Desvios para atravessar os quintais · Projeto Diário das quatro estações

BEDA – O boletim do dia…

relata o mistério. Havia dor em qualquer grito. O unicórnio na parede lembra o desenho da minha infância. Cartazes pediam silêncio onde ninguém se mexia. Rascunhos rasgados de cartas que nem foram escritas. O cheiro do verniz limita a distância. A moça de branco procura a veia e agita o frasco onde as purpurinas flutuam na alma.
A menina ri diante do mapa. Conhece o portal da imaginação. O relicário pendurado no peito. Sentia as asas do pássaro como se fosse dela. Via coração em tudo que é flor… Fechava os olhos e cantava coragem. A vida, esse doar incessante de dor.

Desvios para atravessar quintais
Diário das quatro estações
Mariana Gouveia
Adriana Aneli – Alê Helga – Claudia Leonardi – Darlene Regina – Lunna Guedes – Obdulio Ortega – Roseli Pedroso

Desvios para atravessar os quintais · Projeto Diário das quatro estações · Scenarium Livros Artesanais

A solidão é uma faca…

atravessando a garganta, o grito sufocado na dor. As paredes fechando em todas as portas e o vento trazendo as folhas para o quintal.
Tem noite em que o vazio atravessa a madrugada e o perfume das flores no jardim é apenas o aviso da passagem da lua pela décima casa astral.

A meteorologia erra a previsão enquanto o uivo do cão na rua de cima faz lembrar das coisas da infância — quando o mundo cabia até onde a vista alcançava.

Uma data me traz a presença de um menino que voou…

A vida é esse nocaute duro no peito a embrenhar lembranças do santo, vontades de céu em noite de lua…

Mariana Gouveia
Desvios para atravessar os quintais
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Vi um coração rabiscado no muro.

Desenhei na folha de papel para o menino que eu achava que fazia anos. A flor cabia na docilidade do dia. Na vitrine uma floresta falsa com sonhos de mentira. A torre da cidade-luz exposta como se fosse uma ponte por onde passar e chegar. L’a hamorny no salão da Esquina — tudo tinha coração em cada coisa — até a flor imitava no jardim.

A semente do amor-agarradinho se derreteu pela asa com amor em dobro. Deixava a vida de cabeça para baixo esse tal de amor. Cabia saudade em cada grito. A alma responde em ecos onde nem o coração escuta. Tem dia que o coração se desfaz feito reflexo de lua na piscina quando a luz se apaga.

Mariana Gouveia
Desvios para atravessar os quintais
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Das palavras das cartas · Desvios para atravessar os quintais · Projeto Diário das quatro estações · Scenarium Livros Artesanais

dos corações

A moça de coração na roupa me cede lugar no ônibus. Passo em frente a lugares onde fui presença.
Relembro da história do filme. Faço anotações para a carta que escrevo mentalmente. Os corredores ficaram mais cinza hoje. A menina do beijo rosa se foi. Deixou um coração riscado em uma folha com meu nome. Nas mãos dela tudo virava corações. A voz se perde dentro da viela em frente a igreja. Como dar cor para uma mulher ausente de fé?

As mãos aceitaram o toque… o corpo agradeceu o abraço. Em alguns dias o aconchego vem com o silêncio da alma.

Mariana Gouveia
Desvios para atravessar os quintais – páginas amarelas –
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— aquela hora…

em que os telhados velhos trazem lembranças da infância e o cheiro do mato se mistura ao orvalho da manhã. A permissão para sentir vem da natureza que me concedeu a fé enquanto a memória resgata coisas que a menina dentro da mulher não quer esquecer. O cogumelo colhido na floresta como se fosse a cura e o conselho do pai para tomar cuidado com o veneno contido dentro das coisas bonitas — base para mais um ensinamento.

Teve aquele dia, em que o corte no pé foi o momento certo para mostrar a cura… eu chorei uma vida inteira. Ali, como se cada parte do corpo, cada átomo do Universo fizesse parte de mim.

Quero te dizer que tenho shitake colhido ali, naquela parte onde a infância mostrava que tudo é o começo, meio e fim. E a poesia recém-escrita, olho no olho… onde o orvalho cresce na minha própria alma.

Mariana Gouveia
Desvios para  atravessar quintais
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Das palavras das cartas · Desvios para atravessar os quintais · Projeto Diário das quatro estações · Scenarium Livros Artesanais

Das palavras das cartas

O envelope que chegava era laranja e as letras corridas como se tivessem pressa de chegar.
Havia desenhos floridos nas linhas que se misturavam aos corações onde se entrelaçavam vontades. Os risos, pareciam vir junto e a brisa suave das ruas da cidade, do rio que circundava a pequena floresta de eucaliptos e outras árvores do lugar – o cheiro – dançavam na imaginação como uma folha solta no ar. Falava dos detalhes da vida, da rotina. Do jornaleiro do qual sabia o nome, até a história dele me contou – e parecia que eu também o conhecia – dos nomes dos filhos. Dos tsurus que delicadamente adornavam o céu do seu quarto, todo lilás e da janela podia ver o pé de lanterna chinesa que a vizinha plantara e oferecia dezenas de flores no canto do muro… iluminando o dia com seu laranja – e repetia a frase da canção de Gadu – que me faz ficar bem mais. A flor parecia que tinha a energia de acordar a alma, mesmo depois de um dia frio, um dia triste. Assim, em cada mês, a delicadeza vinha em cores e versos. Uma tela de arte colorida de carinho, recheado de palavras que abraçavam e coloriam o dia.


Mariana Gouveia
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Dos verbos indefinidos

Traçou a rota do dia. Mudou as rotinas todas. Pendurou a asa no varal. Havia previsão de chuvas. A lua era apenas um risco dentro da nuvem. Um menino de cabelo laranja mudou o dia. Às vezes, o destino improvisa as coisas e as horas têm cheiro de frutas. As distrações traziam vontade em outros idiomas. Um sábio mudou para o endereço além das estrelas, enquanto guerreiros mudam rituais no dia. A paz pode ser descrita em um poema, mesmo com uma guerra interna sendo travada na alma. A sorte do dia sendo decifrada em um jogo de memórias. O riso encerra o abraço com a vida. A ignorância das marés criando hábitos em um dia marítimo. A fortuna chegando na flor de laranjeira. O verbo mudando o fim da página. Os elementos da loucura sendo refúgio para as noites do nada e a verdade desbotada no boato do que o olho criou e a paisagem é essa janela onde o vento bate.



Mariana Gouveia
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Ainda havia tempo para dor.

A cartografia da pele exposta… nervos e poros. A tintura feita a mão para contar as horas.

As portas noturnas acusando a solidão.  Cortinas sendo puxadas para o espanto da noite. Um corredor intenso onde o silêncio domina a janela. Lá fora, o vento úmido flagra uma ave solitária. As fotografias expostas em preto e branco. A ave, modulada no azul. Molduras descritas dentro da saudade. Tenho nas mãos as horas que antecedem a noite no improvável som de um pássaro mudo. A voz na garganta é esse grito onde a solidão encontra-se com a minha na esquina da rua de cima.

Mariana Gouveia
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A cidade de minha escrita

A cidade que escrevo em meu diário atravessa a rua de cima e me leva para além dos limites dela…

A minha escrita caminha por tantas cidades dentro de uma só e não só por ela. Mas dela, eu cito o sol que se põe… a lua mais brilhante e dos desvios sobre os quintais e seus telhados antigos.

Mais do que uma cidade, uma legião delas me inspiram… inclusive, até as que nunca visitei. Mas, quando o sol se propõe a oferecer um espetáculo diferente todos os dias.

“A minha rua tem uma cidade vazia… cheia de casas sem habitantes e com quadros ocos. De vez em quando, peregrinos com ideais de sonhos cruzam por ela. Atravessam seus muros e plantam nos quintais – chegam a abrir as portas e janelas – mas logo vão embora deixando as casas mais vazias ainda e as aves desabitadas penduradas em galhos secos de árvores sem cor. As estações acontecem dentro das horas do dia. A primavera se perde no calor imenso que queima tudo. A minha rua tem uma cidade em ruínas e essa solidão imensa sem você. Nos quintais a esperança foi moída e os mitos que cuidavam dos jardins se desmitificaram todos. A solidão da minha rua tem tatuagem da presença de alguém. Tatuagem desbotada, igual aos grafites feitos nos muros tortos da minha cidade. Tem a maresia rasgada em mil pedaços dentro da noite e tem a vitrola antiga a entoar fados só para registrar que o mar é logo ali, além da esquina.”

Mariana Gouveia
Desvios para atravessar quintais.
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