Cadeados Abertos · Projeto Diário das quatro estações

Nascimento

Nascimento

Vi a vida nascer do lado da cerca. Era uma explosão de amor nos olhos de quem paria.
Lembrei-me de quantas vidas vi nascer assim, ao pé dos olhos.
Bicho de asa, de voo, de bico, bicho que ama. Era quase uma magia pura ver nascerem as coisas. A flor que brota, o milho plantado. O bebê esperado.
Vi a graça de um sol que nascia. A lua que surge enchendo o céu com sua beleza.
Sou uma parteira de nascimento. De pegar na mão e chorar pela dom da vida de quem nasce. Seja gente, seja bicho, seja planta. Tudo que nasce me toca.
Nesse instante, Deus me faz um carinho na alma.

 

Mariana Gouveia
In Cadeados Abertos – Diário das Quatro Estações
Editora Scenarium Plural
pág. 25

Cadeados Abertos · Projeto Diário das quatro estações

Havia prenúncio de ave na chegada

Havia prenúncio de ave na chegada.

Os olhos comiam o dia amanhecendo. Alguém dava pinceladas de cores nas tintas. Verde em profusão de amor. Nos tons que ultrapassam cinquenta vezes mais do que os olhos podem contar.
Lembrou-se da aula de arte. Verde-água, verde-musgo, verde-bandeira, verde!
De repente, o inverno se desenha colorido. Pega a mala da saudade e ali guarda o instante. Ri. Logo ele aponta ali, mais ali.
Flashes que quando criança podia imitar.
Ousa repetir o gesto. Parada em um mesmo ponto. Se vendo ali, criança. Gesticulando sonhos. Ainda nem era tempo de chegadas e já murmurava alegria.
Bem ali, o dia acelerava a magia e era necessário viver.

 

Mariana Gouveia
In Cadeados Abertos – Diário das Quatro Estações
Editora Scenarium Plural
pág. 23

Corredores, Codinome Locura

Rotina

RotinaO dia passou na intensidade das horas.
Choveu. Trovejou. O céu rugiu por aqui.
Não houve tempo para administrar sorrisos.
Casulos se espalham pelo quintal.
Conto os dias e repito. Décimo quinto na verdade das coisas.
Revivo o que foi dito. Surreal as palavras que dançam, brotam e mesmo que eu apague elas estão ali.
No jardim, nasceu mais flores.
A vizinha escuta Bethânia. A lua hoje não saiu.
As horas passam como se não chovesse. Confiro mil vezes a sua presença.
Não há. O que sopra é apenas instante do nada.
Repito na constante loucura: não é para ser, não é para ser.
A umidade me faz lembrar histórias e a flor não conhece a rotina do dia em que só fiz pensar em você.

Mariana Gouveia

Corredores, Codinome Locura · Das palavras das cartas

Carta para Teresa

DSCF4844Linda T.

Acontece mudanças no meu jardim. Migrações de formigas entre os canteiros me lembram as palavras do meu pai: formigas mudando é sinal de chuva.
E não é que aconteceu? Caiu a maior tempestade aqui. Tive de mudar as coisas todas do lugar. O pé de amora perdeu seus frutos – ou quase todos – o vento não foi companheiro dessa vez. Até um ninho que havia lá, caiu. Sorte que os filhotes haviam ganhado asas dias atrás.
Mas como sempre depois da tempestade, vem a bonança o sol amanheceu radiante. Não veio o frio anunciado pela meteorologia. Está o mesmo sol de sempre e os quase 38º às 10 da manhã.
A vida acontece ali fora. Um céu azulinho que vira poesia só de olhar e as nuvens que passeiam por ele como se fosse um desfile.
Vejo nelas figuras estranhas e algumas que parecem coisas, animais. Já brincou de descobrir desenhos em nuvem?
Faço isso sempre – confesso – e descubro algumas engraçadas. Em sua maioria, vejo corações. Aliás, há coração em quase tudo que vejo. Desde uma folha seca que voa, ou alguma flor que brota no jardim. Também nos grafites dos muros.
Vejo corações por ai. Até em nossas conversas, na despedida, sempre me envia aquele coraçãozinho rosa que arranca sempre um riso de mim, depois do beijo e na despedida.
Hoje, lembrei da história do teu nome. Quantas histórias podem encerrar um nome e percebo que a sua tem a docilidade de avó bordada nela. E como leva o nome da padroeira das flores é assim que te rendo homenagem.
Flor colhida no jardim. Um gesto que viaja através das letras e atravessa o oceano na acolhida doce da amizade.
Que ao ler seu sorriso seja de ternura e que sinta nas palavras meu carinho.

Beijo meu

Mariana Gouveia

Afetos · Das palavras das cartas · Lunna Guedes · Scenarium Livros Artesanais

Tempestade para uma bambina aos cuidados de Maio

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Eu rejeito a tristeza
Soberba e vã
Sobressaio entre muralhas
Engano raios
Adormeço trovões

Renas Barreto

Hoje amanheceu aqui com seus trovões, bambina. Maio veio tempestade quente de um céu rugindo e ventos nervosos. Raios cortam o céu como se partisse ele com um golpe só, o cinza – que você adora, toma conta do dia.

Acordei assustada com um barulho nas janelas. Era uma libélula que ficou presa dentro da sala, por um descuido meu. Sempre faço a vistoria antes de deitar. Vago nos quartos procurando algum vestígio de bichos alados que insistem em povoar meu lugar.

Foi quando maio – o seu – veio passear por aqui mudando a rotina das histórias. Não sei porque essa palavra tempestade vem ocupando  assombrosamente minha vida. Muitas vezes, num bom sentido. Outras, nem tanto.

Gosto das palavras úmidas, dos cheiros que elas me trazem. Seja chuva, seja orvalho, gota e esse mar imenso que cai agora. Embora, a palavra chuva me banha mais na alma do que nos pulos que dou de braços abertos, como se essa chuva de hoje, enquanto penso em você me benze, me lava e me prepara para uma imensidão de coisas que virão.

Gosto de ver meu beija-flor no seu banho de chuva. É a vida úmida acontecendo aqui, dentro do meu quintal. Tudo soa diferente dos costumes rotineiros. Não molho o jardim. Ele todo respinga alegria e a terra já exala o cheiro que tanto gosto.

Parece gosto de infância, de paletó de flanela xadrez, de leite fervido com eucalipto que minha mãe fazia no fogão a lenha que aquecia a mim e aos meus irmãos enquanto lia para nós.

Sempre fiquei com a impressão de que ela inventava algumas das histórias. Lembro de cada uma como se fosse hoje. Os cheiros nos leva para esse passeio insistente da alma em visitar passados, e nas lembranças minhas, o cheiro, tem o maior elemento.

Cheiro das folhas molhadas, cheiro do leite fervido. Do café. Da fumaça do cigarro do meu pai, que olhava a chuva da janela. Essa mesma janela que trago sempre na lembrança que é de onde te espio. Chego a empurrar a chuva para você. Imagino sua cidade cinza e o seu cão no sofá de sempre, em seu silêncio puro e acolhedor.

Hoje, trago-te essa tempestade. Ela desaba aqui. Também guardo-a em palavras nas histórias que escrevo, que leio para um dia, num abraço poder derramar sobre você meu carinho. De alguma forma, mesmo que não possa ouvir, o céu ruge aqui como se nos ligasse no mesmo ponto das vontades de chuva.

Dizem que o tempo mudará e que o inverno antecipará seus dias por aqui. Confesso que não acredito muito na meteorologia. Porém, se tudo isso acontecer, teremos um frio histórico aqui. Um lugar que chega aos 40º em sua maioria dos dias, qualquer 20º já dá para pensar nos cachecóis – esses que você adora e que para mim, tem sua marca registrada – e nos paletós.

O dia pede urgência. Fervo o latte para o cappuccino. Canto “Luna, tu. Tu rischiari il cielo e la sua imensità” e deixo meu bacio envolvido pelo barulho do céu que desaba aqui. Hoje, sua alma morou em mim.


Mariana Gouveia

O lado de dentro

Ave, Maria


Quando é ave
é poesia
Ave, Maria cheia de cor
ave de espaço, de fé na vida
Ave, alegria cheia de amor

Ave Maria
e o canto ecoa
ave que voa

Ave Maria, cheia de árvore
invade a minha casa,
meu corpo e eu, em ventania
ergo a mão em prece
Ave Maria cheia de amor
no jardim que colore o dia

Ave Maria, cheia de sol
que brilha,
que contagia com seu calor
Ave, Maria cheia de tanto
meu canto é seu
Ave Maria cheia de flor

Mariana Gouveia
O Lado de dentro

Corredores, Codinome Locura

Final feliz


Tem jeito de anjo, a moça
mas passou a ser indecente
olhar perdido nas nuvens
Resolve ser na mão de alguém
Vivendo doces mentiras do dia,
na noite se fantasia com asas e pensa em salvar o final feliz da história.
Enclausurada, lá pela meia noite tira a roupa
Traz sempre um cheiro de rosas
(anjo cheira a nuvens – eu acho)
exala amor novo
Sabe ser quente
sabe ser porto – ela diz
e no conto de areia de água doce disfarçada de mar
quer um final feliz.
Satisfazendo os desejos dela dou-lhe o céu e fim

Mariana Gouveia
*imagem: Kamil Vojnar

 

Corredores, Codinome Locura

Isso foi bem no dia da dor.

Isso foi bem no dia da dor.
As histórias que eu ia te contar esqueci.
Apenas recordo de passagens curtas do livro que eu lia.
Havia qualquer coisa de viagem – não lembro bem –
Alguma coisa apitava forte, falta de ar.
Pessoas correndo e eu confusa.
Não havia flores na veia, pareceu que ouvi alguém dizer.
Paredes brancas, rostos estranhos.
Pediam-me calma e estranhamente eu estava, calma.
O jardim ficou sozinho, e as flores que abririam naquele dia fecharam seus botões.
Não lembro disso, mas falaram que foi no dia da dor.
Essa falta de memória me busca na solidão das horas e eu não consigo esquecer.

Mariana Gouveia

O lado de dentro · Scenarium Livros Artesanais

Meu quintal…

Meu quintal


… tem um portão mágico para a poesia.
Lá, a vida acontece em instantes únicos
E supremos.
… é onde a realidade ganha ares de encantos.
E onde casulos viram borboletas!

Mariana Gouveia – O lado de dentro

Das palavras das cartas · Lunna Guedes

Carta em Vermelhos Tons

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Bambina mia

“Sei dos crepúsculos, das manhãs, das tardes,
Medi minha vida em colherinhas de café”
Lunna Guedes

 
A tarde surge com prenúncio de mais um temporal e pensei em você. Os Vermelhos Tons me traz uma certa nostalgia.
Caminho com você pelas estações e cruzo as calçadas contigo.
Em silêncio. Gritante, às vezes, como uma menina travessa que solta da mão do responsável e corre adiante, pela rua.
Vou aos poucos descobrindo lugares, visitando seus caminhos antigos e posso até detalhar os matos que crescem nos fios desgastados das calçadas.
Os tons de cinza das ruas me atinge. Mas, sinto paz aqui, quase uma redenção para uma alma em burburinho nos últimos dias.
Dentro de uma sexta-feira a promessa se cumpre e aqui estou eu, sendo apresentada ao espelho de seus tons rubros, com toda paixão que a cor causa em mim.
Tropeço na possibilidade de ser. De poemar Cecília para você rir. Sim! Imagino você rindo com meu jeito moleca – dizem sempre que sou assim – moleca.
Atravessar as ruas e saborear no ar o cheiro delas, os aromas das suas feiras e a cor dos tomates que escolhe para o molho, que já antevejo, e posso sentir o gosto na boca.
E no fim do passeio, bambina, abro o pacote de vento que trouxe. Desses que levanta as saias, assanha os cabelos e faz arrancar risos. Te convido para abrir os braços e saborear a dança do vento.
É aqui, nesse cenário inventado que visito o seu. Que abraça a minha alma e me acolhe como uma flor acolhe a borboleta.
Encerro essa carta com as suas palavras em Junho, para seu menino amor.
Lá onde os lilases de Junho floreiam amor e foi onde te descobri. Quase como gestar de novo essa amizade que em mim, floresce sempre como se fosse desde sempre.O cheiro do chá me convida para mais uma lembrança e ainda bem que não perdemos o hábito de escrever missivas.

Bacio
Mariana Gouveia