Das palavras das cartas · Desvios para atravessar os quintais · Projeto Diário das quatro estações · Scenarium Livros Artesanais

dos corações

A moça de coração na roupa me cede lugar no ônibus. Passo em frente a lugares onde fui presença.
Relembro da história do filme. Faço anotações para a carta que escrevo mentalmente. Os corredores ficaram mais cinza hoje. A menina do beijo rosa se foi. Deixou um coração riscado em uma folha com meu nome. Nas mãos dela tudo virava corações. A voz se perde dentro da viela em frente a igreja. Como dar cor para uma mulher ausente de fé?

As mãos aceitaram o toque… o corpo agradeceu o abraço. Em alguns dias o aconchego vem com o silêncio da alma.

Mariana Gouveia
Desvios para atravessar os quintais – páginas amarelas –
Scenarium Plural Editora

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das palavras das cartas

A carta fora escrita no tempo do passado. As flores se preparavam para o fruto da estação. O céu tinha cores dentro dos olhos dela e a gente se despedia dos dias.
Ela falava de outro país e das ruas em que andou em peregrinação. Eu, dos insetos diferentes que surgiram no meu lugar. Ela passava por um inverno castigante, lareira, vinhos… ruas com neve e fogueiras sem luar. eu, os chás frios na madrugada quente, o calor a arder a pele e a alma. Escrevia-me aos pés da torre famosa e eu, do meu quintal simples de todo dia.  Um universo de distância nos separava e nunca estivemos tão juntas como se as mãos pudessem tocar. Perguntava das árvores que quase tocavam o céu dentro do quintal que ela deixou e eu dos cheiros das flores de lá. Inventei orquídeas novas para ela que nunca existiram – só para ver o brilho nos olhos cheios de expectativas – e ela me dizia sobre o perfume da laranjeira no meu quintal onde a joaninha se aninhava. Eu, era a menina laranja para além dos dias e ela a moça lilás que foi colher futuro. O futuro demorou dentro dos dias e quando ela voltou já não havia mais tempo. Deu-me a moça subversiva e revolucionária dos poemas e apresentou-me o Paraíso com nome de filtro de cor. A vi dentro do sonho que tive e brilhava lindamente dentro da minha poesia.

Mariana Gouveia
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– Havia o encontro marcado

Sabia a hora exata em que o universo mudava a rotina da lógica. Tudo agia para que a sensação fosse de surpresa. Cada passo fazia com que a memória ativasse os encontros passados e ainda assim era como se fosse a primeira vez.

Mariana Gouveia
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— aquela hora…

em que os telhados velhos trazem lembranças da infância e o cheiro do mato se mistura ao orvalho da manhã. A permissão para sentir vem da natureza que me concedeu a fé enquanto a memória resgata coisas que a menina dentro da mulher não quer esquecer. O cogumelo colhido na floresta como se fosse a cura e o conselho do pai para tomar cuidado com o veneno contido dentro das coisas bonitas — base para mais um ensinamento.

Teve aquele dia, em que o corte no pé foi o momento certo para mostrar a cura… eu chorei uma vida inteira. Ali, como se cada parte do corpo, cada átomo do Universo fizesse parte de mim.

Quero te dizer que tenho shitake colhido ali, naquela parte onde a infância mostrava que tudo é o começo, meio e fim. E a poesia recém-escrita, olho no olho… onde o orvalho cresce na minha própria alma.

Mariana Gouveia
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Das palavras das cartas

O envelope que chegava era laranja e as letras corridas como se tivessem pressa de chegar.
Havia desenhos floridos nas linhas que se misturavam aos corações onde se entrelaçavam vontades. Os risos, pareciam vir junto e a brisa suave das ruas da cidade, do rio que circundava a pequena floresta de eucaliptos e outras árvores do lugar – o cheiro – dançavam na imaginação como uma folha solta no ar. Falava dos detalhes da vida, da rotina. Do jornaleiro do qual sabia o nome, até a história dele me contou – e parecia que eu também o conhecia – dos nomes dos filhos. Dos tsurus que delicadamente adornavam o céu do seu quarto, todo lilás e da janela podia ver o pé de lanterna chinesa que a vizinha plantara e oferecia dezenas de flores no canto do muro… iluminando o dia com seu laranja – e repetia a frase da canção de Gadu – que me faz ficar bem mais. A flor parecia que tinha a energia de acordar a alma, mesmo depois de um dia frio, um dia triste. Assim, em cada mês, a delicadeza vinha em cores e versos. Uma tela de arte colorida de carinho, recheado de palavras que abraçavam e coloriam o dia.


Mariana Gouveia
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Dos verbos indefinidos

Traçou a rota do dia. Mudou as rotinas todas. Pendurou a asa no varal. Havia previsão de chuvas. A lua era apenas um risco dentro da nuvem. Um menino de cabelo laranja mudou o dia. Às vezes, o destino improvisa as coisas e as horas têm cheiro de frutas. As distrações traziam vontade em outros idiomas. Um sábio mudou para o endereço além das estrelas, enquanto guerreiros mudam rituais no dia. A paz pode ser descrita em um poema, mesmo com uma guerra interna sendo travada na alma. A sorte do dia sendo decifrada em um jogo de memórias. O riso encerra o abraço com a vida. A ignorância das marés criando hábitos em um dia marítimo. A fortuna chegando na flor de laranjeira. O verbo mudando o fim da página. Os elementos da loucura sendo refúgio para as noites do nada e a verdade desbotada no boato do que o olho criou e a paisagem é essa janela onde o vento bate.



Mariana Gouveia
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Ainda havia tempo para dor.

A cartografia da pele exposta… nervos e poros. A tintura feita a mão para contar as horas.

As portas noturnas acusando a solidão.  Cortinas sendo puxadas para o espanto da noite. Um corredor intenso onde o silêncio domina a janela. Lá fora, o vento úmido flagra uma ave solitária. As fotografias expostas em preto e branco. A ave, modulada no azul. Molduras descritas dentro da saudade. Tenho nas mãos as horas que antecedem a noite no improvável som de um pássaro mudo. A voz na garganta é esse grito onde a solidão encontra-se com a minha na esquina da rua de cima.

Mariana Gouveia
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Tem a flor estampada no vestido…

o mês e seus dias de chuva atrapalham a visão da Lua. A rua de cima tem uma canção no repeat. Escrevo cartas pela metade. Folhas inteiras de frases inacabadas. A sensação de falta de ar no limite. O vento arrisca pela cortina e a solidão é esse emaranhado de ciclos repetitivos. A rua de cima tem dias de vazios nas árvores — cabia a brancura em qualquer canto — e as nuvens em espiral causando a plenitude do céu. Era uma vez, assim, a vontade de ser. Tem dia em que as histórias ficam sem o final.

Desvios para atravessar quintais.
Lançamento 28/11 em uma live via Facebook pela página da Scenarium. as 17 horas (horário de Brasília).
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O meu diário

Sábado, dia 28 de novembro de 2020, acontecerá o lançamento do meu quinto livro Desvios para atravessar os quintais, dentro do Projeto Diário das Quatro Estações, pela Scenarium Plural Editora. O lançamento será de forma on line, pelo facebook da editora, por causa da pandemia.

No formato de um diário, fui escrevendo durante os dias dando voz ao que senti. É quase uma confissão de sentimentos, emoções e, momentos. É o meu diário.

“Escrevo o roteiro da viagem e coloco nome nas coisas que toco — dou a tudo isso o nome de poesia. Canção que se repete em mim. O gosto de férias se aproxima e a rotina ganha anotações diárias. Faço listas, cumpro metas. Jogo fora lembranças que só aumentam a bagagem… Preparo sementes para jogar nas estradas. Refaço planos esquecidos…
Hoje, posso mais… varrer as folhas, aspirar as flores, beijar os cães — me imunizo das vontades todas. O sorvete de pistache tem outro sabor… quase uma rusga de felicidade. Houve mudança no tempo. A estação emite sinais. O vento antecipa a queda da temperatura e a febre é só um presságio na ave que beija a flor. Guardo os mapas e recrio instantes que ainda vou viver… “

Mariana Gouveia
Desvios para atravessar quintais.
O lançamento será dia 28/11/2020, em uma live via Facebook pela página da Scenarium.  as 17 horas (horário de Brasília). E você já pode adquirir seu exemplar na pré venda. Basta clicar aqui ou aqui

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– Sou eu ali naquelas linhas

Quando o olhar atravessa os muros e o lápis ganha contornos de confidente, sou eu ali naquelas linhas…

– A noite se recolhe gesto… acolhe a geometria das horas e o signo ascendente. Desenho histórias vividas através dos acontecimentos inéditos. Era lua de se perder, em algum lugar. Ninguém sabia os caminhos das rotas e os retornos nos devolviam sempre para o mesmo lugar no mapa onde atalhos não são traços possíveis. E são o melhor da viagem, que começa do lado de dentro. Descubro que o meu nome se repete em outras pessoas, com sonoridade nova. Sou duas e ao mesmo tempo: uma… dentro da minha solidão. E em meio a perguntas que ficam no ar, brinco de roda com o dia porque se existe a lua de se perder na aldeia, existe também a de plantar, cortar o cabelo, de pescar e catar ervas. Qual delas eu sou enquanto escrevo? –

Sou tantas que se misturam em uma só e viaja além do tempo, volta ao passado para viver as lembranças dos momentos e me derramo junto às palavras para então encantar com as coisas miúdas do quintal, com as asas em pleno voo dos pássaros.

Mariana Gouveia
Desvios para atravessar quintais.
O lançamento será dia 28/11/2020, em uma live via Facebook pela página da Scenarium.  as 17 horas (horário de Brasília). E você já pode adquirir seu exemplar na pré venda. Basta clicar aqui ou aqui