Das palavras das cartas · infinitamente

Era uma vez, a primeira vez.

Filho,

eu já te escrevi tantas cartas e para mim será sempre como se fosse a primeira vez… você fez isso comigo desde sempre. Me fez experimentar primeira vez em tantas coisas. A primeira vez que ouvi seu coraçãozinho bater foi como se eu estivesse ouvindo meu coração bater fora do peito.

Com o tempo, filho, as datas se tornam comuns. Qual a graça de se comemorar dia das mães com o filho longe? E eu, que já nem tenho minha mãe aqui, como comemoro? Dia das mães é todo dia e dia do filho se resume em horas, porque uma mãe pensa em seu filho ou filha em todas as horas – Será que comeu? Está com frio? Gripou? Tomou chuva? Chora por amor? Está se sentindo só? – e fica registrado na memória das mães o dia em que o filho nasceu.

Foi de você que ouvi pela primeira vez a palavra mãe… e depois disso, eu me tornei a mulher mais poderosa do mundo, capaz de enfrentar qualquer coisa por você. Infelizmente, esse super poder se limita quando a gente não consegue mais impedir que outras dores te machuque. E resta apenas oferecer o colo e rezar para que tudo passe logo.

Ainda temos muitas primeiras vezes para viver… e temos ainda que repetir mil vezes outros instantes. E no dicionário de mãe, filho vem sempre em primeiro lugar e é essa palavra que me abraça quando penso em você.

Obrigada por ter me escolhido ser cuidadora de você nessa vida. Tenho muito orgulho do homem que você se transformou. E o meu melhor presente é seu sorriso. Te amo imensamente!

Mariana Gouveia

Das rotinas

Era uma vez, os ninhos

o menino estranho do ônibus tinha olho de humano, quase para além dos deuses
queria defender a pátria – na camiseta a frase em outro idioma que não conseguiu traduzir – falava dos coletivos que aprendeu na escola e achava estranho ninhada não ser coletivo de ninhos – tão inocente o menino – percebeu a praça vazia de árvore

cortaram os galhos de onde pendiam os ninhos dos guachos
ficou o pássaro órfão de ninho, com os galhos no bico a procurar galho seguro – contou
reescrevi o poema enquanto na árvore nua a asa vazia de ninho

fizemos uma petição em favor das sementes que virariam árvores e as asas ganhariam ninhos para gerações futuras conhecerem o poder do voo
o menino estranho do ônibus ganhou voo quando desceu no mesmo ponto que eu
tinha olhos de deuses – quase humano – o menino que sonhava recuperar ninhos

Mariana Gouveia

Corredores, Codinome Locura

Era uma vez, o tempo

Criei promessas desenhadas nas paredes, onde eu furava o estuque para descobrir o sem cor que havia por trás do verde esperança.

Fiz contratos com uma criança alegre que morria em mim. Descobri pessoas com falhas que mudavam a meteorologia dentro das horas do dia. O ápice das estações do ano é o meu coração. As raízes do outono a explorar o infinito e tentando expor folhas para mim – logo eu, que era pura fotossíntese – que conhecia os aromas do chão a receber o toque da folha que caia. Alguém que cuidava do jardim adoeceu… esqueceu da promessa de nunca deixar de regar o que tinha necessidade de água, e imaginou encontrar seu sonho no centro da semente. A mão possuía a aurora feito quando amanhecia e o poente a demarcar o céu dentro da noite escura e a ave a dominar a vida… Maio tem essa inconstância para fora dos limites de quem entende do tempo. O céu é brilhante e puro apenas uma vez – ou o ocaso muda de acordo com as nuvens.

Estou sempre em movimento, para evitar multidões felizes ou pessoas a puxar assunto sobre o tempo – esse moço inconstante e ranzinza – enquanto eu escolho sementes a partir do som das folhas que caem. A árvore desfolhou-se toda como se fizesse parte do tempo remoto em um lugar onde a estação se transforma no canto das aves. O voo é o caminho do pouso. A dor da vida anda na frente de mim, como viajar antes na rota das fugas.

Mariana Gouveia

Corredores, Codinome Locura

Era uma vez, o vento

Ph: Alicia Cotrim

O dia de ontem teve oscilações de saudades. A moça que diz entender de destino quis ler minha mão – a desenhou entre o oceano e o rio – a areia a moldar seus pés e o mar a mandar recados dentro de poemas…

O vento do lado sudoeste da casa derrubou as paredes todas – ventou em tudo que é canto – lembrei-me da canção de Calcanhoto…

Andei descalças sobre os destinos soltos… O mapa teve a rota traçada dentro da palavra saudades. Tem dias em que o calendário absorve a vivência, em outros tatuam ausência até na parte da folhinha que traz o nome do santo.

Mariana Gouveia

Corredores, Codinome Locura

Era uma vez… Talvez uma vez apenas.

Ph: Natália Drepina

A moça do tempo errou a previsão… Também errei nas oscilações do dia. Deduzi frases entre acordes e canções.

O cantor poeta inventou-me dentro do exagero. As nuvens criaram palavras no céu e o pássaro de todo dia renovou minha fé nas pessoas. As flores foram beijadas em outra estação e a meteorologia decidiu o que era explosão em outro lugar – pode chover a qualquer hora do dia – choveu – e depois a lua deitou-se nas nuvens como se fosse cama.

Alguém faz previsão sobre o destino de amar. Pode a solidão vir estampada em dias de chuva?

Mariana Gouveia

Das palavras das cartas · infinitamente

Minha vez de saudade.

A vida corre ligeira, mãe e mais uma vez eu brindo o dia que era seu. Coube em mim nesse anos todos, saudade e as lembranças me visitam com mais assiduidade do que o normal.

Olhando hoje, tudo parece que foi feito de brinquedo os dias e que a data ainda é real e você está ali, entre a cortina e a janela a esperar que a surpresa seja feita, mesmo sabendo que nem era mais surpresa.

Os presentes vinham sempre em forma de bilhetes, poemas, corações de pedra e abraços demorados. Tudo era uma casinha de boneca onde o amor pelas coisas simples surgiam e seu dia se tornava além de uma festa, uma verdadeira brincadeira.

Você nos deixou a delicadeza e registro mais um ano em que falar com você é como desembrulhar um pacote de presente e me perder nas lembranças que insiste em brotar como se fosse flor em nós. Que a vida infinita seja!

E que mais uma vez, eu agradeço por ser parte sua.
Parabéns, mãe!

Beijo,

sua filha
Mariana Gouveia

infinitamente

Era uma vez e muitas vezes

Outono… diziam que era a estação atual e eu já havia desistido de olhar o calendário… eu só escrevia o diário. Escrevi sobre o primeiro encontro. De quando me apaixonei. Desenhei flores, corações e as letras decoradas com o nome dela.

Mas, isso de amor encontrado, o primeiro beijo desejado, ensaiado, parece invenção da minha cabeça. O vento não… eu pude sentir quando ele chegou se misturando aos ventos de todos os lugares. Ora brisa, ora furacão e o cheiro do perfume a invadir o quintal. Uma vida inteira não basta para apagar a sensação do toque das mãos dela na minha pele. Do vento, do que me lembro foi o sopro dela em meu pescoço e depois disso, decidi não lembrar de nada. Ficou apenas o diário escrito em um dia qualquer: era uma vez e muitas vezes ela, dentro do meu outono.

Mariana Gouveia
De todas as estações

Das palavras das cartas · Lunna Guedes · Projeto Fotográfico 6 on 6 · Scenarium Livros Artesanais

6 on 6 – Geometrias – das geometrias do meu lugar.

Bambina mia,

Andei procurando uma forma diferente de falar de geometria com você sem necessariamente sair por aí fotografando os espaços da minha cidade. Lembro-me de que te perguntei sobre o que pensou dentro da palavra geometria e ouvi sua gargalhada… Resolvi modificar meus gestos dentro da palavra e te escrever… Sabia que depois disso vi geometria em todas as coisas… Rá!
Em cada canto há uma janela quadrada – às vezes, retangular e até oval. Por isso resolvi seguir meu olho e te mostrar a geometria das coisas daqui.

As borboletas daqui, depois que passei a observá-las, me trouxeram nuances geométricas, não só nos desenhos que formam em suas asas, mas juro que vi um formato de triângulo quando ela pousou em meu dedo. É lúdico, bambina… mas é quase triangular essa asa, não é?

Confesso que vi um hexágono na ipomeia lilás e suas gotas. A trepadeira está coberta delas, e quando ficam penduradas também tem o formato de triângulos… e como há triângulos por aqui, em diversas coisas…

Sabe, bambina, eu fiquei mesmo feliz quando vi o reflexo do arco-íris no quadrado do piso da varanda… Aconteceu a primeira trovoada de maio aqui e me lembrei de você… Gritei seu nome – o que já nem é estranho mais – porém, o ritual do arco-íris levou a chuva para outro lugar e só deixou os trovões por aqui.

Nos retângulos de pedras que cobrem uma parte do quintal servem de caminhos para o joão de barro. A ave parece brincar de amarelinha e arranca um riso meu. As flores de ipê fazem cama por ali, quando caem, sob a leveza do vento. Acho que já te mostrei isso. O chão fica dourado de flor.

Mas, é através da janela, sem suas cortinas lilases que o céu se desenha para mim, bambina… os retângulos – ou seriam quadrados? – me mostram as nuvens e suas nuances, ainda com indícios da chuva que não veio…

Bambina mia, encerro com a lua e seu círculo natural chegando em minha noite. Claro que faltaram tantas coisas, mas esse espaço cabe apenas seis fotografias. Eu poderia ter te mostrado as manchas engraçadas nas costas das ladies bugs que vivem aqui, o triângulo disfarçado no besouro que encontrei esses dias no pé de algodão e até as geometrias diversas na folha do mesmo pé de algodão. Mas fui escrevendo formas por aqui… Meu abraço cabe direitinho no seu abraço. Seria um enlace… é geométrico o abraço?

Bacio,
Mariana Gouveia
Projeto Fotográfico 6 on 6 – Geometria
Scenarium Livros Artesanais
Participam comigo:
Lunna Guedes Obdúlio Nunes Ortega Roseli Pedroso e Suzana Martins

Das rotinas · Divã

A intenção do silêncio no barulho das coisas

Ph: Tumblr

Depois dos dias de silêncio passou a inventar histórias… Ouvia canções em idiomas que não conhecia e nem sabia a tradução.
Era uma maneira de matar o silêncio das coisas.
A bailarina de porcelana a enfeitar a mesa do canto. O elefante de vidro fosco – sempre mudo – ao lado da vitrola antiga, encontrada em perfeito estado no brechó da amiga.

Repassava os discos de vinil como se buscasse motivos para o acontecimento das coisas.
O encanto guardado no baú da memória.

Depois dos dias de silêncio passou a escrever cartas que nunca enviaria – com exceção de uma, relatando o fim – e nunca seriam lidas.

Depois dos dias de silêncio passou a ouvir as folhas e o pouso da libélula no varal de roupas e a condenar o barulho dos cães na rua debaixo quando percebiam que o homem da reciclagem se aproximava com sua carroça e a cantoria que acordava o silêncio das coisas e depois disso tudo era barulho dentro dela.

Mariana Gouveia

Das rotinas

Trevo

Contava a sorte nas asas
Viu estrelas cadentes riscar o céu.
Fez pedidos
para ilustrar a vontade de vida.
Acolheu risos em forma de fé.
Ganhou abraço quando a palavra perdida chegou.
Estendeu a mão para a mulher que conhece a sorte do dia.
Descobriu no trevo o caminho para seguir.

Mariana Gouveia