Tinha medo da noite e era dia. Vasculhava as paredes todas atrás de lembranças. Buscava as digitais dela nos objetos que tocou. Na parede, do lado esquerdo da porta, as horas sem ela corriam ligeiras. Voavam feito aves no céu. Em algum canto, rabiscou um coração com o nome dela e foi nesse momento que um arco-íris cruzou o céu de ponta a ponta. Era quase imperceptível. Mas parecia ter zoom ao olhar para a parede do lado esquerdo da porta, quando via as horas a voar e o vento agitava a cortina. De noite, parecia que as asas brilhavam e dançavam saudade olhando para ela. Por isso, tinha medo da noite.
Era quando os fantasmas surgiam em forma de asas.
Mariana Gouveia Estamos em Agosto e por isso, temos BEDA.
Fiz o chá para além das xícaras – era a espera antecipada da estação – amanheceu hoje com gosto de inverno. O meu quintal é alheio a tudo – tem vida própria – pássaros cantam. Refaço horóscopos para o mês seguinte. Os astros estão em ebulição. A natureza grita pelo vento de um furacão. Vi algo novo no raiar do dia…. A maresia chegou de mansinho pelas palavras dela. O pássaro voa alheio ao chão. O cão late na folha seca que cai. Remexi nas sementes perdidas. Escoa a água da pia. O chá ferve. Aprisiono desejos secretos. Rio sozinha dos pensamentos loucos. Refaço o roteiro do horóscopo. Alterno os dias. Gelo para a luxação do pé. A dor acalma quando a alma dança. Chorei no poema que li. Havia coração em toda parte. Morde a fruta e vai esperar o dia de amanhã.
Mariana Gouveia Estamos em Agosto e por isso, temos BEDA.
nem nos sonhos dos homens inconstantes Me procure no azul do céu, nos galhos secos na relva que oscila ao ganhar do vento, o beijo molhado
Não me procure nos cantos dos pássaros noturnos, esses vagueiam em busca de luz. Me busque nas manhãs sem segredos onde o sol encaminha para mais uma rotina.
Me procure nos voos das aves que anunciam e se preparam para ganhar a liberdade do dia.
Tropeço nas coisas que eu esqueci pela sala. O interruptor acende ao meu toque e a luz pálida ilumina lugares que prefiro não ver. As fotos estão dispostas em fila no móvel. Ao lado, a agenda esquecida pela manhã. Na geladeira, não há quase nada comível. Apenas um tomate que escapou da última salada, alguns biscoitos recheados e um iogurte com data de validade suspeita. A mente me leva para lugares onde eu gostaria de estar. A rua de cima e a casa com seus quintais floridos. Da janela, vejo vultos das folhas do hibiscus mutabilis que dançam a melodia noturna e brincam com a lua que desafia o equilíbrio da cortina. Não gosto desse espaço oco de solidão dentro de mim. Converso com os cachorros para evitar a sensação de vazio
que me atinge. Parecem tão solitários no sono de cada um que nem me ouvem. Abanam o rabo por instinto, sem despertar e continuam a sonhar com o mundo dos cães.
O chuveiro me chama para o banho.
A melodia da água caindo quase me acordou desse transe. Mas o silêncio dos cômodos e a ausência de sono nos meus olhos, tão abertos, esfregam na minha cara, o quanto essa casa estava cheia de vida, de gente, de presenças. Eu estou só — não sei se esquecida ou abandonada. Pela primeira vez, em não sei quantos anos, que a cama é só minha. Ao deitar ouço os sons dos meus ossos e das molas do colchão. Rangem em conjunto e depois se calam.
Tão angustiante. Pior é o som que vem lá de fora. Sirenes gritam à noite e eu sei que alguém se feriu na casa de cima.
As vozes se misturam em ofensas.
Conto carneiros, estrelas… agrido o travesseiro. Ouço o meu nome num tom sussurrante vindo lá de fora. Viro de lado. Canto canções de antigamente. Minha voz não é mais a mesma e se mistura a outras tantas. O sono não me pertence… É dos cachorros. Abro a janela e deixo a noite entrar, está tudo tão escuro. Ouço os pirilampos nos galhos, no quintal e lá longe, a lua se agiganta diante de mim.
Mariana Gouveia Texto publicado no Projeto Coletivo O Tempo Perfeito do clube do Livro da Scenarium Livro artesanais Estamos em Agosto e por isso, temos BEDA.
Cabia na verdade das coisas e era em qualquer dia o calendário das flores dentro de outra estação. Nas calçadas, o risco de giz levava a menina ao céu em seu pulo de amarelinha. Eu, que nunca mais havia ouvido os sinos da igreja dobrarem, refiz o gesto da oração. O médico redesenhou os calendários no quintal. O amor é esse gesto desenhado em corações ou pouso, quando a noite chega e a lua míngua no céu. O homem grande ratifica raridades nos caminhos dos guerreiros. A vida é esse rasgo na garganta enquanto a canção de Gadu entoa.
Mariana Gouveia Estamos em Agosto e por isso, temos BEDA.
Podia a curvatura da lua ser esse grafite rabiscado nos muros. Com nome ilegível e pétala de flor, úmida de orvalho enquanto em sua fase de nova o jeito era ser. Apenas ser. Saturno e seu júbilo e a sensação de pertença nós braços… do céu. Queria te dizer que posso te ensinar o nome das plantas e qual flor ganha força nessa fase de lua. Posso ser essa espera sempre, desse lado do cais.
Mariana Gouveia Sete Luas – Scenarium Plural Editora Estamos em Agosto e por isso, temos BEDA.
sirvo-me uma xícara de café enquanto te escrevo… o tempo passa dentro das nuances dos dias e esse café me lembra tanto você. Aliás, tantas coisas me lembram você. O cheiro da pimenta do reino, do pão de queijo, do milho verde e principalmente o cheiro que antecede a chuva.
Engraçado como me perdi nos dias depois que você se foi… hoje seria um dos dias em que o locutor do seu lugar leria essa carta para toda cidade ouvir e seu olho brilharia ao se reconhecer nela. Seu sorriso se alargaria e seus olhos se amiudavam. Sinto falta desse sorriso, pai. É apenas mais um dos dias dos pais que passarei sem você e acho que você tinha razão quando dizia que o tempo é o remédio para tudo, até mesmo para amenizar a saudade.
Pai, agora que o tempo já sobrepôs sua ausência acho que fiquei mais calada. Dei para conversar só – com meus silêncios – e percebo que não sei nada dos seus voos. Antes, bastava um telefonema, uma chamada de vídeo e te alcançar ao lado da janela ou na soleira da porta a espreitar a rua.
Às vezes, fico só pensando em tudo que não fizemos mais juntos e de como seria seu conselho diante do meu problema…, mas tudo isso, pai, é apenas para ponderar dentro da falta que você faz. Em um dia como hoje, você ficaria à espera de seus filhos e dos abraços, mesmo que fosse por telefone. E foi isso que eu vim fazer… te abraçar para além desse espaço.
Feliz Dia dos Pais!
Te amo infinitamente! Mariana Gouveia Scenarium Livros Artesanais Estamos em Agosto e por isso, temos BEDA.
Havia um riso estranho no homem da esquina. …ele perguntou meu nome duas vezes E quis saber das horas. Recolhi as folhas que caíram do outono passado e molhei as flores na estação delas. Preparei o chá de frutas amargas para aliviar a tensão. Alguém na casa do lado… canta uma canção em alto e bom som. E a dor desafina em La Maior. Ouço uma voz entalada no grito enquanto eu recordo das promessas. …um corpo branco onde eu brincaria texturas e registraria minhas digitais. …uma boca em meus lábios para descer rio-pele adentro, Ser flor em mim.
…na febre teria o abraço como conforto Me amaria nas manhãs mornas e me traria a chuva. …uma praia de espuma onde só há rio – foi o que cantou nos versos de poemas – … e uma polaroid para fotos noturnas.
Me deu a lua todas as noites E o sol todos os dias. Depois os tomou de volta. Disse num-voz-sereno que traria de novo …quando a maresia acontecesse por lá.
Para reavivar minhas lembranças mandou-me o mar …derramado em conchas E quando não havia mais nada para prometer, …falou de amor nas palavras escritas de sempre. Entrelinhas, foi o que disse.
Eu a vi dentro de um brinquedo a dirigir com um riso …e não era eu atrás da polaroid – que não veio. O negativo em preto e branco derramou Flor.
Nem era primavera ainda… mas o sol árido lá fora desaba folhas no meu quintal. E quando eu já nem pensava mais nela …me deu um ‘quase fado’ e eu morri no nosso jardim.
Mariana Gouveia Desvios para atravessar quintais Scenarium Livros artesanais
“Um espírito livre não cabe nas gaiolas de um corpo domesticado”.
Às vezes a gente volta pra gaiola. Pra padrões antigos porque parecem seguros e são conhecidos. Às vezes o medo da vida, de soltar a ilusão do controle fala mais alto. Mas a volta nunca é no mesmo lugar e, talvez por isso, lá no nosso íntimo, se permitirmos a abertura do coração, a gente reconhece e faz o movimento para o novo salto. Tenho re-conhecido minhas águas e permitido que elas corram livre. E tem sido ali, com as mulheres de maior idade que eu, que tenho recebido o sábio acolhimento delas pra fluir esse mar de emoções que também sou. E tem sido lá com as mulheres de menos idade do que eu que tenho remado por águas novas. Permitindo e brincando com minha autenticidade, luz e sombra, camadas e mais camadas. E sim, minhas águas compõem esse oceano infinito por onde tenho remado. Tem sido com o cuidado amoroso da Ana que me permito transitar em ser água e barco, onde me lanço e onde me acolho e me dou borda. Onde cultivo o movimento de minhas águas, da mais límpida à mais densa. O barco não navega na terra. A terra é de onde ele sai e onde ele atraca, pelo tempo que decide. É o porto seguro. O mar é a aventura. É lá onde se experimentam tempestades, remansos, ondas diversas, movimento contínuo. E é lindo e potente compor uma tripulação que vai dia a dia aprendendo a remar junto, cada uma a sua maneira e com o objetivo comum de atravessar, seja lá o que for. Não quero temer minhas águas. Quero cada dia mais aprender a fluir com elas. ” Sou peixe, a água é meu lugar”.
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