Afetos · Das palavras das cartas

Sábado, 30 — *o vento estava impossível e disposto a provocar tumultos.

Su, minha menina nuvem,

nossa, amanhã, já é dezembro de novo! A gente sempre repete todo ano que o ano voou… mas 2024 veio vestido de vento e causou um imenso tumulto aqui e sabe aquela frase que virou meme- que não me lembro de quem é agora – de que a poesia salva? Salva mesmo, Su…

2024 foi um estampido nos calendários, nas conversas com as pessoas e olha que a gente teve um avanço imenso com a realidade do país. Mas era tanta coisa errada de um desgoverno bandido que vai levar muito tempo para que a poesia nos salve de vez.

Sei que sou muito de acolhida, de dar colo de mãe, de unir laços, mas são poucas pessoas que alcançam minha alma de vento. Esse ano fui tolhida dessa leveza que o vento me traz e fui bombardeada pelo vento que causa tumultos para além de derrubar flores do ipê rosa da rua de cima. O universo me tomou pessoas, me deixou em suspenso feito lençol voando no varal… mas eu consegui me segurar.

Deixei de estar em tantos lugares e de ver/ler tantas coisas… logo agora que eu tinha tanto tempo o não pode me fazia querer ser a flor que voava além do muro. Sei que por aí muita coisa também mudou, embora não falamos sobre isso e sei que a coragem também entrou pela janela trazendo a maresia como puro aconchego e é assim que a gente segue… aspirando as flores, acalentando com as nuvens ou aspirando a brisa do vento.

Que a gente consiga sempre fazer poesia, Su… é isso que nos une mesmo com tantos mil quilômetros nos afastando.

beijo meu,

Mariana Gouveia
BlogVember via Scenarium Livros Artesanais

Afetos · Das palavras das cartas · Lunna Guedes · Scenarium Livros Artesanais

Sexta, 29 — *a cidade envaidece inteira com a chegada do crepúsculo.

* quote extraído do Coletivo Ao vento, todo dia — todo dia, de Suzana Martins

Bambina mia,

eu vigiei o céu hoje para te oferecer o crepúsculo, nesse dia tão seu. Sei que é o instante que mais gosta e sei também que a cor te toca. Lembrei-me de outros aniversários com você. Todos eles poderiam ser emoldurados e o auguri gravado em fita cassete para ouvir no toca fitas antigo do meu irmão.

Havia uma margarida vermelha na janela e o cheiro do bolo na sua cozinha inteira. Esse dia devia ser eternizado – anotei na agenda. Depois disso, o dia virou saudade nos anos seguintes. Eu ia querer muito caber no seu abraço nesse dia… mas os dias foram se costurando em avessos nesse ano a viagem foi adiada. E como de costume, escrevo uma missiva onde junto com as palavras vai meu cuore para você.

Na parte alta do bairro, onde sempre vou para fotografar a lua em noites de lua cheia eu gritei seu nome, bem na hora em que a manhã quase deixava de ser madrugada para se tornar dia. A última estrela acabou de sumir entre as nuvens e a cidade ao longe se vestiu com as cores crepusculares.

Sabe, bambina, eu ainda me espanto com algumas coisas que nos ligam de uma maneira única que parece que tudo foi traçado antes. Não posso dizer que é o destino, nem acredito em coincidências, mas percebi que nossos caminhos foram se cruzando em esquinas dentro de um passado meu e futuro seu, em fusos que nos fazem rir… e eu adoro ouvir sua risada.

A cidade envaidece com a chegada do seu dia e dessas cores dentro das palavras que você gosta. A meteorologia determina atenção em vários alertas coloridos. Será que haverá uma tempestade em sua homenagem? Te conto em uma próxima carta. De resto, te envolvo no meu abraço carinhoso com todos os desejos de bem viver.

Amo tu imenso!
Auguri!
Feliz aniversário!

Mariana Gouveia
BlogVember via Scenarium Livros Artesanais

Afetos

Quinta,  28 — *Ninguém se preocupa se o barquinho de papel foi desfeito em segundos. 

* quote extraído do Coletivo Ao vento, todo dia — da prosa de Rozana Gastaldi Cominal

Ph: Pinterest

Acreditava nas histórias marinhas. Sabia o sabor de mar à pele mesmo sendo de rio. Já vira um peixe voar, fora da mão, de asa. Alguém contou sobre coisas mitológicas… Rabiscava as ondas nos muros da cidade, de madrugada. Guardava dentro das lendas que criava o encontro marítimo entre a maresia e o quintal. Entre a terra e o mar. Muitos diziam ser invenção ou qualquer coisa assim… Loucura barco de rio atravessar o oceano. Ninguém se preocupa se o barquinho de papel foi desfeito em segundos.  Batia-se além das marés e ali, morria na praia. Ela, apenas, acreditava que qualquer coisa poderia acontecer… Bastava fechar os olhos e viver.

Mariana Gouveia
BlogVember via Scenarium Livros Artesanais

Afetos · Scenarium Livros Artesanais

Quarta, 27 — *O vento esparramou as nuvens na delicadeza do instante.

quote extraído do Coletivo Ao vento, todo dia — da prosa de Mariana Gouveia

Já era o quarto dia quando te vi brincando com os meninos da rua de cima. Chapeando as pipas enquanto eles soltavam a linha.

O clept clept era para chamar minha atenção – pensei – e ao mesmo tempo, como se fosse tomado pela velocidade dos pés deles você esparramou as nuvens na delicadeza do instante.

Eu apenas ri e te chamei com um assobio – seguindo o ritual que aprendi com minha mãe. Eu te chamo, às vezes, quando o som oco do silêncio fica por aqui. Assobio e você chega… às vezes, tão manso que nem ouso falar seu nome.

Mas, acontece que, em algumas horas você atravessa o quintal de um jeito bravio que imagino ter te tirado de alguma brincadeira legal por aí…

(talvez) com os meninos da rua de cima, como agora.

Mariana Gouveia
Dia 5
In, Ao Vento de todo dia
Scenarium Livros Artesanais

Scenarium Livros Artesanais

Terça, 26 — *Retirar das retinas poeiras incrustadas

*quote extraído do Coletivo Ao vento, todo dia  – do texto de Nirlei Maria Oliveira

O cadeado abre a dor para o hereditário… o telhado abriga o pássaro gigante, no céu branco, ausente de nuvens e nem era noite de lua e no quadrante leste Saturno estava lá, em algum canto. Nem todo dia, o astro rege as marés, e nem coordena os desavisados ventos vindos do sul. Era para ser de chuva – o dia – mas, a previsão falhou no calendário. O bilhete no papel de parede dá o ar de indignação. Cadê os dias prometidos na busca da fé? Disfarçado de lugar comum – o pássaro – o vento alado ameaça voo e permanece… olho fixo no horizonte branco. A folha de papel pronta para a carta. O vento seco na estrada irregular… as cadeiras na calçada da vizinha vazias de presença nos ecos do nada. Era só rotina essas miudezas todas, enquanto a ave fica à espera da hora certa da fuga, com medo do voo.

Mariana Gouveia
BlogVember via Scenarium Livros Artesanais

Das palavras das cartas · infinitamente · Scenarium Livros Artesanais

Segunda, 25 — *Samambaias despertam em vasos que não lhes pertencem

* quote extraído do Coletivo Ao vento, todo dia — habitudes, de Adriana Aneli

Ana,

Ontem fui de novo na sua rua e fiquei me perguntando se existe ex rua ou se apenas a denomino como a rua que não quero passar. Dessa vez, não ia adiantar dar a volta em duas quadras, porque eu tinha de levar documentos para o moço que comprou sua casa.

Percebi que perdi a conta dos anos que passaram… a cerca ainda está desbotada e desconfio que ele não pintou nenhuma vez desde que comprou. Enquanto eu aguardava ele encontrar a chave do portão meu olho avançou quintal afora… me pareceu que ouvi sua gargalhada lá no fundo… ao invés das hortênsias, no vaso branco que plantei, samambaias pendem dele… inquilinas indesejadas – penso eu – e a cerejeira está seca – penso que de saudades tuas – e ele explica desajeitado que a árvore morreu do nada.

Alguns badulaques que deixei lá me foram entregues em uma caixa… as argolas que prendiam as cortinas laranjas, alguns papéis – que segundo ele, estavam em gavetas e caixas no fundo do armário. Enxerguei sem querer seus anõezinhos e a Branca de Neve num canto do muro e o sapinho… ah, o sapinho…

Sabe, Ana, não sei onde está agora. Qual universo te possui… vejo Marte e lembro-me de você. Confesso que andei meio avessa ao céu noturno nos últimos anos… e não falo disso com tristeza não. Falo disso como se com isso pudesse te libertar de vez para seus voos além das nuvens…

Lembro-te cada vez mais longe, mas em dias como hoje, onde meus olhos perderam a noção de ver, te vejo ali, amiúde, no vaso branco e as samambaias invasoras em um lugar que nunca foi delas.

E ainda com as pupilas dilatadas escrevo seu nome no vidro embaçado da janela pensando o que fazer com essa saudade quando pronuncio seu nome.

Mariana Gouveia
BlogVember via Scenarium Livros Artesanais

Afetos · Scenarium Livros Artesanais

Domingo, 24 — *Eu sou uma verdadeira marinheira,  olhar atento, no barquinho que vai pelo fluxo da água.

* quote extraído do Coletivo Ao vento, todo dia — da prosa de Rozana Gastaldi Cominal

Ph: Anja Stiegler

Quebrou o espelho de mar, faltou o ar da maresia. Os peixes perderam o medo da ave marítima – me tornei alma errante em um céu de falta – com medo de esquecer seu nome repito todo dia quando acordo – rezo ele ao meio-dia – e resmungo ele na noite, quase em sono, sonho. Conto minha história em poesia diária. Esse rasgo de água, que me engasgo cada vez que bebo. Uso o amor como se fosse a origem da sede. Devo confessar que quase morri de abstinência.  Isso de falta devia ser proibido mesmo… quebrar essa regra devia causar afogamento no mesmo mar. Meu rio não conhece outro destino que não seja o de ir ao encontro do mar. Eu sou uma verdadeira marinheira, olhar atento, no barquinho que vai pelo fluxo da água. Sabe a sal a lágrima que cai. As orações saem como se fossem declarações. Vivo mil anos em uma hora. Tudo esse tempo obscuro que a hora asfixia no vento. Vivo como peixe de aquário que sonha a liberdade da correnteza. A regra da manhã é a pele descamando de amor.

Mariana Gouveia
BlogVember via Scenarium Livros Artesanais

Das palavras das cartas · Scenarium Livros Artesanais

Sábado, 23 — *O vento trouxe nuvens, na noite de ontem.

A espera é esse bilhete de papel na parede, o desenho opaco do coração que rabisquei e que o tempo desbotou. O vento trouxe nuvens, na noite de ontem. A roupa no varal a dançar com o vento. Deveria te escrever essa carta. Falar do tempo que muda constantemente. O pé de romã brotou. Os musgos tomaram conta da parede do canil. A erva doce exala de alguma cozinha por perto. Penso em chá. A tarde amarelou depois da chuva; lembrei de outras cartas que rasguei sem enviar; o homem da reciclagem apareceu. Falou de saudades que não o deixou trabalhar. Suspirou dentro da madrugada passada – ele contou – chovia. A cor que acolhe a noite tem os tons que aquece o peito. Devia caber na alma essa solidão. Fujo apressadamente dos raios que envolve a noite. Cuido dos insetos para que não molhem. Um ninho deles inteiro foi salvo enquanto chovia. Por um instante, penso que a vida é esse aconchego que enxergo ali…

Mariana Gouveia
Scenarium Livros Artesanais

Scenarium Livros Artesanais

Sexta,  22 — *Hoje atravessei a cidade e encontrei vestígios meus nas sombras projetadas pela cartografia urbana.

* quote extraído do Coletivo Ao vento, todo dia — todo dia, de Suzana Martins

O calor no rosto me leva para outra cidade – aprisionaram o vento dentro da intensidade da palavra – foi uma cerimônia bonita. O rio e os envelopes rasgados. O canto da ave num dia triste. A febre e a ilusão do delírio. Havia qualquer coisa de estranho no objeto bordado. O pássaro desenhado como se lembrava na memória obscura da pele. O toque da pena a dimensionar o voo. Dizia que sem pressa devia partir. Ou esperar. Ou ir e voltar – esquecia da última frase da carta. Mas sentia na ponta dos dedos, apenas essa solidão esférica. De cidade vazia e de rio longo e serpenteado perto das margens de onde avistava os papéis que não enviara a rodar, como se fosse de encontro ao mar. Como se morresse de fome e sede – e não havia nada para matar a fome. A vida seca, úmida de alma. Invento as escalas do mês. O mundo acontece dentro do milagre. O ausente fica lindo assim distante. O voo não dado é o que me leva a querer esse cheiro terrestre infinito… onde o vento apenas se finge de sopro.

Mariana Gouveia
BlogVember via Scenarium Livros Artesanais

Scenarium Livros Artesanais

Quinta,  21 —  *Cuidado, anjo de asas quebradas!  

* quote extraído do Coletivo Ao vento, todo dia — da prosa de Rozana Gastaldi Cominal

De perfil a história é mais triste… os corredores ficam mais compridos e as janelas laterais nem conhecem a canção que fala dela… na sala de estar, os mortos em porta retratos ao lado das porcelanas empoeiradas e os vasos de flores de plásticos a murcharem em promessas sem perfume. De perfil, a moça de branco alonga a saia e os sapatos fazem barulho dentro das horas. são sete portas até o alívio final. A veia a sangrar pela cura – que matava, se deixasse – que pingava em conta-gotas no refrão do tic – tac do relógio na parede cinza ocre ou ocre apagado sem cor… de perfil, os dias acontecem diferentes dos outros dias e a fase da lua inicia o ritual de esperar o dia de amanhã.

Mariana Gouveia
BlogVember via Scenarium Livros Artesanais