Corredores, Codinome Locura

Devia ver as roupas no varal… 

Devia ver as roupas secando no varal… O vento convidando para o lençol dançar e a ave, com seu jeito de asa sendo instante no momento. Era primavera dentro dos dias no quintal.

Na estante, os bibelôs trazem lembranças de um tempo que já não é – a vida desavisa os calendários – e a lua, incerta do caminho do sol muda o decanato em meu mapa astral desenhado a dedo no vidro da janela embaçada.

Ainda era ontem, menina eu e os lençóis de linho branco, bordados com monogramas em ponto cruz e a mãe, ali, ao pé do rio, a água a correr e o riso dos irmãos a brincarem de viver.

Devia ver as roupas secando no varal e quem sabe as suas histórias se parecessem com as minhas e a carta de um parente distante, com fotografias desbotadas de quando ainda era a menina de trança.

O olho perdido no espaço e a irmã a relembrar que ela já fora personagem de um filme e que abraçava o cão da infância com nome de Capuchinho – de tão peludo que era – e que toda cidade lotou o único espaço da cidade para ver ela.

A filha do pai que carregava o cão no colo e tinha olho de voo. Devia ver as roupas no varal… ali, estendeu as lembranças de uma vida toda e até as cartas de amor.

Mariana Gouveia

Corredores, Codinome Locura · Das palavras das cartas

Carta para minha mãe aos cuidados do amor

” Um dia, a palavra amor será seu lema em tudo que fizer. Desde as coisas mais simples, até o mais sublime ato seu, terá amor e é nessa palavra que me encontrará”.
Mãe.

Hoje vivi o dia dentro do silêncio. A voz sumiu e de repente, a vida passou feito um filme.
Posso contar tudo que você me ensinou dentro da palavra amor e de quanto carrego em mim seus ensinamentos – tão poucos – diante do que me lembro e tão intensos que revejo nas cartas que guardo comigo.
Suas letras aos poucos desbotam perante os anos que foram escritas… em outras, estão bem feitas como a última que escreveu para uma rádio, onde pedia sua música favorita e que trago comigo.
A letra miúda falando da primavera e de como as flores dos ipês te encantava tanto.

41 anos é uma vida. 41 anos sem sua presença física. Eu poderia dizer como foram esses anos todos, mas ao mesmo tempo, dentro do meu silêncio, às vezes, é como se eu abrisse o baú e tivesse ali suas fotonovelas e as histórias de amor que tanto gostava ao toque das mãos.
Aquela menina ainda está aqui, e roubo a frase que a mocinha dizia… Relembro seus suspiros e a mudança da história quando havia algo mais profundo para que a gente entendesse sobre o amor.

Há 41 anos, a vida te levou. Não sei para onde. Sei que de alguma forma você vive. Vive na sua estação preferida e nas canções que gostava de ouvir. Vive no riso dos irmãos onde cada um tem algo de você. Vive e permanece minha mãe sempre, nos momentos que mais preciso… e permanece viva em meu coração, mãe.

Beijo

Sua filha
Mariana

Das palavras das cartas · Scenarium Livros Artesanais

*Há apenas um quadro, retrato fiel, um cenário que recorta a janela por inteiro.

Ana,

Até anteontem era inverno… o mais quente de todos os tempos – dizem as manchetes – e é primavera, Ana! Poderia te dizer que os dias correram ligeiros. Era primavera dias desses e já se vão 365 dias desde então.

Lembrei-me de que faz dias que não nos falamos. eu iria repetir a velha máxima sobre a correria dos dias, mas Ana, confesso que perdi as palavras para falar com você. Ficamos estranhas nessa jornada de tempos que falamos mais de coisas dos outros do que sobre a gente,

Devia dizer que a a lua está divina hoje, que os barulhos dos fogos me lembrou o fim de ano – que se aproxima – e agradeço pelos cães daqui não terem medo deles. Os fogos é em comemoração de um time que foi campeão em alguma das infinitas copas que existem por aqui.

O calor ultrapassou todos os recordes. Tivemos hoje 42º registrados lá pelas minhas 14:00hs. Você poderia imaginar isso, Ana? confesso que estranhei tudo isso. Nem venta no meu quintal. As folhas das árvores nem balançam, mesmo fazendo o tal assobio que minha mãe ensinou.

Há apenas um quadro, retrato fiel, um cenário que recosta a janela por inteiro, nesse fim de tarde quase noite de uma primavera perdida para nós. Há qualquer coisa assim, de vazio, de silêncios amargos, Ana… diria que é a vida. Suspiro e perco as palavras diante da janela enquadrada enquanto as resgas da noite chega.

Talvez, em um fim de frase dessa carta não programada eu declare que ainda te amo, mas que te deixei só muito tempo com as estrelas, e isso é imperdoável. Como pude esquecer algumas datas importantes para nós? Seria a idade chegando e o calendário deixando de ter a importância de antigamente?

É o amor parado, Ana! Sem movimento, assim como o quintal agora, em um calor intenso e nem venta. É o fim da espera, Ana, e o início de um recomeço seu por aí…

Como diz a frase lida em algum lugar que esqueci: rega o teu jardim, pinta as tuas flores, come as tuas framboesas... e quando sair de vez, não esqueça de pagar as luzes e

Beijo meu

Mariana Gouveia
Missivas de Primavera
Scenarium Livros Artesanas
* retirado do texto do livro Poética de Ana Cristina César


Corredores, Codinome Locura

 Temos tão pouco tempo tão pouco sonho tão pouco

Às vezes, me lembro que só tenho doze minutos por dia. Esses minutos entre o respirar e as gotas, sempre as últimas – para na manhã seguinte a tela se abrir e anunciar nova programação – que caem trazendo os sintomas que quero esquecer.

Não veio nem o sim nem o não. Apenas essa distância infinita, além do muro – e a dureza do cimento e a frase escrita, sangrando os dedos. Apenas esse infinito presságio de que a asa calada já não é mais parte minha.

De meu, só os doze minutos e essa porta fechada e a lembrança do pedido do “não me fale mais” quando o sangue na artéria rememora o magna dos que esperam sem expectativas.

Gostaria de te amar um pouco menos e talvez quebrasse menos as paredes e nem esperasse a primavera chegar. O relógio conta os segundos que restam… As aves fogem das mãos e o vento traz o calor intenso da febre – e do tempo – e a solidão que amarga na boca, a ausência.

O silêncio é essa vastidão de memórias na alma desde sempre, dos séculos onde as histórias foram escritas e descritas como poemas de amor.

… e a porta que se fechará mais uma vez, como se fosse a última…

Mariana Gouveia

Scenarium 8 · Scenarium Livros Artesanais

Da florada à xícara fumegante

Nasci em uma fazenda de café e cresci ouvindo meu pai se preparando para a floração – era quando a terra se vestia de noiva. Ele dizia e seus olhos brilhavam e até hoje me pergunto se ele próprio não era o noivo à espera que elas florescessem.

Depois da floração, os frutos surgiam verdes e na retórica de meu pai era a época da esperança… como se vigiasse um tesouro ele passava à revista entre os trieiros dos pés de café.

Quando o fruto amadurecia os pés se preparavam para a festa. O vermelho cobria a entrada da fazenda. Como se fosse imagem de filme ou da noiva já vestida para a festa e todos se preparavam para a colheita.

A distinção dos grãos se fazia nos trieiros e dali saía para o experimento e garantir seu nome na qualidade do café que vendia. Ele mesmo torrava, moía e preparava a bebida que nos unia ao redor da grande mesa de madeira, debaixo do pé de sete copas.

Era um dos rituais que meu fazia. E se eu fechar os olhos posso sentir o aroma e a magia daquele momento.

Como um alquimista ele misturava o pó na água e media o tempo exato da fervura… na velha radiola ele ouvia a canção que falava do rei do café e a gente sabia que, naquele momento, com a aprovação do café coado, ele se sentia mesmo um rei daquele lugar. Nunca vou esquecer daquele brilho nos olhos dele.

O tempo nos levou para longe daquele lugar, embora alguns rituais permaneçam, hoje quem torra e mói o café – sob o olhar atento dele – é minha irmã. A velha xícara de ágata ainda é a mesma e o brilho no olho hoje retrata a saudade, embora ele nunca mais tenha falado sobre o cafezal, a radiola ainda toca o disco de vinil da sua canção favorita.

O que sei sobre o café devo a ele. A textura, o sabor e o aroma sempre me levam pelas mãos para aquele tempo da infância e juventude. Outras simbologias me ligam ao café. Ainda tenho o bule de ágata verde musgo e meu café é coado com o coador de pano que eu mesma faço.

Não é raro nas minhas tardes sentir o cheiro de café sendo coado na casa de algum vizinho e como se fossem puxadas por um fio, as memórias me trazem os instantes que me fizeram ser hoje o que sou… nessa hora, eu bebo a saudade em uma xícara fumegante lembrando do homem que hoje é apenas se intitula como meu pai, mas no fundo é ainda, o meu rei.

Mariana Gouveia
Coletivo| Scenarium 8
O Café dos Loucos
Scenarium Livros Artesanais

Colheita · Scenarium Livros Artesanais

Perdeu o significado das ervas…

o caderno que ganhou
era para anotar as espécies
– era o que o pai dizia –
Passou a escrever poemas nas linhas
– era a sua forma preferida de gozo
O dedo enfiado na terra.
A semear-se…

– no próprio coração! A coragem –
Nem era semente isso – alguém dizia
Mas, em muitas noites de lua,
enquanto todos iam colher as flores
para remédios nos campos
Plantava a solidão – nos vasos da cozinha

Pegava – com cuidado – a faca
Abria a semente –
entre a janela da varanda
e o caos interno

Sufocada com o dom que ganhara na infância não queria mais plantar!
Matou a semente com um só golpe.

Mariana Gouveia
Colheita
Scenarium Livros Artesanais

Corredores, Codinome Locura

os varais vivem com os sonhos dependurados

Já faz tempo que o eco ficou perdido no quintal. Descobri cidades inteiras na rua de cima. Sob teus olhos vi esculturas de sombras em paredes claras. A fruta de todo dia no sabor do beijo não dado.
A vida ganha forças nos ninhos feitos nas árvores do lado de cá.
Há um nome oculto na calada da noite. Os varais vivem com os sonhos dependurados e o vento é esse pássaro fácil brincando de asas.

Mariana Gouveia

Colheita · Scenarium Livros Artesanais

Colheita

Alguém lhe contou a versão da história da jardineira que fazia trança das memórias com as sementes que plantou.

Com sua bolsa a tiracolo…
ela ia espalhando as sementes
de um lado da estrada na ida…
E como vivia os dias a ir
– para algum lugar –
Escolhia aonde semear.

Virou lenda!
A mulher que sabia plantar.

Ainda hoje… tem a bolsa cheia de sementes
E ao andar pelas estradas…
Vê os canteiros floridos de lembranças suas…

Mariana Gouveia
Colheita
Scenarium Livros Artesanais

Das rotinas

De ti digo sílabas e pétalas.

Leio histórias que lembra você. O homem da esquina entoa um mantra dentro da solidão – pede sementes da flor que nem nasceu – faz perguntas sobre o amor que canto na letra da canção.

Inventei sua presença, ali, no canto do jardim. É lá que beijo pétala a pétala da flor. Essa impossibilidade do toque não me afeta – fecho os olhos e a alma busca – porque eu toco-a.

Vejo de perto seus caminhos – seu céu sob o rio – e outras mãos que podem te tocar.
Era quase nada essa distância… é preciso um certo encantamento para viver a vida. Para superar esses corredores cheios da noite.
Perguntas rondam minha vontade de falar. Quase esqueço o último pedido do não. Onde esse medo de nada que vasculha minha noite? Onde essa flor que se abre dentro das ausências e mora nos poemas que me leem?
Onde o pólen se transforma na onda que se arrasta em meu quintal?
Dentro das perguntas em volta da flor apenas seu nome e minha declaração de amor.

Mariana Gouveia

Das rotinas

as minhas estranhas cicatrizes

Passeava pelo meu coração como se conhecesse as ranhuras, as cicatrizes. Por onde passava, abria as janelas da alma e deixava o sol entrar. Era estranho sentir as pegadas dela aqui e ali, mas a sensação de ocupação de mim era a coisa mais magnífica da vida.

Mariana Gouveia