Colcha de Retalhos · Das palavras das cartas · Scenarium Livros Artesanais

5 – … ela pensou que algumas viagens são mais partidas que chegadas

Ph: Brooke Shaden

Voltei ao seu quintal, e a sua presença é tão forte ali, que nem parece que se foi. As flores continuam perfeitas e as árvores em sintonia cantam a canção do vento que você dançava.
Parecia que estava ali. Passei por entre os azuis das Hortênsia que você ganhou de alguém.
O pé de amora está no auge e na exuberância – palavra que você repetia para qualquer coisa fora do comum – das frutas. Até parece que sua risada está ali, e a essência da geleia que você fazia parece encher o ar.
Geléia de amora é para amar, Maryann! – você dizia!

Minha missão era esvaziar a casa de suas coisas, de você. Mas vim embora com todas as lembranças. O diário que me continha em cada dia, a toalhinha de crochê que foi um presente há alguns anos atrás. Conto um mês hoje, e logo serão dois, 11. Logo será ano e volto do seu lugar com a imagens das poesias escritas no seu quarto onde a vida flutuava em você.
Qual planeta você habita hoje? Qual emoção te move nesse plano além do olhos?
– Marte é logo ali, Maryann! Basta bater no calcanhar três vezes e dar um pulinho que você já embarca.
Acho que perdi o jeito! Vejo Vênus, Órion, vejo todas as estrelas. Não vejo Marte.
Marte, hoje mora dentro de mim.

Mariana Gouveia
In, Colcha de Retalhos
BlogVember via Scenarium Livros Artesanais
Participam comigo:
Lunna Guedes – Obdúlio Ortega  e Suzana Martins


Das palavras das cartas · Scenarium Livros Artesanais

3 – Coração transplantado procurando resquícios do que já foi humano

Eva,

te contei que vi um ônibus inteiro de Evas? A banda cantava uma música estranha, mas o nome escrito na parte lateral do ônibus me lembrou você. O tum tum dos instrumentos musicais me fez lembrar seu coração.

Lembrei-me de que há quase um ano atrás você renascia e de sua história tão longa em sua vida curta de menina.. dias desses, eu a vi, atravessando a rua, de pés no chão e não resisti e registrei. Não consegui pegar o riso, nem seu olho curioso para viver.

Em algumas de nossas conversas você quis saber de quem seria o coração que você ganhou. E lembro-me de dizer que era seu, já que você ganhou – Seria de uma pessoa boa? alguém feliz? – de dentro do meu abraço respondi que essa seria sua missão na vida. Transformá-lo em um coração feliz e vendo seu riso, atravessando a rua de pés no chão.

Estou guardando as cartas que te escrevo para a gente ler algum dia, mas tenho certeza de que esse coração carregará a leveza do seu viver e trará dentro dele todo resquícios de humanidade que a vida te dará para além da rua de cima.

Um beijo carinhoso,
Mariana Gouveia
BlogVember via Scenarium Livros Artesanais
Participam comigo:
Lunna Guedes – Obdúlio Ortega – Roseli Pedroso e Suzana Martins

* De acordo com o Ministério da Saúde, no primeiro semestre de 2023, foram realizados 206 transplantes de coração no Brasil, um aumento de 16% em relação ao mesmo período do ano passado 1. Além disso, a ABTO divulgou que, no mesmo período, foram realizados 4247 transplantes no país, sendo mais de mil de fígado e pouco mais de 200 do coração . Ambos os órgãos também bateram recorde histórico de transplante.
Ainda de acordo com a ABTO, no primeiro semestre de 2023, foram realizados 2.9 mil transplantes de rim no Brasil. Entre eles, meu irmão, que recebeu um rim e está em recuperação. O número de doadores efetivos no primeiro semestre deste ano em comparação com os anteriores foi o maior registrada nos últimos 10 anos. No entanto, mais de 40 mil pacientes estão à espera de um órgão. E destes, 92% aguardam por um rim, entre elas, minha irmã caçula, que sofre de insuficiência renal crônica.

COMUNIQUE Á SUA FAMILÍA QUE VOCÊ É UM DOADOR!

Das palavras das cartas · Scenarium Livros Artesanais

2 — seremos deuses de cada dobra escura

Luci,

te escrevo em uma madrugada já no dia 2 e aqui a gente “comemora” o dia dos mortos… eu ainda estou com a alma contando os dias em que meu pai virou morto, Luci. Tudo que posso te dizer é que cada vez mais eu odeio esses dias de calendários estranhos.

Fiquei horas na janela da casa dele vendo as galinhas d’angola e o animal parecia conhecer minha dor. Ficou intacta, quase inerte, ali, entre o muro e o telhado curto da casa dele a compor meu silêncio. Pensei na alegria de meu pai com esses seres pintadinhos – será que foi por isso que passei a adorar os poás? – e as perfeições nas suas penas. Para mim, era como se elas estivessem sempre preparadas para a festa, Luci… modelo anos 60. Tudo combinando.

Sabe, Luci, meu pai tinha o contato certo com os deuses… da água, do fogo, do ar, dos animais, do vento… de tudo quanto é coisa que podia ter deuses e para ele, conhecedor de tempo e de um Deus maior, ao maior aceno com a palavra, tirava o chapéu panamá e erguia os olhos aos céus. Eu achava isso de uma fé que muitas vezes fazia o sinal da cruz quando via meu pai fazer isso. Era como se uma entidade tomasse conta daquele homem tão forte, tão simples, tão pequeno diante do universo das coisas.

Desde quando falei para ele do seu pai, Luci, ele confessou uma vez, durante algumas de minhas visitas que ele passou a pensar nos estuques verdes da sua parede e sempre pensava se seu pai já estava comendo normalmente e se ele entendeu o recado do pajé… Meu pai tinha esse dom de ligar todas as coisas em uma só, porque segundo ele, Luci, todo universo é pleno.

O dia, já vai amanhecer, Luci e a angola entoa seu canto em um tô fraco tô fraco tô fraco incessante… as sombras ainda encobrem os galhos das árvores. Parecem os deuses do mal das histórias que meu pai contava. Seremos deuses dessa dobra escura, Luci? Te pergunto, porque já não tenho mais meu pai para perguntar.

Um beijo,
Mariana Gouveia
BlogVember via Scenarium Livros Artesanais
Participam comigo:
Lunna Guedes  Obdúlio Ortega – Roseli Pedroso e Suzana Martins

Das palavras das cartas · Scenarium Livros Artesanais

*Quero fazer crer que é tardíssimo, ou qualquer outra urgência que te acarinhe para longe

Leonor,

quando a tarde vai caindo e o céu ganha os tons laranjas da primavera no meu quintal – esse mesmo que te viu dançar em tardes iguais – eu penso é tarde, Leonor… muito tarde para que chegue alguma respostas das mais de mil cartas enviadas.

É tarde para esquecer também, já que algumas coisas chegam até mim com todo simbolismo que nos rodeou. As ruas do meu bairro com casas coloridas que você fotografou. Quero fazer crer que é tardíssimo, ou qualquer outra urgência que te acarinhe
para longe..

De vez em quando eu esqueço, Leonor… nesses momentos em que o tempo acontece fora do padrão dentro de mim… esqueço até da estação que me rodeia e a vida segue constante no ritmo de antes. Mas logo depois, alguma coisa me leva até seu nome – seja uma canção, um voo de ave, um sol ardente, a chuva tardia de verão, os lugares onde fomos e tudo volta de novo.

Sabe, Leonor, às vezes, parece tudo distante e ao mesmo tempo parece que foi ontem… eu ainda reviro o baú com suas coisas e vasculho as correspondências que o carteiro deixa na caixa de correios. Também escrevo cartas que não envio, como essa de agora, só reafirmando que ainda te espero.

Beijo meu,

Mariana Gouveia
Missivas de Primavera
Scenarium Livros Artesanais
* retirado do texto do livro Poética de Ana Cristina César

Das palavras das cartas · Lunna Guedes · Projeto Fotográfico 6 on 6 · Scenarium Livros Artesanais

6 on 6 – dos corações que vejo

“Ela me dava a mão e então nada mais faltava.
Bastava para que eu me sentisse bem acolhido. Mais que beijá-la, mais que dormirmos juntos, mais que qualquer outra coisa, ela me dava a mão e isso era amor”.

Mario Benedetti

Bambina mia,

acostumei-me a te escrever no dia 6 de cada mês… talvez, porque ninguém entenderia essa coisa estranha de ligar fotos com carta – ou missiva, como tu gosta de dizer – mas você sabe que em alguns momentos, imagens e palavras se unem em uma perfeição para além do que somos. Talvez, por isso, eu quis falar sobre o cuore… os que vejo aleatoriamente, são os cuores que meu olho alcança.

Já te contei, bambina, que meu olho vê coração em tudo quanto é lado? Era uma folha aleatória? Não! Vi um coração na secura do cerrado… os meus, dizem – que sou assim desde criança – que vejo coração em tudo que encontro.

A gente sempre brinca que coração é um músculo, mas para nós a palavra tem o ritmo do tum tum, mesmo quando ele absorve, em alguns momentos as lágrimas dos olhos. Ou quando a folha imita o choro da natureza nas gotas de chuvas. tanto eu quanto você amamos esse momento.

E as vezes, bambina, o nosso cuore parece metade… seja ocupado por alguém, seja cheio de saudades… confesso que sinto saudades – embora saiba que a palavra não te alcança – de tantos momentos com vocês. Dizem que nessa hora o cuore se ocupa com as lembranças dos momentos bons. Posso enumerar todos eles…desde o encontro no aeroporto ao café da manhã… desde a chegada, ao abraço de despedida…

Bambina, sabemos também que em alguns dias o nosso cuore parece estar em um quarto escuro – conheço essa solidão ou sentimento e tu também – e em outros é como se estivéssemos em uma escola de samba… Dá até pra ouvir as batidas.

Em outros momentos, é como se ele fosse pequeninho e um ser gigante tomasse conta dele. Já passou por isso, amore? Eu já! quando vejo o céu, a tarde, se apoderar das nuvens e o prenúncio de uma tempestade se aproximar, eu abro os braços e meu cuore chama pelo seu. Grito seu nome e preparo para os tuns-tuns… Seja em poesia, ou em cartas, o cuore sempre é o mote principal. Como hoje, que te ofereço o meu em forma de 6 fotos para retratar meus carinho.

Bacio,

Mariana Gouveia
Projeto fotográfico 6 on 6
Scenarium Livros Artesanais
Participam comigo:
Lunna GuedesObdúlio Nunes Ortega Roseli PedrosoCláudia Leonardi

Das palavras das cartas · Scenarium Livros Artesanais

*É mais fácil depois de ter desembarcado tantas vezes.

Messias,

te escrevo nessa tarde de raios e trovões depois de ter ouvido sua voz em uma gravação contando histórias. A carta é uma homenagem à primavera e essa será uma estação diferente e me lembrarei dela enquanto viver.

Meu irmão, a poucos dias de você ter desembarcado mais uma vez, em uma cidade distante para o transplante dos rins, você me disse em uma ligação: é mais fácil depois de ter desembarcado tantas vezes. E vai ser a definitiva!

Você, que desde pequeno foi meu guardião me trouxe a esperança de que, depois de tantos anos dependente de uma máquina de hemodiálise uma doação te faria livre de novo para beber água – que era o que mais te fazia falta.

Quando você ler essa carta já estará fora da UTI, e em ampla recuperação. Quero mais uma vez declarar meu amor por você e do quanto sou orgulhosa de sua força e coragem. Sabemos que ainda será um caminho longo para percorrer, e que ainda há algumas etapas em que a fé será a motivação para esses dias.

Sei que como eu, seu coração está agradecido pela família do doador ter tido a coragem, em um momento difícil optar pela doação. E tenho certeza de que você honrará essa doação vivendo ao máximo e bem, como amor e alegria, como sempre.

São apenas cinco dias de rim novo… a concretização de orações e esperanças. Ainda temos nossa irmã que também espera uma doação. Assim, como você, tenho certeza de que, em breve ela também irá desembarcar no mesmo lugar, para a alegria ser completa… Mas, como você mesmo disse: é muito mais fácil depois de ter desembarcado tantas vezes.

Estamos te esperando, mas seja paciente com os dias que virão. Logo tudo estará bem de novo.

Te amo muito!
Sua irmã,

Mariana
Missivas de Primavera
Sceanrium Livros Artesanais
* retirado do texto o livro do livro poética de Ana Cristina César

Corredores, Codinome Locura · Das palavras das cartas

Carta para minha mãe aos cuidados do amor

” Um dia, a palavra amor será seu lema em tudo que fizer. Desde as coisas mais simples, até o mais sublime ato seu, terá amor e é nessa palavra que me encontrará”.
Mãe.

Hoje vivi o dia dentro do silêncio. A voz sumiu e de repente, a vida passou feito um filme.
Posso contar tudo que você me ensinou dentro da palavra amor e de quanto carrego em mim seus ensinamentos – tão poucos – diante do que me lembro e tão intensos que revejo nas cartas que guardo comigo.
Suas letras aos poucos desbotam perante os anos que foram escritas… em outras, estão bem feitas como a última que escreveu para uma rádio, onde pedia sua música favorita e que trago comigo.
A letra miúda falando da primavera e de como as flores dos ipês te encantava tanto.

41 anos é uma vida. 41 anos sem sua presença física. Eu poderia dizer como foram esses anos todos, mas ao mesmo tempo, dentro do meu silêncio, às vezes, é como se eu abrisse o baú e tivesse ali suas fotonovelas e as histórias de amor que tanto gostava ao toque das mãos.
Aquela menina ainda está aqui, e roubo a frase que a mocinha dizia… Relembro seus suspiros e a mudança da história quando havia algo mais profundo para que a gente entendesse sobre o amor.

Há 41 anos, a vida te levou. Não sei para onde. Sei que de alguma forma você vive. Vive na sua estação preferida e nas canções que gostava de ouvir. Vive no riso dos irmãos onde cada um tem algo de você. Vive e permanece minha mãe sempre, nos momentos que mais preciso… e permanece viva em meu coração, mãe.

Beijo

Sua filha
Mariana

Das palavras das cartas · Scenarium Livros Artesanais

*Há apenas um quadro, retrato fiel, um cenário que recorta a janela por inteiro.

Ana,

Até anteontem era inverno… o mais quente de todos os tempos – dizem as manchetes – e é primavera, Ana! Poderia te dizer que os dias correram ligeiros. Era primavera dias desses e já se vão 365 dias desde então.

Lembrei-me de que faz dias que não nos falamos. eu iria repetir a velha máxima sobre a correria dos dias, mas Ana, confesso que perdi as palavras para falar com você. Ficamos estranhas nessa jornada de tempos que falamos mais de coisas dos outros do que sobre a gente,

Devia dizer que a a lua está divina hoje, que os barulhos dos fogos me lembrou o fim de ano – que se aproxima – e agradeço pelos cães daqui não terem medo deles. Os fogos é em comemoração de um time que foi campeão em alguma das infinitas copas que existem por aqui.

O calor ultrapassou todos os recordes. Tivemos hoje 42º registrados lá pelas minhas 14:00hs. Você poderia imaginar isso, Ana? confesso que estranhei tudo isso. Nem venta no meu quintal. As folhas das árvores nem balançam, mesmo fazendo o tal assobio que minha mãe ensinou.

Há apenas um quadro, retrato fiel, um cenário que recosta a janela por inteiro, nesse fim de tarde quase noite de uma primavera perdida para nós. Há qualquer coisa assim, de vazio, de silêncios amargos, Ana… diria que é a vida. Suspiro e perco as palavras diante da janela enquadrada enquanto as resgas da noite chega.

Talvez, em um fim de frase dessa carta não programada eu declare que ainda te amo, mas que te deixei só muito tempo com as estrelas, e isso é imperdoável. Como pude esquecer algumas datas importantes para nós? Seria a idade chegando e o calendário deixando de ter a importância de antigamente?

É o amor parado, Ana! Sem movimento, assim como o quintal agora, em um calor intenso e nem venta. É o fim da espera, Ana, e o início de um recomeço seu por aí…

Como diz a frase lida em algum lugar que esqueci: rega o teu jardim, pinta as tuas flores, come as tuas framboesas... e quando sair de vez, não esqueça de pagar as luzes e

Beijo meu

Mariana Gouveia
Missivas de Primavera
Scenarium Livros Artesanas
* retirado do texto do livro Poética de Ana Cristina César


Das palavras das cartas · Scenarium Livros Artesanais

cabem dois pais em um só coração?

Pai,

era uma estrada, aquela que a gente pensava que era trieiro – de tanto que passávamos – e que mostrava o descampado para além da floresta. Hoje, busco o mesmo caminho dando voltas no quintal.

Sabe, a sua filha anda cheia de perguntas e não vejo mais ninguém que possa responder… fico buscando as respostas em conversas antigas e que só me levam para as lembranças.

Eu escrevo essa carta dividida para você e o pai do Lauro, que você só viu pequeninho. Embora, a carta seja direcionada para você, pai, o pai do meu filho vai ler também como se fosse para ele. Não posso separar o homem que me criou e me fez tão ciente do mundo do homem que me faz ser alguém no mundo.

Acho, pai, que não poderia ter escolhido pai melhor para o menino, para o adolescente e para o homem que se formou dentro de suas vontades. Eu quis que o pai do meu filho fosse exatamente – até com os mesmos defeitos – igual a você.

Ele ri das minhas bobagens, se zanga de coisas menores, mas é imenso em segurar minhas mãos. Das minhas memórias, pai, você era o vigia das vontades nossas. Sete filhos da mesma mulher e só depois veio mais um… já com o pai do meu filho foi diferente… a vida levou um e ele, que era tão pleno de ser pai desejou ser mais que pai. Desejou ser amigo e assim é…

A data se torna obsoleta nesse domingo estranho… agosto é esse tempo de fogo, de secura, de fumaça no céu… lembro-me, pai, do senhor cuidando dos aceiros para proteger a lavoura e da florada dos ipês. Foi vendo a florada dos ipês com o senhor que me apaixonei pelas árvores.

E foi pensando em meu encantamento pelas árvores, pai, que o pai do meu filho plantou o ipê que hoje abriu suas flores mais uma vez no meu quintal. O amarelo doura o chão e eu penso no senhor e abraço o pai do meu filho aqui em extensão ao meu abraço para o senhor.

Te amo e amo ele, de maneira especial e única!
Mariana Gouveia

Estamos em Agosto e por isso, temos BEDA.
Participam comigo:
Lunna Guedes – Obdúlio Nunes Ortega – Roseli Pedroso – Suzana Martins e Bob F

Das palavras das cartas · Projeto Fotográfico 6 on 6

BEDA – dos dias aleatórios ao encantamento

estranha que fui 
quando vizinha de longínquas luzes 
acumulava palavras tão puras 
para criar novos silêncios 
 Alejandra Pizarnik

Bambina mia,

de repente, hoje, percebi o silêncio no quintal através das teias de aranhas… geralmente, o quintal é barulhento por si só. Não bastasse o Chiquinho e seu chilreio atrás dos invasores da sua água no bebedouro, ainda há um bando de Encontros – o pássaro preto com o filete laranja na asa – o bem-te-vi e o pé de ipê com seu farfalhar de folhas nessa estação estranha por aqui.

Engraçado que falo de todos os bichos e de todas as coisas e me deparo com as teias enquanto dou água às plantas. Confesso que fiquei presa por um bom tempo dentro desse silêncio de domingo assistindo elas a cruzarem fios como se fossem tecelãs.

Algumas, parecem que foram abandonadas depois de tecidas. Geralmente, ficam entre o pé de clitória e capins que nasceram ali e que deixei ficar por causa dos cães. Parecem toalhinhas de crochê, e com os respingos da água parecem pérolas penduradas.

Sabe, bambina, fiquei pensando em como algumas coisas me causam encantamento no quintal e quis dividir com você o silêncio delas… Até o vento silencia perto das teias… a memória me leva para os campos do lugar onde meu pai mora e de como a vida vai me apresentando esses encantamento em dias aleatórios, como hoje.

A luz atravessa os fios e olha, bambina, os desenhos modificam de uma para outra… fiquei impressionada com isso e de como o silêncio se dá bem com isso. E em algumas, a doçura do erro não estraga a forma da teia… apenas a torna mais encantadora.

Confesso, bambina, que não sou muito fã do bicho que tece, talvez por isso, meu olho nunca tenha esbarrado nelas… mas, hoje, é domingo e descobri que não há dia para se encher de encantos nem de silêncios. O domingo parece acordar, para além dos muros e a vida já corre ligeiro por aqui. Vamos ali, viver!

Bacio,
Mariana Gouveia
Projeto Fotográfico 6 on 6
Scenarium Livros Artesanais
Estamos em Agosto e por isso, temos BEDA.
Participam comigo:
Lunna Guedes – Obdúlio Nunes Ortega – Roseli Pedroso – Suzana Martins e Bob F