Scenarium Livros Artesanais

30 – meu kairós em transcendência vida e morte…

Luci,

hoje, nas primeiras horas do amanhecer, depois de raios e trovões ecoar no céu, uma lua quase – ou ainda – cheia se apresentou em sua rota quase clandestina perante aos passantes apressados em sua rotina. Acho que só eu vi. Cheguei até a murmurar: Yeppuda! – que é bonita em coreano – língua que estou aprendendo – e todos olharam para onde meu dedo apontava. Mas, logo se voltaram para o celular na mão.

Sabe, Luci, acho que estava ainda encantada com o nascimento da borboleta da couve que nasceu no meu quintal, que fui quase saltitando para o trabalho como se fosse criança e vendo nascimento em todas as coisas. Quase vi ela saindo do casulo lembrei-me da frase que encerra esse novembro sobre kairós e sua transcendência. Pensei na vida e morte das coisas e no momento certo para o qual a frase me leva.

Qual seria o momento certo para você diante da vida? Pensei em Tetê e Celestine e pensei nas asas da borboleta que ainda sangrava. Depois, Luci, pensei no nascimento das estrelas e das protoestrelas que nasceram e alguém fotografou.

Uma anciã da aldeia me disse hoje que a beleza da vida está em morrer e fiquei pensando nas vidas recentes que vi aqui, entre as vidas de gente, de bichos e de estrelas… afinal, de contas, o tempo é esse nascer constante entre vida e morte.

beijo meu,
Mariana Gouveia
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Lunna Guedes – Obdúlio Ortega 

Das palavras das cartas · Lunna Guedes · Scenarium Livros Artesanais

29 – …ela pensou que algumas viagens são mais partidas que as chegadas.

Bambina mia,

a lua aparece no quadrante leste do quintal e a cena que se apresenta para mim traz esse misto de sensação que você sabe bem. A emoção do seu dia Coloco tua playlist no celular e vou me envolvendo de carinho por você.

A lua está cheia e deslumbrante! Já é manhã de 29 – madrugada ainda – e assim como acontece quando chove, quando vejo a lua chamo seu nome: Lunna tu! É o nome da “sua” playlist. Sempre ouço. Acho que é uma maneira de me ligar a você, mesmo dentro dessa distância que nos separa.

Já tivemos algumas partidas e chegadas e nossa história tem algumas cenas no aeroporto e pelas ruas do seu lugar. Eu mais cheguei aí do que parti? E se eu disser que sempre que parti me deixei aí no seu abraço e do tuo bambino?

Hoje, revendo as lembranças, percebi que os anos e essas datas não cabem em nós. A gente é de antes, desse e de outros tempos e algumas coisas nos ligam para além de outras pessoas e tão somente nós sabemos.

Você, comigo, é sempre oferta.. e confesso que algumas datas me tocam mais do que outras, como hoje. Tuo dia e você já sabe dos desejos do mio cuore para o tuo.

Então, para além das palavras e meu amor todinho dedicado para você vim trazer meu abraço.

Já te disse que sou grata ao universo e todas as folhas das árvores do mundo por você em minha vida? Já te disse que para além de partidas e chegadas nossos caminhos se cruzam, de alguma maneira, em outro tempo, outra história como se fosse a mesma?

Eu te amo e eu te amo tanto! Você é um dos melhores presentes que o universo me deu.

Auguri!
Grazie Mille!!!
Bacio
Mariana Gouveia
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Lunna Guedes – Obdúlio Ortega 

Das palavras das cartas · Scenarium Livros Artesanais

28 – caminhar pelo mundo de braços dados com o outro, com os outros

Lisa,

eu me lembro bem quando te vi de longe, atravessar a avenida com seu riso largo… o lenço tão peculiar na cabeça e o jeito leve de andar com os outros. Podia ser qualquer um, os invisíveis da esquina, os animais de rua.. lá ia você junto, sendo caminhante e oferta de abraço. Foi paixão ao primeiro passo.

Você nunca me deixou caminhar sozinha, mesmo longe, lá estava você e seu olho de amparo. com os ditados populares na ponta da língua: quem tem amigo tem tudo e você desfiava vários fatos onde um amigo te socorreu.

A minha mãe dizia que você era uma corda, dessas que puxa a gente de qualquer lugar e levanta. E você respondia sempre com um sorriso. A gente sabe que em alguns caminhos há labirintos – e esses, a gente tem de desvendar sozinho – qualquer coisa assim, de atalhos e desvios e dentro dos seus ditados conhecidos você diria que é muito importante saber que mesmo que sentíssemos sozinhos, haverá alguém nos esperando no fim da estrada.

O dar os braços ao outro já é parte sua e dessa estrada bonita que você desenha no seu dia a dia. Não só aos comuns seus, mas aos desiguais dos outros. E hoje, quando na maioria das pessoas está frio por dentro, você é o colo quentinho que eu admiro e amo.

E eu sou muito feliz por estar com você nessa caminhada!

Mariana Gouveia
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Lunna Guedes – Obdúlio Ortega 

Das palavras das cartas · Scenarium Livros Artesanais

27 – No balaio ancestral, carrego em meu dna minhas avós, madonas nonagenárias!

Vó Léo,

a carta seria para minhas avós, de quem carrego no dna a ancestralidade na alma – não nego – mas, resolvi te escrever para declarar meu amor por você. Quando me casei com seu neto, ganhei a avó que desejei a vida toda e não tive.

Minha nona Mariana – razão do meu nome – navega nas minhas lembranças de menina com o olho miúdo, igual ao do meu pai e nem sei até onde é fruto de memórias vividas ou se é invenção de parte de histórias que escutei. Carrego dela o nome – não mais do que isso – e nem um cheiro de bolo assando, de colo, de aconchego de vó mesmo.

Já minha avó Ana Maria – que senhora conheceu e foi amiga desde a infância – não tenho memórias de vó. Apesar de ter vivido grande parte da adolescência e vida adulta perto dela, não a tive como avó. Lembro-me bem dos cabelos longos enrolados em um coque perfeito, do vestido amarelo claro e o perfume que chegava sempre antes dela. Nunca tive dela essa coisa de abraços, de cuidados de vó e tudo bem.

Então, vó Léo, eu ganhei você e junto vieram todas as coisas de vó que eu sempre imaginei ter. Os abraços, a alegria, o afeto, os bolinhos de chuva, a comida quentinha e o chá de alecrim.

Sabe, vó Léo, ainda tenho comigo coisas suas e mesmo depois de sua partida, a sinto tão minha em tantos momentos sendo minha vó. De alma, de abraço, de laços e de muito amor.

Grata por isso!
Mariana Gouveia
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Das palavras das cartas · Scenarium Livros Artesanais

26 – Alguém falava da vida, de sopro

Quando o grande amor da nossa vida e o grande
 falhanço dela foram ou são experiências
coincidentes, indestrinçaveis —- uma mesma
 e única coisa: bonito serviço —- o menos que
 pode dizer-se é da hecatombe, entre mortos
e feridos, só nós é que não havemos de escapar 
Rui Caieiro

Querida Renata,

Estava cuidando dos casulos no meu quintal e quando uma borboleta pousou em minha mão me lembrei de te escrever. Ultimamente, tem sido difícil, dentro do nosso tempo, conversarmos… te escrever, seria mais fácil, na docilidade dos dias.

Quando eu te vi – me apaixonei – com esse olhão que desnuda a alma – e atravessei tempos para tentar descobrir onde nos encontramos antes. Podia ser em outro século, em outras eras… podia ser apenas na cumplicidade da dor. Mas, antes das perdas em comum, nos abraçamos e sentimos essa ligação.

Eu conheci o tempo da ternura… do urgente urgentíssimo com você. Da mãe e mulher bravia – medrosa, ás vezes – que vê a bondade e gentileza nos outros. A que se mostra e se esconde.

Renata, eu queria te falar segurando suas mãos, ouvindo suas desculpas esfarrapadas quando erra. O olho grandão com medo da minha bronca. De você eu recebi o silêncio, igual ao farfalhar das asas da borboleta que pousa em meu dedo, como se quisesse a aprovação de que mesmo errando, fez a coisa certa… mas, eu sou daquelas que não acredita que os fins justificam os meios, e mesmo em seu jeito desastroso de olhar e querer me puxar pelas mãos, nesses dias, eu fui apenas monossilábica com você.

Você é a ternura que eu falo… a voz, que mesmo que não ecoe, entendeu minha dor. O abraço que mesmo não dado, foi caloroso. Você foi a cidade, a aldeia, o grito, o silêncio, o refúgio, o mapa que me encontrou e foi puro aconchego mesmo sem dizer nada.

Só queria dizer que a geografia não vai nos separar… eu, quando ver um filtro de barro, vou me lembrar de você e quando ouvir a palavra urgente, vou te buscar nas mensagens e na memória o urgentíssimo com seu sotaque e riso… e eu, que me comovo por tudo, vou lembrar, que em nossas dores, descobrimos que a vida é um sopro e que esse olhão reinventou a palavra amor dentro de mim.

Grata por isso!

Mariana Gouveia
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Lunna Guedes – Obdúlio Ortega 

Divã · Scenarium Livros Artesanais

25 – Você e eu, frente e verso

Ph: Jover

O amor dormiu na minha mão… tinha a leveza da asa e fazia o vento gerar canto. O amor chegou com nome de ave, de todo dia, em prece, como oração. Como uma sonata na vitrola antiga. Quase vintage dentro de mim. Ganhou contornos de abraços e tive sorte de voo. Esse amor veio traquino e com rodopios no ar. É um menino, com ares de passarinho. Beija a flor. Diante do espelho ele me vê e busca a alma da flor, que no jardim se abre. Atua como música em seu canto e para as horas de encanto faz de minha mão, seu ninho. Ah, esse amor pequenino que se agiganta e vira presença ali, no canto da sala, no galho da árvore seca do quintal. O amor mora aqui e amanhã surgirá como se tivesse dormido fora e que morria de saudades de mim.

Mariana Gouveia
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Divã · Scenarium Livros Artesanais

24 – Falar do que é teu, não posso

Ph: Pinterest

O quadro de Kandinsky mudou de parede, em silêncio me pergunto o motivo e como se adivinhasse a moça de branco responde que foi a pedido dela e o queixo aponta para a porta azul e ela se abre.

Falo do pássaro novo que chegou no quintal e de como suas cores combinam com o quadro da ante sala. Ela ri, diz que não trocou de quadro por minha causa. As cortinas lilases de antigamente não existem mais… a veneziana é antissocial – eu acho – penso em voz alta. Ela ri. Acho bom esse sorriso leve. Não posso falar do que é teu, não posso! Foi um combinado nosso na última vez.

Ela pergunta das metamorfoses das borboletas e se o calor atrapalha os casulos de que falei da última vez. Mais uma vez, me lembro de que alguns assuntos são proibidos hoje. Conto que achei algumas asas soltas no quintal. Pensei que elas foram vítimas de algumas das lagartixas que moram no meu lugar. É engraçado ver os olhinhos delas assustadas com os latidos de Yoshi. Ela ri… fica leve.

Eu me calo, a cortina estranha me chama até a janela. Lá embaixo, tudo tão mínimo. Pequeno… parece as miniaturas da minha estante. Mais uma vez, penso alto. Ela ri e me acompanha até a porta. Paramos em frente ao Kandinsky… não falamos de coisas combinadas antes, mas percebemos que não adiantou. Mesmo sem falar, você estava ali, no meio de nós.

Mariana Gouveia
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Lunna Guedes – Obdúlio Ortega 

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23 – eu estava perdido em mim sem fim nem começo

Era ainda no tempo do amor. Eu nem acreditava em esperas. Pássaros habitavam o interno de mim. A vida corria frouxa e passiva. Eu era os olhos dela para o encanto. Ela, o encanto de mim. O tempo passou. Veio luas e estrelas. Aconteceu o perdido na dimensão do fim. E eu virei espera nas horas vazias. Fiquei oca de ninho. Um pássaro de luto repousa em meu olhar. Nem tem vontade de voo, apenas repousa em saudades. Tão eu, na janela, a esperar.

Mariana Gouveia
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Das rotinas · Scenarium Livros Artesanais

22 – levantar cedo e promover andanças por meu tempo de calma.

A manhã acorda dentro dos meus sintomas. Sigo rua acima e vejo bancos de praça sem ninguém, uma padaria que não abriu, o armazém abandonado da rua de cima… uma calma desconhecida de um vai e vem das meninas do clubes – que hoje não vieram – o pé de ipê que floriu temporão. E eu, que vago em madrugadas insanas nas ruas afora de mim, e parece que todos dormem, menos eu.

Me comove o gato no telhado – só a silhueta – e o cão que me segue até o ponto de ônibus. E fica ali, como se dissesse que me espera amanhã.

Penso em quando o sol nasce, logo além da janela do ônibus e entre árvores os raios me convidam para essa calmaria de dia. O calor ultrapassa recordes diariamente e eu sigo, enquanto todos seguem atentos ao que diz o horóscopo, a previsão, as melhores cenas da novela de ontem, as séries em ascensão e eu só penso na espera do doguinho que nem sei o nome, que nem me prometeu, mas sei que estará me esperando manhã.

Mariana Gouveia
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Lunna Guedes – Obdúlio Ortega – Roseli Pedroso e Suzana Martins

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21 – as palavras fogem sem prévio aviso

Ph; Marcus Vicent

Há solidão que é como um pássaro fixo na árvore sem folhas… os galhos a pender como garras a invadir o espaço e a alma a ouvir a canção que toca ao longe.  A estação invade a tarde e o coração ocupado demais para amar.  Há dias em que caminhamos para dentro da gente, refazendo caminhos, desenhando novas histórias. O outono despertou aqui e as folhas caem como se ficar ali, na árvore fosse penoso demais e o chão fosse o aconchego do colo. O outono aparece nesse sábado morno quase às vésperas do inverno, que não virá também – eu sei. As horas de fim de tarde trazem com elas um vento frio com o qual não me acostumo nunca. Há risos de crianças na rua, as pipas bailam no sol quase morrendo e o pássaro a gorjear na árvore morta, como se quisesse companhia enquanto descubro que seu canto pesadamente no galho, em um céu quase cinzento, quase noturno a anunciar chuva, e palavras que fogem dentro de mim só são ditas na solidão dos cantos das aves. Solidão é uma ave a pousar na árvore morta. 

Mariana Gouveia
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Lunna Guedes – Obdúlio Ortega – Roseli Pedroso e Suzana Martins