Desvios para atravessar os quintais · Projeto Diário das quatro estações · Scenarium Livros Artesanais

Tenho uma solidão…

para esse nome das coisas.
Virei perfume dentro das suas palavras. Vi uma moça da aldeia com borboletas no corpo. Era feito de sol essa saudade. O jardim endoidou de vez quando percebi o vazio por detrás da janela. O calor assolou o cerrado e a meteorologia colocam vermelho puro no mapa daqui. O lugar de mim esvazia o peito e estende a mão, não sou mais além de sombra onde a asa não me abriga.
Escrevo cartas antecipando primaveras… a impressão do dia seguinte é quase logo ali, no outro mês, já repetido exaustivamente no sistema. O desejo tão líquido quanto a sede – falta água – e a fome de tocar sua mão, tão marítima dentro desse oceano seco de rio.
A ventania consome essa vontade de pouso, onde meu quintal respira maresia nos cantos do muro.

Mariana Gouveia
Desvios para atravessar os quintais
Scenarium Plural Editora

Das palavras das cartas · Desvios para atravessar os quintais · Projeto Diário das quatro estações · Scenarium Livros Artesanais

dos corações

A moça de coração na roupa me cede lugar no ônibus. Passo em frente a lugares onde fui presença.
Relembro da história do filme. Faço anotações para a carta que escrevo mentalmente. Os corredores ficaram mais cinza hoje. A menina do beijo rosa se foi. Deixou um coração riscado em uma folha com meu nome. Nas mãos dela tudo virava corações. A voz se perde dentro da viela em frente a igreja. Como dar cor para uma mulher ausente de fé?

As mãos aceitaram o toque… o corpo agradeceu o abraço. Em alguns dias o aconchego vem com o silêncio da alma.

Mariana Gouveia
Desvios para atravessar os quintais – páginas amarelas –
Scenarium Livros Artesanais

Desvios para atravessar os quintais · Projeto Diário das quatro estações · Scenarium Livros Artesanais

— aquela hora…

em que os telhados velhos trazem lembranças da infância e o cheiro do mato se mistura ao orvalho da manhã. A permissão para sentir vem da natureza que me concedeu a fé enquanto a memória resgata coisas que a menina dentro da mulher não quer esquecer. O cogumelo colhido na floresta como se fosse a cura e o conselho do pai para tomar cuidado com o veneno contido dentro das coisas bonitas — base para mais um ensinamento.

Teve aquele dia, em que o corte no pé foi o momento certo para mostrar a cura… eu chorei uma vida inteira. Ali, como se cada parte do corpo, cada átomo do Universo fizesse parte de mim.

Quero te dizer que tenho shitake colhido ali, naquela parte onde a infância mostrava que tudo é o começo, meio e fim. E a poesia recém-escrita, olho no olho… onde o orvalho cresce na minha própria alma.

Mariana Gouveia
Desvios para  atravessar quintais
Scenarium Livros Artesanais

Das palavras das cartas · Desvios para atravessar os quintais · Projeto Diário das quatro estações · Scenarium Livros Artesanais

Das palavras das cartas

O envelope que chegava era laranja e as letras corridas como se tivessem pressa de chegar.
Havia desenhos floridos nas linhas que se misturavam aos corações onde se entrelaçavam vontades. Os risos, pareciam vir junto e a brisa suave das ruas da cidade, do rio que circundava a pequena floresta de eucaliptos e outras árvores do lugar – o cheiro – dançavam na imaginação como uma folha solta no ar. Falava dos detalhes da vida, da rotina. Do jornaleiro do qual sabia o nome, até a história dele me contou – e parecia que eu também o conhecia – dos nomes dos filhos. Dos tsurus que delicadamente adornavam o céu do seu quarto, todo lilás e da janela podia ver o pé de lanterna chinesa que a vizinha plantara e oferecia dezenas de flores no canto do muro… iluminando o dia com seu laranja – e repetia a frase da canção de Gadu – que me faz ficar bem mais. A flor parecia que tinha a energia de acordar a alma, mesmo depois de um dia frio, um dia triste. Assim, em cada mês, a delicadeza vinha em cores e versos. Uma tela de arte colorida de carinho, recheado de palavras que abraçavam e coloriam o dia.


Mariana Gouveia
Desvios para atravessar quintais
Scenarium Livros Artesanais

Desvios para atravessar os quintais · Projeto Diário das quatro estações · Scenarium Livros Artesanais

Dos verbos indefinidos

Traçou a rota do dia. Mudou as rotinas todas. Pendurou a asa no varal. Havia previsão de chuvas. A lua era apenas um risco dentro da nuvem. Um menino de cabelo laranja mudou o dia. Às vezes, o destino improvisa as coisas e as horas têm cheiro de frutas. As distrações traziam vontade em outros idiomas. Um sábio mudou para o endereço além das estrelas, enquanto guerreiros mudam rituais no dia. A paz pode ser descrita em um poema, mesmo com uma guerra interna sendo travada na alma. A sorte do dia sendo decifrada em um jogo de memórias. O riso encerra o abraço com a vida. A ignorância das marés criando hábitos em um dia marítimo. A fortuna chegando na flor de laranjeira. O verbo mudando o fim da página. Os elementos da loucura sendo refúgio para as noites do nada e a verdade desbotada no boato do que o olho criou e a paisagem é essa janela onde o vento bate.



Mariana Gouveia
Desvios para atravessar quintais
Scenarium Livros Artesanais

Desvios para atravessar os quintais · Projeto Diário das quatro estações · Scenarium Livros Artesanais

Ainda havia tempo para dor.

A cartografia da pele exposta… nervos e poros. A tintura feita a mão para contar as horas.

As portas noturnas acusando a solidão.  Cortinas sendo puxadas para o espanto da noite. Um corredor intenso onde o silêncio domina a janela. Lá fora, o vento úmido flagra uma ave solitária. As fotografias expostas em preto e branco. A ave, modulada no azul. Molduras descritas dentro da saudade. Tenho nas mãos as horas que antecedem a noite no improvável som de um pássaro mudo. A voz na garganta é esse grito onde a solidão encontra-se com a minha na esquina da rua de cima.

Mariana Gouveia
Desvios para atravessar quintais
Scenarium Livros Artesanais

Desvios para atravessar os quintais · Meus Livros · Projeto Diário das quatro estações · Scenarium Livros Artesanais

A cidade de minha escrita

A cidade que escrevo em meu diário atravessa a rua de cima e me leva para além dos limites dela…

A minha escrita caminha por tantas cidades dentro de uma só e não só por ela. Mas dela, eu cito o sol que se põe… a lua mais brilhante e dos desvios sobre os quintais e seus telhados antigos.

Mais do que uma cidade, uma legião delas me inspiram… inclusive, até as que nunca visitei. Mas, quando o sol se propõe a oferecer um espetáculo diferente todos os dias.

“A minha rua tem uma cidade vazia… cheia de casas sem habitantes e com quadros ocos. De vez em quando, peregrinos com ideais de sonhos cruzam por ela. Atravessam seus muros e plantam nos quintais – chegam a abrir as portas e janelas – mas logo vão embora deixando as casas mais vazias ainda e as aves desabitadas penduradas em galhos secos de árvores sem cor. As estações acontecem dentro das horas do dia. A primavera se perde no calor imenso que queima tudo. A minha rua tem uma cidade em ruínas e essa solidão imensa sem você. Nos quintais a esperança foi moída e os mitos que cuidavam dos jardins se desmitificaram todos. A solidão da minha rua tem tatuagem da presença de alguém. Tatuagem desbotada, igual aos grafites feitos nos muros tortos da minha cidade. Tem a maresia rasgada em mil pedaços dentro da noite e tem a vitrola antiga a entoar fados só para registrar que o mar é logo ali, além da esquina.”

Mariana Gouveia
Desvios para atravessar quintais.
Scenarium Livros Artesanais

Desvios para atravessar os quintais · Projeto Diário das quatro estações

As quatro estações do ano

Primavera

Dizem que as flores esperam que em todos os jardins seja
sempre primavera

Escrever dentro das quatro estações é um processo de conhecimento. Os dias que acontecem dentro delas se misturam em nuances que aproveito nas palavras do diário.

Verão

Aqui, onde moro é verão o tempo todo e poucas vezes, acontecem todas em um só dia.

Outono

O vento, esse mensageiro de poesias

O outono, quando acontece aqui, espalha as folhas pelo chão.

Inverno

Os nomes das coisas antecedem as estações.
Nem era dia de nada e ainda é dia de alguma estação…
Como digo que a flor só nasce na primavera?
E quem sabe se a folha só assopra no vento do outono?
No inverno, o frio é esse vazio de pele, mas e no verão?
Quem cala essa voz que grita?

Denominar cada uma é estranhar o ritmo que acontece aqui. Não sei em qual estação minhas palavras vão te alcançar. É mais do que um diário… É uma rota que tracei e marco você, na bússola que te guia nos Desvios para atravessar os quintais.

Mariana Gouveia

Cadeados Abertos · Projeto Diário das quatro estações · Scenarium Livros Artesanais

Das maresias

A cidade cumpria seu rito de anos … O sol castigava a todos, como sempre…
Naquele dia, o mar cantava em meu ouvido.

Maresia pura em minha boca.
Peguei minhas mãos – tuas – toquei de leve meu corpo… era pele gozo, vontade.
Naquele dia – como nunca havia sido de ninguém – fui sua,

Mariana Gouveia
Cadeados Abertos – Diário das Quatro estações
Scenarium plural Editora
*magem: Mira Nedyalkova

Projeto Diário das quatro estações

Há um pássaro dourado voando em minha mão…

E era feito de escamas – quase peixe – um tsuru desenhado na mente. Era de lata, a ave, que cantava em silêncio, tal qual a menina muda que conheci dias atrás. Há um pássaro preto, preso em minha mão, era feito de laços – um coração em presente – com suas asas negras a soltar penas com seu canto a ecoar memórias. Palavras que encontrei em um caderno velho onde escrevia histórias de amor.
Há um pássaro sem cor na minha mão. Era sem asas e sem pena – não cantava dentro da noite… Mas quando amanhecia e o vento sacudia as folhas das árvores do quintal, ele voava e se tornava um beija-flor e era colorido com seu canto amanhecido de sol.

Mariana Gouveia
No bico do beija-flor beija a flor
*texto que fará parte do Projeto Diário das Quatro Estações 2020 pela Editora Scenarium Plural