Projeto Fotográfico 6 on 6 · Scenarium Livros Artesanais

6 on 6 – about

No inverno, um animal
 Na primavera uma planta
No outono – uma ave 
O resto do tempo sou uma mulher 
Vera Pavlova

Tantas vezes, em tantos casos eu sou a menina e em outras sou a própria história inventada. A biografia escrita nos olhos dos outros.

Já fui também a artista que compunha casos e imitava em arte aquele que escrevia coisas para além da alma. a que justifica o próprio ato, antes de atuar.

Tudo em mim vira asas e pousos… gosto da chuva, das tempestades, dos raios e trovões. Da lua, das nuvens. Mais de bichos do que de gente.

Nas minhas digitais trago pólen de flores, poeira dos pés de animais, de asas de beija-flores e no ouvido tenho o som eco dos corações deles.

Em alguns momentos, eu sou preto e branco, silêncio, melancolia e saudade.

Mas, na maioria das vezes sou essa multiplicidade de vozes… das mulheres tantas que vivem em mim – mãe, avó, neta, tia, mulher, poeta, escritora, artesã, fotógrafa e adoradora da vida. A que gosta de pisar na terra e olhar para o céu. A que chora e que ri. Sou eu. Plena de mim e ciente de meu lugar no mundo.

Mariana Gouveia
Projeto Fotográfico 6 on 6
Scenarium Livros artesanais
Participam comigo:
Lunna GuedesObdúlio Nunes OrtegaRoseli Pedroso e Suzana Martins

Das palavras das cartas · Das rotinas · infinitamente

Das sílabas feitas dentro do verbo amar…

Era uma vez e muitas vezes
Um homem que amava uma mulher 
Era uma vez muitas vezes 
Uma mulher que amava um homem 
Era uma vez muitas vezes 
Uma mulher e um homem 
Que não amavam aquele e aquela que os amava. 

Era uma vez 
Talvez uma vez apenas 
Uma mulher e um homem que se amavam. 
 Robert Desnos

Amor,

às vezes, eu preciso voltar no tempo dentro do meu amor por você. É onde nos encantamos com o que vimos para além do céu, das flores, dos bichos e nas trocas de olhares. Um sabe tanto do outro, que em muitos momentos, as palavras perdem o significado.

Em outras vezes, te nomeio guardião de mim… de tantos momentos difíceis e de sua capacidade de entender meus medos, de admirar minhas coragens, de chorar junto nas minhas dores e de ser o amigo que me ouve nos desabafos.

Comemorar seu dia é repetir gratidão ao Universo pela bênção de te ter comigo, de dividirmos juntos uma história em sílabas feitas dentro do verbo amar.

Sabe, amor, em alguns dias eu revisito os passos que me levaram até você… e o que é bom é que, dentro de tantos momentos, tenho certeza de que se pudesse voltar no tempo, eu faria tudo de novo, para viver a mesma história de amor com você.

Te amo infinitamente,
Feliz Aniversário!
Mariana Gouveia

Corredores, Codinome Locura

A liberdade límpida do vento parado dentro da ave de todo dia.

Ph: Oleg Tchoubakov

Tem dias que essa ternura destemida do seu olhar morre dentro da palavra. Não colheu as flores do dia. Ouviu a canção do mar dentro nas conchas esparramadas na estante. Fechou os olhos diante da dor – as 45 gotas lembraram as sementes de romã – o coração esparramado em pedaços nas folhas. Choveu no jardim com o regador para o cheiro de terra exalar onde a secura predomina nesse inverno. Falou sobre ansiedade com a alma. O silêncio do vento – quase brisa – a calar vontades. Essa asa é quase um cheiro de maresia não solúvel no ar. A circulação é essa coisa universal… vem com a asa. A liberdade límpida do vento parado dentro da ave de todo dia. É a respiração viva do amor. O varal a contar histórias dentro dos voos e sua autonomia delimitando brisas. O produto derivado da ave é o voo e a delicadeza vem em forma de beijo. Ave, beija!

Mariana Gouveia

Corredores, Codinome Locura

Das autonomias dos voos

Era ali, o meu palato inspirado na sorte, alguém falou sobre as notícias da noite e o dia nem acabara de surgir. As cortinas abrem para a janela lateral enquanto a canção ecoa no quintal.

O vento fresco anuncia a mudança da estação. Além do muro a esperança era escrita nas paredes pelas crianças.

Queria essa solidão de todos e o exílio das asas levando o vento onde pousava e os pés dourados a procurar segurança. Minha varanda tem vista para a floresta e as malvas a derramar aromas silvestres no quintal.

Todas as manhãs eu renascia dentro das autópsias de vidas que iam e revivia nos versos que elas me deixavam em relicários de voos que ainda não fiz.

Mariana Gouveia

Das palavras das cartas · infinitamente

Pai

Pai,

mais uma vez eu te escrevo e percebi que faz tempo que não nos falamos. O telefone, para você, se tornou obsoleto, porque você não ouve direito. É apenas a chamada de vídeo, os gestos e o riso de sempre lembrando que ainda me reconhece.

Sabe, pai, de vez em quando eu volto ao meu tempo de menina. Isso acontece quando eu acolho os bichos em minhas mãos. Você me dava coragem para acolher os bichos de asas… e depois disso, passei a ser escolhida por eles. Eu acho que sou parte deles, pai. É quase involuntário. Abro a mão e eles vêm e pousam. Tanta gente tem medo deles… eu tenho carinho, pai e nem sei bem se a palavra é essa.

Pai, o junho começa com seu dia e as lembranças do mês dos santos me faz ter nostalgia dos dias em que a gente ficava à beira da fogueira, as simpatias feitas em nome do santo casamenteiro. Os doces, os balões e as histórias. Sabe, pai, você me deixou um legado de histórias e sempre conto elas para um ou para outro para registrar essas coisas que ficam dentro de nós para sempre.

Escuta, pai, tenho as lembranças todas penduradas no porão… as fotografias guardadas em caixas antigas, com o cheiro de antigamente. É disso que vivo e dos dias em que lembro-me de você, tão presente na minha história. Apenas sou no mundo, pai e o mundo é em mim, e o tanto que isto é, por sua causa. E hoje, dentro desses dias e dessa representação, te ofereço minha mão pedindo benção, pai e feliz aniversário!

Te amo muito!
Mariana Gouveia

Corredores, Codinome Locura

No fim do dia somos só sombra na parede.

Havia feito um tutorial sobre perdas. Seguiu à risca cada etapa, mas na hora h, quando o vento lateral veio com notícias de ida sem volta, esqueceu as regras ditadas por ela mesmo.
Abriu os braços e sentiu a falta. Deixou a dor entrar pelo peito e apagou o rito do nascer.

As asas perderam o sentido de voos e ficou cinza as coisas.

Lembrou de anjo, andou pela sala orquídea e depois chorou. Longe. Para que fosse amenizada a lembrança.

E se eu não for poesia amanhã de manhã? E se a metamorfose não fizer jus ao instante. O momento tão fugaz e ligeiro. E a morte a rasgar a pele e camuflagem de vida fora da casca. Quando amanheceu no outro dia, já eram duas formas de partida.

No fim do dia somos só sombra na parede.

Mariana Gouveia

Corredores, Codinome Locura

Vez ou outra, o alado

Ph: Mirjam Appelhof

Tinha malícia nas asas. Sabia contornar o caminho quando lhe convinha. Era convincente no pouso. Sabia pousar com maestria. Conhecia os dourados tons diversos do sol. Captava como ninguém os negrumes da noite. Por vezes, ficava ali no espaço oferecido entre a grama e o ar admirando as estrelas. Ouvia o silêncio e com ele se entendia bem. Vez ou outra precisava submeter-se ao alado. Ou ao toque. Era ali, na dimensão de saber-se livre que podia amar.

Mariana Gouveia

Das rotinas

Era uma vez, a minha história

Abri as caixas todas – as de papelão, de chapéus, (que eram de meu pai) as de camisas – misturei as histórias todas. As minhas e as que me contaram.

O tempo mudou dentro da manhã. A estação desejou caber nas flores. A dimensão do voo sabia da vontade da asa.

A liberdade rabiscada nos muros. O moço da reciclagem coube no meu abraço. O céu abrigava a pipa do menino da rua de cima. Brincava de ser capitão do ar. Rodopiava em direção às nuvens enquanto a canção no rádio falava de amor. E ninguém voava. Os voos foram cancelados em intenção da dor.

A rotina ainda não se desenhou nos meus dias com exceção das aves que vagueiam por aqui e brigam com os cães pelo alimento que sobra. É quase tudo esse silêncio da alma. A vida medida em gotas e o corredor sem cor ostenta a solidão vazia no olhar das pessoas e a vontade é esse bater de asa no peito.

Mariana Gouveia

Corredores, Codinome Locura · Das palavras das cartas

Das cartas que não foram entregues

Ph: Pinterest

Quando alguém jogava fora as cartas de amor
a janela sorria com o vento, efeito brisa nas cortinas.

o carteiro lamentava o dia em que não entregaria ao remetente, o amor.
e eu catava as folhas rua abaixo

nunca era o endereço certo nos envelopes.

Mariana Gouveia

Corredores, Codinome Locura

A sorte de um amor tranquilo no era uma vez

Acontecia o dia no tempo das coisas e havia o tempo do jardim mudar a cor. Os lírios criaram delírios no quintal. A manhã criou atmosfera de espera, enquanto o céu chovia uma garoa fina.

O vento derrubava as folhas secas lembrando a estação. A fuga das dores reflete no equilíbrio das palavras. Alguém diz sobre a sorte de um amor tranquilo e a canção decifra a solidão que invade o dia.

A palavra espera ganhou conforto no abraço. A solidão é esse estado desajeitado de ser dois.

Mariana Gouveia