu admiro e amo.

E eu sou muito feliz por estar com você nessa caminhada!

Mariana Gouveia
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Lunna Guedes – Obdúlio Ortega 

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27 – No balaio ancestral, carrego em meu dna minhas avós, madonas nonagenárias!

Vó Léo,

a carta seria para minhas avós, de quem carrego no dna a ancestralidade na alma – não nego – mas, resolvi te escrever para declarar meu amor por você. Quando me casei com seu neto, ganhei a avó que desejei a vida toda e não tive.

Minha nona Mariana – razão do meu nome – navega nas minhas lembranças de menina com o olho miúdo, igual ao do meu pai e nem sei até onde é fruto de memórias vividas ou se é invenção de parte de histórias que escutei. Carrego dela o nome – não mais do que isso – e nem um cheiro de bolo assando, de colo, de aconchego de vó mesmo.

Já minha avó Ana Maria – que senhora conheceu e foi amiga desde a infância – não tenho memórias de vó. Apesar de ter vivido grande parte da adolescência e vida adulta perto dela, não a tive como avó. Lembro-me bem dos cabelos longos enrolados em um coque perfeito, do vestido amarelo claro e o perfume que chegava sempre antes dela. Nunca tive dela essa coisa de abraços, de cuidados de vó e tudo bem.

Então, vó Léo, eu ganhei você e junto vieram todas as coisas de vó que eu sempre imaginei ter. Os abraços, a alegria, o afeto, os bolinhos de chuva, a comida quentinha e o chá de alecrim.

Sabe, vó Léo, ainda tenho comigo coisas suas e mesmo depois de sua partida, a sinto tão minha em tantos momentos sendo minha vó. De alma, de abraço, de laços e de muito amor.

Grata por isso!
Mariana Gouveia
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Lunna Guedes – Obdúlio Ortega 

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26 – Alguém falava da vida, de sopro

Quando o grande amor da nossa vida e o grande
 falhanço dela foram ou são experiências
coincidentes, indestrinçaveis —- uma mesma
 e única coisa: bonito serviço —- o menos que
 pode dizer-se é da hecatombe, entre mortos
e feridos, só nós é que não havemos de escapar 
Rui Caieiro

Querida Renata,

Estava cuidando dos casulos no meu quintal e quando uma borboleta pousou em minha mão me lembrei de te escrever. Ultimamente, tem sido difícil, dentro do nosso tempo, conversarmos… te escrever, seria mais fácil, na docilidade dos dias.

Quando eu te vi – me apaixonei – com esse olhão que desnuda a alma – e atravessei tempos para tentar descobrir onde nos encontramos antes. Podia ser em outro século, em outras eras… podia ser apenas na cumplicidade da dor. Mas, antes das perdas em comum, nos abraçamos e sentimos essa ligação.

Eu conheci o tempo da ternura… do urgente urgentíssimo com você. Da mãe e mulher bravia – medrosa, ás vezes – que vê a bondade e gentileza nos outros. A que se mostra e se esconde.

Renata, eu queria te falar segurando suas mãos, ouvindo suas desculpas esfarrapadas quando erra. O olho grandão com medo da minha bronca. De você eu recebi o silêncio, igual ao farfalhar das asas da borboleta que pousa em meu dedo, como se quisesse a aprovação de que mesmo errando, fez a coisa certa… mas, eu sou daquelas que não acredita que os fins justificam os meios, e mesmo em seu jeito desastroso de olhar e querer me puxar pelas mãos, nesses dias, eu fui apenas monossilábica com você.

Você é a ternura que eu falo… a voz, que mesmo que não ecoe, entendeu minha dor. O abraço que mesmo não dado, foi caloroso. Você foi a cidade, a aldeia, o grito, o silêncio, o refúgio, o mapa que me encontrou e foi puro aconchego mesmo sem dizer nada.

Só queria dizer que a geografia não vai nos separar… eu, quando ver um filtro de barro, vou me lembrar de você e quando ouvir a palavra urgente, vou te buscar nas mensagens e na memória o urgentíssimo com seu sotaque e riso… e eu, que me comovo por tudo, vou lembrar, que em nossas dores, descobrimos que a vida é um sopro e que esse olhão reinventou a palavra amor dentro de mim.

Grata por isso!

Mariana Gouveia
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Lunna Guedes – Obdúlio Ortega 

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13 – pequenas partículas penetram em propriedades particulares

Rozana, minha flor,

sei que você não sabe, mas eu sempre tenho um pé de algodão no quintal e te confesso que ele é muito instável. Não aguenta um vento mais forte e vrauummmm… cai… com raiz e tudo e sabe porque te falei sobre isso? Por causa das partículas…

A foto que emoldura o texto eu fiz onde no mesmo galho há a flor e o capucho, e como o pé de algodão está ali por causa das folhas – que é um antibiótico poderosíssimo – eu replanto sempre que ele sucumbe. A semente, é do sítio do meu pai e assim, vou replantando memórias.

O capucho solta fiapos que se desprendem e os sabiás levam para o ninho, Rozana… eles catam tudo que é leveza pelo quintal e levam bico afora para se preparem para os tempos difíceis…

É lá, no ninho que eles aproveitam das levezas daqui e dos fiapos que caem no chão. Lembrei de te contar isso quando li seu poema…

Um beijo,

Mariana Gouveia
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Lunna Guedes – Obdúlio Ortega 

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12 – — minha língua sente o teu sabor e a sensação de fome se amplia

Ph: Mathilde R. Photography

Leonor,

resgatei do baú uma carta que te escrevi anos atrás. Na carta, bem antes de eu ficar sem notícias e respostas tuas, eu dediquei meu amor a você. Era dos mais bonitos – você diria – e eu nem me toquei que ali já havia sinal de fim.

Nas letras escritas no papel decorado eu falava sobre as madrugadas mornas onde nos amamos sob a luz da lua e de como a textura de sua pele atiçava minha fome.

Leonor, você dizia que eu inventava um amor bonito e que a gente inventava o instante e o que me comove é saber que mesmo depois de tanto tempo a sensação ainda é a mesma. Você está aqui, ali, nas letras, nas lembranças e na memória.

Confesso, que fico esperando que as frases que todos falam de que o tempo cura tudo faça efeito aqui, por enquanto, te encontro em cada esquina, como dizia Cesariny e te vejo em cada uma das pessoas que passam por mim.

Quando me perguntam de você eu invento viagens, doenças de algum parente seu para justificar sua ausência e justifico para mim mesma que ainda tem muita coisa que a gente não viveu juntas e eu já tenho a lista de todas elas para te mostrar quando você voltar.

Dou-te o poder, como sempre de decidir isso.

Mariana Gouveia
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Lunna Guedes – Obdúlio Ortega – Roseli Pedroso e Suzana Martins

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09 – sombras dançarinas ondulavam pelas paredes

Minha menina nuvem,

eu queria tanto estar aí, mesmo que em silêncio, no cantinho dos cães para calar meu desconforto nesses dias. Acho que seria meu refúgio – daqueles que a gente tem na infância – que me acalmaria ou me deixaria nessa luxúria da solidão.

Ontem, quando cheguei, havia um casulo no batente da porta, Su! Já imaginou isso? Deixei a porta sem fechar e me enchi de coragem para atravessar a noite e vigiar para Yoshi não passar por ali. Você, talvez diria: não, Mari, tu não fez isso! E eu diria, que sim! E devo confessar, Su, que as sombras dançarinas pela manhã, marcavam a parede com as asas de quem se libertou.

Como você, eu também gosto dos detalhes e mesmo já estando acostumada ver borboletas parir em meu quintal, eu vibrei vendo a madrugada se desenhando no céu…

Sou canceriana, Su – tu sabes – mas fujo do convencional de choros, de lamentos, inerente ao signo… mas, o destino ou sei lá o que foi bateu duro e em alguns momentos é preciso suspirar e encarar o que não pode ser mudado.

Como se muda o nascer e morrer de alguém? Quem entende a natureza das coisas? Como eu acredito em tudo que é força do universo, Su, apenas acato aquilo que é natural, mesmo não sendo ao meu coração.

Antes de encerrar essa carta em que te abraço e agradeço e te mostro o quanto a vida me é generosa, a parede se desenha em asas e com ela te sopro ventos de amor e alguma nuvem dissipará qualquer sombra em teu caminhar.

Mesmo porque, Su, a vida continua nascendo em meu quintal e as nuvens também e meu pai diria: a vida continua e os nascimentos não podem parar porque o mundo pararia.

Beijo,

Mariana Gouveia
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Lunna Guedes – Obdúlio Ortega – Roseli Pedroso e Suzana Martins

PS: Ah, esqueci de colocar a nuvem da minha noite quando chamei seu nome no quintal.

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8 – e meu movimento primeiro é passear pelas ideias matinais

Querida Esther,

queria te dizer que já vi um jasmineiro sobre a chuva, mas foi em quintal alheio e confesso que já fazem alguns dias. Aqui, o sol e seu calor abrasante tem batido todos os recordes nos termômetros das ruas onde passo quando vou ao trabalho.

O meu companheiro tem me ajudado muito com o regador sobre minhas plantas e tenho certeza de que meu quintal sente saudades imensas da chuva. Eu também. Já te contei que o cheiro que ela exala quando cai sobre a terra seca se chama petricor? Acho tão lindo isso! Antes de descobrir isso, eu amava a essência sem saber o nome e chamava de cheiro de terra molhada. Mas, saber o nome deu um charme especial para essa fragrância.

Faz tempo que eu queria te abraçar e faço isso hoje, nesse dia seco e quente. Li você falando sobre como a vida é por um triz e tudo é muito frágil. Você perdeu o amor da sua vida e eu perdi a mãe do meu amor e meu pai. Duas perdas duras em menos de 15 dias e me recorro ao seu texto sobre o jasmineiro e fui buscar Chiquinho em seu banho matinal na última chuva.

Sabe, Esther, amo ver ele se projetar em minha volta logo que amanhece e meu movimento primeiro é passear pelas ideias matinais ao redor dele. O dia nem nasceu e ele já me chama na porta da cozinha e lá vou eu me derramar de amor por ele, assim como você com seu jasmineiro.

Como você mesma disse: uma coisa é um jasmineiro e a outra é o Universo, bilhões de constelações e planetas e satélites e etc. Galáxias, buracos negros e luas e sóis. Mas se não houver um jasmineirozinho para este perfume, de que vale a vida, de que vale tudo? Essas guerras… um jasmineiro abrirá ainda uma flor lá na Faixa de Gaza, em Israel ou na Ucrânia? Tomara. E eu completo, Esther, tomara que um pássaro qualquer sobrevoe esses lugares entre a flor branca de seu jasmineiro e leve pelo menos a esperança de dias melhores, mesmo que não seja um beija-flor como o meu. Tomara!

Um beijo grande,

Mariana Gouveia
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Participam comigo:
Lunna Guedes – Obdúlio Ortega Roseli Pedroso

Das palavras das cartas · Scenarium Livros Artesanais

7 – embolei as ideias fiz um nó depois desatei

Ana,

tenho pensando em você nesses dias e fui visitar nossas memórias em cartas escritas. Fiquei pensando em quando e onde nos perdemos? E confesso que não achei resposta. Tem coisas que simplesmente acontecem, né? É como se tivesse escrito pelo destino que seria assim.

Quando as coisas acontecem ficamos buscando respostas prontas e esquecemos de momentos, que por algum motivo durou o tempo que durou. Meu coração ainda te cabe no instante de afago, de lembrar de tudo que vivemos, das palavras que falamos e você é importante em minha vida.

De repente, algum coisa deu errado, embolei as ideias fiz um nó, depois desatei… o ficar longe não é impedimento de ficar perto e a gente viveu tudo de maneira tão especial que uma vai estar sempre na vida da outra. Seja em qualquer lugar, até nas poesias… te deixo ir com a certeza de que ficar será muito penoso para nós. Te deixo ir com a certeza de que saberá que estarei aqui, par qualquer momento que precisar…

abraço carinhoso,

Mariana
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Lunna Guedes – Obdúlio Ortega 

Das palavras das cartas · Projeto Fotográfico 6 on 6 · Scenarium Livros Artesanais

6 on 6 – anatomia dos passos

Bambina mia,

escrevo-te em um dia mais quente do que os dias quentes por aqui. Está tudo fora do normal e a anatomia dos meus passos buscam sempre os pés no chão. Nem venta por aqui e busco caminhar na calçada fria da rua de cima – onde os flamboyants vestiram as ruas com suas flores – para sentir as pétalas frias na calçada antiga.

Às vezes, bambina, meus passos recebem visitas ou viram pousos em direções feitas no meu quintal… parece que sigo o instinto da anatomia das asas e não dos passos… é quando sinto leveza.

Ou me delicio com os afagos caninos dos passos parados de Yoshi e Lolla… É como se combinassem a pose…

e o instante fica registrado em fotos e na memória… quando me junto a eles no instante em que percebo o momento…

em alguns dias, bambina, meus passos me levam para a companhia do rio… menina que cresceu na beira do rio se encontra e se encanta com a água a molhar meus pés de mulher.

Mas, há um momento de acolhimento em que meus passos ganham anatomia dos contornos do meu companheiro. É quando me sinto segura e certa de qual caminho devo percorrer.

Bacio,
Mariana Gouveia
Projeto fotográfico 6 on 6
Scenarium Livros Artesanais
Participam comigo:
Lunna Guedes – Obdúlio Nunes Ortega – Roseli Pedroso – Cláudia Leonardi e Silvana.