Das rotinas

Havia um modo solitário de enxergar presença na vida do cão

Definhava nas horas do dia, em frente à casa abandonada da rua lateral. O abandono era costume nas noites em que fazia sol.

A grama fazia colo para os contos de fadas, escritos nas horas de insônia. Os sons dos carros e suas buzinas e a cidade silenciosa diante das coisas.

Os jornais contavam histórias que alguém inventou. A sorte é tirada na sorte de quem acreditava em figas.

Alguém tentava adivinhar qual futuro ficou no meu passado. A mão única não pertence à velocidade das coisas…

Tudo se definia dentro da lógica do tempo. Havia um modo solitário de enxergar presença na vida do cão. Quando ela me escreveu, me desenhou na porta errada e virei retrato preto e branco na paisagem.

Mariana Gouveia

Corredores, Codinome Locura

Mas esse quase é um quase que eu adoro

Desse amor, a pele
quase cítrica – agridoce
A gota da chuva – quase sede
o trovão ecoando seu nome -quase grito

e esse nó no peito – quase morro
no seu crepúsculo – quase ardo
em sua história contada – quase vivo

sou real em tua pele – quase poro
em teu voo sou asa – quase pássaro
Do mar que te rodeia – quase rio

das ruas das tuas estradas – quase atalho
das palavras do poeta – quase roubo
o poema que te chamo – todo amor

e do abraço terno – quase encontro
da mão que oferece colo – puro pouso.

Mariana Gouveia

Corredores, Codinome Locura

a alma inventada na rua do nada.

Eu invento a Rua de cima… finjo que o silêncio quando ecoa, faz um barulho ensurdecedor! Na rua de cima tem as meninas que cuidam da beleza. Colocam nos dedos, a cor. Tem cada nome o verniz que a moça de cabelos vermelhos desenha na unha. É quase uma tentativa de colar jardim nas mãos.

A árvore que fica além da esquina, floresce. Lá, de noite, eu consigo ver as estrelas todas. É quase vertical, o portal. Os muros altos e as trepadeiras invadem as casas com suas cores insanas. Essa rua, inventei em detalhes. As casas e suas cores vibrantes cheias de sons.

E a vida acontece dentro dessa invenção. A estação acontece dentro das horas. As fotografias do instante sobre o muro. O voo dos pássaros a cruzar a linha imaginária que invento entre uma rua e outra. Tudo ímpar. Os números da rua a combinar com as casas.

A sorte desenhada nos trevos e a alma inventada na rua do nada.

Mariana Gouveia

Corredores, Codinome Locura

Tenho fé imensa em quem acaba de nascer com asa na vida.

Não cabia na palma da mão a audácia do voo e o casulo abriu-se…
o som e a briga constante com o silêncio. A vontade absoluta de nada. Vidros partidos na reza silenciosa de agora.

Os estranhos se misturam à paisagem do dia e perdem o nome à medida que o tempo avança. Enquanto caminho, penso no cachorro perdido que nunca mais vi… Na rota da fuga, uma estrela desavisada. O moço da bicicleta perdeu-se na cidade encantada. Mandou postal da nuvem que desenhei de madrugada.

Vem a coragem lavada na calçada sem flores. A mariposa voa em volta do lume da rua de cima. Busca a própria solidão em asas. O pé de frutas socorre o faminto.

A rua ecoa meus passos. Era quase isso no ano que acabou ontem… escrevi duas cartas na memória. Nota mental de quem sufoca o grito.

Tenho fé imensa em quem acaba de nascer com asa na vida.

Mariana Gouveia

das coisas breves

Tem noite que a alma queima feito vulcão.

Há alerta laranja ecoando no quintal
a leveza, em dias como esse não sobra aqui.
O vento, finge que passeia e o pássaro de todo dia
busca a sombra dentro da varanda.
Nas miudezas, o jardim é apenas esse vácuo na solidão…
A estação cria ilusão de que a primavera só existe no nome.
Tem noite que a alma queima feito vulcão.

Mariana Gouveia

Das palavras das cartas · Scenarium Livros Artesanais

*Quero fazer crer que é tardíssimo, ou qualquer outra urgência que te acarinhe para longe

Leonor,

quando a tarde vai caindo e o céu ganha os tons laranjas da primavera no meu quintal – esse mesmo que te viu dançar em tardes iguais – eu penso é tarde, Leonor… muito tarde para que chegue alguma respostas das mais de mil cartas enviadas.

É tarde para esquecer também, já que algumas coisas chegam até mim com todo simbolismo que nos rodeou. As ruas do meu bairro com casas coloridas que você fotografou. Quero fazer crer que é tardíssimo, ou qualquer outra urgência que te acarinhe
para longe..

De vez em quando eu esqueço, Leonor… nesses momentos em que o tempo acontece fora do padrão dentro de mim… esqueço até da estação que me rodeia e a vida segue constante no ritmo de antes. Mas logo depois, alguma coisa me leva até seu nome – seja uma canção, um voo de ave, um sol ardente, a chuva tardia de verão, os lugares onde fomos e tudo volta de novo.

Sabe, Leonor, às vezes, parece tudo distante e ao mesmo tempo parece que foi ontem… eu ainda reviro o baú com suas coisas e vasculho as correspondências que o carteiro deixa na caixa de correios. Também escrevo cartas que não envio, como essa de agora, só reafirmando que ainda te espero.

Beijo meu,

Mariana Gouveia
Missivas de Primavera
Scenarium Livros Artesanais
* retirado do texto do livro Poética de Ana Cristina César

Corredores, Codinome Locura

Tudo isso ocupa agora lugar na mesa.

Era como escrever poemas na pele dela – usar os dedos como tinta e amanhecer lilás depois da madrugada intensa – pintar devaneios entre a nuca e o cabelo. Caçar a solidão que existe na menina daquele olhar.

Tatear a pele, esculpir vontades e ir decorando textos obscenos que ela diria se estivesse aqui. Citaria Anaïs Nin, se não misturasse os poemas, ou apenas ficaria em silencio para ouvir a respiração.

Olhou a mesa com as coisas banais. A panela preta que era da mãe. Virou objeto de decoração, ali, no mesmo lugar onde a ama todo dia. A bandeja com os medicamentos que toma. Isso a fez lembrar que era dia – hoje – de ir buscar mais.

O pacote de pão. Riu ao se lembrar do pão que gerava uma longa conversa entre o pão daqui e o pão de lá.

Tudo isso ocupa agora lugar na mesa.

Veio a vontade absurda de jogar tudo fora. Fazer aquelas cenas de filme. Conteve-se.

Voltou a desenhar rotinas no corpo dela. Sabia de cor os caminhos todos. A textura, o convite da boca. O olho de fome e essas vontades todas.

Era como escrever poemas na pele dela. Era apenas a cadeira na solidão vazia.

E no silêncio de minhas palavras ela quis ir.

Mariana Gouveia

Das palavras das cartas · Lunna Guedes · Projeto Fotográfico 6 on 6 · Scenarium Livros Artesanais

6 on 6 – dos corações que vejo

“Ela me dava a mão e então nada mais faltava.
Bastava para que eu me sentisse bem acolhido. Mais que beijá-la, mais que dormirmos juntos, mais que qualquer outra coisa, ela me dava a mão e isso era amor”.

Mario Benedetti

Bambina mia,

acostumei-me a te escrever no dia 6 de cada mês… talvez, porque ninguém entenderia essa coisa estranha de ligar fotos com carta – ou missiva, como tu gosta de dizer – mas você sabe que em alguns momentos, imagens e palavras se unem em uma perfeição para além do que somos. Talvez, por isso, eu quis falar sobre o cuore… os que vejo aleatoriamente, são os cuores que meu olho alcança.

Já te contei, bambina, que meu olho vê coração em tudo quanto é lado? Era uma folha aleatória? Não! Vi um coração na secura do cerrado… os meus, dizem – que sou assim desde criança – que vejo coração em tudo que encontro.

A gente sempre brinca que coração é um músculo, mas para nós a palavra tem o ritmo do tum tum, mesmo quando ele absorve, em alguns momentos as lágrimas dos olhos. Ou quando a folha imita o choro da natureza nas gotas de chuvas. tanto eu quanto você amamos esse momento.

E as vezes, bambina, o nosso cuore parece metade… seja ocupado por alguém, seja cheio de saudades… confesso que sinto saudades – embora saiba que a palavra não te alcança – de tantos momentos com vocês. Dizem que nessa hora o cuore se ocupa com as lembranças dos momentos bons. Posso enumerar todos eles…desde o encontro no aeroporto ao café da manhã… desde a chegada, ao abraço de despedida…

Bambina, sabemos também que em alguns dias o nosso cuore parece estar em um quarto escuro – conheço essa solidão ou sentimento e tu também – e em outros é como se estivéssemos em uma escola de samba… Dá até pra ouvir as batidas.

Em outros momentos, é como se ele fosse pequeninho e um ser gigante tomasse conta dele. Já passou por isso, amore? Eu já! quando vejo o céu, a tarde, se apoderar das nuvens e o prenúncio de uma tempestade se aproximar, eu abro os braços e meu cuore chama pelo seu. Grito seu nome e preparo para os tuns-tuns… Seja em poesia, ou em cartas, o cuore sempre é o mote principal. Como hoje, que te ofereço o meu em forma de 6 fotos para retratar meus carinho.

Bacio,

Mariana Gouveia
Projeto fotográfico 6 on 6
Scenarium Livros Artesanais
Participam comigo:
Lunna GuedesObdúlio Nunes Ortega Roseli PedrosoCláudia Leonardi

Corredores, Codinome Locura

Era uma vez, a coragem

Tinha rosto de homem e pintou a floresta de igualdade. Possuía o sonho de unificar o mundo, ou a etnias e com isso ele vivia dentro de sua cor de alma.

Vivia entre a natureza e o equilíbrio tênue – em uma mão, o acolher… em outra, a liberdade que as árvores e os rios possuíam – e a liberdade cobra o preço de quem aprecia o vento.

Quando a certa altura tudo começava a fazer sentido na vida do homem e daqueles que o cercava, que com a coragem no olho, desbravou a sensibilidade do dentro. Eu-você-ele-o-outro-igual. Era como se a floresta vibrasse na essência viva do acontecer.

Mas, nem tudo é tomado pela cor e quando tudo era princípio e começo e a vida fluía no sentido da correnteza do rio, o destino tomou pelas mãos o homem… e as encruzilhadas se misturaram diante do dia em que ninguém sabia o que fazer.

Havia apenas o homem e seu destino de dever cumprido. Havia apenas um quadro onde a floresta perdia a cor.

E os elementos da natureza na própria observação dos fatos apenas agradecia a coragem do homem que ousou ser ele, em sua essência, igual ao seu semelhante.

Ao pensar acerca das razões porque a floresta ficara sem cor, e o homem em sua coragem virou menino pintor… concluiu-se ao fim do dia que não importava se o homem nem era mais dali… A floresta pertencia a ele por onde quer que fosse.

Mariana Gouveia

Das palavras das cartas · Scenarium Livros Artesanais

*É mais fácil depois de ter desembarcado tantas vezes.

Messias,

te escrevo nessa tarde de raios e trovões depois de ter ouvido sua voz em uma gravação contando histórias. A carta é uma homenagem à primavera e essa será uma estação diferente e me lembrarei dela enquanto viver.

Meu irmão, a poucos dias de você ter desembarcado mais uma vez, em uma cidade distante para o transplante dos rins, você me disse em uma ligação: é mais fácil depois de ter desembarcado tantas vezes. E vai ser a definitiva!

Você, que desde pequeno foi meu guardião me trouxe a esperança de que, depois de tantos anos dependente de uma máquina de hemodiálise uma doação te faria livre de novo para beber água – que era o que mais te fazia falta.

Quando você ler essa carta já estará fora da UTI, e em ampla recuperação. Quero mais uma vez declarar meu amor por você e do quanto sou orgulhosa de sua força e coragem. Sabemos que ainda será um caminho longo para percorrer, e que ainda há algumas etapas em que a fé será a motivação para esses dias.

Sei que como eu, seu coração está agradecido pela família do doador ter tido a coragem, em um momento difícil optar pela doação. E tenho certeza de que você honrará essa doação vivendo ao máximo e bem, como amor e alegria, como sempre.

São apenas cinco dias de rim novo… a concretização de orações e esperanças. Ainda temos nossa irmã que também espera uma doação. Assim, como você, tenho certeza de que, em breve ela também irá desembarcar no mesmo lugar, para a alegria ser completa… Mas, como você mesmo disse: é muito mais fácil depois de ter desembarcado tantas vezes.

Estamos te esperando, mas seja paciente com os dias que virão. Logo tudo estará bem de novo.

Te amo muito!
Sua irmã,

Mariana
Missivas de Primavera
Sceanrium Livros Artesanais
* retirado do texto o livro do livro poética de Ana Cristina César