Das palavras das cartas · Desvios para atravessar os quintais · Projeto Diário das quatro estações

das palavras das cartas

A carta fora escrita no tempo do passado. As flores se preparavam para o fruto da estação. O céu tinha cores dentro dos olhos dela e a gente se despedia dos dias.
Ela falava de outro país e das ruas em que andou em peregrinação. Eu, dos insetos diferentes que surgiram no meu lugar. Ela passava por um inverno castigante, lareira, vinhos… ruas com neve e fogueiras sem luar. eu, os chás frios na madrugada quente, o calor a arder a pele e a alma. Escrevia-me aos pés da torre famosa e eu, do meu quintal simples de todo dia.  Um universo de distância nos separava e nunca estivemos tão juntas como se as mãos pudessem tocar. Perguntava das árvores que quase tocavam o céu dentro do quintal que ela deixou e eu dos cheiros das flores de lá. Inventei orquídeas novas para ela que nunca existiram – só para ver o brilho nos olhos cheios de expectativas – e ela me dizia sobre o perfume da laranjeira no meu quintal onde a joaninha se aninhava. Eu, era a menina laranja para além dos dias e ela a moça lilás que foi colher futuro. O futuro demorou dentro dos dias e quando ela voltou já não havia mais tempo. Deu-me a moça subversiva e revolucionária dos poemas e apresentou-me o Paraíso com nome de filtro de cor. A vi dentro do sonho que tive e brilhava lindamente dentro da minha poesia.

Mariana Gouveia
Desvios para atravessar os quintais – páginas amarelas –
Scenarium Plural Editora

Encomende o seu exemplar
É só chamar (11)99241-5985

Deixe um comentário