Scenarium Livros Artesanais

Beda – Tantas

Ph: Kenp

Quis ser livre e foi…
Criou a estratégia
                de fazer nuvens
                       em dias ensolarados.


Sabia o sabor da boca
              e o verbo exagerado
em qualquer pretérito
        que quisesse conjugar

Os dedos livres
                         para sentidos
antes proibidos.

Entregou-se
sem se dar por completa –
porque sabia
que carregava um pouco
das trevas     

                          das Outras

Mas ainda assim
quis ser múltipla.

Tantas

Podia escorrer-se
como se a nuvem

                      estivesse cheia
                  … e desaguou.

Podia tocar-se
e como se fosse nuvem
feita de algodão…
sentiu a plenitude
da leveza.


Foi ser mulher plena,
entregue
e única.

Dentro de si.

Mariana Gouveia
Texto publicado no Projeto Coletivo Mulher de Nuvem e Projeto 365
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das coisas breves · Scenarium Livros Artesanais

Beda – O mapa a desenhar as partes dos atlas.

Ph: Pinterest

Quando a vida passa e o tempo e seus sonhos passam juntos, o mês desanda a correr dentro dos dias. A estação muda as cores e o sentido e a secura amarela as folhas enquanto a ave espreita o vento que muda o tempo – mas eu nem tenho tempo. O moço que se encanta pela cidade pequena cria histórias que não existe dentro da minha história. Ele passa silencioso na imensidão da manhã. Culpa o sistema pela vontade exagerada entre voar e sentir. Não sente urgência na palavra amor e a paisagem traz a fumaça do mês que ainda nem veio. Podia ser um nome em sentido de asas. A palavra curta definida no pouso. O jardim a crescer com as ervas daninhas. Se eu pudesse, apagaria os instantes diante da dor e o século seria o momento seguinte que ainda não vivi. O mapa a desenhar as partes dos atlas. O muro feito de prego e o verbo era suspirar.

Mariana Gouveia
Agenda 2025
julho, 13
Scenarium Livros Artesanais

das coisas breves · Scenarium Livros Artesanais

Beda – sou folha

Ph: Rosie Hardy

Não teve missa, o domingo. A igreja fechou para reforma. A oração foi designada para as casas. O vento veio fazer parte do momento. A asa trouxe o número da sorte. Vai que muda a estação e a previsão do tempo erra. Entende a certeza da vida. Ela é ilusão de sopro. Vai até onde ninguém pode alcançar. Há ocasião que é boa para voar. O espelho mostra a verdade inversa. Busca a poesia na cura. O sossego no silêncio é quando o voo grita e as acrobacias no céu pedem pousos. É utopia a certeza do espaço. O abismo é a pálpebra quando abre e o horizonte é a linha imaginária na superfície. O dia destinado ao veneno não é adequado para rezas e uma esquadrilha faz movimentos no céu. As asas, do avesso, rastejam.

Alguém me pede para ser árvore quando em minha escolha sou folha.

Mariana Gouveia
Agenda 2025
julho, 07
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Desvios para atravessar os quintais · Projeto Diário das quatro estações · Scenarium Livros Artesanais

Beda – Abro a porta para um mundo imaginário.

A vida, é esse portal que se abre para a floresta. O quintal tem os muros derrubados para fluir o vento para além das ruas. A terra, esse aconchego de umidade de mar nas mãos. Era silêncio na sintonia da noite. Os avisos chegavam em ritmos de sonhos. A previsão do tempo exposta nos galhos virados para os lados do sul. As cartas escritas como se fossem palavras tropicais. Os diários relidos um a um mudam os verbos na estação — a garoa cai onde o outono bate ao pôr do sol. A palavra definida dentro da sede — o frio invadia a brisa mansa da primavera — e o sentimento ardendo na febre do corpo… era verão em algum canto do mundo e a floresta absorvia a invenção do ritmo das folhas. O inverno biologicamente antecipa as vontades de abraço e o dialeto do rito é o silêncio.

Mariana Gouveia
Desvios para Atravessar os Quintais
Scenarium Livros Artesanais

Scenarium Livros Artesanais

Beda – das singularidades dos dias

viu o luto nas memórias das caixas vazias
escreveu histórias que ninguém leu…
Desenhou mecanismo para a rota das formigas.
Não dormiu

sonhou com viagens além dos rios e pisou descalça na grama
comeu o verdume das folhas. era ainda criança quando ousou voar

Tatuou a liberdade em asas
nas costas

viu a cura ao alcance dos olhos
falhou nos abraços dados
coloriu o jardim nas sementes plantadas

e a vida se renovou em germinação.

a vida, por um instante é cíclica.
Afinal de contas, os séculos se repetem em consonância com os verbos do passado…
O ponto só é final quando se chega ao fim.

Mariana Gouveia

Corredores, Codinome Locura

Beda – Bordar o sol no teu céu,

Bordar o sol no teu céu,

feito moldura de retrato pendurado dando lembranças ao coração do que viveu.

Colher para você as nuvens que douram o caminho por onde ele passa.

Viver em teus dias como manhãs douradas e tardes que se alaranja e tem cheiro de alfazema no quintal.

A vida segue na rotina dos dias. E meu amor é só teu.

Mariana Gouveia

Afetos

Beda – dos diários

A vida empresta-me a graça do amanhecer e se alaranja no meu quintal. Detalho para ela a profundeza do que vejo. Um sabiá laranjeira voa ligeiro entre o telhado. Carrega no bico algum galho seco pra construção do ninho – eu acho.
As nuvens roubam matizes do sol e se banham numa mistura de todas as cores do arco-íris. Falo pra ela do canto dos pássaros. Do bem-te-vi que duela comigo em quem viu quem primeiro. A vida me dá bom dia pela manhã e eu alaranjo diante de tanta doçura. O sanhaço azul quase cai ao roubar a água do beija-flor. O bebedouro quase não se aguenta e ainda assim ele se equilibra e busca matar a sede. O céu recebe de braços abertos o sol e já não faz mais frio e falamos do tempo. A poesia acontece mais uma vez nas estações diárias que ela coloca em minha vida.

Mariana Gouveia – *diários

Corredores, Codinome Locura

Beda – Dos diários

Desde pequena queria escrever um diário. Fazia isso em tudo que podia. Papel de pão, folhas pela metade. Não podia estragar os cadernos de escolas com bobagens – alguém dizia.
A mãe a incentivava a escrever tudo que via. A ver a miudeza das coisas e foi por ela que passou a encantar-se com os insetos, os animais – mesmo aqueles que todos os irmãos tinham medo. Era registrar o dia em palavras: Hoje havia visto o sol e por ali, descrevia o rumo das cores que debruçava sobre as nuvens, o calor que aquecia a pele e até mesmo o impossível amor dele, o sol, pela lua.
Descobria a singeleza das coisas no construir das moradias dos insetos. Da formiga que embrenhava terra adentro com seu caminhar incessante pelo mato, pelas folhas;
da borboleta que fazia seu casulo na folha da couve e no marimbondo que pacientemente construía seu castelo.
A mãe lia as histórias como quem desvendava sua alma e seu riso era a parte mais linda do dia.

Mariana Gouveia

Corredores, Codinome Locura

Beda – Diário

Quando a vida ainda dorme de manhã colorindo sonhos e você vaga nas lembranças pelo meu quintal, eu sinto o sol raiar nesse dia de Agosto. A lembrança de tua voz nesse alegre toque de vida te traz até aqui.
Te mostro os corações que as flores formam ao se juntar e a delicadeza do sono do beija-flor.
Sussurro quase para não acordá-lo. Espanto Lolla, que teima em querer latir ao ver o gato no telhado. A emoção de estar tão perto que dentro de mim o coração não bate, dança. Espio o sol que espreguiça diante das nuvens e o frio quase miragem passa por aqui em uma frente fria.
Um avião cruz o céu e eu te falo dele. Deixa rastros como tiras bordadas num lençol azul.
O cheiro de pão na casa vizinha, uma criança que grita do outro lado da rua e o beija-flor ainda dorme dentro do sonho.
A vida nos espera para viver o dia. Tão grande presente e majestoso na presença da poesia que renasce todo dia no meu quintal.

Mariana Gouveia. * Diários

Corredores, Codinome Locura

Beda – O riso dela tem qualquer coisa de ave que voa…

Ph: Pinterest

A mão dela me trazia barulho do mar. O braço ondula silêncios da tarde Sombras tatuam melodias no vento – que venta – e desmancham sob os cabelos dela… não sabia extrapolar as coisas – dizia – era feita de matéria perene, ela – a que eu criei. A outra – a de verdade – quebrava regras. Falava alto nas bibliotecas… declarava amor nas livrarias. Chegou a declamar poemas ao lado da placa – PROIBIDO FALAR AO TELEFONE – e pisar na grama desajeitadamente, sob os olhos da viatura oficial da polícia. Há sonatas que a areia descreve… E escreve. O riso dela tem qualquer coisa de ave que voa… Leva na mão o carinho portátil, desse pronto para o uso. Mesmo quando meu silêncio ruge feito fera. Tem a delicadeza do poema no verso. Usa quando tomo um chá de sumiço. Mal sabe ela que toda noite, eu olho para o céu e a encontro em uma constelação ou em um pouso rumo ao coração.

Mariana Gouveia
Estamos em Agosto e por isso, temos BEDA.