contava nos gestos o corpo partido. Os riscos da mãe, ali no papel… medidas em centímetros a saudade. Era coisa para ser dita a olho nu. O pássaro sem asa, a linha ainda a costurar. A fruta no cesto — e o pomar — além da janela a exalar o cheiro real das coisas. O conto de fadas em papel e palavras. A irmã, ali, a imitar o mesmo gesto das tesouras e linhas. Artesã de alma e coração. O mesmo ritmo a encontrar a paz na arte. A letra da mãe ainda a marcar as cores fazia com que os instantes fossem relembrados entre risos e histórias. Alguém lembrou do sabor do bolo feito com a massa de mandioca e com isso desenrolou casos vividos na época — como se isso puxasse um fio — e mais histórias surgiam na fala delas… e era possível viver a saudade no gesto.
O campo dá a certeza das coisas. O vento aqui traz a leveza da brisa e há cada coração em cada grito. O céu tem asa em tudo quanto é canto e de noite, traz estrela em cada espacinho dele. Dá para ver as nebulosas, o caminho de Santiago… O Cruzeiro do Sul, sendo bússola vagueia no laguinho onde o cão se banha. Os vaga-lumes oscilam perto do lago e ele — o cão — corre atrás de algo que voa… Aqui, tudo voa — ou quase — e quando a asa vira coração, vira folha — e de dia, o azul é deslumbrante! Parece vestido de festa e as folhas ficam rendadas para ficar à altura da beleza. É tudo simples… a beleza da noite se esconde, porque fica tudo mais bonito, assim a olho nu. O campo ao longe, o barulho da floresta e o riacho sempre espera para depois… E depois, se transforma em sonho. E de sonho, em toda leveza de ser, eu sou.
Guardei o dia na memória e desenhei a volta. Ninguém se perde no tempo dentro das lembranças… as lanternas chinesas mostram os caminhos percorridos. [Era ainda ali, ontem e as histórias cantadas nas vozes das irmãs, o riso da sobrinha a entoar cânticos de louvor… era ainda ali, ontem quando a lua fazia seu caminho pelo céu estrelado — tanto, tanto que parecia um lençol bordado de diamantes] Repito as mesmas canções da infância no caminho da volta. Colho as frutas na árvore do lado e a rotina acaba por preencher o espaço das horas. [Era ainda ali, a infância… e desenhada dentro dela a fala da irmã mais velha a contar detalhes que passaram em vão… era ainda ali, a vida, nos riscos da mãe e lembrou-se de tudo que viveu quando era menina] O aroma do bolo a assar no forno — o fogão a lenha a crepitar aquecendo a alma. [Voltei à casa onde chorei mil vezes. E onde
escrevi todos os dias parte da minha história. Na janela, a cortina balança e o vento abriga cheiros que ainda me levam para lá] nas mãos trago os instantes vividos e guardo-os em uma caixinha da memória para outra vez viver dentro da saudade. Sei que continua lá, cada cantinho. Dentro da caixa de papéis que ainda guardam pedaços de mim. Revolvo a terra, arranco as folhas mortas e dou água aos instantes novos que brotam. A lanterna chinesa floresce como se iluminasse uma nova etapa renovada na energia que me banhei de amor.
[Há dias que não deveriam acabar].
Mariana Gouveia
Desvios para Atravessar Quintais
Diário das Quatro Estações
Scenarium Livros Artesanais