Scenarium Livros Artesanais

Onde foi que meu olhar achou o teu?

foi na esquina da tua rua
entre a espera e o namoro.
Tu brincavas com minha liberdade poética
e eu com meu exagero exageradamente conhecido.

os meus olhos ao cruzarem com os teus
perceberam que um sentimento envolvia
e certeza tem a ver com as palavras
que o momento por certo me dizia

você falava da paixão pelo ar,
pela música, eu, pelo rádio
 falava da paixão de falar, de histórias que  eu ia musicar…


eu nunca te toquei mas te sentia
pela brisa que a esquina me trazia
pelos olhares do olhar que mais profundo
e através do teu olhar, eu via o mundo
 

Mariana Gouveia
Ph: Tumblr

Scenarium Livros Artesanais

Prazer, estranha

Na autonomia do dia as cores parecem estranhas. Miudezas agigantam no quintal. Recebo a visita do toque. A rotina não é a mesma da espera. Ontem o tempo mudou. A imunidade caiu. A moça de azul pediu cuidados. Desenhei seu nome mil vezes. Pintei corações no muro. Dizem que é o delírio da febre. A voz não sai mesmo na tentativa da canção.
O meu silêncio dedico ao toque. Faço mímicas. Ninguém compreende os sinais de saudades. É falta em tudo que é canto. Vontade de pouso em tua mão. O chá amargo avalia o dia. A estranha sou eu.

Mariana Gouveia

Scenarium Livros Artesanais

 Parece que ainda nem foi.

Gravei o canto da ave para te mostrar. Era inverno diferente quando você surgia. Você se encantava quando eu relatava o dia. Tinha sol e isso te causava estranheza.
Inverno mais bobo, o seu. Era só mesmo a palavra da estação.
Eu permitia teus pousos. Você adorava meus voos.
Assim, nos encontrávamos em pleno céu, mesmo que o oceano nos separassem.
Era eu, a sua liberdade poética e você meu encanto de amor.
Hoje, me lembram recordações antigas. Um bem-te-vi que cantava a estação do frio. Parece que foi ontem. Parece que é hoje. Parece que ainda nem foi.

Mariana Gouveia

Scenarium Livros Artesanais

Depois da flor

Criou vínculos com o jardim por causa da flor. Nem era a estação predileta e nem sabia regar as plantas. Carregava dentro dela palavras que eram furacões. O vento interno derrubava verdades impostas há anos.

Depois da flor, encontrou repouso no quintal. Descobriu a metodologia das plantas, conheceu a rota migratória das aves. Decifrou enigmas nas asas das borboletas. Aprendeu a voar. Conheceu os caminhos das miudezas do chão e descobriu vestígios de se encontrar no céu.

Depois da flor, a vida dela era entre a vivência de uma manhã primaveril no seu quintal não importasse qual fosse a estação vigente e o farfalhar de efeito borboleta no seu íntimo.

Depois da flor, ela aprendeu a amar.

Mariana Gouveia

Meus Livros · Scenarium Livros Artesanais

Testamento

Deixo-te de herança o sol das manhãs
que incendeiam
as cortinas
da minha janela.

Deixo também
o pássaro que voa
solitário e rotineiro
… que vem todos os dias.

Deixo-te a esperança
nas manhãs ensolaradas
e a saudade do sol
nas manhãs cinzentas.

Os poemas feitos em melodias
que dedico em tua sintonia são seus.
pegue-os.

Espalhe via vento
para que eles dancem
com a música que dediquei a você.

Aqui, o céu é mil vezes dourado
e colhe rotinas quando a manhã surge
– esse mesmo céu que te deixo como herança.

Deixo-te as minhas risadas
e o pensamento amoroso
com que amanheço…
porque minha maior riqueza
é o meu amor, que é seu.

Mariana Gouveia
O Lado de Dentro/Borda-se a pele com fios e letras soltas
Scenarium Livros Artesanais

Meus Livros · Scenarium Livros Artesanais · Sete Luas

em um rastro de lua.

Quando a noite vier e o rastro de lua – crescente – a tocar o céu, como véu.
A folhagem a ser miragem dentro dela. O pássaro fazendo sombra no amor. Era assim que falávamos de voar. Podia ter sido em outro século. Podia ter sido agora ou ontem. Mas, foi em um rastro de lua.

Mariana Gouveia
Projeto Coletivo Sete Luas –
Scenarium Livros Artesanais

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Sorte tem quem acredita nela

A sorte descrita no roteiro do dia. Havia apenas três folhas no trevo que replantou. Leu sobre a história de uma casa de chão batido e o moço que sabia das coisas desejava comprar. Desejou também comprar a casa. Era como se caminhasse de novo na infância. As janelas, os causos e a sorte vigiada na benzedura da Bá que a viu nascer. É como se o silêncio fosse a sorte encantando a vida diante dos dias.

Mariana Gouveia

Afetos · Scenarium Livros Artesanais

delicadeza das coisas.

Alguém me contou a história pelo avesso e vi a sorte no riso de um menino comum. O sábio tinha jeito de louco e o porta retrato trazia apenas asas quebradas. Na folhinha, a magia do dia retratava o dia em que voei. Você acreditaria se eu dissesse que esqueci a cor dos meus olhos e quase disse azul quando me perguntaram?

Deve ser isso que se chama de delicadeza das coisas. Alguém hoje enterrou seu bem mais precioso e de novo estava lá as asas… lembrei dessa mania de voo que me pertence. Para minha lógica comum, sou esse centro onde as ocas rodeiam. Isso de ser de céu é quase um alento aonde tudo é pouso.

Mariana Gouveia

Scenarium Livros Artesanais

eubemqueteviquasetevi

Talvez, um dia eu conte como é ser pássaro e a brisa ser essa rota do voo para além dos muros. As flores se abrem e ainda é tarde. Logo, o noturno virá tomar conta do quintal. A ave de todo dia é insistente no canto de eubemquete-viquasetevi e o céu parece se inclinar em um olho torto dentro da lente. O desenho a lápis da flor na toalha ganha cores nas linhas bordadas… o gesto terno da xícara a receber o café para além das horas. A pele virada do avesso não cabe no tato. As digitais estranham a memória do dia. Eram tantos os dias atrás que parecem outras eras. Na parede, a asa enleada de ave e o gesto simples de querer voar.

A chuva oculta na previsão que falha, o vento a espantar o trovão que não veio e o carro do churros a vender a doce mistura do chocolate ao leite, em uma voz que parece saída de uma história da infância. Derramo ternura pelo pássaro, que cede ao encanto do poente e some noite adentro em memória da lua que permanece acesa no coração dele em sua rota dissimulada rente ao chão, nas poças d’água, dos restos do que molhei o jardim.

Mariana Gouveia

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Em defesa ao meu estado de voo

No deserto do quintal sem árvores, esqueletos de galhos que perturbam o ar dissimulados de ventos – garras – que na noite vem acompanhadas de aves. o resto, é só esse silêncio e o barulho do chá, nas xícaras. se as palavras dizem os meses nos calendários e a folhinha antiga traz o meridiano nas noites brancas. É breve o escrito nas pedras das runas, e emocionante os vapores dentro da pele, o traço, um risco, o vento me rendendo ao abraço;

os galhos da árvore seca criando sombras no muro. A solidão sendo vontade nos retratos pendurados na parede de tijolos expostos. cuidado frágil escrito em letras garrafais na alma.

Tem dias que a vida é essa ave desligada de vento. 

Mariana Gouveia