Era oblíqua a lua, em seu estado vagaroso, seu olhar transversal em um céu nublado, sem nuvens, e atravessa a janela lateral da rua de cima. O búzio que me traz o sol na escuridão da noite. O vulto que vagueia nas sombras desenhadas pelas mãos. A previsão dentro das rotinas de vento e o intempestivo jeito de amar dos bichos. A gente fala das palavras de solidão e a canção busca na memória o revival dos contos lindos da infância. As coisas miúdas estampadas na parede… O segredo, um ovo feito no estuque para guardar bilhetes. A ladainha da velha da esquina a repetir o mantra. Quase era tudo, um nada no telhado e a ave gigante lembrava uma história que alguém contou e eu não vivi. A saudade ladeira abaixo empunhando os gritos. Os caminhos que levam para outros cômodos. A porta dava para além dos quintais e muros que, logo ali, davam de encontro ao riacho. A vida é esse ciclo de memórias e vivências. O amor, é esse estágio branco escondido nas asas atrás da porta e que bebe água do rio, que sempre deságua no mar.
Visitava a sala depois de olhar cada canto, aposento abandonado pela saudade… precisava aspirar ela no quintal. Olhou céu, o dia coloria as flores… dentro dela germinava asas… pariu borboleta em um idioma que não era o seu. De noite, a situação era de sonho. o céu gemia dentro dela e as estrelas agitava seu interior. Calma aparente de quem ama. Depois que amanhece, asa feita, retrato na parede e ali, todo dia, quando ainda era madrugada fazia reza para ela Ave, borboleta!
Entre as nuvens e as estrelas… Clareia a pele com o efeito da dor. Os cabelos ralos, diante do espelho cria ondas em reflexos onde não me reconheço. Sou como a mulher da noite – que vagueia – de janela em janela, o riso molhado na loucura exposta – e a pele – a declamar ausência. Na penumbra a ecoar o silêncio que só as flores lilases conhecem. Alguém disse um dia que a loucura é lilás e desbota na lucidez da dor. As mãos a desenhar presença nas sombras da parede – monstros – que me atacam e acionam a alavanca do medo. O último pássaro a ecoar dentro da noite e o universo parecia definir cantata para a solidão. E ainda tenho a caneta lilás com a qual desenho as flores e a língua muda que não consigo traduzir enquanto fechei a palavra chave que havia aberto o mural do jardim através do silêncio.
Mudou a rotina dos dias… abraçou a menina que pedia colo na madrugada. Alguém perdeu a alegria logo ali, entre a esquina de baixo e a caixa d’água. A estrela gigante se ampliou no riso dela e o afago apenas foi automático. Cantou as canções que lembrava da infância. Simulou esperança nas folhas e captou a ternura no olho de amor. As coisas miúdas criam fases de encantamentos. Buscou histórias infinitas vividas nos dias. Desenhou nas mãos a minuta do sonho. Às vezes, a vida tem coisas estranhas que escapam do normal Todo dia é um instante de loucura dentro da lucidez.
A semente era preparada meses antes do começo das chuvas… o cheiro ainda permanece nas lembranças… O café coado enquanto se prepara o arroz para plantar, o rádio ligado no programa favorito, a marcação do primeiro lote… tudo gerava a gestação do que nasceria tempos depois… Elas eram escolhidas a dedo pelo pai, que sabia exatamente qual lote seria usado no ano seguinte e assim por diante. O campo do capim dourado a aguardar as novas sementes e o capim colonião que logo iria virar pasto para o gado durante o período de seca e cama para os insetos que inevitavelmente viriam para ali. A grama verde a escoar gotas e abrir caminho durante a madrugada – que era a hora exata de sair para o campo para a plantação – e logo depois e depois os brotinhos iriam começar a aparecer e dali, do alto do morro, ver a natureza cumprindo seu destino de vida.
Ler as suas palavras me fez viver dentro do seu afeto. Como podemos nos dizer vivas nessa redoma doida que nos atinge em cheio? Onde anda minha segurança perante os meus defeitos?
Como a mulher que escreve diferencia da mulher que tem irmã, sentimentos-pensamentos não tão comuns dos normais.
Eu acho os escritores anormais.
Eles vasculham almas além das deles, expõe vontades escondidas no oco do silêncio e no fundo manipula nossas vontades. Por isso, a frase que me escreveu me tocou tanto: Até cortar os próprios defeitos pode ser perigoso. Nunca se sabe qual é o defeito que sustenta nosso edifício inteiro…
Você tem noção, irmãzinha, de que essa frase será descrita/escrita/falada/contada/cantada milhões de vezes num futuro que não sabemos?
E como saber qual é o defeito que me atinge? E qual molda minha alma chamada tão sua? E do quão estranho é essa relação comigo mesma? E que tenho uma irmã escritora que me absorve sempre?
Os conselhos me fazem rir… será que você mesma os segue? Sei da intenção por trás das tuas palavras e meu coração se aquece com o seu cuidado. Somos parecidas e isso me compadece na alma.
O desassossego que me invade, deve ser irritante para você e sei que grande parte do escrito cabe tão bem em você, quanto em mim. O fato é que, em você, elas explodem em sentimentos e, talvez, por isso, seja menos avassalador quanto em mim. Em mim, eles explodem! Causam confusões e perco-me de mim diversas vezes.
Fico pensando em como quatro anos te mudou tanto e de como isso poderia ser revertido. Há coisas que nos mudam para sempre. Dizem que o caminho nunca é o mesmo quando passamos por ele… ou seria o rio?…
Tudo muda com o tempo e sabemos que tanto eu quanto você já não seremos mais as mesmas, não importa se rio ou caminho. Eu a vejo corajosa e bebo dessa fonte para enfrentar os meus medos.
A resignação só combina com você até certo ponto.
Tenho certeza de que dará voltas e será sempre a irmã de que me lembro e admiro. A mulher que tem o poder de dominar o nó vital sem se esgueirar nas estranhezas do outro.
Quando você se refere ao respeito a mim, me faz refletir sobre quando isso deixou de ser importante para mim. A gente rasteja mais do que devia aos outros e quando nos damos conta, viramos uns marionetes…
Mas vou buscar a perfeição dentro de suas palavras.
Viver para saber a diferença do céu e inferno. Como saberemos, Clarice? Onde é o fim de um e o começo do outro? Vou tentar ser eu e basear meus atos nos seus escritos.
A vida é um sopro para além da alma e sinto que a minha passa com o drama da poesia e a graça da comédia. Deveria dizer-te que sim, que tudo será como diz e que quando retornar a vida seguirá igual ao que era antes… Mas, diga-me se antes você não pensava no agora, como está? As mudanças causam-me medo, de sobremaneira que tento ser igual todo dia. Não é covardia, como dizem os outros… É apenas preguiça do sentimento que esfria as rotinas e as tornam banais. Também gostaria de assisti-la sem que soubesse. Seria minha irmã digna de raiva por algum motivo? Esse pensamento me arranca sorrisos quando a imagino fora de si, por algum motivo, ou a própria personagem que escreve. Mas sei que ainda assim, você seria a minha irmã de sempre e que eu admiro e a personagem, cópia que vez ou outra eu seguiria.
Era para ter te escrito e falar das coisas neutras, e esquecer um pouco a sinceridade que o momento exige, mesmo sabendo que podemos e vamos fazê-lo… falar do sol que amarela as paredes da casa ao lado até quase o fim do dia. Falar do vestido de flores delicadas que comprei e dizem – combina comigo – para me arrepender logo depois e nunca mais usá-lo… Do weekend que se encerra com ares de outono, com as folhas das árvores da rua caindo, espalhando um farfalhar que parece canção rua afora.
O que me resta é desejar-te aqui para o abraço demorado, o riso cúmplice e a alegria compartilhada para quando nos reencontrarmos.
Abraço com saudades, Sua irmã
Carta publicada no Coletivo Scenarium 8 A Terceira Noite Scenarium Livros Artesanais
Havia jeito de asa para o lado do Sul a maré previu a fase da lua e a maresia invadiu meu quintal eu era só teu olho diante da janela a tarde tinha a brisa tinha gesto Guardei o meu amor em palavras escrevi seu endereço no voo do pássaro e seu nome foi jogado no céu antes que as estrelas acordassem. Havia gestos de flores no quintal. O cão latia para o riso das crianças. Era assim a vida na docilidade das coisas.
fico me perguntando se o céu dos cachorros tem sol – às vezes.
Pensou na trovoada de ontem. Fez a oração para o cão que partiu. A menina da esquina passará a ver com os olhos do coração. No horóscopo do dia o imprevisto pode mudar a rotina. Janeiro ecoa nos calendários das mesas. O silêncio hoje é opção de escolha. Logo ali, mora dentro do sol a esperança.
Te escrever é como rabiscar a parede para deixar algo registrado. Lembra que já fiz isso? Hoje, faz parte do passado — ou seria das minhas lembranças? Escrevi para você atrás da porta da azul do meu quarto. Grande parte das palavras direcionadas a você se cumpriram. Se bem que acho que não foi arte sua… Ouvindo Leon nessa tarde atípica, sem o calor dos dias quentes que quase queimaram a pele, quero estar com você nos próximos dias-meses-anos, outros tempos. Quero ver o ipê se desfolhar por inteiro no meu quintal. Ele ainda é uma árvore-bebê. Apesar de ter dourado os dias, quero vê-lo derramando a suavidade das pétalas sob os meus pés.
Quero ver o pé de jabuticaba dando frutos para que eu possa colher risos nas bocas das crianças da minha vida e quero você ali, a espreitar os muros, fazendo florescer esse desejo através do tempo.
E quando a palavra saudade abocanhar meu coração, quero sentir a nostalgia desse momento.
A música que toca será outra? Ou ainda será a voz da mesma artista a ecoar por aqui. Encantos mudam, você sabe. E para além das coisas que ainda nem sei se vou viver… haverá despedidas daqueles que amo e dos que não amo tanto. Saberei compreender que faz parte da vida… da rota que seguimos, sem sabermos a direção.
Você, que está no tempo que ainda virá, deve e divertir com as minhas insanidades. Ouço sua voz jovial me chamando de boba, sabendo que errei tudo. Quem sabe, não serei eu que terei partido, sendo apenas poema nessa dimensão de estrelas.
Sei que você e o Presente nunca se reunirão… é quase o enigma que minha mãe dizia: o que é sem nunca ter sido? E os irmãos em uníssono diziam: futuroooo!
Tudo é um eterno ciclo: o que é hoje, amanhã não mais será. E quando chegar o amanhã, passará a ser hoje. Você é complexo, menino!
Não fosse tempos de incógnitas, diria que vou te esperar para uma conversa ao pé de ouvido, com uma xícara de chá ou um copo de cerveja. Algumas conversas devem ser movidas por qualquer coisa de êxtase. E quando isso acontecer, acho que terei outras cartas guardadas nos meus cadernos tendo você como destinatário.
Até lá! Mariana Gouveia Carta publicada no livro Feliz Ano Velho Scenarium Livros Artesanais