Parece que as folhas que vejo pelas ruas não perdem a leveza do toque. Enquanto caminho penso em outras folhas – as que não escrevi – e nos planos e projetos que não saíram do papel. Faltam poucos dias para o início de um novo ano e mesmo não tendo feito uma lista, haviam notas mentais de coisas que foram ficando para trás. Deixaram de ter a importância devida ou outras mais urgentes, se impuseram como prioridade Os pássaros ignoram esse tempo dentro da vontade de voo e eu me encanto com o pátio rosado da universidade, com as flores do ipê temporão. Quase cheguei a catalogar cada folha dele, que se tornava miragem em outros meses que não esse. Olho para a árvore agradecida e abraço o tronco da árvore que amanhã não terá mais nenhuma flor. Todas irão se desgrudar dela e o vento levará a flor empurrando–as em direção ao muro, com seu grafite feito pelo menino que fez a minha tatuagem como se desenhasse um dos meus bordados. Ainda tenho uma bala de doce de leite na bolsa e a palavra doce me abraçará amanhã. Talvez, você volte com a saudade amarrotada, desdobrando meus envelopes rasgados feito tsurus de papel. Talvez, desses envelopes saia um coração laranja. Talvez essa seja a carta de duzentos gramas de palavras, caso a saudade aperte. Talvez o ônibus se atrase e eu possa acompanhar o movimento da flor rosada a dobrar a esquina da rua de cima. Talvez a senhorinha que me chama de anjo – a que pega o ônibus na saída do bairro – para qual eu ofereço o banco acha graça de descobrir que escrevo poemas… ri quando me pede autógrafo em um livro meu que achou por aí. Talvez. Se eu dissesse amanhã que a previsão do tempo seria uma procissão de estudantes com cartazes de protestos e que eu me encantaria com as borboletas nas flores do ipê que dourou a rua de cima e que deixei um livro no banco do ônibus e quem achou foi justamente a senhorinha que me chama de anjo, você diria que eu pintei um dia feliz? Descobri numa outra rua que a calçada era forrada com as flores rosas, do mesmo ipê que fotografei outro dia e que perguntei infinitas vezes onde vão parar todas essas ruas que a gente não cruza e essas árvores que dão sonhos e histórias que nunca te contei… histórias desses corredores onde a dor é quase bonita diante da força de cada um que escreveu a frase: venci. Em letras coloridas e risos fáceis de quem perdeu o cabelo e nunca perdeu a fé. Eu diria que eu apenas tive impressões do dia seguinte. Sem planos e projetos. Apenas um dia de cada vez.
Mariana Gouveia
BlogVember via Scenarium Livros Artesanais
Participam comigo:
Lunna Guedes – Obdúlio Ortega – Roseli Pedroso e Suzana Martins












