Desvios para atravessar os quintais · Meus Livros · Projeto Diário das quatro estações · Scenarium Livros Artesanais

 dos acontecimentos inéditos

A noite se recolhe gesto… acolhe a geometria das horas e o signo ascendente. Desenho histórias vividas através dos acontecimentos inéditos. Era lua de se perder, em algum lugar. Ninguém sabia os caminhos das rotas e os retornos nos devolviam sempre para o mesmo lugar no mapa onde atalhos não são traços possíveis. E são o melhor da viagem, que começa do lado de dentro. Descubro que o meu nome se repete em outras pessoas, com sonoridade nova. Sou duas e ao mesmo tempo: uma… dentro da minha solidão. E em meio a perguntas que ficam no ar, brinco de roda com o dia porque se existe a lua de se perder na aldeia, existe também a de plantar, cortar o cabelo, de pescar e catar ervas.

Qual delas eu sou enquanto escrevo?

Mariana Gouveia
Desvios para atravessar quintais.
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Afetos · das coisas breves · Desvios para atravessar os quintais · Projeto Diário das quatro estações · Scenarium Livros Artesanais

Outono

Inaugurava em mim o outono e a voracidade dos dias. Mora dentro de mim as tuas digitais e os caminhos que percorro em tua pele. A folha que cai enquanto o corpo treme. É preciso sobre(viver) dentro das estações.

Mariana Gouveia
Desvios para atravessar quintais
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O tempo de ser das coisas.

Acontecia o dia na hora das coisas e havia o tempo de o jardim mudar a cor. Os lírios criaram delírios no quintal. A manhã atmosfera de espera, enquanto do céu chovia uma garoa fina. O vento derrubava as folhas secas a pedido da estação. A palavra espera ganhou conforto no abraço. A solidão é esse estado desajeitado de ser dois.

da geografia das coisas
Mariana Gouveia
Desvios para atravessar os quintais
Scenarium Livros Artesanais
Ph: Marta Bevacqua

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Alguém aí tem café?

Acordei com o cheiro de pão invadindo tudo. Não havia fome de outro dia. Nem padaria aberta vendendo sonhos. A manhã anunciava decisões vendidas em caixa.

Mando entregar em qualquer canto do universo. Frete grátis.

E cheiro a invadir as manhãs e o cão da vizinha a latir. Sono perdido onde não se teve. Sem a opção do pão comi poesias do paraíso. Desceu matando fome de dor. Era quase um grito. Duas colherezinhas de mel para a garganta que ecoa seu nome sem parar. É outra vez, dia na imensidão do nada. Água fervendo. Esqueci a receita da moça de azul para o chá. Alguém aí tem café?

Mariana Gouveia
Desvios para atravessar quintais
Scenarium Plural Editora

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as estações se misturam meio dia e meia)

Ph: Pinterest

– O azulejo da cozinha, a cantoneira, a mesa posta para o café. A porcelana esquecida no canto e a noite e seus vazios… e… e… Esqueço-me de que a estação das flores é a primavera e nos dias de quase inverno e outono seco (as estações se misturam meio dia e meia) e o vento invade os aposentos da casa quando o sol doura tudo que é canto.

Meia noite e meia e a luz ainda detalha o canto das cortinas. É preciso coragem para retirar os panos que tapam os porta-retratos. Pessoas conhecidas dentro de mim mesma e

aquele postal do seu lugar. Um estranho postal no meio da parede a murmurar seu nome durante a noite inteira acompanhando o tic tic do relógio e o ponto turístico daquela cidade em que sonhamos conhecer e andar pelas esquinas de mãos dadas enquanto você pronuncia o idioma repetindo os versos da canção. A mão espalhada acolhia o ser que voa e na escuridão a asa perde o poder de direção. As aves, intactas, desabitadas em seu modo de voar. Conversa com os pássaros entalhados, para ensinar que voar não tem segredo, mas ainda assim, perdeu a autonomia dos voos enquanto o pouco céu for a estante como morada.

Mariana Gouveia
Desvios para Atravessar Quintais
Diário das Quatro Estações
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Outro dia, era a certeza de tudo, hoje, apenas o vazio da solidão aérea das vontades.

– Pensou nas roupas do varal — o lençol branco, de linho, bordado com o monograma dela — quase um voo — era a invenção para ter asas… As mãos a ganhar acaso de bicho e o imaginário a criar sombras entre o chão e o céu. A pele a equilibrar a rotina do medo. As falhas entre as folhas criam desenhos sob a luz da lua. Ela — tão etérea — visitante invasora da vida. A renda a desenhar as asas. Os olhos aumentados em uma lembrança que não vi. O abismo tão imenso diante da miniatura no varal. E já não era mais o lençol da memória. Era esse abuso de cremar o ouro do sol. O voo noturno e o pouso a caber dentro do sonho. A luz, quase vasculhando cada canto do quarto.
Outro dia, era a certeza de tudo, hoje, apenas o vazio da solidão aérea das vontades.

Mariana Gouveia
Desvios para Atravessar quintais
Diário das Quatro Estações
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Desvios para atravessar os quintais · infinitamente · Projeto Diário das quatro estações · Scenarium Livros Artesanais

Das casas habitadas de lembranças

Na casa do pai, a renda desenhada no pé de canela. O cheiro lembrando os chás das manhãs de invernos.

O quintal traçado dentro do pequeno pomar e suas frutas servindo de comida aos pássaros.

As histórias ecoando em cada canto. Os móveis empilhados em um quarto. As fotografias antigas dentro da mala e seus álbuns retratando épocas de nós.

A árvore do balanço fora cortada para a limpeza do lugar.

Cômodos vazios de nós, mas com todas as histórias e lembranças dentro delas.

Mariana Gouveia
Desvios para atravessar quintais
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Das rotinas · Desvios para atravessar os quintais · Projeto Diário das quatro estações · Scenarium Livros Artesanais

dos rituais da noite

Laurie Kaplowitz

Conhecia os barulhos da noite e seus silêncios também. Ouvia os pássaros noturnos como presságios de insônia. A noite tão curta dentro das horas. As horas tão longas dentro da noite. Sabia das rotinas do relógio… o tic tac inconstante fora dos minutos. O ocaso dourando o céu como se pintura fosse. A arte expressa no que os meus olhos veem… Conhecia os gestos, o barulho da TV em algum lugar perto. Conhecia o caminho das horas até o amanhecer.

Mariana Gouveia
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Das rotinas · Desvios para atravessar os quintais · Projeto Diário das quatro estações · Scenarium Livros Artesanais

Acontecia dentro das memórias o rito dos dias de espera

Ph: Łucja Stefaniuk

Havia o costume de vasculhar as gavetas, jogar os papéis velhos fora. Refazia nas memórias os dias… Aqueles retratos antigos ganhavam atenção nas lembranças recentes. O anel — por medo de perdê-lo — embrulhado no papel de borboleta, na caixinha que veio, cabe no dedo dentro das vontades… Jogava tudo que era velho fora, para depois recolher um a um os acontecimentos. Deixava por último a reza dá sorte. Encontrava no quintal a sorte lida nas cartas… As anotações do horóscopo e a conjunção estelar. Depois disso, respirava e ia viver a vida.

Mariana Gouveia
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O conto de fadas em papel e palavras

contava nos gestos o corpo partido. Os riscos da mãe, ali no papel… medidas em centímetros a saudade. Era coisa para ser dita a olho nu. O pássaro sem asa, a linha ainda a costurar. A fruta no cesto — e o pomar — além da janela a exalar o cheiro real das coisas. O conto de fadas em papel e palavras. A irmã, ali, a imitar o mesmo gesto das tesouras e linhas. Artesã de alma e coração. O mesmo ritmo a encontrar a paz na arte. A letra da mãe ainda a marcar as cores fazia com que os instantes fossem relembrados entre risos e histórias. Alguém lembrou do sabor do bolo feito com a massa de mandioca e com isso desenrolou casos vividos na época — como se isso puxasse um fio — e mais histórias surgiam na fala delas… e era possível viver a saudade no gesto.

O campo dá a certeza das coisas. O vento aqui traz a leveza da brisa e há cada coração em cada grito. O céu tem asa em tudo quanto é canto e de noite, traz estrela em cada espacinho dele. Dá para ver as nebulosas, o caminho de Santiago… O Cruzeiro do Sul, sendo bússola vagueia no laguinho onde o cão se banha. Os vaga-lumes oscilam perto do lago e ele — o cão — corre atrás de algo que voa… Aqui, tudo voa — ou quase — e quando a asa vira coração, vira folha — e de dia, o azul é deslumbrante! Parece vestido de festa e as folhas ficam rendadas para ficar à altura da beleza. É tudo simples… a beleza da noite se esconde, porque fica tudo mais bonito, assim a olho nu. O campo ao longe, o barulho da floresta e o riacho sempre espera para depois… E depois, se transforma em sonho. E de sonho, em toda leveza de ser, eu sou.

Guardei o dia na memória e desenhei a volta. Ninguém se perde no tempo dentro das lembranças… as lanternas chinesas mostram os caminhos percorridos. [Era ainda ali, ontem e as histórias cantadas nas vozes das irmãs, o riso da sobrinha a entoar cânticos de louvor… era ainda ali, ontem quando a lua fazia seu caminho pelo céu estrelado — tanto, tanto que parecia um lençol bordado de diamantes] Repito as mesmas canções da infância no caminho da volta. Colho as frutas na árvore do lado e a rotina acaba por preencher o espaço das horas. [Era ainda ali, a infância… e desenhada dentro dela a fala da irmã mais velha a contar detalhes que passaram em vão… era ainda ali, a vida, nos riscos da mãe e lembrou-se de tudo que viveu quando era menina] O aroma do bolo a assar no forno — o fogão a lenha a crepitar aquecendo a alma. [Voltei à casa onde chorei mil vezes. E onde

escrevi todos os dias parte da minha história. Na janela, a cortina balança e o vento abriga cheiros que ainda me levam para lá] nas mãos trago os instantes vividos e guardo-os em uma caixinha da memória para outra vez viver dentro da saudade. Sei que continua lá, cada cantinho. Dentro da caixa de papéis que ainda guardam pedaços de mim. Revolvo a terra, arranco as folhas mortas e dou água aos instantes novos que brotam. A lanterna chinesa floresce como se iluminasse uma nova etapa renovada na energia que me banhei de amor.

[Há dias que não deveriam acabar].

Mariana Gouveia
Desvios para Atravessar Quintais
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