Minha menina nuvem,
eu queria tanto estar aí, mesmo que em silêncio, no cantinho dos cães para calar meu desconforto nesses dias. Acho que seria meu refúgio – daqueles que a gente tem na infância – que me acalmaria ou me deixaria nessa luxúria da solidão.
Ontem, quando cheguei, havia um casulo no batente da porta, Su! Já imaginou isso? Deixei a porta sem fechar e me enchi de coragem para atravessar a noite e vigiar para Yoshi não passar por ali. Você, talvez diria: não, Mari, tu não fez isso! E eu diria, que sim! E devo confessar, Su, que as sombras dançarinas pela manhã, marcavam a parede com as asas de quem se libertou.
Como você, eu também gosto dos detalhes e mesmo já estando acostumada ver borboletas parir em meu quintal, eu vibrei vendo a madrugada se desenhando no céu…
Sou canceriana, Su – tu sabes – mas fujo do convencional de choros, de lamentos, inerente ao signo… mas, o destino ou sei lá o que foi bateu duro e em alguns momentos é preciso suspirar e encarar o que não pode ser mudado.
Como se muda o nascer e morrer de alguém? Quem entende a natureza das coisas? Como eu acredito em tudo que é força do universo, Su, apenas acato aquilo que é natural, mesmo não sendo ao meu coração.
Antes de encerrar essa carta em que te abraço e agradeço e te mostro o quanto a vida me é generosa, a parede se desenha em asas e com ela te sopro ventos de amor e alguma nuvem dissipará qualquer sombra em teu caminhar.
Mesmo porque, Su, a vida continua nascendo em meu quintal e as nuvens também e meu pai diria: a vida continua e os nascimentos não podem parar porque o mundo pararia.
Beijo,
Mariana Gouveia
BlogVember via Scenarium Livros Artesanais
Participam comigo:
Lunna Guedes – Obdúlio Ortega – Roseli Pedroso e Suzana Martins
PS: Ah, esqueci de colocar a nuvem da minha noite quando chamei seu nome no quintal.

















