Afetos · Scenarium Livros Artesanais

Amor alado

Quando o amor atravessou o quintal, ele era quase alado.
Dava pulos no peito e voava para além das árvores.
Depois, com o tempo – e só o tempo compreende essas nuances – ele foi esparramando suas raízes, com suas gavinhas, como se fosse abraço e hoje, já mora aqui…
De vez. Acho que para sempre.
Em alguns dias, como o de hoje… muda o nome para paixão, só para alterar a rotina dos batimentos dentro do peito.

Mariana Gouveia
Agenda 2023
Scenarium Livros Artesanais

Das rotinas

 É aleatório as denominações das estações

O sol do meio-dia reascende o calor do meu lugar. Inverno é coisa que não existe no calendário daqui. É contraditório, eu sei, mas para quem conhece o lugar – ou já leu sobre – sabe que a estação aqui, é aleatório às denominações.
A ave do encantamento apareceu de novo. Cantou para além das flores do ipê. Viveu coisas de primavera nas flores e depois, foi ser voo em um céu de nuvens.

Mariana Gouveia

Meus Livros · Scenarium Livros Artesanais

Mulher de nuvem

Um dia,
decidiu que não levaria consigo
de herança das outras
as tantas que queriam
indicá-lhes caminhos
podar as vontades…

queria apenas ser….

Tal qual a nuvem
que passeia com ritmo
e a velocidade do vento
na atmosfera.

Saiu de tudo isso
como se tivesse travado
uma batalha.
alguém lhe falou
dos ideais,
da bravura
e mais uma vez,
da submissão.

Mariana Gouveia
In Mulher de nuvem
Projeto Coletivo
Scenarium Livros Artesanais

Afetos · Borda-se a pele com fios e letras soltas · Scenarium Livros Artesanais

Azul em qualquer céu

O sol desenhou no lago
… A invasão do eclipse
– dentro dele.

Suspensa em minha mão…
A saudade.

O sol levou minha mão
pelo labirinto do céu
… e suas nuances de azul.

Mariana Gouveia
Borda-se a pele com fios e letras soltas
@scenariumlivros

Afetos

Dos voos da manhã, vibrei com os pousos.

Rezei contando as gotas das teias da aranha amarela que tece rosários no quintal.
A vida tem a delicadeza das coisas extraordinárias em algumas manhãs.
O pássaro laranja que voltou e fez lugar no galho do pé de ipê. A imagem cabe na intensidade do dia.

Mariana Gouveia

Afetos · Scenarium Livros Artesanais

e a semana só tem segundas-feiras

Conheci o homem do campo. Não tinha nome comum como os outros nomes. Tinha sonhos e carregava eles nos braços como se fosse colher o que plantou.
Não gosta da noite – disse – … é quando o cansaço bate forte e ele chega vestido de esperança – e na alma, o coração vadio ri de qualquer coisa. Leu para mim cartas que chegou em suas mãos, com letras que eu o ensinei a ler – quando ele era um moço sem sonhos – e começou a escrever poesias depois disso… Contou-me sobre o rio e suas curvas como se fossem serpentes a desenhar o formato entre a floresta e do bicho que louva a Deus e se molda ao ambiente. Acolhe a noite com seus cansaços tênues contrário ao sono que nem vem porque ele sonha em ser bicho e viver.

Mariana Gouveia

Das rotinas

doida de pedra

Guardou a mão para o vento da tarde. A carícia rondava a alma, a pele.
O elemento água me pertencia com jeito de mar. Naufragou nas esquinas todas. Doida de pedra mergulhou em um rio rasante. Engoliu a mudança das marés. Cavou com a própria mão a areia e sentiu-a dentro da pele, couro rasgando sendo tocado. Maresia a saber na boca e o eco das ondas a bater no muro. O rio é esse abismo de mar e o peixe a voar para além das muralhas… as conchas contando histórias dos búzios que vieram pelo correio e trouxe o cheiro de mar e nunca mais deixou de ser marítima. A anatomia na pele de vida marinha. Quase ser úmida de tanto amar. Soubesse nadar, voaria.

Mariana Gouveia

Scenarium Livros Artesanais

Estendeu as mãos perdidas nas flores…

Ph: Kiyo Murakami

Desvendou o caminho da floresta na volta para casa. Namorou verdadeiramente a lua.  Cabia onde, aquele verbo que voava? Continha onde, a asa num grito? Os medos bobos foram jogados pelos caminhos. Alguém leu a notícia da sorte em um livro. Buscou o bilhete do realejo que tirou na infância.
O trevo marcava o coração dos bichos…
Pulou sete ondas imaginárias. Desejou a sorte de um amor tranquilo. Viveu até onde a vida respirou saudade.

Mariana Gouveia
Agenda 2025
Sceanrium Livros Artesanais

O Mapa de Vênus · Scenarium Livros Artesanais

quando era a vez do desencanto

Ph: Alisa Verner

A noite se entrega no gesto. Acolhe a geometria das horas e o signo em ascendente. Desenha histórias vividas e eu busco vontades que nunca experimentei. Alguém me diz sobre fatos que nunca imaginei. Era lua em algum lugar. Ninguém sabia os caminhos das rotas. Os retornos voltam sempre para o mesmo lugar.

Às vezes, tudo é o mesmo lugar no mapa e você fica a desenhar atalhos – e embora esses passam a ser a melhor parte da viagem – e a rotatória não muda… Ciclos.

Seu nome repetido em gestos em parentes, amigas, sonhos… Onde seu nome quando?
Qual flor o jardim canta? Que solidão a minha se une com a tua?

Em qual idioma eu criei asas e perdi o encanto? Em qual encanto você se perdeu de mim?

O precipício é logo além do que os olhos veem. E a certeza é de que só vale a beleza do caminho ou da essência em que nossa alma aspira.

Mariana Gouveia
Projeto Coletivo O Mapa de Vênus
Scenarium Livros Artesanais

Scenarium Livros Artesanais

Ensaio

Haveria voz para calar – me
quando o beijo não chega
E a janela oscila entre a cortina
e o enredo?

Ensaiei mil passos
Desenhei rotas de fuga
para ouvir o meu nome
ressoar em teus lábios

Mariana Gouveia
In – Projeto Coletivo
Scenarium Livros Artesanais
*fotografia: Antonie de La Roquelle