Afetos · Lunna Guedes · Scenarium Livros Artesanais

Domingo,10 — *Flores que nascem resistentes nos muros e nos quintais

* quote extraído do Coletivo Ao vento, todo dia  – do texto de Nirlei Maria Oliveira

Todo mundo deveria ter um quintal… falei isso com Lunna – mia bambina – nas conversas rotineiras que mantém meu lado lúdico ativo enquanto os olhos não podem ler.

Comentei isso depois de “vê-la” encantada com as frutas que rudemente esborrachava no chão. Quando ela retratou o sabor das amoras e das uvaias e a hortelã encontrado em meio a uma moita de samambaias eu voei para além dos meus muros e corri para o futuro quintal dela. Uma cadeira encostada na parede branca, os ladrilhos formandos caminhos entre as árvores… eu vibrei.

Ela já não era mais peregrina do meu lugar e quando falávamos de quintal, ela estaria repleta de afetos que só um quintal emana. Seríamos ponte entre o meu quintal e o dela. Já imaginou uma rede de pontes interligando quintais vida afora? Além de ruas de cima ou esquinas da rua debaixo? É como se uma janela abrisse e o cheiro de chá exalasse seus aromas entre meu capim limão e o hortelã miúdo dela.

No meu quintal os cães implicam com os gatos… no dela, o gato estranha o povo recém-chegado onde antes o lugar era só dele… e a vizinha mexeriqueira busca contato logo com quem prefere os animais a pessoas.

Todo mundo deveria ter um quintal. Nem precisava ser grande, ter horta, pedrinhas brancas mostrando caminhos de estufas onde as orquídeas soltam suas folhas e a baunilha exala seu cheiro peculiar.

Mas deveria ter pelo menos um pé de jabuticaba – ou alecrim plantado em vasos grandes ou no chão mesmo, rodeados de vinca e suas variadas flores.

Hoje, com as moradias – em sua maioria – fixadas em edifícios enormes e o paisagismo predominante em folhagens, um quintal traz a poesia de manhãs mornas, de folhas recém caídas e o sussurro do vento. E tem os pássaros – que muitas vezes ela nem sabe o nome… só que é grande e outros que cantam nas madrugadas daqui e de lá.

No meu quintal, há um desvio onde pássaros e borboletas cruzam em suas rotas rumo ao céu. No dela, o pássaro metálico cruza em meio ao cinza e o verde – agora tão dela quanto meu.

Você ouve o som das flores? Quando as pétalas roçam umas nas outras o som das flores ecoa…, mas isso, só consegue ouvir quem tem um quintal.

Mariana Gouveia
BlogVember via Scenarium Livros Artesanais

Afetos · Das palavras das cartas · Lunna Guedes · Scenarium Livros Artesanais

Sábado, 09 — *Alcanço o balanço… plantado no quintal de casa.

* quote extraído do Coletivo Ao vento, todo dia – do texto de Lunna Guedes

Bambina mia,

não tenho balanço no quintal, mas já tive, assim como você, lá na infância e via o mundo do alto quando chegava minha vez, depois dos outros irmãos. Acho que para mim era diferente do que para eles. Eu voava até bater o pé no galho da mangueira e meus pensamentos voavam para além da estradinha que serpenteava o rio.

Depois disso, o balanço se transformou em memórias gostosas que sempre arranca risos em conversas com os irmãos, quando lembramos dele. Dessas memórias me lembro do cheiro da malva seca e do cheiro das flores de manga… e em nossas conversas o balanço – teu, lá da tua infância – sempre me causa ternura. Já reparou como nossas histórias se atravessam? Como agora, onde um desvio no meu quintal me leva apara o seu.

Acho isso lindo, assim como acho lindo quando nossos pensamentos se ligam à tempestades ou chuva mesmo – e garoa – e a lua e os poemas… o sabiá laranjeira, o beija-flor e até as farfallas…eu não saberia explicar e nem quero… quero apenas sentir essa conexão com todas as cores da inveja – ops – assim como o vento, as folhas, a madrugada e as canções de Léon.

Quando meu quintal invade o seu acho a mais extraordinária das aventuras. Quase sinto o cheiro da flor de maracujá, porque o canto dos pássaros consigo ouvir quando falo com você.

O ipê não comporta um balanço, senão já plantaria um só para te alcançar plena de voos, mas alegra-me saber que agora acorda com os pássaros como eu e o chá de hortelã que faz para tu e o tuo bambino também chega até aqui na doce forma de compartilhar.

Aceita um xícara?

Bacio,
Mariana Gouveia
BlogVember via Scenarium Livros Artesanais

Afetos · Das palavras das cartas · Scenarium Livros Artesanais

Sexta,  08—  *Esquecida nos adjetivos que desenhei no poema do teu caderno vazio

* quote extraído do Coletivo Ao vento, todo dia — todo dia, de Suzana Martins

Ana,

às vezes, só às vezes, eu esqueço do combinado e volto a pensar em você… hoje mesmo, a lua está divinamente ligada à Marte em linha reta e não teve como não ligar você e o universo pleno de memórias suas.

Já te contei que te vejo nas minhas ruas e até te chamo pelo nome para depois descobrir que era apenas alguém parecido… uso a desculpa do olho em conserto para não usar a vontade do coração. Soletro seu nome duas vezes seguidas para justificar essa ausência.

Como regular a saudade no corpo, Ana? Como esquecer dos poemas que declaramos juntas e que não coube mais na sua letra em memória de mim, feitos ainda em um testamento falso de que apenas isso finalizaria uma história dividida entre dois países, em um caderno vazio… dentro das ruas e vilas que você me levava pelas mãos mundo afora.

Em tempos de remake, a nossa história virou um livro… dos mais lindos e eu fiquei por dias na soleira da porta te esperando para te contar… mas, o silêncio, esse vazio no universo todo parece o poema do teu caderno branco e não houve ecos, mesmo que eu gritasse.

Foi assim: você nunca mais regressou e eu deixei recados escritos às pressas para caso você voltasse, mesmo sabendo que não… por isso, Ana, leva com você a canção que cantamos juntas e que esqueci a letra, leva também as manhãs mornas e deixa comigo só a lua e suas fases inconstantes, assim como essa saudade, as lembranças e a poesia.

Mariana Gouveia
BlogVember via Scenarium Livros Artesanais

Afetos · Das palavras das cartas · Scenarium Livros Artesanais

Quinta, 07 — *São vigilantes discretos, prendem os pesadelos no embornal até o nascer do sol 

* quote extraído do Coletivo Ao vento, todo dia — da prosa de Rozana Gastaldi Cominal

Dine,

hoje lembrei-me tanto de você pequena… vasculhei as fotos e te envolvi no mais puro amor… aquele amor de uma mãe que não pariu a filha, mas sabe-a no coração.

Choveu o dia inteiro e confesso que daria tudo para tirar de você essa dor, esse medo, esse mal. Não posso, Dine… Mas dentro de nossa fé sabemos quem pode pegar tudo isso com as mãos e transformar em aprendizados e certezas. Milagre é uma palavra que existe em nosso dicionário e nós acreditamos nela. Acreditamos em Deus e em anjos.

Alguns anjos não dormem… são vigilantes discretos. Não tiram as dores, nem conseguem mudar o curso do destino… mas guardam os pesadelos noturnos em embornais para o amanhã acontecer em alento. O amanhã será sempre feito de renovação, de esperança.

Sei que essa nova caminhada será difícil… e que os caminhos serão tortuosos, mas também sei que você terá tantas pessoas te apoiando e caminhando junto com você… a gente – todos que te amam – estarão em todos os instantes te envolvendo no mais puro amor e tudo será mais fácil.

Você conhece o sinônimo da fé e do quão poderoso é o Pai. Ele não abandona os filhos e em momentos difíceis Ele nos carrega nos braços. E com fé nessas palavras, já te vejo curada e bem.

Te amo sempre!
Beijo meu,
Mariana Gouveia
BlogVember via Scenarium Livros Artesanais

Afetos · Das palavras das cartas · Lunna Guedes · Projeto Fotográfico 6 on 6 · Scenarium Livros Artesanais

6 on 6 – Quinquilharias

Quarta, 06 — *Só pensei nas delícias dos nossos dialetos.
* quote extraído do Coletivo Ao vento, todo dia — da prosa de Mariana Gouveia

Bambina mia,

desde que li a palavra quinquilharias para o desafio do projeto fotográfico 6 on 6 fiquei imaginando como a palavra me alcançaria e claro que tive que aproveitar o projeto do blogvember e transformar dois em um. Então, bambina, só pensei nas delícias dos nossos dialetos intercalando entre nossos quintais. Quinquilharia é uma das palavras que mais gosto… acho lindo a sonoridade assim como acho lindo essa nega maluca e os tachinhos de cobre que eram de minha bisavó, depois de minha mãe e agora são meus. Estavam em uma caixa guardados entre outras quinquilharias e limpei para a foto. Vai me dizer que o latãozinho de leite não é lindo!!

A minha coleção de conchas, que ganhou morada em um vidro no fundo do armário também fazem parte do meu acervo de trecos e quinquilharias. E tenho certeza – ok? – de que você concorda comigo de que nossos baús, caixas, gavetas e vidros e dialetos não se maravilham em manhãs de diálogos e instantes, dentro das palavras que escolhemos e gostamos.

Mas, bambina… pasme! Na caixa de papelão com os “relicários” da família sob meus cuidados – ou quase – achei essas armações que eram de um ex cunhado… e que serão devidamente devolvidas amanhã. Foi um achado mesmo, e nem sei como vieram parar na parte obscura do baú… Essas sim, ganham a versatilidade do nome quinquilharias…

Entre as minhas lindas-tristes tralhas velhas estão algumas encomendas que as clientes nunca vieram buscar, do século passado – ohhh!!! – e parte do acervo do curso de artesanato que dei para mulheres em situação de vulnerabilidade. Ganharam abrigos no canto do baú e volta e meia algum deles consegue ser adotado como presente para alguém.

Sabe, bambina, não vou negar que minha quinquilharia preferida é essa mala. Era do meu pai e para evitar brigas, antes que ele partisse me deu, porque sabia do meu amor por ela. O forro interno ainda é o tecido original. Data de antes de eu nascer… A mala deve ter carregado sonhos, as camisas de linho de meu pai, o embornal que ele levava nas viagens para a cidade para trazer pão e tantas saudades. Eu sempre a disputei entre outras quinquilharias que ele prezava como tesouros. Hoje, ela guarda memórias, que também fazem parte das minhas quinquilharias e se misturam com as suas em um dialeto só nosso.
As bonecas e principalmente, a Frida, eu que as fiz… lá em meados de alguma adolescência e ficaram guardadas como modelos. Dormiram até ontem na mala quando as acordei para a foto.

Essa bandeja simples traz o início de uma menina que sonhava em escrever e levar as palavras mundo afora. Debaixo do pé de sete copas, a menina aprendia a emoldurar palavras, tecer linhas e escrever sonhos. Talvez, o universo já havia preparado tudo para que a minha rua cruzasse com a sua e os nossos quintais se interligasse da melhor forma, dentro do cuore.

Ti voglio bene!
Amo tu!
Grazie per tutti!
Mariana Gouveia
Post parte do projeto fotográfico 6 on 6
Lunna GuedesClaudia Leonardi Obdulio Nuñes Ortega – 
Roseli Pedroso – Silvana Lopes
e BlogVember via Scenarium Livros Artesanais


Afetos · Das palavras das cartas · Scenarium Livros Artesanais

Terça, 5 — Acordar dentro dos dias limpos pelos raios de sol

* quote extraído do Coletivo Ao vento, todo dia  – do texto de Nirlei Maria Oliveira

Kha,

depois de tanto tempo, escrevo-te novamente. A gente se sabe dentro de silêncios, mas de vez em quando inventamos esses diálogos escritos em manhãs de sol ou noites estreladas. Quero dizer que estou com saudades.

O tempo aqui parece ter as mesmas asas dos teus pássaros e ontem vi um arco-íris que se formou para os lados do sul e salvei essa alegria para te contar. Mas hoje, o sol aquarelou o amanhecer em nuances que te faria dançar. Sei disso, Kha, porque li você em um verso dourado dias atrás que as aquarelas do sol dançam em seu corpo e agora quando vejo elas se formarem lembro-me de você.

Não há nada mais bonito que um sol nascendo, Kha… você afirmou isso para logo depois dizer que não havia nada mais bonito que uma noite de lua, ou nada mais bonito que o silêncio da madrugada ou a algazarra dos pássaros no amanhecer… cheguei a conclusão das belezas que te rodeiam em grau, números e gêneros de bonitezas… Descobri que é você o lugar mais bonito do dia.

Sabe, Kha, saudades são abraços, você os diz bem e essa carta serve para esse abraço além mar.

Beijo meu,
Mariana Gouveia
BlogVember via Scenarium Livros Artesanais

Afetos · Das palavras das cartas · Scenarium Livros Artesanais

Segunda, 4 — *Eu me apego aos pequenos ruídos familiares.

* quote extraído do Coletivo Ao vento, todo dia — habitudes, de Adriana Aneli

Bença, Pai,

Hoje me peguei revirando as fotos antigas do baú. Já faz mais de um ano que você se foi e fiquei com aquelas perguntas que a gente fazia um para o outro e que a gente mesmo sabia que não tínhamos respostas… Será que hoje você teria?

Você já viu a chuva daí, pai? E um arrozal pronto para colher? O cheiro do cafezal é o mesmo que o daqui? E o vento, pai…ele surge por esses lados daí? Às vezes, me pego pensando em cada pergunta que eu faria se pudesse. Mas, acho que a primeira seria sobre as estrelas. De que tamanho são? As cadentes são mesmo por causa de crianças brincando aí, nesse céu de meu Deus?

Será que você encontrou minha mãe e a abraçou como antes você fazia quando chegava da roça? E o Manoel, pai… já o encontrou com um capim no canto da boca? Tem capim aí? É verdade que o cheiro daí lembra o campo dos girassóis?

Sabe, pai, aconteceram muitas coisas depois que você se foi. Encontrei meus irmãos e caminhei de novo pelo sítio em despedida. Bebi o leite no curral que o Tuca tirou e fotografei vários cogumelos gigantes… até um tatu apareceu e permaneceu nos arredores até o dia que vim embora. Também comi a comida feita no fogão de lenha e ouvi pela primeira vez o som dos vagalumes em uma noite escura, pai… Gravei para Lunna ver e chorei sozinha para além dos currais.

Também ouvi de novo o riacho em sua cantilena alcançando as margens… de longe, os risos das crianças de agora, brincando de esconde-esconde. São esses ruídos, pai, que renovam minhas energias em momentos de saudades e de solidão. Você sente solidão por aí? Dá pra tomar o seu café igual era aqui?

Vou guardar as coisas no baú, pai e seguir a rotina do dia… Sabe que comecei a escrever essa carta hoje cheia de perguntas, porque de repente me perguntei onde você estaria. Acho que um dia, eu descubro essas respostas.

Beijo,
sua filha
Mariana

Afetos · Das palavras das cartas · Scenarium Livros Artesanais

Domingo, 3 — *Tiro cada pensamento de lugar para construir uma nova ideia.

* quote extraído do Coletivo Ao vento, todo dia — habitudes, de Adriana Aneli

Luci,

Você disse que “Os capítulos bons da vida são sempre os mais curtinhos…” e em parte, concordei com você. Tenho tido alguns momentos curtinhos bons. Mas, em geral, acho que pertenço a um espaço maior. Horas cheias de conversas com minha bambina, um tempo longo conversando com as plantas e sabe, Luci, isso está me salvando depois de tantas perdas. Percebi que estou parada no tempo e depois de alguns meses pude começar a escrever de novo e hoje li você, assim de relance mesmo, para caber nas ideias novas que o pensamento pediu.

Quando você falou sobre ruas estreitas e suas lâmpadas acesas, em vez de abandonos, eu vi recomeços, reencontros e te vi um pouco no deus da sua escrita – fica desenhando inseto e flor, rabiscando as paredes do céu, perdendo sua eternidade confortável com as aranhas que moram no canto da sala. Seus domingos compridos – e eternos – emendam-se às segundas-feiras e Ele não termina nada que começa, porque tudo é eterno no tempo de Deus. Pega seus livrões e escreve à mão umas coisas a acontecer. Olha pra fora e continua a ser Deus das aranhas, das flores, dos insetos… – e acho que ele existe no meu quintal, que agora ganhou uma extensão em um bairro comum de São Paulo, Luci… eu queria te contar isso.

Os pássaros azulzinhos – sanhaços – que voam aqui cabem lá no quintal da minha bambina. E não é só isso não, Luci… as farfallas – como ela diz – sobrevoam as flores do maracujás de lá e até um casulo ela fotografou. Foi quando eu pensei que os desvios do meu quintal criou essa rota para não sentir mais nenhuma solidão. Hoje, até um beija-flor apareceu. De tão feliz com isso, dancei.

Os sabiás, Luci… os daqui ganharam uma piscina feita de uma saladeira colorida que nunca usei de verdade para saladas. Você nem imagina a festa que eles fazem – e claro, que brigam também pelo espaço. E lá no outro quintal, para além dos quilômetros que nos separam, eles também se expõem em cantos e voos rasantes, entre fugas de gatos.

A vida é assim, Luci… cheia dessas delicadezas e afetos… deve ser para compensar algumas coisas que acontecem fora de nosso controle. Como agora… o sol se encosta em tons de despedida nas flores do meu lugar, mas lá, já anoiteceu. De suas palavras, veio a nova ideia e te escrevi… fiquei pensando em como você tira os acentos da melancia… eu não tiro nem as sementes. Acontece que para mim, os dias aqui sempre começam com o buongiorno dela e termina com o bacio. Te escrevi só para te dizer isso. Mas, já adianto que ela também vai ler sua carta., porque acho belo isso e como você mesma disse: A beleza é um momento de desatenção.

Beijo meu,
Mariana Gouveia
BlogVember via Scenarium Livros Artesanais

Afetos · Scenarium Livros Artesanais

Sábado, 2 — *Espio o meu mundo…uma rua cinza com casas dos dois lados…

* quote extraído do Coletivo Ao vento, todo dia – do texto de Lunna Guedes

Ph: Pinterest

Anteontem, quando fiquei sabendo do voo do pianista Arthur Moreia Lima revivi minha infância. Meu pai, em sua simplicidade, adorava a música clássica. O velho motor rádio fazia com que ele se transformasse durante um programa nos anos 70.

Quando mudamos para a cidade ele me matriculou com a melhor professora de piano do lugar. Durante um bom tempo, lá ia eu, atravessar a cidadezinha, com suas ruas cinzas, de paralelepípedos, como se fosse enviada para o castigo. E vivi grande parte daquilo entre sonatas e adágios. Arthur era o pianista preferido do meu pai. Era espetacular vê-lo, em sua cadeira de balanço agitar os braços no ritmo do prelúdio 23.

Recordar esses momentos foi como atravessar de novo aquela rua comprida e suas casas de cada lado, até a casa de d. Margarida. Sentar-me na cadeira ao lado dela e torcer para não errar a partitura. Era um ritual mágico e lindo. Muitas vezes via meu pai olhando escondido na janela. Não sei se era apenas para vigiar e descobrir se eu tinha ido mesmo à aula, ou se ele apenas queria me ouvir tocar.

Escrevi sobre isso aqui, mas de tudo que me lembro e me enternece ainda hoje foram os paralelepípedos acalentando meus pés, na rua que hoje acho tão pequena e na época, era gigante. As tias, nas janelas, sobre as cortinas querendo saber se aprendi muito ou não. Os irmãos a zombar do meu caderno de partituras em uníssono agitando os dedos como se fossem os maestros de uma brincadeira sem fim.

Arthur, Bach, Mozart e Chopin cabiam nos sonhos do meu pai como se fossem amigos íntimos. Era como se o rádio o levasse para dentro das teclas e as sinfonias transformava o homem simples da roça em um conhecedor do erudito.. E por ele até tentei, mas minha parte musical não avançou muito, mesmo com o piano herdado da professora.

Hoje, nessa data em que homenageamos os mortos, a rua e suas casas me receberam de novo – nas memórias guardadas no peito. Embora, eu não tenha aprendido a tocar piano, desejei me deliciar para homenagear o artista que tanto encantou em muitas noites serenas, o meu pai.

Mariana Gouveia
BlogVember via Scenarium Livros Artesanais

Scenarium Livros Artesanais

Sexta, 1 – *Perdi-me nas memórias persuasivas da tua linguagem abstrata 

* quote extraído do Coletivo Ao vento, todo dia — todo dia, de Suzana Martins

Ph: Omerika

Conheci alguém que estava feliz no último dia de fevereiro. O que há de tão alegre nisso? – pensei. Para mim, fevereiro é apenas o mês mais curto do ano e por generosidade, alguém acrescentou um dia a mais a cada quatro anos como forma de nos recompensar. E parece que bastou para alguém ser feliz com isso.

Eu costumo me lembrar dessas histórias em noites de insônias. Me vem à memória o riso – abstrato – dela, por saber que era ano bissexto, na folhinha… O ultimo dia de fevereiro e pronto, o depois – cheio de reticências – aparece, como por encanto. Um raio de sol que entra pela fresta da janela. Algo lindo de se ver.

Tão lindo como os azuis das hortênsias nos vasos gêmeos da varanda ou como as flores do ipê que se abriram após a chuva cair depois de uma seca que se prolongou por mais de cento e cinquenta dias. O cerrado queimou-se.

Descobri nas fotografias guardadas… florzinhas azuis. Foram tiradas em uma manhã de outono. As estações se transformam no meu quintal. Em dias de chuva, à noite, os pirilampos não vem. Pela manhã, as cigarras cantam.

A morte andou rodeando a minha realidade, por esses dias. O luto predomina em ausências que, às vezes, sempre foram ausências. Li diários antigos escritos como se fossem mapas de ruas sem saídas e me lembrei da sua linguagem abstrata e acabei perdida nas memórias aleatórias.

Alguém disse que eu tinha que salvar o vento… sabe o que fiz? O engarrafei…

Mariana Gouveia
BlogVember via Scenarium Livros Artesanais