Das rotinas

Era uma vez, e o azul a espraiar vontades 

Adivinhou a sorte de um homem tranquilo. O vento a invadir a pele e o frio inquilino entrou devagar nos quartos onde a cortina dançava. O sol a desvendar mistérios atrás das nuvens.

Limpei o sol dentro das nuvens e um carrossel era brincadeira de criança dentro de um azulejo bordado. O espelho a esconder geometricamente a figura exposta dentro da solidão.

O perfil do instante marcado na folha que balança, na flor que se abre e o azul a espraiar vontade nos dias em que o relevo marca a digital.

Havia pegadas na terra fofa e o mapa feito para as ruas do norte e o azul a espraiar vontades e o dia acabando em solidão, enquanto a noite adormece dentro da flor… e o azul…ah, azul!

Mariana Gouveia

Divã

Era uma vez, um século

Contaram para mim uma história. Queriam ler a palma da minha mão. Disseram que as manhãs aconteciam em mim como um desfolhar da folhinha com o dia do santo. E que o azul do meu céu era como um carro antigo exposto na vitrine e meu quintal uma tela difusa de instantes.

Me deram as respostas e eu nem havia feito as perguntas. A arte era barroca em meio ao novo. As paredes da igreja matriz sendo mudadas e o restaurador dizia sempre o nome de quem havia doado a maior parte do dinheiro. A tinta modificada via computador e tudo tão diferente aos meus olhos.

A mulher de preto carregava um luto não previsto. Ficou comigo a espreitar o frio e a sacudir as mãos, como se tocasse uma sonata no ar. Calada, segurou minha mão como se fosse pesada a dor.

Começa a ler um diário distinto e enumera o labirinto da flor. E eu descalça, nem sabia nadar… Queriam ler a palma da minha mão… falaram sobre a estrela secundária e era pobre o destino nos dias frios, enquanto nos corredores, o vento cortava a pele.

Seria perfeito essa noite se chovesse e minha mão fosse colo para acolher a vida miúda das coisas. O amor sendo feito nos gestos. O amanhã, a vida de quem a gerou ganha ares seculares… Repito a palavra fácil em todos os instantes da vida, enquanto a veia fraca conta o cabelo que cai. Mas a mão… ah! Essa é colo para acolher a vida miúda das coisas e o amor sendo feito nos gestos.

Mariana Gouveia

Divã

Era uma vez, a solidão dos cantos das aves.

Há solidão que é como um pássaro fixo na árvore sem folhas… os galhos a pender como garras a invadir o espaço e a alma a ouvir a canção que toca ao longe.
A estação invade a tarde e o coração ocupado demais para amar.

Há dias em que caminhamos para dentro da gente, refazendo caminhos, desenhando novas histórias .

O outono despertou aqui e as folhas caem como se ficar ali, na árvore fosse penoso demais e o chão fosse o aconchego do colo. O outono aparece nesse sábado morno quase às vésperas do inverno, que não virá também – eu sei.

As horas de fim de tarde trazem com elas um vento frio com o qual não acostumo nunca.

Há risos de crianças na rua, as pipas bailam no sol quase morrendo e o pássaro a gorjear na árvore morta, como se quisesse companhia enquanto descubro que seu canto pesadamente no galho, em um céu quase cinzento, quase noturno a anunciar chuva, e palavras que fogem dentro de mim só são ditas na solidão dos cantos das aves. Solidão é uma ave a pousar na árvore morta.

Mariana Gouveia

Das rotinas

era a terapia, uma vez

Os olhos fitam a parede com o Kandinsky com a mesma admiração de quem olha o álbum de fotografia e os dedos a passar imaginariamente nas linhas… é tudo tão frágil diante da figura tensa a querer falar de artes – e de memórias – falo dos bordados que fiz e de como as flores ganharam cores com as linhas.

Ela se anima enquanto detalho o dedal, as agulhas especiais e os pontos que aprendi com a mãe, lá na infância.

A camisola de voal, com suas florzinhas miúdas e o véu que já bordei – falo do vestido de noiva que foi bordado com pérolas e tingido no modo antigo, de minha mãe, com raízes e casca de cebolas.

Retrata sua paixão pelos monogramas bordados com letras cursivas e mostro os riscos que eu mesma criei…

Os lençóis de linho engomados lavados com anil e falo das lembranças que guardo sem querer…

Ela busca no olhar os retratos em sépia na parede e as palavras pronunciadas dentro da saudade, como se tivesse passado um século… como se o bordado detalhado buscasse na memória lembranças que a vida guardou em gavetas.

Ela fala de um amor vivido enquanto os olhos buscam os retratos soltos e invocam um nome que não consigo definir.

Para além da sessão, hoje fui eu quem a ouvi.

Mariana Gouveia

Das rotinas

Era uma vez, o mar

Ph: Tom Chmbers

De noite, voava como se tivesse asas e dependurava no teto – colados em ideogramas – os sonhos.
Voava como se fosse peixe, desenhado para voar…
e assim, ainda voava como se o mar fosse céu.
Voava como se fosse o instrutor da hidroginástica a fazer passos ouvindo “Glóriaa…”
Como se fosse ave, flor, voava. Muitas vezes, durante o silêncio da madrugada.
Em outras, era o céu que voava dentro dela.
Como se tivesse asas e pudesse plainar, pousava
feito a borboleta na mão…

Mariana Gouveia

Das rotinas · infinitamente

uma data é uma data

O tempo dentro dos relógios não tem noite nem dia. Um caos se instala na luta. Os mitos quebram os espelhos. Vejo- me aos pedaços nos cacos. Deformam minha solidão inspirada na esperança.
A vida fica instável na palavra cantada. Era necessário que o tempo estabelecesse a ordem…

O homem sangra na pele e a natureza cumpre sua rotina de beleza… Em alguns dias, o mundo fica ao contrário e a leveza pende em um galho de flor.

Alguém fala de jazz ou de blues – nunca sei – e as cartas chegam espelhadas de vida.

No ônibus alguém faz os relatos do acaso e a moça tagarela diz sobre o que a patroa acha de tudo isso.

O cansaço domina a mente. Lá fora a noite sabe pouco disso. As buzinas ecoam. O prédio vigia a rua no silêncio vazio da periferia. O silêncio é gritante diante do que se sabe. A inquietação toma conta do silêncio – que grita – e o espaço sufoca entre a teoria e as notícias.
É necessário ocupar a alma de leveza e apesar das horas invadirem o silêncio, ainda se pode conviver com a inquietação.

Mariana Gouveia

Das rotinas

o amor tem a forma da dor

Ph: Aitor Frias & Cecília jiménez

Quatro da manhã e eu varrendo folhas enquanto a loucura faz barulho na alma. A garoa densa lembra o tempo da estação e o cacto inicia seu meio de desabrochar uma flor.

O grito de uma ave noturna abala o silêncio… Um cão ladra como se dissesse um código para o outro da rua de cima que responde em ressonância ao aviso

O que o moço da reciclagem faz uma hora dessa na rua catando garrafas pets, enquanto o frio corta a pele e ele canta a canção sertaneja que me faz lembrar da última carta que minha mãe escreveu?
Sirvo um café quente para aquecer as mãos na xícara e ele narra uma saudade gritante no peito de coisas que não viveu. Recicla versos dentro de uma canção imaginada e desperta a manhã fria que se aproxima envolvido no abraço… fala da mulher azul do seu passado e seus pés de bailarina e do cheiro de árvore que sente toda madrugada nas caminhadas rotineiras:

– isso de dor de amor, moça, é como ferida na pele… Até sara, mas fica a cicatriz.

Mariana Gouveia

Das rotinas

Era um vez, a cor

Ph; Ziqian Liu

Entre as nuvens e as estrelas
Clareia a pele com o efeito da dor.
Os cabelos ralos diante do espelho cria ondas em reflexos onde não me reconheço.
Sou como a mulher da noite – que vagueia – de janela em janela,
o riso molhado na loucura exposta – e a pele – a declamar ausência.
Na penumbra a ecoar o silêncio que só as flores lilases conhecem.
Alguém disse um dia que a loucura é lilás e desbota na lucidez da dor.
As mãos a desenhar presença nas sombras da parede – monstros – que me atacam e acionam a alavanca do medo.
O último pássaro a ecoar dentro da noite e o universo parecia definir cantata para a solidão.
E ainda tenho a caneta lilás com a qual desenho as flores e a língua muda que não consigo traduzir enquanto fechei a palavra chave que havia aberto o mural do jardim através do silêncio.

Mariana Gouveia

Das rotinas

Era uma vez, a vez…

Ph: Katia Chausheva

Não se pode dar alforria para quem já nasceu livre. A menina que fazia flores desenhou rastros no meu quintal. Cantou canções que falava de borboletas. Quis espantar o dragão que comia em minha mão.
À noite, os monstros são gigantes – as silhuetas das mãos criam fantasmas na sombra – e invadem a porta dos fundos. Chove em algum lugar do planeta e os cogumelos nascem no jardim do vizinho.
A liberdade é declamada em versos e a menina se faz princesa nos contos de fada. O caminho é logo ali, na esquina que se dobra entre o lugar de fé e a estação paraíso. Em algumas noites, o efeito é alucinógeno quando se bebe água.

Mariana Gouveia

Das rotinas

Era uma vez, a noite

ph: Jeanie Tomanek

É noite já. O rádio lembra o tempo passado. E o locutor detalha a programação do dia que passou – recordo a novela antiga que minha mãe gostava – e a previsão do tempo muda constantemente e eu espero a moça do tempo anunciar a mudança da estação. Júpiter hoje esteve próximo daqui. Consegui vê-lo logo além da linha do horizonte. Contei a miudeza das coisas e falei da árvore seca, vazia também de folhas e com jeito de ave a desenhar a noite em um inverno fingido. Preciso de uma noite menos fria em que não sinta a agonia de um dia a mais que morreu. O calendário que não tenho me apressa na rotina no silêncio das horas. É preciso dizer que as lembranças são marcas na pele e os minutos inventa o sono para eu atravessar a noite mais depressa.
A insônia povoa noites vazias… e a solidão acontece a céu aberto.

Havia aquela cidade famosa onde eu desenhava nas paredes os poemas e as flores tortas que a gente ia dividir na estação e os cheiros a invadir a noite. Era sempre noite quando eu viajava. As luzes a derramar as cores pelas ruas e as pessoas estranhas a cruzarem a avenida imaginária no meu quintal. Ouvia Bruna Carlile todas as noites, a janela aberta como agora, e o cruzar os pés um sobre o outro para que a noite voasse só para eu te encontrar em mais uma carta na manhã seguinte. Começavam então, precisamente aí, as noites menos escuras e as cartas escritas em noites vazias.

(Porque elas, as tais noites vazias é a forma das menos escuras e das cartas escritas em vão… e a tal música que ecoa é essa vontade de fugir para onde todas as coisas são possíveis)

Mariana Gouveia