Afetos · Scenarium Livros Artesanais

Quarta,  20 —  *Pensei em como a vida tem esses momentos de delicadezas

quote extraído do Coletivo Ao vento, todo dia — da prosa de Mariana Gouveia

Colhi docilidade no dia. Rumores de amores e risos. Há dias em que a felicidade é um bombom recheado de amor. Cabia vontade dentro dos corações estampados nas coisas e havia cantos de aves no quintal. A velocidade das horas vindo com o vento que mudava o sentido das folhas. Sentiu a beleza na respiração do amor.

Mariana Gouveia
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Afetos · Scenarium Livros Artesanais

Terça, 19 — *Limpar os pés na soleira da porta na casa da infância. 

*quote extraído do Coletivo Ao vento, todo dia  – do texto de Nirlei Maria Oliveira

Embora começasse outra estação, e como os livros diziam que começavam o equinócio do outono, para nós ainda era a estação das águas, porque a chuva persistia nos dias e a água tomava conta de todo lugar. As gotas pareciam brincar com a natureza e a enchente sempre acontecia nas margens onde o rio beijava as matas. Sabíamos que a natureza cumpria seu papel de estio-chuva-estio… Às vezes, chovia a noite toda e o barulho das gotas a cair no telhado era um convite para o sonho… Em outros dias, a chuva durava dias inteiros e ficávamos presos dentro de casa…O cheiro do chá a invadir os aposentos… os irmãos a inventar brincadeiras e o céu a derramar bênçãos dentro da presença da estação.
Outono só nos brindaria em instantes nos meses seguintes e só aí, o vento nos beijariam em sopros com a amenidade do tempo.

Mariana Gouveia
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das coisas breves · Scenarium Livros Artesanais

Segunda, 18 — *A casa é o corpo que habito

* quote extraído do Coletivo Ao vento, todo dia — habitudes, de Adriana Aneli

Ph: Steve Gindler

O retrato fosco na estante, junto com as porcelanas empoeiradas… os livros mudos, sem que uma página sequer fosse lida. O corpo, intacto, como se não tivesse sido tocado também. Tentou se lembrar da última vez.

A sombra da mão estampada na parede lembrou os risos das irmãs em uma adivinhação antiga. A mesma voz a ecoar saudades em um sussurro constante. O corpo cede ao chão frio, como se fosse sombra também, sem memórias do que já viveu.

As coisas todas mudas – as paredes, as cortinas, as portas. Um vento assovia lá fora. É o único som que ecoa fora desse corpo. Buscou na lembrança o dia de hoje. Não soube… as datas fugiram com todas as coisas dela. O corpo sem endereço é a casa. A casa é o corpo que habito.

Mariana Gouveia
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das coisas breves · Das palavras das cartas · Scenarium Livros Artesanais

Domingo, 17 — *Os raios e trovões dialogavam com o vento como se estivessem discutindo.

Foi numa noite dessas que ouvi seu chamado.
Parecia assustador. Levantei e fui pé ante pé
para não acordar ninguém.
Apenas o cão mais novo seguiu comigo.
Você rugia como se algo estivesse em perigo.

O cão se aconchegou junto a mim enquanto as nuvens
escuras se agigantavam em cima do meu lugar.
Os raios e trovões dialogavam com você
como se estivessem discutindo.
A sua voz parecia gritar e pensei nos dias em que fico
assim, intolerante ao que me assusta.

O momento me fascinou – confesso – e abri os braço para
também fazer parte de tudo aquilo. Uma tempestade
que nem a moça da previsão do tempo conseguiu prever…
foi quando dançamos juntos eu e você,
sob a canção dos raios
e trovoadas em uma noite insana de abril.

Mariana Gouveia
Último dia, 7
In, Ao Vento de todo dia
Scenarium Livros Artesanais

Afetos · Scenarium Livros Artesanais

Sábado, *16- A estação do momento nunca combina com as datas do calendário dos homens-ocos…

De fora do olho andante, o riso por detrás da loucura… ano após ano eu ia ali, fora da data convencional. Escrevia cartas póstumas para ela – que poderiam virar livro – em dias da semana alternativos, fugindo ou não da realidade. A foto ostentada em um porta-retrato vintage, com data de vinda e de partida. A vida, tão rasa, resumida em minha rota de desespero em noite de chuva. As perguntas, que ela, guardada para além do paraíso – como dizia meu pai – não poderia responder. Sempre pedi um sinal. Uma nuvem, um raio, um vento ou uma ilusão qualquer para acabar com a solidão da alma. O código decifrado na coluna: 7.D… As flores oferecidas em um lugar comum a todos. A luz da vela no quintal, perto da pedra de amolar, longe do olho andante do guarda, que conversava com os mortos, enquanto, na noite escura, a borboleta me dava o sinal de acolhida. A vida nascia, apesar das mortes e quando amanhecia tudo era tão normal, diante do olhar do guarda que me via e fingia que não, além das datas convencionais.

Mariana Gouveia
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Afetos · Scenarium Livros Artesanais

Sexta, 15 — Hoje atravessei a cidade sem interrupções.

* quote extraído do Coletivo Ao vento, todo dia — todo dia, de Suzana Martins

Ph: pinterest

Pinto o horizonte de dourado no seu destino… a noite e a imensidão das rotinas das horas. Vi a esperança vestindo colorido pelos olhos de uma poetisa. O quintal desenha vento nas plantas que restaram depois da chuva… A natureza detalhada em gotas na transparência da alma depois de molhar o jardim. O horizonte era opaco ainda agora enquanto a lua é esse desaforo na janela lateral de qualquer lugar. As pétalas das flores sendo pouso para o agora. Para além dos céus e o mar era espera. Dentro da gota era mar, o ritual do pouso. A vida tem esses instantes delicados. Os meridianos acusando saudade indecifrável do que não vivemos. A noite tem a esperança da vontade, tatuada sobre a pele – flor – que nunca foi tocada, mas que a mão conhece cada linha, cada pinta e que pelo silêncio, a vida se torna esse respirar de amor.

Mariana Gouveia
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Quinta, 14 —  *suspiro dobrado no balanço do vento 

* quote extraído do Coletivo Ao vento, todo dia — da prosa de Rozana Gastaldi Cominal

Havia um vento morno vindo do sul. Trovejou ontem e raios rasgaram o céu. O cheiro de terra molhada invadiu o ar e a chuva veio bravia. A vida é feita desses instantes que ninguém escreveu. Uma janela aberta e um rio invade o quintal. Árvores com as raízes à mostra e as paredes cinzas ofuscando o clarão dos relâmpagos. Ouço uma melodia que me traz a sensação de que nasci agora. A tempestade fazendo a mão para indicar caminhos. Tudo é escuro na noite lá fora. Os poemas espalhados na lama como sementes. Quem sabe amanhã não nascerá as palavras da atitude. Às vezes, o silêncio é essa goteira que pinga sem parar. Essa luz que insiste em ser acaso… a noite, o nada e o vento.

Mariana Gouveia
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Afetos · Das palavras das cartas · Scenarium Livros Artesanais

Quarta, 13 — *Onde fica o lugar em que o vento faz a tal curva?

quote extraído do Coletivo Ao vento, todo dia — da prosa de Mariana Gouveia

Flor,

Ontem, antes da chuva, eu vi a poesia se compondo em galhos e brincando de vento. Ouvi o céu gritar e rugir como se dissesse ao universo sobre o poder que ele tinha.
Vi os raios iluminarem o céu e lembrei-me dos rituais de minha mãe antes da chuva. Ela cobria todos os espelhos da casa e fechava as janelas. O medo no olho, as orações nos lábios. Também era poesia isso… Vi tantas vezes a poesia nos rituais de minha mãe.
Mas, ontem, eu vi a poesia se compondo pouco antes da chuva, e quando choveu, lembrei-me de você e de como um dia você se fez poesia no meu quintal dançando na chuva. Queria que soubesse que dobrei os tsurus e guardei no pote onde guardo todos os outros que não te entreguei.
Quando a chuva parou as lembranças se foram lá para onde o vento faz a curva e sonhei com você.

Feliz aniversário!

Mariana Gouveia
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Terça, 12 —  *Lembrar de nomear as coisas no caderno de anotar maravilhamentos

*quote extraído do Coletivo Ao vento, todo dia  – do texto de Nirlei Maria Oliveira

Desde pequena sempre fui apaixonada por cadernos. Usava-os – e ainda uso – para tudo. Embora a tecnologia tenha trazido algumas facilidades, não abro mão de escrever no caderno.

Aqui, já foram transformados em diários, agendas e até serviram de anotações para listas. Lembrei-me de meu pai que anotava as coisas que tinha de fazer durante o dia, o mês e até mesmo o ano. As ofertas de vendas dos produtos da fazenda, as qualidades especificadas em letras miúdas e até as datas de nascimento dos sete filhos, incluindo hora, dia, mês, ano, signo e de como estava o dia.

O caderno dele ficou perdido em algum baú, que vou tentar encontrar quando voltar lá, mas ainda tenho os primeiros cadernos de meu filho, com suas capas coloridas e sua letrinha ainda em estado de aprender.

Guardei na época para que ficasse registrado momentos simples da vida dele e que para mim era um tesouro. Sempre foi.

Os cadernos me acompanham para as cartas, para as notas que surgem durante os afazeres do dia a dia e para anotar os maravilhamentos que fazem parte do meu lugar.

E você, ainda usa o caderno para registrar momentos? Me diz aí…

Mariana Gouveia
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Segunda, 11 — *O som da xícara de café sobre o pires

* quote extraído do Coletivo Ao vento, todo dia — habitudes, de Adriana Aneli

Bia,

a tarde corre ligeira por aqui e um vento morno briga com a estação das flores. Logo será verão e aquela história da bolha de calor por aqui, ainda não passou. Li sua carta enquanto bebia o café da tarde e buscava imagem para o texto de hoje.

As suas palavras foram como um abraço além do outro lado do mundo… parece que foi ontem que eu te alcançava na rua de cima e contávamos estrelas na calçada alta… lembra-se? Ainda me lembro de sua risada cozinha afora enquanto preparava a mesa, com a xícara transparente e seu pires no formato de coração.

A vida é engraçada, Bia… de todos os sonhos que você tinha o mais impossível aconteceu. Hoje você cruza as ruas de Tóquio e me traz lembranças de Kaori e Seiko e com isso meu coração se enche de ternura. Recebi a foto da cerejeira do lugar onde eles fizeram morada e sabe, Bia, ter você aí tão perto dela e dos seus me faz sentir a leveza da vida que sua avó viveu.

Ph: Sakura

O café esfriou, a noite chegou e eu tenho de ir ali, cuidar dos olhos. Logo a gente se fala e diante de todas essas levezas e saudades te abraço.

Beijo meu,
Mariana Gouveia
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