Das rotinas

Ah, setembro…

Acho que foi em setembro quando os dias ganharam contornos de asas. A folhinha do calendário soltou-se – nem dava para saber que lua era – e o céu era povoado de flores.

Sabia apenas que ainda não era primavera, apesar das flores dos ipês mostrarem o contrário e tudo doía feito osso quebrado – na alma – e confundi a canção na voz estranha da cantora favorita.

Acho que foi nesses dias em que antecedem festas. Aniversário de alguém, sei lá! Só sei que me perdi terrivelmente dentro do dias e fiquei apenas sendo vazio sem você e quando vi os corações nas paredes, quase apagados e os corredores com a solidão do seu nome onde a lua em meus dedos escreve o amor.

Mariana Gouveia

infinitamente

Nomeei-te de liberdade

Um dia ela escreveu uma história sobre mim.
Fez com que eu coubesse dentro da latinha de sonhos dela e decorou de laranja para me enfeitar.
Guiou meus dias e me levava para onde quer que fosse.
Pendurada em seu pescoço, dentro da latinha de sonhos, eu podia observar o mundo pelos olhos dela.
Às vezes, ela ria e nesse instante, tudo valia a pena.
Minha gaiola era de lata. Reforçada. Com aves e cores que eu podia sonhar.
Fiquei pequena no espaço. Cresci.
Ganhei abraços, outros nomes. Outras cores.
Outras asas e resolvi voar.
A palavra mais linda que eu conheci ali, ao lado dela era Liberdade.
Quando enfim ela me libertou. Ela ficou livre.
Fui ponto final na história dela.
Continuo reticências dentro da minha história. Voando.

Mariana Gouveia

Corredores, Codinome Locura

Escreve sempre que riscares na tua agenda mais uma morada.

É você essa poesia engasgada na garganta.
Seu nome fazendo eco nas paredes partidas.
A estação escurece dentro do calendário
e o relógio estagnado no sol de meio dia.

A mesa posta
e as xícaras esparramadas.
Tudo ficou perdido na palavra encanto.
O mar é esse azul que ninguém enxerga quando anoitece.

A solidão é essa xícara vazia
e a metamorfose diante da vida.
Serve-se a cura através de asas.

A parede dá colo para o instrumento que toca.
A música ecoa dentro de você.

Mariana Gouveia

Corredores, Codinome Locura

Havia escuridão sobre as ruas.

Não havia luz feita pelos homens
e o céu se nublou.
O vento veio primeiro
– feroz –
com sua raiva,
fazendo a meteorologia errar nas previsões.

Depois, o céu rugiu
e suas nuvens ganharam contornos de água.
Só se via o vulto das torres, ao longe.
Dizem que em algum lugar caiu granizo.
E na escuridão, a alma se mostra cansada.

As árvores com seus galhos formam figuras assustadoras…
Havia um homem na esquina
com seus espirais de um fogo frágil,
feito para enganar criança,
enquanto nos minutos das horas eu espero o amanhecer.

Mariana Gouveia

das coisas breves

E ali, nasceu pela segunda vez.

Os dias passavam como nos filmes
E a imensidão do mundo ganhou caos em seus olhos…
Um dia, não se sabe a razão, quis viver a fama de louca

Rasgou as roupas que lhe impuseram…
Não podia imaginar que era tão bonito morrer
E nasceu pela segunda vez.

Mariana Gouveia
Das coisas breves

das coisas breves

Dançava com o vento

Dançava com o vento, na maioria das vezes, continha o riso para não escandalizar os ausentes.
– diziam que tinha a loucura no olhar –
De vez em quando, por reflexos, através de um espelho, via a vida como se fosse um autógrafo para que ninguém apagasse dela o costume de viver. Ainda assim, todo dia escrevia uma carta sem destinatário contando seus segredos internos… Ou seu diário de amor.

 Mariana Gouveia
Das coisas breves

Projeto Fotográfico 6 on 6 · Scenarium Livros Artesanais

6 on 6 – instantâneo

Porque a vida é esse flash de momentos

Bambina mia,

Usei esse instante para falar com você… Isso, tu que mistura meus verbos e abraços em acolhidas, mesmo tão longe, sempre que preciso grito seu nome e vou de encontro ao abraço. Já reparou que a vida é esse instantâneo de momentos? Uma farfalha e seu bater de asas pode causar o caos no mundo… eu já ouvi teu gargalhar…

Sei que pensamos juntas em como um voo pode proporcionar isso. Pessoas causam o caos no mundo. Com suas ações e reações descabidas e posso dizer que nesse quesito é ok que tu pensa igual a mim? Nããão! Você pode achar que é uma riqueza registrar um voo, um pouso ou mesmo nem registrar, mas ficar com o voo da farfalla a preencher seu momento.

Eu já fui denunciada por fotos de sexo de animais e tu sabe disso… mas, o momento, para mim, é aquele suspirar, de ver a natureza estampada em forma e cores para mim, na forma contundente de ampliar a vida, para além dos humanos. Sabia que hoje é o dia do sexo? Li isso em algumas matérias com dicas, ideias e coisas tolas que bufei a preguiça como você faz. E lá tem de ter dia para isso?

Ops, que eu ia escrever coisas sobre mãos e dedos… mas, afinal, elas servem para o pouso e cabem na delicadeza do instante – esse mágico, em que a palavra nos liga na poesia e magia que se resume no meu quintal.

É como se a gente não acreditasse que dentro de um casulo não existisse um voo externo. E que para além da seda, das asas, bambina, o voo só existisse para além dos muros. Mas, sabe que, para além do invólucro que se abre, as asas se desenham em liberdade.

Mas, a liberdade, bambina mia, é um bem precioso e interfere no espaço do outro para quem não entende. E o instante meu pode ser diferente – e deve ser – do instante do outro e às vezes, uma missiva atinge o cuore de quem lê apenas porque entende que sempre, a intenção do voo é o pouso… e eu, pouso em teu abraço como se fosse um voo de emoções.

Grazie por existir em minha vida e nos meus instantes.
bacio,

Mariana gouveia
Projeto Fotográfico 6 on 6 – instantâneo
Scenarium Livros artesanais
Participam comigo:
Lunna GuedesObdulio Nuñes Ortega – Roseli Pedroso – Suzana Martins

das coisas breves

Das coisas breves

Se apaixonou por heras, por folhas secas que caiam como brindes do quintal da vizinha. Desenhava nos muros coisas aleatórias de quem acreditava que só se vive uma vez.
Essas coisas de quem se acostuma com uma única estação – o outono era sua preferida –
O ocre das paredes sem estuque, também.
Conhecia os odores da terra e o cheiro de chuva quando cai.

Mariana Gouveia
Das coisas breves

Corredores, Codinome Locura

Tatuagem

Tatuou a vida nas costas, assim que nasceu a primeira vez – a mãe “plantou” o cordão umbilical embaixo dos pés de bananeiras. Era a magia de permanecer na essência de quem acredita em coisas surreais, de geração em geração… Assim que entendeu que o seu lugar era o mundo teceu as asas de borboletas e descobriu que podia voar…

Mariana Gouveia
Das coisas breves

Colheita · Scenarium Livros Artesanais

Habituou-se a semear todas as noites,

Nos canteiros… feitos durante o dia
a lua ensinava como tocar a terra

Minguante mata sementes frias…
esquentava as mãos uma na outra
E aspirava o ar quente de si
… o dedo colhia prazer no corpo
Escondido dentro do vestido de florzinha.

Mariana Gouveia
Colheita
Scenarium Livros Artesanais