Desvios para atravessar os quintais · Projeto Diário das quatro estações · Scenarium Livros Artesanais

Tenho uma solidão para esse nome das coisas.

Tenho uma solidão para esse nome das coisas.

Virei perfume dentro das suas palavras. Vi uma moça da aldeia com borboletas no corpo. Era feito de sol essa saudade. O jardim endoidou de vez quando percebi o vazio por detrás da janela. O calor assolou o cerrado e a meteorologia colocam vermelho puro no mapa daqui. O lugar de mim esvazia o peito e estende a mão, não sou mais além de sombra onde a asa não me abriga.

Escrevo cartas antecipando primaveras… a impressão do dia seguinte é quase logo ali, no outro mês, já repetido exaustivamente no sistema. O desejo tão líquido quanto a sede – falta água – e a fome de tocar sua mão, tão marítima dentro desse oceano seco de rio.

A ventania consome essa vontade de pouso, onde meu quintal respira maresia nos cantos do muro.

Mariana Gouveia
Desvios para atravessar os quintais

Scenarium Livros Artesanais
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Divã

Sei o papel de cor. 

 Mas não chego para uma história. 
Golgona Anghel

Ph: Pinterest

O amor, ao entrar, foi logo me perguntando:
– Leu o manual?
– E alguém lê o manual? Ninguém lê.
– E os estatutos, leu?
– Estatutos? O estatutos são lidos somente em ocasiões especiais, cujo interessado é o único que não segue o estatuto e só quando ele é prejudicado.

Passivamente, ele senta e desenrola um rol de papel que não tem fim.
E ali, discorreu por horas sobre o decreto que definiria viver um amor e que todas as regras sejam cumpridas e pronto.

– Como pronto? E esse bater acelerado do coração que parece uma bateria de escola de samba? E esse alvoroço de arrepio na pele ao pensar nela? E esse atirar-me do abismo em direção à ela sem saber se há proteção.
– Leia o manual – é a resposta única – Leia o manual. Siga o estatuto.
– Confesso que seguir as regras nunca foi meu forte. Não que seja dada à rebeldia. Mas, sigo sempre o coração.
– Quando se começa a amar, há mais pessoas envolvidas e na maioria das vezes, mais de uma. Nesse caso, você quebra a regra nº 1 : No amor, ninguém pode sofrer.
– Sofrer é inevitável. Faz parte do processo de apaixonar. O amor não pode ser de posse, por isso, as pessoas sofrem.
– Leia o manual. O amor é único em si mesmo e a paixão, efêmera. Está no Artigo II – não confunda paixão com amor.
– E o que fazer com esse sentimento estranho, que encanta, que grita e faz com que a gente sonhe de olhos abertos? E lá de novo eu, ponta a cabeça, como em um trapézio sem rede.
– Que nome se dá a esse sentimento?
– Quando você o pronuncia o nome dela o dia ganha cores, a vida fica mais leve e tudo passa a ter sentido. O nome disso é encantamento e pode ser um passo para o amor. Está no manual. Artigo 3. Parágrafo Único: É permitido se encantar pelo que é belo, pelo que seduz, pela riso e pela poesia de cada dia. É permitido o encantamento.
– Encantamento tem manual?
– Só quando ele se transforma em amor.

E já saindo de mansinho, repete mais uma vez:

– Leia o manual!
– E alguém lê os manuais?

Mariana Gouveia.

Das palavras das cartas · Projeto Fotográfico 6 on 6 · Scenarium Livros Artesanais

6 on 6 – resquícios

Guardo numa gaveta de velhos objectos as tuas palavras, 
até que o bolor do futuro as apague
 – para que só eu saiba o que nunca me disseste.
Nuno Júdice

Leonor,

o ano já rompeu seus dias por aqui e só hoje lembrei de que não te escrevo há algum tempo. A moça que me escuta uma vez por mês diria que isso é bom e mandou que eu retirasse seus resquícios por aqui. Mas como se faz isso, Leonor? Pode me dizer como? Ainda tenho a moldura com sua foto antiga. Confesso que já coloquei ela na lata do lixo duas vezes e corri para recuperar antes que os garis levassem.

As louças que você trouxe e deixou aqui, com a promessa de que buscaria. Até a faca, Leonor? Lembra da faca que você comprou para cortar peixe? E as borboletas que enfeitavam a mesa e os pratos… não posso simplesmente jogar fora, como se não tivessem qualquer valor. E se um dia você aparecer e querer de volta?

De seu também ficou o vidro de perfume vazio – que ainda tem seu cheiro mesmo depois de tanto tempo – e o saquinho com ervas que eu mesma bordei. Era para você ter levado. Não sei se você deixou de propósito, com o intuito de deixar lembranças suas pelo meu lugar.

E as conchas, Leonor? Era para trazer o mar até o meu quintal… ficaram em cima da estante, com suas cores vibrantes e a estrela vermelha – tão nossa – se sobressai. Vai me dizer que não são resquícios seus? E nem falei das cartas emboladas no baú e dos envelopes abertos, com sua caligrafia.

Sabe, Leonor, de todas as lembranças as das manhãs são as mais recorrentes. O bule decorado com las farfallas ficou intacto na mesa. nunca mais coloquei o chá nele… e o quer café, flor? – eu ainda pergunto toda manhã, nas conversas com os cães.

Mas aqui, só ficou a xícara vazia dentro da memória. O pires exposto, sendo pouso para a colherzinha assim como suas mãos foram pouso para as minhas. São tantas coisas, Leonor, que não consigo enumerar assim, de súbito, numa carta – a primeira do ano. Será que ainda te escreverei mais vezes? Vou deixar que o tempo cuide disso e que suas lembranças comecem a ser aqui, para mim, apenas resquícios.

Beijo meu,
Mariana Gouveia
Projeto fotográfico 6 on 6
Scenarium Livros Artesanais
Participam comigo:
Lunna Guedes Suzana MartinsRoseli PedrosoObdúlio Nunes Ortega

Das rotinas

a noite não foi feita para os desvios do quintal.

Perdeu a conta de quantas vezes pintou a parede. Os tijolos expostos da casa vizinha não combinava com a solidão da noite. Via fantasmas esparramados ali e os buracos dos tijolos quebrados pareciam olhos perdidos na noite. Queria cavoucar o estuque e guardar a noite dentro do buraco feito.

Definitivamente, a noite não foi feita para os desvios do quintal.

O vento que sacudia as folhas das árvores eram garras que a segurava por horas inteiras… Mas quando amanhecia, e o sol surgia junto com o voo rasante, a parede parecia um quadro de Monet, onde o riso ganhava cor no trinado do pássaro.

Mariana Gouveia
No bico do beija-flor beija a flor
Agenda Artesanal 2025 – julho, 03

Das palavras das cartas · infinitamente

Das receitas de fuxicos que não inventei

Haverá para os dias sem memória outro nome que não seja morte?
Morte das coisas limpas, leves:

manhã rente às colinas, a luz do corpo levada aos lábios,
os primeiros lilases do jardim. 
Haverá outro nome para o lugar onde não há lembrança de ti?

Eugénio Andrade

Eudes,

tenho tantas coisas para te contar, tantas perguntas para fazer, afinal de contas são dois anos que não atravesso mais a ponte em direção a sua casa. Todos os sábados eu já tinha uma rotina pronta, um mapa traçado das minhas horas com você. Devo te dizer que você bagunçou minha agenda e aquela coisa que a gente dizia que depois de um ano que uma morresse, a outra já estaria vivendo sem lembrar uma da outra… é mentira! Eu ainda me pego organizando meus dias deixando os sábados livres para você.

Também me pego discando seu número para te ligar para saber sobre artesanatos, livros para ler e até sobre os seus “meninos”. Você teria o maior orgulho deles! Embora tenha sido difícil para todos, eles estão fortes – a vida continua, bebê! – tu me diria. Eles morrem de saudades todos os dias, mas continuam seguindo em frente.

Às vezes, fico me perguntando se você escuta quando converso com você. A gente dividiu tanta coisa juntas. Os fuxicos, as caixas, as bonecas, as receitas de quiabo… Você me surpreendia sempre com meu prato favorito.

Nesses dois anos, Eudes, eu não atravessei mais a ponte e nem fui aos lugares que íamos juntas. Tem gente que diz que preciso ultrapassar isso, mas não é que eu não queira me lembrar de você… é que em todos os lugares que fomos juntas, sem você, não tem mais graça. A moça da loja de tecidos me ligou para dizer que havia chegado novidades e pediu para eu te avisar. Quando dei por mim, estava dizendo que avisaria.

Prometi ao Edi que escreveria nossa história e de como me fez apaixonar por você… Fiquei lembrando nossos momentos e as músicas que ouvimos nas madrugadas sem sono, ou com dores. Lembrei-me da chuva, das brigas, dos seus resmungos, dos seus abraços e de como sua risada ainda ecoa aqui.

Será se – você vai entender a frase errada – eu gritar bem alto e olhar o céu você conseguirá me ouvir? Você era tão minha ao primeiro toque do celular. Você era tão constante nas minhas ideias inventadas, nos artesanatos, nas doações. Mas as frases do fuxico foi você que inventou.

Teve um dia desses que olhei para o céu e vi todos os fuxicos que você disse que faria. No céu, você usaria cambraia fina e estenderia uma colcha em algumas manhãs para me aquecer de amor e foi isso que senti. Senti um amor tão lindo me aquecer feito de nuvens que você, de alguma maneira, transformou em fuxicos, só para deixar meu coração mais quentinho.

Te amo infinito!
Mariana Gouveia

Das palavras das cartas · infinitamente

O filme na máquina analógica

Filho,

quando vi seu story sobre o filme na máquina busquei minha caixa de lembranças, fotos e histórias.
Eu ainda tenho uma máquina dessas, onde você colocava o filme e tirava as fotos – é verdade que metade não prestava – e levava na loja de fotos para revelar. A maioria das lojas eram da @kodak. Seu pai me deu a máquina logo que engravidei de você. Queria guardar seus momentos da infância. Lembro-me que havia rolos em preto e branco e coloridos.


O seu álbum em scrapbook foi feito com fotos que eu mesma tirei nessa máquina.
Encontrei alguns negativos da época. Eu já era apaixonada por fotografias. Registrar momentos seus e acompanhar seu crescimento. E quando algum parente aparecia para visitas o álbum era exposto na mesa.

Depois, a tecnologia avançou e vieram as máquinas digitais. A máquina Star275 ficou na caixa de lembranças, junto com seu álbum que registraram momentos de sua infância e os negativos com filmes que não vingaram.
Hoje, seus olhos alcançam a beleza do lugar onde vive tenho certeza de que muitas dessas belezas ficarão em suas lembranças como se fossem fotografias.

Te amo muito ❤️
Mariana Gouveia

Corredores, Codinome Locura · Das palavras das cartas

Em algum lugar além do arco-íris

Luci,

Eu também vi um arco-íris hoje… ainda era manhã chegando e ele engoliu a casa da vizinha num gesto de abraço. Sorri quando vi a cena e quis registrar. Depois, caiu uma garoa miúda e a chuva se foi. Ficou nas trepadeiras as gotas como se fosse um colar de contas.

Eu vi o dia passar leve dentro do segundo dia do ano. Brinquei com o estuque do muro e lembrei-me do seu pai na época em que ele não queria comer. Depois, procurei por nuvens que talvez te servissem de estimação e no fim do dia eu queria te contar uma história bonita…

Vi as aves retornando aos seus umbrais, os cães se estranhando por causa de uma bolinha e a magia do casulo se fechando…

Tinha ainda tanta coisa que eu queria te falar, mas o que ficou em mim nesse dia é o arco-íris abraçando a casa da vizinha.

Mariana Gouveia

Corredores, Codinome Locura

Do dia diferente dos outros dias

Retirei a tipoia do braço na ânsia de escrever. O vento lembrou Berlim em uma época que não estive por lá. Havia margaridas alimentando insetos com seus polens. O último dia que antecede ao primeiro. As janelas dão vistas para a lateral da canção. Um ciclo se encerra e outro começa.

Rabisquei à lápis o nome das cidades que nunca visitei.

Eu adoraria andar descalça pelas ruas de Paris. Em Lisboa, conheceria a voz dentro dos fados… pelas vielas e ficaria em silêncio reverenciando os arrozais da China.

Lembrei-me de que tinha visto em algum lugar, as vilas coloridas e suas casinhas brancas, com gerânios florindo nas janelas. Parecia uma pintura feita pela irmã, que sabia mexer com tintas desde pequena. Fiquei em dúvida se era verdade ou apenas poesia para acalmar a minha alma e afastar a solidão de um dia grande.

O pai incutiu-me a ideia de reverenciar os dias grandes e eu decidir que iria seguir os rituais aprendidos na infância. E, muito embora, soubesse se tratar de uma superstição, segui rigorosamente cada um.

E eu resolvi deixar de lado os dias pequenos e por isso alcancei a soma… e as palavras dentro dos dias, das cartas. Vibrei na estação das águas e me renovei nos dias aleatórios de abril. Vivi cada um dos momentos e fui narrando num sem fôlego. Conheci a autonomia dos voos e senti as impressões do dia seguinte — que era nada mais do que o

agora. Entre uma estação e a primavera, me coube nas infinitudes das coisas. Tudo tão mágico e grande. Tudo tão pequeno. Dentro dos verbos indefinidos ousei viver… mesmo quando o diagnóstico dizia o contrário. A vida é logo ali. Cada dia é um dia grande para viver. E o desafio foi cumprido. Somente um dia, em todos esses dias se resumiu em umas poucas palavras. Os próximos dias serão de dias grandes! Faça valer a pena!

Mariana Gouveia