das coisas breves · Das palavras das cartas · Scenarium Livros Artesanais

Domingo, 17 — *Os raios e trovões dialogavam com o vento como se estivessem discutindo.

Foi numa noite dessas que ouvi seu chamado.
Parecia assustador. Levantei e fui pé ante pé
para não acordar ninguém.
Apenas o cão mais novo seguiu comigo.
Você rugia como se algo estivesse em perigo.

O cão se aconchegou junto a mim enquanto as nuvens
escuras se agigantavam em cima do meu lugar.
Os raios e trovões dialogavam com você
como se estivessem discutindo.
A sua voz parecia gritar e pensei nos dias em que fico
assim, intolerante ao que me assusta.

O momento me fascinou – confesso – e abri os braço para
também fazer parte de tudo aquilo. Uma tempestade
que nem a moça da previsão do tempo conseguiu prever…
foi quando dançamos juntos eu e você,
sob a canção dos raios
e trovoadas em uma noite insana de abril.

Mariana Gouveia
Último dia, 7
In, Ao Vento de todo dia
Scenarium Livros Artesanais

Afetos · Scenarium Livros Artesanais

Sábado, *16- A estação do momento nunca combina com as datas do calendário dos homens-ocos…

De fora do olho andante, o riso por detrás da loucura… ano após ano eu ia ali, fora da data convencional. Escrevia cartas póstumas para ela – que poderiam virar livro – em dias da semana alternativos, fugindo ou não da realidade. A foto ostentada em um porta-retrato vintage, com data de vinda e de partida. A vida, tão rasa, resumida em minha rota de desespero em noite de chuva. As perguntas, que ela, guardada para além do paraíso – como dizia meu pai – não poderia responder. Sempre pedi um sinal. Uma nuvem, um raio, um vento ou uma ilusão qualquer para acabar com a solidão da alma. O código decifrado na coluna: 7.D… As flores oferecidas em um lugar comum a todos. A luz da vela no quintal, perto da pedra de amolar, longe do olho andante do guarda, que conversava com os mortos, enquanto, na noite escura, a borboleta me dava o sinal de acolhida. A vida nascia, apesar das mortes e quando amanhecia tudo era tão normal, diante do olhar do guarda que me via e fingia que não, além das datas convencionais.

Mariana Gouveia
BlogVember via Scenarium Livros Artesanais

Afetos · Scenarium Livros Artesanais

Sexta, 15 — Hoje atravessei a cidade sem interrupções.

* quote extraído do Coletivo Ao vento, todo dia — todo dia, de Suzana Martins

Ph: pinterest

Pinto o horizonte de dourado no seu destino… a noite e a imensidão das rotinas das horas. Vi a esperança vestindo colorido pelos olhos de uma poetisa. O quintal desenha vento nas plantas que restaram depois da chuva… A natureza detalhada em gotas na transparência da alma depois de molhar o jardim. O horizonte era opaco ainda agora enquanto a lua é esse desaforo na janela lateral de qualquer lugar. As pétalas das flores sendo pouso para o agora. Para além dos céus e o mar era espera. Dentro da gota era mar, o ritual do pouso. A vida tem esses instantes delicados. Os meridianos acusando saudade indecifrável do que não vivemos. A noite tem a esperança da vontade, tatuada sobre a pele – flor – que nunca foi tocada, mas que a mão conhece cada linha, cada pinta e que pelo silêncio, a vida se torna esse respirar de amor.

Mariana Gouveia
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Quinta, 14 —  *suspiro dobrado no balanço do vento 

* quote extraído do Coletivo Ao vento, todo dia — da prosa de Rozana Gastaldi Cominal

Havia um vento morno vindo do sul. Trovejou ontem e raios rasgaram o céu. O cheiro de terra molhada invadiu o ar e a chuva veio bravia. A vida é feita desses instantes que ninguém escreveu. Uma janela aberta e um rio invade o quintal. Árvores com as raízes à mostra e as paredes cinzas ofuscando o clarão dos relâmpagos. Ouço uma melodia que me traz a sensação de que nasci agora. A tempestade fazendo a mão para indicar caminhos. Tudo é escuro na noite lá fora. Os poemas espalhados na lama como sementes. Quem sabe amanhã não nascerá as palavras da atitude. Às vezes, o silêncio é essa goteira que pinga sem parar. Essa luz que insiste em ser acaso… a noite, o nada e o vento.

Mariana Gouveia
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Afetos · Das palavras das cartas · Scenarium Livros Artesanais

Quarta, 13 — *Onde fica o lugar em que o vento faz a tal curva?

* quote extraído do Coletivo Ao vento, todo dia — da prosa de Mariana Gouveia

Flor,

Ontem, antes da chuva, eu vi a poesia se compondo em galhos e brincando de vento. Ouvi o céu gritar e rugir como se dissesse ao universo sobre o poder que ele tinha.
Vi os raios iluminarem o céu e lembrei-me dos rituais de minha mãe antes da chuva. Ela cobria todos os espelhos da casa e fechava as janelas. O medo no olho, as orações nos lábios. Também era poesia isso… Vi tantas vezes a poesia nos rituais de minha mãe.
Mas, ontem, eu vi a poesia se compondo pouco antes da chuva, e quando choveu, lembrei-me de você e de como um dia você se fez poesia no meu quintal dançando na chuva. Queria que soubesse que dobrei os tsurus e guardei no pote onde guardo todos os outros que não te entreguei.
Quando a chuva parou as lembranças se foram lá para onde o vento faz a curva e sonhei com você.

Feliz aniversário!

Mariana Gouveia
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Terça, 12 —  *Lembrar de nomear as coisas no caderno de anotar maravilhamentos

*quote extraído do Coletivo Ao vento, todo dia  – do texto de Nirlei Maria Oliveira

Desde pequena sempre fui apaixonada por cadernos. Usava-os – e ainda uso – para tudo. Embora a tecnologia tenha trazido algumas facilidades, não abro mão de escrever no caderno.

Aqui, já foram transformados em diários, agendas e até serviram de anotações para listas. Lembrei-me de meu pai que anotava as coisas que tinha de fazer durante o dia, o mês e até mesmo o ano. As ofertas de vendas dos produtos da fazenda, as qualidades especificadas em letras miúdas e até as datas de nascimento dos sete filhos, incluindo hora, dia, mês, ano, signo e de como estava o dia.

O caderno dele ficou perdido em algum baú, que vou tentar encontrar quando voltar lá, mas ainda tenho os primeiros cadernos de meu filho, com suas capas coloridas e sua letrinha ainda em estado de aprender.

Guardei na época para que ficasse registrado momentos simples da vida dele e que para mim era um tesouro. Sempre foi.

Os cadernos me acompanham para as cartas, para as notas que surgem durante os afazeres do dia a dia e para anotar os maravilhamentos que fazem parte do meu lugar.

E você, ainda usa o caderno para registrar momentos? Me diz aí…

Mariana Gouveia
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Afetos · Das palavras das cartas · Scenarium Livros Artesanais

Segunda, 11 — *O som da xícara de café sobre o pires

* quote extraído do Coletivo Ao vento, todo dia — habitudes, de Adriana Aneli

Bia,

a tarde corre ligeira por aqui e um vento morno briga com a estação das flores. Logo será verão e aquela história da bolha de calor por aqui, ainda não passou. Li sua carta enquanto bebia o café da tarde e buscava imagem para o texto de hoje.

As suas palavras foram como um abraço além do outro lado do mundo… parece que foi ontem que eu te alcançava na rua de cima e contávamos estrelas na calçada alta… lembra-se? Ainda me lembro de sua risada cozinha afora enquanto preparava a mesa, com a xícara transparente e seu pires no formato de coração.

A vida é engraçada, Bia… de todos os sonhos que você tinha o mais impossível aconteceu. Hoje você cruza as ruas de Tóquio e me traz lembranças de Kaori e Seiko e com isso meu coração se enche de ternura. Recebi a foto da cerejeira do lugar onde eles fizeram morada e sabe, Bia, ter você aí tão perto dela e dos seus me faz sentir a leveza da vida que sua avó viveu.

Ph: Sakura

O café esfriou, a noite chegou e eu tenho de ir ali, cuidar dos olhos. Logo a gente se fala e diante de todas essas levezas e saudades te abraço.

Beijo meu,
Mariana Gouveia
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Afetos · Lunna Guedes · Scenarium Livros Artesanais

Domingo,10 — *Flores que nascem resistentes nos muros e nos quintais

* quote extraído do Coletivo Ao vento, todo dia  – do texto de Nirlei Maria Oliveira

Todo mundo deveria ter um quintal… falei isso com Lunna – mia bambina – nas conversas rotineiras que mantém meu lado lúdico ativo enquanto os olhos não podem ler.

Comentei isso depois de “vê-la” encantada com as frutas que rudemente esborrachava no chão. Quando ela retratou o sabor das amoras e das uvaias e a hortelã encontrado em meio a uma moita de samambaias eu voei para além dos meus muros e corri para o futuro quintal dela. Uma cadeira encostada na parede branca, os ladrilhos formandos caminhos entre as árvores… eu vibrei.

Ela já não era mais peregrina do meu lugar e quando falávamos de quintal, ela estaria repleta de afetos que só um quintal emana. Seríamos ponte entre o meu quintal e o dela. Já imaginou uma rede de pontes interligando quintais vida afora? Além de ruas de cima ou esquinas da rua debaixo? É como se uma janela abrisse e o cheiro de chá exalasse seus aromas entre meu capim limão e o hortelã miúdo dela.

No meu quintal os cães implicam com os gatos… no dela, o gato estranha o povo recém-chegado onde antes o lugar era só dele… e a vizinha mexeriqueira busca contato logo com quem prefere os animais a pessoas.

Todo mundo deveria ter um quintal. Nem precisava ser grande, ter horta, pedrinhas brancas mostrando caminhos de estufas onde as orquídeas soltam suas folhas e a baunilha exala seu cheiro peculiar.

Mas deveria ter pelo menos um pé de jabuticaba – ou alecrim plantado em vasos grandes ou no chão mesmo, rodeados de vinca e suas variadas flores.

Hoje, com as moradias – em sua maioria – fixadas em edifícios enormes e o paisagismo predominante em folhagens, um quintal traz a poesia de manhãs mornas, de folhas recém caídas e o sussurro do vento. E tem os pássaros – que muitas vezes ela nem sabe o nome… só que é grande e outros que cantam nas madrugadas daqui e de lá.

No meu quintal, há um desvio onde pássaros e borboletas cruzam em suas rotas rumo ao céu. No dela, o pássaro metálico cruza em meio ao cinza e o verde – agora tão dela quanto meu.

Você ouve o som das flores? Quando as pétalas roçam umas nas outras o som das flores ecoa…, mas isso, só consegue ouvir quem tem um quintal.

Mariana Gouveia
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Afetos · Das palavras das cartas · Lunna Guedes · Scenarium Livros Artesanais

Sábado, 09 — *Alcanço o balanço… plantado no quintal de casa.

* quote extraído do Coletivo Ao vento, todo dia – do texto de Lunna Guedes

Bambina mia,

não tenho balanço no quintal, mas já tive, assim como você, lá na infância e via o mundo do alto quando chegava minha vez, depois dos outros irmãos. Acho que para mim era diferente do que para eles. Eu voava até bater o pé no galho da mangueira e meus pensamentos voavam para além da estradinha que serpenteava o rio.

Depois disso, o balanço se transformou em memórias gostosas que sempre arranca risos em conversas com os irmãos, quando lembramos dele. Dessas memórias me lembro do cheiro da malva seca e do cheiro das flores de manga… e em nossas conversas o balanço – teu, lá da tua infância – sempre me causa ternura. Já reparou como nossas histórias se atravessam? Como agora, onde um desvio no meu quintal me leva apara o seu.

Acho isso lindo, assim como acho lindo quando nossos pensamentos se ligam à tempestades ou chuva mesmo – e garoa – e a lua e os poemas… o sabiá laranjeira, o beija-flor e até as farfallas…eu não saberia explicar e nem quero… quero apenas sentir essa conexão com todas as cores da inveja – ops – assim como o vento, as folhas, a madrugada e as canções de Léon.

Quando meu quintal invade o seu acho a mais extraordinária das aventuras. Quase sinto o cheiro da flor de maracujá, porque o canto dos pássaros consigo ouvir quando falo com você.

O ipê não comporta um balanço, senão já plantaria um só para te alcançar plena de voos, mas alegra-me saber que agora acorda com os pássaros como eu e o chá de hortelã que faz para tu e o tuo bambino também chega até aqui na doce forma de compartilhar.

Aceita um xícara?

Bacio,
Mariana Gouveia
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Afetos · Das palavras das cartas · Scenarium Livros Artesanais

Sexta,  08—  *Esquecida nos adjetivos que desenhei no poema do teu caderno vazio

* quote extraído do Coletivo Ao vento, todo dia — todo dia, de Suzana Martins

Ana,

às vezes, só às vezes, eu esqueço do combinado e volto a pensar em você… hoje mesmo, a lua está divinamente ligada à Marte em linha reta e não teve como não ligar você e o universo pleno de memórias suas.

Já te contei que te vejo nas minhas ruas e até te chamo pelo nome para depois descobrir que era apenas alguém parecido… uso a desculpa do olho em conserto para não usar a vontade do coração. Soletro seu nome duas vezes seguidas para justificar essa ausência.

Como regular a saudade no corpo, Ana? Como esquecer dos poemas que declaramos juntas e que não coube mais na sua letra em memória de mim, feitos ainda em um testamento falso de que apenas isso finalizaria uma história dividida entre dois países, em um caderno vazio… dentro das ruas e vilas que você me levava pelas mãos mundo afora.

Em tempos de remake, a nossa história virou um livro… dos mais lindos e eu fiquei por dias na soleira da porta te esperando para te contar… mas, o silêncio, esse vazio no universo todo parece o poema do teu caderno branco e não houve ecos, mesmo que eu gritasse.

Foi assim: você nunca mais regressou e eu deixei recados escritos às pressas para caso você voltasse, mesmo sabendo que não… por isso, Ana, leva com você a canção que cantamos juntas e que esqueci a letra, leva também as manhãs mornas e deixa comigo só a lua e suas fases inconstantes, assim como essa saudade, as lembranças e a poesia.

Mariana Gouveia
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