Divã · Scenarium Livros Artesanais

20 – Teatro: artista que sou, prisioneira da vida o que me resta senão representar?

O grito ecoa pela casa, as janelas fechadas ao vento tudo muda de um dia para o outro… à deriva, a vida foge dos planos de viagens feitos. Era uma vez, uma menina paraíso que se encantou. Virou poesia para além das palavras e mudou-se para dentro de si. Tão artista – dona de si, interpreta a dor. As cartas escritas nem foram enviadas e as noites de dores, viraram poemas enquanto no jornal falam de um país de deuses e desertos. Um carteiro indulgente que distribui aromas nas palavras – me disseram que eram poemas – E eu desconfio que era apenas entrega de vontade de voos. Uma canção em outro idioma chega em restos de palavras. Lembra o filme de antigamente a melodia. Representa o instante como se tivesse plateia. Descobri que o próprio pouso é uma oferenda de toque. Havia vivido isso na primavera atrasada. O equinócio é a repetição de um ciclo dentro da estação. Em cinco minutos eu vivo mil ciclos repetitivos do dia. Um acorde em algum canto é momento para ternura.

Mariana Gouveia
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Participam comigo:
Lunna Guedes – Obdúlio Ortega – Roseli Pedroso e Suzana Martins

Divã · Scenarium Livros Artesanais

19 – Que nasce na chuva — que a água molha — e poda os voos!

Ela entrou na gaiola. Não havia grades, nem nada. Ela procurou dimensões para onde podia ir. Vagou entre a certeza do chover e do sentir. Ela sentiu. Vibrou como se asas tivesse e desenhou no tempo o riso dela. Também chegou a aspirar o perfume da poesia. Tinha outra textura, outro cheiro. A parede solta abria-se para um horizonte que era cantado numa música distante. Um pouso, um latido, um vento. Tempestades. Líquidos. E ela sabia que havia chuva. Parou as asas. Ficou em silêncio e viveu esse momento quase santo. Nem era tarde nem nada e a vida me vestia de efeitos. Quase em alto relevo eu podia desenhar curvas, ancas, pernas. Pensou ter ouvido o som do gozo dela. Chegou a ouvir. Podia jurar que ouvira o gozo de quem ganhara liberdade. Era de seda, sentiu assim que tocou a carne. A alquimia do verbo é voar. Não importa que horas eram.  Se de tarde, manhã ou noite de estrelas. Nesse lugar dela, lá fora pode ser qualquer hora.

Mariana Gouveia
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Lunna Guedes – Obdúlio Ortega 

Divã · Scenarium Livros Artesanais

18 – O toque suave dos teus lábios adormece em minha boca

Ph: Elena Vizerskaya

Como se eu fosse uma ave presa em tuas mãos abre os pulsos para me livrar da gaiola que é tua pele, teu cheiro e eu em tua carne sonhasse… como se achasse a ilha –  meu ninho –  seu corpo – como se o voo do pássaro pousasse sobre os sonhos de tua cabeça e suas asas delirantes fosse o mapa do caminho que tenho de trilhar… como se eu  fosse o jardim – na tua mão – eu, semente florindo desejos, como se hoje apenas eu fosse a dançarina que povoa vontades  e voasse plena de sentidos… no céu, da tua boca

Mariana Gouveia
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Lunna Guedes – Obdúlio Ortega – Roseli Pedroso e Suzana Martins

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17 – Mas você não sabe se viver é melhor que sonhar

Já faz tempo que o eco ficou perdido no quintal. Descobri cidades inteiras na rua de cima. Sob teus olhos vi esculturas de sombras em paredes claras. A fruta de todo dia no sabor do beijo não dado.
A vida ganha forças nos ninhos feitos nas árvores do lado de cá.
Há um nome oculto na calada da noite. Os varais vivem com os sonhos dependurados e o vento é esse pássaro fácil brincando de asas.

Mariana Gouveia
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Lunna Guedes – Obdúlio Ortega

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16 – adiei o máximo que pudesse o momento-sensação de desespero

O fogo ardeu dentro do sol. As labaredas alcançaram o cerrado e a fumaça, o céu. O boletim do tempo atravessou a meteorologia.  O paraíso tem as chamas dentro das folhas. Havia o dia de amanhã na espera do beijo. O coração gera a expectativa de canção. No verso do poema sua mão sobre a minha onde chuva promete coisas desavisadas que não acontece.
Fala de flores que nascerão no cerrado cinzento e de frutas temporãs de um mês que queima em uma invasão antecipada de outra estação – a chuva da estação era presságio de colheita – o verbo mudado para o instante seguinte. A direção errada de uma nação sem coisa nenhuma.
Tudo muda o sentido das coisas quando o arder também invade a alma. 

Mariana Gouveia
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Lunna Guedes – Obdúlio Ortega 

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15 – estaciono [não no tempo ou na vida-movimento]

Quebrou o espelho de mar, faltou o ar da maresia. Os peixes perderam o medo da ave marítima – me tornei alma errante em um céu de falta – com medo de esquecer seu nome repito todo dia quando acordo – rezo ele ao meio-dia – e resmungo ele na noite, quase em sonho, sono.

Conto minha história em poesia diária. Esse rasgo de água que engasga cada vez que bebo. Uso o amor como se fosse a origem da sede. Devo confessar que quase morri de abstinência. Isso de falta devia ser proibido mesmo… Quebrar essa regra devia causar afogamento no mesmo mar.

Meu rio não conhece outro destino que não seja o de ir ao encontro do mar. Sabe a sal a lágrima que cai. As orações saem como se fossem declarações. Vivo mil anos em uma hora. Tudo esse tempo obscuro que a hora asfixia no vento. Vivo como peixe de aquário que sonha a liberdade da correnteza. A regra da manhã é a pele descamando de amor.

Mariana Gouveia
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14 – caminhei até a porta e sai para sempre

Ph: Ziqian Liu

Às vezes, me lembro que só tenho doze minutos por dia. Esses minutos entre o respirar e as gotas, sempre as últimas – para na manhã seguinte a tela se abrir e anunciar nova programação – que caem trazendo os sintomas que quero esquecer. Não veio nem o sim nem o não. Apenas essa distância infinita, além do muro – e a dureza do cimento e a frase escrita, sangrando os dedos. Apenas esse infinito presságio de que a asa calada já não é mais parte minha. De meu, só os doze minutos e essa porta fechada e a lembrança do pedido do “não me fale mais” quando o sangue na artéria rememora o magna dos que esperam sem expectativas. Gostaria de te amar um pouco menos e talvez não quebrasse as paredes e nem esperasse a primavera chegar. O relógio conta os segundos que restam… As aves fogem das mãos… o vento traz o calor intenso da febre – e do tempo – e a solidão que amarga na boca, a ausência. O silêncio é essa vastidão de memórias na alma desde sempre, dos séculos onde as histórias foram escritas e descritas como poemas de amor. … e a porta que se fechará mais uma vez, como se fosse a última…

Mariana Gouveia
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Das palavras das cartas · Scenarium Livros Artesanais

13 – pequenas partículas penetram em propriedades particulares

Rozana, minha flor,

sei que você não sabe, mas eu sempre tenho um pé de algodão no quintal e te confesso que ele é muito instável. Não aguenta um vento mais forte e vrauummmm… cai… com raiz e tudo e sabe porque te falei sobre isso? Por causa das partículas…

A foto que emoldura o texto eu fiz onde no mesmo galho há a flor e o capucho, e como o pé de algodão está ali por causa das folhas – que é um antibiótico poderosíssimo – eu replanto sempre que ele sucumbe. A semente, é do sítio do meu pai e assim, vou replantando memórias.

O capucho solta fiapos que se desprendem e os sabiás levam para o ninho, Rozana… eles catam tudo que é leveza pelo quintal e levam bico afora para se preparem para os tempos difíceis…

É lá, no ninho que eles aproveitam das levezas daqui e dos fiapos que caem no chão. Lembrei de te contar isso quando li seu poema…

Um beijo,

Mariana Gouveia
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Lunna Guedes – Obdúlio Ortega 

Das palavras das cartas · Scenarium Livros Artesanais

12 – — minha língua sente o teu sabor e a sensação de fome se amplia

Ph: Mathilde R. Photography

Leonor,

resgatei do baú uma carta que te escrevi anos atrás. Na carta, bem antes de eu ficar sem notícias e respostas tuas, eu dediquei meu amor a você. Era dos mais bonitos – você diria – e eu nem me toquei que ali já havia sinal de fim.

Nas letras escritas no papel decorado eu falava sobre as madrugadas mornas onde nos amamos sob a luz da lua e de como a textura de sua pele atiçava minha fome.

Leonor, você dizia que eu inventava um amor bonito e que a gente inventava o instante e o que me comove é saber que mesmo depois de tanto tempo a sensação ainda é a mesma. Você está aqui, ali, nas letras, nas lembranças e na memória.

Confesso, que fico esperando que as frases que todos falam de que o tempo cura tudo faça efeito aqui, por enquanto, te encontro em cada esquina, como dizia Cesariny e te vejo em cada uma das pessoas que passam por mim.

Quando me perguntam de você eu invento viagens, doenças de algum parente seu para justificar sua ausência e justifico para mim mesma que ainda tem muita coisa que a gente não viveu juntas e eu já tenho a lista de todas elas para te mostrar quando você voltar.

Dou-te o poder, como sempre de decidir isso.

Mariana Gouveia
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das coisas breves · Scenarium Livros Artesanais

11 – Pretérito imperfeito oblíquo de um caos que nunca chega ao fim

Os caos se instalou por aqui hoje. Na alma, no quintal e nos arredores… ainda dorme em algum canto do muro.

Morreu uma estrela ontem. O dia começa com horário atrasado dentro do tempo. Era às vezes asas no quintal. Um menino que voa vem dar o bom dia e de noite quer colo de asa. A morte da estrela não afeta o voo da ave que beija e nem causa efeito no afeto que ele busca em minha mão. Quando ele foge do vento no quintal e não encontra árvores no lugar – que o vento levou – cabe na mão dentro do abraço. O menino é um ser de asas em mim. O menino é um ser de voo na sala. E quando um dia se torna intrigante, doído e fora da lógica ele é um sopro de amor mesmo com estrelas morrendo no céu.

Mariana Gouveia
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Lunna Guedes – Obdúlio Ortega – Roseli Pedroso e Suzana Martins