Colheita · Scenarium Livros Artesanais

Cavou com as próprias mãos

a terra
– os dedos tocando a maciez
Aprendeu – ainda menina – a lua certa
– O cio exposto na pele –
e de novo semeou o gozo
colocou as sementes e salivou
Na alma
Proferiu insultos
e germinou vontades

Mariana Gouveia
Colheita
Scenarium Livros Artesanais

Corredores, Codinome Locura

Costura japonesa

Doeu em mim a foto da lua. O braço do mar elevando a maresia em um dia que ardeu.
O galho da árvore a acolher o satélite que brilha no céu. A flor que foi coadjuvante no jardim com o céu habitado de desejo.

Bebo em tua lua o sabor a sal de sua boca. Era um arvoar dentro do peito e essa vontade louca de escancarar a janela e tocar seu nome, feito pétala de flor. Escrevo-te cartas que a noite escura apaga e o calor ignora a vontade enquanto no noticiário falam da delicadeza do papel. Lembro de sua arte que faz textura no papel.

Da janela vazia, quase te grito e respiro. Desafiei a mesma que você enxerga a me transferir nessa saudade para o inédito e antigo ato de te surpreender e mais uma vez, murmuro seu nome dentro do amor.

Mariana Gouveia
São os dedos que tocam as flores

Corredores, Codinome Locura

esse dia deveria estar gravado em algum postal

A estação errada surgiu dentro de outra estação. A paixão que nasceu em séculos atrás ecoa no quintal onde a vida escolhe a cor. Li sobre os búzios que cintilavam há um ano atrás. A canção sertaneja repete em algum lugar. Visito suas coisas no baú. As recordações bate recorde de fugas – o nome ecoa – em azuis desbotados de presença.

Alguém anuncia um mês – o das flores – enquanto que para mim os dias emendam um no outro nessa busca. A espera é essa fragrância de flores secas ainda no pé.

A lua hoje não está para peixes e os búzios trazem o barulho do mar para a margem do rio que seca. Flores desenham caminhos que levam para o nada. Depois do jardim molhado, a noite rescende essência de amor.

O vento vindo do sul traz a maresia feita à mão… essa mesma mão que afaga o corpo como se fosse pétalas de flor e desenha no ar seu rosto, visto através do vidro fosco de algum museu.

A saudade é esse quadro fora da exposição.

Mariana Gouveia
Quando chegar setembro e a primavera colorir as flores…

Das rotinas · Scenarium Livros Artesanais

Ritual marítimo

Era sagrada a lua quando teus pés pulavam a poça d’água no chão e tocava o céu com as mãos na água onde refletia as nuvens e seus azuis entremeados de branco.
Procurava figuras nelas, tentava encontrar estrelas cadentes num céu de maio desmaiado de luz. Era noite quando regressava de sua viagem transgressiva e me contava seu caso de amor interestelar com a areia do mar… trazia para dentro de casa a maresia e invadia o quarto com sua intenção de amar. E deixava meu quintal com o ritual marítimo de ser e cheio do desejo de estar.

Mariana Gouveia
Estamos em Agosto e por isso, temos BEDA.
Participam comigo:
Lunna Guedes – Obdúlio Nunes Ortega – Roseli Pedroso  Suzana Martins e Bob F

Scenarium Livros Artesanais

A vida cabia na pétala da flor. 

O riso inconstante da louca. A lua, quadro de agora conhecia a história da loucura. O jardim cumpria o ritual de flor. Os dias tem sido estranhos nessa jornada e o tempo fica cada vez mais triste pela previsão. A primavera floriu e riu da minha incapacidade de entender o nome da estação.

Mariana Gouveia
Estamos em Agosto e por isso, temos BEDA.
Participam comigo:
Lunna GuedesObdúlio Nunes Ortega Roseli Pedroso e Suzana Martins e Bob F

Das rotinas · Scenarium Livros Artesanais

e eu nem sei se a luz madrugou ou chegou tarde

Releu as cartas que escreveu. A emoção era puro amor além da voz. Tem dias que nem precisa de carteiro para a carta ser entregue. Basta a emoção que a faz parecer menina.
O mensageiro era o vento, que em dias como hoje finge não existir. Um cheiro de flor cruza o quintal. Usa os desvios da rua de cima para atravessar os muros e virar poesia na leveza da flor. Repito a pergunta de outro tempo: seria a nuvem atravessadora de ritmos?! Era quase dança a pétala desmantelada. Tem noites que as flores perdem o sentido de jardim. Tem noites que a emoção não é invenção minha. Eu apenas vivi.

Mariana Gouveia
Estamos em Agosto e por isso, temos BEDA.
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Das rotinas · Scenarium Livros Artesanais

é sem raízes, o jardim virado do avesso

Há um oco no peito que grita o vazio rasgado de flor. A mulher que lê o destino dos outros – e quase sempre erra o dela – fala sobre mudança de hábito. Os búzios indicam o caminho da paciência. A maré muda dentro da estação. As ervas indicam a rota da cura. O jardim virado do avesso. Um monge atravessa a rua com olho para o nada. Alguém predestina a palavra da fé. Depois disso digo que aceito tudo: Que venha o destino com sua fome de lobo e pele de cordeiro! Aceito na boa os 40º na sombra e as flores murchas do meio dia. A sorte chamando o inseto na cor. O trevo batendo à porta desejando favor. Os corredores pintados de cinza… armários sendo esvaziados e histórias dentro dos livros jogados em um quartinho qualquer. A mudança é favorável ao novo – diz as cartas de tarô – e a linha da vida formando a letra do ontem. Tomara, vida que fosse hoje. Quem dera, sorte que fosse amanhã!

Mariana Gouveia
Estamos em Agosto e por isso, temos BEDA.
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Das rotinas · Scenarium Livros Artesanais

das impressões do dia seguintes

Encontrei um ninho no meu quintal e a vida ali, sabia voar. Primeiro chorei pela benção, pela graça da vida gerada diante dos meus olhos e quis desenhar o ninho e seus gravetos. Depois, registrei para o álbum das emoções e desejei escrever a carta para contar a história. O pé de algodão virou maternidade e tenho a vista aérea da varanda. Meu medo dos incidentes com os cães e virei vigia de ninho de ave. A delicadeza acontece nos momentos estranhos. O amor nasce entre as flores e os chumaços do algodão. A vida tem a leveza do ninho branco junto da folha seca e das folhas verdes. Descobri o sentido da árvore ali, a derramar folhas inventando estações e o chiado de dois bebês passarinhos que resolveram nascer ali, no quintal onde o rio faz curva no mar na esquina do muro.

Mariana Gouveia
Estamos em Agosto e por isso, temos BEDA.
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Das rotinas · Scenarium Livros Artesanais

Quando o azul invadiu meu quintal,

busquei nos cantos do muro a maresia. O vento oscilava no jardim e a brisa chamava seu nome – era só fantasia, eu sei – e o eco rebatia no estuque das paredes. A cascata das flores renascendo dentro da cor me trazia a canção na voz de Elis onde o pedido era morar no azul… Foi quando eu cantei e abri meu braço de rio para alcançar o teu mar.

Mariana Gouveia
Estamos em Agosto e por isso, temos BEDA.
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Lunna Guedes – Obdúlio Nunes Ortega – Roseli Pedroso – Suzana Martins Bob F

Meus Livros

Borda-se a pele

com fios e letras soltas

Ph; Pinterest

Hoje, às 19;30hs – horário de Brasília – meu sétimo livro ganha cores na página do Instagram da Scenarium.
Nunca, nem em meus melhores sonhos eu imaginava alcançar tanta gente e tantas coisas através da literatura. Eu espero você lá!

Deixo uma amostra para você:

Quando pequena, aprendi a fazer certos rituais.
Cortar os cabelos para crescerem mais rápido.
E, nas noites serenas de sextas…
Acender a fogueira
para evocar a graça de tudo,
que podia ser colhido.
Unir agulha, linha e pano branco
para cerzir as quebraduras

Mariana Gouveia
Estamos em Agosto e por isso, temos BEDA.
Participam comigo:
Lunna Guedes – Obdúlio Nunes Ortega – Roseli Pedroso – Suzana Martins e Bob F