Afetos · Scenarium Livros Artesanais

Quarta, 27 — *O vento esparramou as nuvens na delicadeza do instante.

* quote extraído do Coletivo Ao vento, todo dia — da prosa de Mariana Gouveia

Já era o quarto dia quando te vi brincando com os meninos da rua de cima. Chapeando as pipas enquanto eles soltavam a linha.

O clept clept era para chamar minha atenção – pensei – e ao mesmo tempo, como se fosse tomado pela velocidade dos pés deles você esparramou as nuvens na delicadeza do instante.

Eu apenas ri e te chamei com um assobio – seguindo o ritual que aprendi com minha mãe. Eu te chamo, às vezes, quando o som oco do silêncio fica por aqui. Assobio e você chega… às vezes, tão manso que nem ouso falar seu nome.

Mas, acontece que, em algumas horas você atravessa o quintal de um jeito bravio que imagino ter te tirado de alguma brincadeira legal por aí…

(talvez) com os meninos da rua de cima, como agora.

Mariana Gouveia
Dia 5
In, Ao Vento de todo dia
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Terça, 26 — *Retirar das retinas poeiras incrustadas

*quote extraído do Coletivo Ao vento, todo dia  – do texto de Nirlei Maria Oliveira

O cadeado abre a dor para o hereditário… o telhado abriga o pássaro gigante, no céu branco, ausente de nuvens e nem era noite de lua e no quadrante leste Saturno estava lá, em algum canto. Nem todo dia, o astro rege as marés, e nem coordena os desavisados ventos vindos do sul. Era para ser de chuva – o dia – mas, a previsão falhou no calendário. O bilhete no papel de parede dá o ar de indignação. Cadê os dias prometidos na busca da fé? Disfarçado de lugar comum – o pássaro – o vento alado ameaça voo e permanece… olho fixo no horizonte branco. A folha de papel pronta para a carta. O vento seco na estrada irregular… as cadeiras na calçada da vizinha vazias de presença nos ecos do nada. Era só rotina essas miudezas todas, enquanto a ave fica à espera da hora certa da fuga, com medo do voo.

Mariana Gouveia
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Das palavras das cartas · Scenarium Livros Artesanais

Segunda, 25 — *Samambaias despertam em vasos que não lhes pertencem

* quote extraído do Coletivo Ao vento, todo dia — habitudes, de Adriana Aneli

Ana,

Ontem fui de novo na sua rua e fiquei me perguntando se existe ex rua ou se apenas a denomino como a rua que não quero passar. Dessa vez, não ia adiantar dar a volta em duas quadras, porque eu tinha de levar documentos para o moço que comprou sua casa.

Percebi que perdi a conta dos anos que passaram… a cerca ainda está desbotada e desconfio que ele não pintou nenhuma vez desde que comprou. Enquanto eu aguardava ele encontrar a chave do portão meu olho avançou quintal afora… me pareceu que ouvi sua gargalhada lá no fundo… ao invés das hortênsias, no vaso branco que plantei, samambaias pendem dele… inquilinas indesejadas – penso eu – e a cerejeira está seca – penso que de saudades tuas – e ele explica desajeitado que a árvore morreu do nada.

Alguns badulaques que deixei lá me foram entregues em uma caixa… as argolas que prendiam as cortinas laranjas, alguns papéis – que segundo ele, estavam em gavetas e caixas no fundo do armário. Enxerguei sem querer seus anõezinhos e a Branca de Neve num canto do muro e o sapinho… ah, o sapinho…

Sabe, Ana, não sei onde está agora. Qual universo te possui… vejo Marte e lembro-me de você. Confesso que andei meio avessa ao céu noturno nos últimos anos… e não falo disso com tristeza não. Falo disso como se com isso pudesse te libertar de vez para seus voos além das nuvens…

Lembro-te cada vez mais longe, mas em dias como hoje, onde meus olhos perderam a noção de ver, te vejo ali, amiúde, no vaso branco e as samambaias invasoras em um lugar que nunca foi delas.

E ainda com as pupilas dilatadas escrevo seu nome no vidro embaçado da janela pensando o que fazer com essa saudade quando pronuncio seu nome.

Mariana Gouveia
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Afetos · Scenarium Livros Artesanais

Domingo, 24 — *Eu sou uma verdadeira marinheira,  olhar atento, no barquinho que vai pelo fluxo da água.

* quote extraído do Coletivo Ao vento, todo dia — da prosa de Rozana Gastaldi Cominal

Ph: Anja Stiegler

Quebrou o espelho de mar, faltou o ar da maresia. Os peixes perderam o medo da ave marítima – me tornei alma errante em um céu de falta – com medo de esquecer seu nome repito todo dia quando acordo – rezo ele ao meio-dia – e resmungo ele na noite, quase em sono, sonho. Conto minha história em poesia diária. Esse rasgo de água, que me engasgo cada vez que bebo. Uso o amor como se fosse a origem da sede. Devo confessar que quase morri de abstinência.  Isso de falta devia ser proibido mesmo… quebrar essa regra devia causar afogamento no mesmo mar. Meu rio não conhece outro destino que não seja o de ir ao encontro do mar. Eu sou uma verdadeira marinheira, olhar atento, no barquinho que vai pelo fluxo da água. Sabe a sal a lágrima que cai. As orações saem como se fossem declarações. Vivo mil anos em uma hora. Tudo esse tempo obscuro que a hora asfixia no vento. Vivo como peixe de aquário que sonha a liberdade da correnteza. A regra da manhã é a pele descamando de amor.

Mariana Gouveia
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Das palavras das cartas · Scenarium Livros Artesanais

Sábado, 23 — *O vento trouxe nuvens, na noite de ontem.

A espera é esse bilhete de papel na parede, o desenho opaco do coração que rabisquei e que o tempo desbotou. O vento trouxe nuvens, na noite de ontem. A roupa no varal a dançar com o vento. Deveria te escrever essa carta. Falar do tempo que muda constantemente. O pé de romã brotou. Os musgos tomaram conta da parede do canil. A erva doce exala de alguma cozinha por perto. Penso em chá. A tarde amarelou depois da chuva; lembrei de outras cartas que rasguei sem enviar; o homem da reciclagem apareceu. Falou de saudades que não o deixou trabalhar. Suspirou dentro da madrugada passada – ele contou – chovia. A cor que acolhe a noite tem os tons que aquece o peito. Devia caber na alma essa solidão. Fujo apressadamente dos raios que envolve a noite. Cuido dos insetos para que não molhem. Um ninho deles inteiro foi salvo enquanto chovia. Por um instante, penso que a vida é esse aconchego que enxergo ali…

Mariana Gouveia
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Sexta,  22 — *Hoje atravessei a cidade e encontrei vestígios meus nas sombras projetadas pela cartografia urbana.

* quote extraído do Coletivo Ao vento, todo dia — todo dia, de Suzana Martins

O calor no rosto me leva para outra cidade – aprisionaram o vento dentro da intensidade da palavra – foi uma cerimônia bonita. O rio e os envelopes rasgados. O canto da ave num dia triste. A febre e a ilusão do delírio. Havia qualquer coisa de estranho no objeto bordado. O pássaro desenhado como se lembrava na memória obscura da pele. O toque da pena a dimensionar o voo. Dizia que sem pressa devia partir. Ou esperar. Ou ir e voltar – esquecia da última frase da carta. Mas sentia na ponta dos dedos, apenas essa solidão esférica. De cidade vazia e de rio longo e serpenteado perto das margens de onde avistava os papéis que não enviara a rodar, como se fosse de encontro ao mar. Como se morresse de fome e sede – e não havia nada para matar a fome. A vida seca, úmida de alma. Invento as escalas do mês. O mundo acontece dentro do milagre. O ausente fica lindo assim distante. O voo não dado é o que me leva a querer esse cheiro terrestre infinito… onde o vento apenas se finge de sopro.

Mariana Gouveia
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Quinta,  21 —  *Cuidado, anjo de asas quebradas!  

* quote extraído do Coletivo Ao vento, todo dia — da prosa de Rozana Gastaldi Cominal

De perfil a história é mais triste… os corredores ficam mais compridos e as janelas laterais nem conhecem a canção que fala dela… na sala de estar, os mortos em porta retratos ao lado das porcelanas empoeiradas e os vasos de flores de plásticos a murcharem em promessas sem perfume. De perfil, a moça de branco alonga a saia e os sapatos fazem barulho dentro das horas. são sete portas até o alívio final. A veia a sangrar pela cura – que matava, se deixasse – que pingava em conta-gotas no refrão do tic – tac do relógio na parede cinza ocre ou ocre apagado sem cor… de perfil, os dias acontecem diferentes dos outros dias e a fase da lua inicia o ritual de esperar o dia de amanhã.

Mariana Gouveia
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Afetos · Scenarium Livros Artesanais

Quarta,  20 —  *Pensei em como a vida tem esses momentos de delicadezas

* quote extraído do Coletivo Ao vento, todo dia — da prosa de Mariana Gouveia

Colhi docilidade no dia. Rumores de amores e risos. Há dias em que a felicidade é um bombom recheado de amor. Cabia vontade dentro dos corações estampados nas coisas e havia cantos de aves no quintal. A velocidade das horas vindo com o vento que mudava o sentido das folhas. Sentiu a beleza na respiração do amor.

Mariana Gouveia
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Afetos · Scenarium Livros Artesanais

Terça, 19 — *Limpar os pés na soleira da porta na casa da infância. 

*quote extraído do Coletivo Ao vento, todo dia  – do texto de Nirlei Maria Oliveira

Embora começasse outra estação, e como os livros diziam que começavam o equinócio do outono, para nós ainda era a estação das águas, porque a chuva persistia nos dias e a água tomava conta de todo lugar. As gotas pareciam brincar com a natureza e a enchente sempre acontecia nas margens onde o rio beijava as matas. Sabíamos que a natureza cumpria seu papel de estio-chuva-estio… Às vezes, chovia a noite toda e o barulho das gotas a cair no telhado era um convite para o sonho… Em outros dias, a chuva durava dias inteiros e ficávamos presos dentro de casa…O cheiro do chá a invadir os aposentos… os irmãos a inventar brincadeiras e o céu a derramar bênçãos dentro da presença da estação.
Outono só nos brindaria em instantes nos meses seguintes e só aí, o vento nos beijariam em sopros com a amenidade do tempo.

Mariana Gouveia
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das coisas breves · Scenarium Livros Artesanais

Segunda, 18 — *A casa é o corpo que habito

* quote extraído do Coletivo Ao vento, todo dia — habitudes, de Adriana Aneli

Ph: Steve Gindler

O retrato fosco na estante, junto com as porcelanas empoeiradas… os livros mudos, sem que uma página sequer fosse lida. O corpo, intacto, como se não tivesse sido tocado também. Tentou se lembrar da última vez.

A sombra da mão estampada na parede lembrou os risos das irmãs em uma adivinhação antiga. A mesma voz a ecoar saudades em um sussurro constante. O corpo cede ao chão frio, como se fosse sombra também, sem memórias do que já viveu.

As coisas todas mudas – as paredes, as cortinas, as portas. Um vento assovia lá fora. É o único som que ecoa fora desse corpo. Buscou na lembrança o dia de hoje. Não soube… as datas fugiram com todas as coisas dela. O corpo sem endereço é a casa. A casa é o corpo que habito.

Mariana Gouveia
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