Ela trocou o quadro de Kandinsky de parede. Agora fica atrás do sofá, então não posso ficar olhando para ele como antes. Em compensação Matisse me encara por dez longos minutos antes de entrar.
– Parece que faz zum século que não venho aqui. Mudou tudo. – falo comigo mesma, mas ela escuta. – A cor já estava desbotada e fiz algumas mudanças na entrada. Não gosta de mudanças? – ela pergunta. Respondo que algumas mudanças me atravessam e meus olhos fitam a janela, Reparo que a cortina não é a mesma – a sóbria de sempre – e que o sol entra por uma fresta.
– Matisse? – aponto o quadro na parede lateral, onde antes havia um vaso grande com uma folhagem estranha que não está mais lá em canto algum. – Você entende de arte? ela me pergunta com atenção voltada para as anotações. – Que nada! Conheço algumas, mas notei Matisse e Kandisnky na sala. “Um único tom não é nada em termos de cor; dois tons são um acorde, são a vida.” – falo quase em sussurro. – Oi? – Frase de Matisse – digo – e a pintura me lembrou dela. Gosto das cores. É isso. gosto das cores.
Ela anota e eu suspiro. A cortina balança, um vento atravessa a janela semiaberta. Falo do tempo, das coisas que penso, de como o mês ganha velocidade das horas e do azul cobalto da parede da frente. – Dá para criar poesia hoje? – ela pergunta com um sorriso terno… – Acho que consigo falar sobre o azul cobalto e das cores. Ela ri enquanto me levanto e vou… com a frase de Matisse na cabeça e o azul cobalto na inspiração.
Fiz um tutorial sobre perdas seguindo à risca cada etapa. Mas na hora h, quando o vento lateral veio com notícias de ida sem volta, esqueci as regras. Abri os braços e pensei ser janela aberta para o mar; apaguei o rito do nascer. As asas perderam o sentido de voos e tudo ficou cinza. E se eu não for poesia amanhã? E se a metamorfose não fizer jus ao instante? E se a morte rasgar a pele e camuflar a vida com outas formas desconhecidas? Vou ter que esperar amanhecer para saber outro dia. Existem muitas maneiras de ir embora, apenas uma de ficar.
No fim do dia serei apenas uma sombra na parede.
Mariana Gouveia Desvios para atravessar quintais Scenarium Livros Artesanais Peça o seu aqui
Ela senta. Anota. – Sugiro que fale mais sobre isso. Disparo a falar sobre possibilidades de espera. O mundo é um lugar comum. Dispensa atenuantes de comparação. O sonho de conquistar o mundo cabe em um abraço. Meninos espreitam a solidão, enquanto espanto pássaros no jardim. Levo eles para o céu. É a estação que sopra em direção do voo. Coisa de menina dentro da estação.. Despeço do homem na porta da esquina. Lembro do corpo dela dentro de mim. Lembro dela dentro de mim. Eu. Dentro dela. A pele com cheiro da maresia. Ela todo mar. Direção da minha nau. Ela, meu porto. Divago sobre vento. Falo da alusão ao que minha mãe dizia: – Vento é o Espírito Santo. Assovie e ele virá. Faço isso só pra demonstrar. Uma brisa suave mexe o cabelo dela. Anota. Imagino roubar as anotações dela. Ela me pergunta sobre o que penso do imaginário – suspiro – – voos… – Pássaros? – Asas. Liberdade. O voo não é solúvel no ar. De toda queda. Só às vezes, eu quero o chão. Há dez maneiras do imaginário agir. -Liberdade? – De dançar, voar, pousar… Empurra os pássaros com a mão. Ela anota. Pega na minha mão. Olha na direção da janela. – Me mostra. E começa a falar de ninhos.
Aquela que dói no peito e bate na porta avisando: não tem jeito. Eu anoto. Não antecipei o contexto. Apenas repeti. E previ. Era outono nas manhãs do nada. Um pássaro morre no meu quintal. Tento fazer a simpatia que minha mãe fazia quando eu era criança. Coloco o pescoço do pássaro em volta dele mesmo. Molho a cabeça dele e depois o coloco debaixo de um balde. Dou as três batidas e mais três. Já não tem vida ali. Já não há voos na minha manhã sombria. Pensei que seria véspera de asas. Acabou. – Tem dificuldades em lidar com o que acaba? – Não! Sou áspera na palavra respirar. Acato. Aceito. Sou submissa na atenção dos dias. O fim é sempre uma porta para um novo começo. – Mas? – É a reconstrução de um tecido que já foi rasgado. Ditados populares de séculos – Não deite remendo novo em pano velho – e por aí, vai. Diante da verdade possível fica um vão de medo. Planejei o dia de hoje em uma conversa simples, limpa, feliz e pensei nisto com o coração, lembrei de todas as conversas que quis ter, cafés, sorvetes, sombras e varais repletos de palavras e libélulas penduradas na palavra acariciar. – E não aconteceu? – Não. Tive de lidar com a morte logo cedo. Seria possível remendar sonhos? Anoto eu mesma a minha resposta. A verdade é que às vezes, é preciso enfrentar a verdade. Há um pássaro vazio de voo na minha mão. Hoje, ela não fala…
… foi assim que você pensou que eu ficaria no mundo, usando flores em meu cabelo negro, sempre escondidas no emaranhado dos cachos sempre escondidas no emaranhado do caos de minha cabeça negra. só você sabia quantas flores eu usava porque agora eu já sei que você dedicava as noites à contagem. … Matilde Campilho
Eudes,
de novo eu te escrevo no seu dia e suspiro a imaginar nossa história. Será que onde você está se comemora aniversário? Será que o aniversário aí é igual aqui? Será que te dão presentes, flores ou outra coisa que seja importante aí?
Faço essas perguntas todas porque me lembro como você gostava do seu dia e de como resmungou quando escondi o presente até quase o momento em que ia me despedir naquele janeiro de antes. Todos os anos você me pedia a toalha bordada. E todos os anos eu bordava nas cores que você escolhia.
Hoje, conversei com Edi, e choramos juntos em uma distância tão longe e tão perto. Falei que queria contar a ele nossas histórias e sei que um dia isso acontecerá. Engraçado como o Edi se tornou mais próximo de mim do que Junior e Marcelo, depois que você se foi.
A gente fala sobre você, e às vezes, eu conto coisas que vivemos juntas. Hoje, me lembrei do physalis, mas nem falei com ele sobre isso – a frutinha da minha infância – e que você cometeu a loucura de trazer para mim dos Estados Unidos. Um pote cheio, escondido entre as roupas, na mala. É que você achou o physalis de lá diferente do meu e quis me encantar.
Eu fiquei boba com sua coragem e ficamos imaginando o que aconteceria se fosse descoberto o tal pote, no aeroporto. com as frutas ainda maduras e que secaram aqui. Foi a prova de amizade mais linda que ganhei e o pé que nasceu aqui ainda floresce e dá frutos. Cuido dele como se fosse um filho.
E assim, vou te mantendo nas lembranças e no coração. E estando perto de seus filhos te alcanço mais perto dentro do amor.
Não tinha uma única pessoa da redondeza que não tivesse ouvido falar do bichano, que tinha nomes vários e moradias muitas. O gato era diferenciado e se eu gostasse de felinos, o teria levado para minha casa. Todo preto, com manchas brancas pelo corpo e patas, como se tivesse sido pintado com poás Exuberante no andar. O seu miado era um canto agradável que ressoava pelo ar, provocando os cães, ao passear por cima dos muros, espiando a vida alheia com a indiferença típica de um bichano boa vida. Eu fui uma das únicas a reparar que o felino tinha verbos no olhar. Tentei decifrar quais, mas comigo ele não falava, apenas com seus humanos de estimação, que me contrataram para bordá-lo. D. Dalvinha, a síndica, foi a primeira. Quis uma almofada com a imagem do bichinho que ela chamava de Sebastian – e como ninguém podia saber que naquele apartamento havia um gato, ela murmurava o nome dele pelos cantos da casa, atraindo a atenção do gatuno que era astuto ao passar pela janela.
Sebastian não miava e não se enroscava nas pernas da mulher que o tratava feito um rei, mimando-o com guloseimas especiais. Ele se sentava no canto do sofá e o único movimento que fazia era o do rabo. O olhar era de um sedutor a se declarar… e ela se derretia por ele. Pediu que eu o retratasse em todos os detalhes, de cores e linhas.
Quando entreguei o trabalho, exigiu o gráfico. Grunhiu como uma felina. Não queria que eu voltasse a bordar o seu Gato, que ela acreditava ser apenas dela. Mal sabia que ao passar pela janela, ele seguia para o apartamento da frente, onde era conhecido por Tonico. O vizinho de porta era um senhor elegante e solitário. Diziam pelos corredores do prédio que colecionava gatos – essa era apenas uma das lendas daquele velho edifício – um dos mais antigos do bairro. O gato caminhava com cuidado ao passar em meio aos porta-retratos de Joaquim, que me convidou para bordar o bichano. Ele o queria retratado com uma mistura de cores… Tonico não se demorava por ali. A casa era limpa demais. Não havia almofadas para um cochilo e nem bolinhas de lã para enroscar as unhas afiadas. O homem tinha o estranho hábito de se sentar perto de seus porta-retratos, de frente para a janela, para espiar as próprias lembranças, que era tudo que lhe restava . Entediado, Tonico miava e partia para outro apartamento… onde encontrava água, comida e brinquedos com fios e cordas, além de areia sempre limpa. Gostava de lá…
Lambia as patas após as refeições e amaciava o travesseiro de Bia, que passava as tardes fora. Nos conhecemos no elevador. A minha bolsa caiu e ela reconheceu Mimi – o seu Gato, que esperava por ela atrás da porta e a recebia como um cão. Esfregava a cabeça em sua perna, esticando-se por inteiro, à espera de um abraço acolhedor. Dava para ouvir o ronronar do bichano que parecia ter a forma dos braços dela. Ao ver o gráfico em minha bolsa disse: – Quero esse! Mas entre as patas, coloque uma linha natural. Gosto das unhas dele e da maneira como elas saltam para fora. Foi o que me deu mais trabalho. Ela me fez mudar de cores várias e várias vezes e eu quase desisti da peça. Mas entreguei o trabalho e reparei que ela pronunciava o nome dele como quem toma um sorvete de flocos. Eu demorei para perceber que Sebastian, Mimi e Tonico eram o mesmo gato. E comecei a imaginar quantos mais seriam. Ele era hábil em passear por muros, entrar e sair de apartamentos. Às vezes, percebia que ele me acompanhava ao longo da rua e quando eu dobrava a esquina, sentava-se e por lá ficava. Nunca me seguiu até em casa, mas se o tivesse feito, teria que escolher um nome para ele . Talvez o chamasse de Maneco, em homenagem ao poeta.
Mariana Gouveia O ano do Gato – Scenarium 8 – 2022 Scenarium Livros Artesanais
Chamava ela pelo nome e docemente ela respondia. Trazia sorrisos, às vezes, quando me atendia. Quase nunca o coração. Não sabia extrapolar as coisas – dizia – era feita de matéria perene, ela – a que eu criei. Nos meus sonhos vinha feito névoa. Me tocava com a maciez das nuvens e eu era etérea. A felicidade cabia tudo dentro de mim. Dei-lhe o perfume do nome. O toque das pétalas. Dormia sobre ela. Por ela e quando amanhecia eu dançava para ela, chovesse ou fizesse sol e regava as sementes que enviou para o jardim. Um dia, chamei seu nome. E não veio riso, nem coração. Não veio nada. O eco vagou pelos quartos todos. Visitou gavetas. Bateu janelas e ela não estava. A montanha onde venta ecoou em resposta do meu grito. Procurei-a nos lugares, e feito névoa se dissipou. Eu, que buscava minha lucidez perdi de vez. Endoideci. Ainda assim a chamava. Ora com a calma do amor, ora com a tirania dos amantes. Com a raiva de quem endoideceu de amor. Não veio mais. Nem em sonho. Desde então, nas madrugadas vazias vago pelas ruas, nua. Coberta apenas com a flor que ela me plantou, com o riso de doida no olhar, cantando o nome dela como se fosse canção.
Quando o sol sai. Volto ao normal. Se bem, que sem ela nunca sei o que é normal.
No início de 2015 fui convidada pela Scenarium para a publicação de um livro de poesias. Até então, meus textos/poemas e prosas eram escritos apenas em cadernos, e aqui no blog.
O convite de Lunna Guedes mudou minha vida – a partir daquele momento eu era uma escritora. Me atrevia a me ver dentro da palavra escritora. E vi meu sonho realizado.
O lado de dentro costurado em fitas de cetim, trazia minhas poesias e minha alma. Quando recebi o primeiro exemplar chorei. É o último livro na foto. Tem a capa borrada pelas minhas lágrimas de alegria por poder expressar minha poesia em um livro com cheiro de amor.
Depois da primeira edição, o livro ganhou mais duas capas nos anos seguintes. Além dele tenho mais 5 livros publicados, mas O lado de dentro foi a mudança dessa história.
Para saber mais sobre meus livros e a forma de ter um para chamar de seu clica aqui.
Mariana Gouveia O lado de dentro, Scenarium Livros Artesanais
Ganhara a caixinha de música da madrinha que vinha vez ou outra para visitas. Dava a bênção. Olhava encantada para o papel de presente que sempre tinha coraçõezinhos ou borboletas – um dia ouviu a madrinha dizer à mãe que ela gostava mais da embalagem do que do presente – por isso na hora que viu a caixinha de música mostrou alegria, mais do que sentira. Onde se viu uma caixinha de música sem a bailarina?
As borboletas sim, pareciam saltar do papel como se dançassem ao menor toque na corda da caixinha. O som que saia da caixa era como se fosse um empréstimo da natureza e adoçava suas vontades da vida. Podia ver a música nas folhas, nas aves, no rumor do vento… não importa onde estivesse podia ouvir qualquer música. E podia dançar feita bailarina.
Ainda hoje, depois de tanto tempo e com a caixinha muda guardada na mala azul, já sem os cadeados de antes, ainda pode ouvir a música. A madrinha se foi há tempos. Quando se transformou em menina-moça-mulher a madrinha já não vinha mais. Foi se distanciando com o tempo e o papel foi desbotando com o passar dos dias. E a música da caixa já parecia ter vida própria e nem precisava mais da caixa pra ser.
Como todos perdem o sabor da infância, ela também perdera numa rua qualquer de uma cidadezinha. Vez ou outra percorre as ruas em sonhos. Grita. Relembra o primo que dizia que a sina dela era ficar louca a olhar para o céu em noites de lua cheia.
Quando a lua surge, às vezes, teme ainda a profecia do primo. Porém, hoje o que mais teme é a saudade que sente.
Mariana Gouveia A menina da mala azul que tinha sonhos cor de rosa