Corredores, Codinome Locura · Das palavras das cartas

b.e.d.a – dos rituais dos girassóis…

Ele disse: – Você parece mel. Ela disse: – E você, um girassol.

Caio Fernando Abreu

Minha doce Rose,

Queria te falar sobre os rituais. Meu pai sempre disse que vivemos de rituais, mesmo quando achamos que não. Eu sou dos rituais… desde quando acordo até ir dormir. E em um desses rituais de amor eu plantei girassóis no meu quintal pensando em você e ele cresceu tão lindamente que resolvi te escrever para te contar.

Você já sentiu o cheiro de mel de um girassol? Fico horas cheirando as flores dos que plantei aqui. Assim como você, também tenho uma ligação especial com eles. As borboletas adoram… E talvez, nossa ligação vai muito além da poesia e você seja a menina do girassol de minha vida.

Sabe, dias desses, dentro das memórias do dia lembrei-me de você e do cheiro de sua mão… acho que foi ali que senti o cheiro de amor que você carrega na alma.

Agora, que os girassóis floriram lembro-me de você todos os dias… na hora de molhar eles, falo com eles como se estivesse falando contigo… é um ritual que sigo para assim amenizar a saudade que sinto.

E seguindo o rito das flores te abraço esperando que tudo isso passe logo e a gente possa se abraçar de novo. Assim, te espero todos os dias dentro dos rituais que meu coração segue pensando em você.
Amo tu!

Um abraço carinhoso

Mariana Gouveia
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Corredores, Codinome Locura · Das palavras das cartas

b.e.d.a – e essa leveza de quem consegue apenas respirar…

Querida Olga,

Eu nem queria escrever, porque as letras para mim são formiguinhas que vão e vêm em carreirinhas, iguais às costuras de minha avó.

Uma canção pede para que rasguem as cartas. Isso era do tempo de minha infância, quando na rádio lia as cartas que as pessoas escreviam.

Pediam canções, amigos, amores, encontros e especialmente, atenção.

Nunca precisei de atenção. Sempre chamei atenção. Esse jeito torto, vago e as flores do jardim. Me disseram que escrever é como se fosse fuga e me pego na noite amassando os papéis e repito com a cabeça na parede: quem disse que quero fugir?

Lembro-me de que alguém falou sobre cartas na infância. Os envelopes pardos a descrever sobre fatos…

Vejo apenas sombras no vulto… as figuras a embrenhar o muro como fuga. E essa leveza de quem apenas consegue respirar.

Feliz aniversário!

Mariana Gouveia
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Corredores, Codinome Locura · Das palavras das cartas

Começar pela palavra…

Eu reconheço mil peles
Mas só uma digital
Do que toca

Marcos de Faria

Meu caro,

Muitas vezes, a palavra me falta e daí eu tateio as coisas no quintal… depois da chuva faço uma vistoria nas folhas, nas poças d’água para salvar a vida miúda que anda por aqui… nesses momentos eu me sinto a castelã que você descreve na generosidade de amigo. A Mariana que faz com que a vida continue quintal adentro.

E vou reinventando fatos, explorando o pé de algodão e ofereço a mão como abrigo. Você sabia que o Chiquinho – meu beija-flor-menino já dormiu uma noite inteira na minha mão? Isso aconteceu depois de um acidente entre ele e o ventilador da sala. Logo que eu o reanimei, meio em prantos, ele se aninhou em minha mão e não saía de jeito nenhum… por mais que eu o colocasse no vaso da lanterna chinesa – um dos lugares preferidos dele – ele voltava pra minha mão.

Sentei-me no chão da varanda, com a mão apoiada na cadeira e ele até roncou. Você já viu um beija-flor roncar? É a coisa mais linda que há… e quando amanheceu, meu braço quase não mexia… e foi assim que passei uma noite inteira com um beija-flor. Já vivi várias outras aventuras com ele, porque o danado é um menino sapeca.

Tudo isso te contei para falar das coisas que vem parar em minha mão… grilos, gafanhotos, pássaros e uma infinidade de borboletas, mas as joaninhas ganham de todos os outros. Basta um descuido e lá vem uma pousar na minha mão… Talvez, isso responda ao seu comentário da palavra na palma da mão… se até os bichos encontram abrigo nelas, imagine as palavras, moço! É que a poesia ronda aqui desde minha nascença, lá no interior de Goiás.

E olha que vibrei aqui com a citação à Adélia! Nossa, e a Hilda, então?! Fiquei boba que só e resolvi te escrever essa carta apenas para agradecer. E o agradecimento vai em forma de abraço e palavra e com as mãos justapostas em reverência a sua amizade.

Abraço,

Mariana Gouveia
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Corredores, Codinome Locura · Das palavras das cartas

E a loucura será feita de abraços…

Te decorei
para te rezar
todas as noites do meu dia.


Alessandra Siedschlag

Amada Maria,

Saberão os dias em que os corredores serão feitos de risos e que a loucura será apenas dos apertos de abraços.

Haverá os dias em que os espelhos serão apenas partes de relacionamentos e não cacos quebrados jogados no lixo, à medida que a sorte rouba as digitais dos humanos e eu folheio as fotografias na memória como quem rouba dados.

Tudo é esse grito na garganta, preso.

Mesmo que o calendário seja essa rotina de todo dia e você nem saiba seu nome. A loucura é essa improvisação no modo de ser. E é também essa coisa de ave abrir a asa e voar… não conheço outro modo que não seja essa grade.

Não conheço outro canto que não seja o dos anus pretos. Nunca tive nada desarrumado, porque nunca tive nada meu. A colher que me cabia tinha o cabo torto e alguém se apoderou dela e fiquei a ver a cor do cabo a ser servido duas cadeiras além da minha.

A colina, é essa ponta de verde musgo que meus olhos alcançam e de onde chegou a notícia de que alguém morrera na mata da rua do meio.

Mariana Gouveia
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Corredores, Codinome Locura · Das palavras das cartas

b.e.d.a – dos dias de metamorfose.

Querida flor,

As porcelanas empoeiradas na mesa de cabeceira guardam segredos que eu apenas repetia para o espelho. Depois que coloquei o pano azul para cobri-lo nunca mais ousei pensar neles.

Costurei a garganta todo dia para não cantar as canções daquele tempo em que a maresia trazia o balanço das ondas para o quintal.

Vivi todos os dias a metamorfose de me regenerar na dor. Era a asa quebrada no vento. Era o vento derramando força no pouso.

Queria a mão para que fosse leveza.

Queria leveza para que não doesse a alma – algumas dores nos fazem mais fortes – e para que apenas passasse os dias com suas rotinas. O medo é apenas passageiro… dá apenas coragem para pousar quando é necessário o voo.

Mariana Gouveia
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Corredores, Codinome Locura · Das palavras das cartas

Da renda ao pouso…

Ana,

Dizia que o rumor do silêncio tinha o barulho da asa da libélula. Chacoalhava o dia no calendário torto. Falava do tempo que escorria em água do céu. Enquanto o animal estendia em renda seu leve som.

Tinha os gestos repetidos dentro das manhãs. Rotinas de doçuras enquanto a melancolia do céu beijava a flor sem vergonha que teimava em brotar na singularidade do jardim.

Tinha ocos feitos a mão, rasgando a parede ocre. A palavra me acolhe na sombra e assombra quem ainda acredita no acaso. As letras cabiam em envelopes coloridos. Algumas traziam notícias boas. Outras, envelopes com o timbre dos telegramas. Minha mãe tremia quando abria e via os códigos que retratava histórias que não queria saber.

Vi a morte diante dos olhos… Vi a vida me dar as mãos.

Em outros envelopes, as letras continham afagos na alma. Houve um começo de vida no subsolo. Germinava raízes onde tinham espinhos.

O fim é mesmo fim quando a solidão aflora dentro da companhia. De bônus – o voo – o pouso.

E era tanta imensidão de vontades na palma da mão.

Mariana Gouveia
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Adriana Aneli – Alê Helga – Claudia Leonardi – Darlene Regina – Lunna Guedes – Obdulio Ortega Roseli Pedroso

Corredores, Codinome Locura · Das palavras das cartas

b.e.d.a – Já viu o azul, Luci?

Luci,

Havia uma cor azul no estuque da parede. Houve noites em que a solidão me trouxe barulhos na janela e se eu disser que a noite aqui é puro inverno? É frio, e eu tremo. A água gelada que caiu em ritmo de castigo parecia canção sobre a pele.  Era som de mais para quem enlouquece de silêncio. Às vezes, bato na parede-janela-pernas para que o som alcançasse o lugar e eu ouvisse algo que não fosse essa imensidão de silêncio em mim – diria que nasci muda- surda – talvez o comprimento do dia seja esse largar de minuto. A hora certa para o rito das cores: uma para aplacar o grito; outra, para curar a dor e mais uma, para que as fantasias se espalhem nas paredes e os ecos sublimem a sílaba e… eeeee.

Você deve saber que ando furtiva nas noites. As beiradas do telhado têm cores fabulosas. Dali, quase consigo alcançar o céu. E esse sentimento meu é quase toque e o infinito cabe nessa lucidez das perguntas em vão: o que vim fazer aqui? Cabe em mim esse vão absurdo entre a ponte e o rio, sem que eu desague no mar?

Mariana Gouveia

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Cadeados Abertos · Das palavras das cartas · Desvios para atravessar os quintais · Projeto Diário das quatro estações · Scenarium Livros Artesanais

Carta a você que me lê…

Querido leitor,

Talvez, a melhor forma de agradecer a você que me lê nesse dia mundial do livro é te escrevendo uma carta. Escrever para mim é desnudar a alma e fazer com que a minha emoção toque a sua.

Claro que desde menina eu sempre quis que minhas palavras atravessassem os campos da fazenda onde nasci e encontrassem amparo em algum olhar, em alguma mão. Uma das maneiras que criei para escrever foram as cartas. Menina ainda, através do rádio, minhas palavras ganhavam cidades, estados e diferentes lugares dentro de envelopes e muitas dessas cartas me trouxeram como respostas amigos do coração.

Nesse meio tempo me tornei artesã, mãe, esposa, radialista e a escritora esperava uma oportunidade que surgiu quando conheci Lunna Guedes. O destino me ligou a ela através de blogs e do selo artesanal criado por Lunna e Marco Antônio: Scenarium Livros Artesanais… o encanto pelo trabalho artesanato que Lunna tão lindamente faz falou mais forte e em 2015 meu primeiro livro de poesias foi costurado em fitas de cetim com o selo artesanal da Scenarium e O Lado de Dentro ganhou forma no papel… já na terceira edição.

O lado de dentro — a poesia de Mariana Gouveia viaja no tempo e espaço, e nos põe sentados a mesa do café,  para divagarmos sobre lugares imaginários onde o vento leva arrepio a pele onde os sentimentos todos se amontoam e são como pétalas na primavera, e são como folhas no outono, e são também verão e inverno.

No ano seguinte, veio o convite para que participasse do Projeto Diário das Quatro Estações. Um projeto inspirado em diário e escrevi Cadeados Abertos e não paramos mais.

Cadeados Abertos — é uma espécie de caixa de costuras que toda casa antiga tinha, com carretéis de linhas, agulhas, dedais e retalhos de tecidos… caixas com botões coloridos e uma tesourinha para cortar o fio. Cada item impulsiona uma lembrança — vivências singulares que nos toma pela mão e conduz aos caminhos do coração da autora.

Participei de alguns projetos coletivos da editora como Sete Pecados, Coletivo, Feliz Ano Velho, Sete Luas e outros, além das edições da Revista Plural com textos e em sua maioria, cartas.

Meu primeiro romance Corredores, codinome: Loucura foi lançado em 2018 e decidimos que ele não caberia em um livro só…Dividimos em dois livros e Portas Abertas, codinome: Lucidez foi lançado em 2019.

Corredores, codinome: loucura — é um romance que nos coloca diante da pergunta: é possível duvidar da própria lucidez? Maria é trancada num hospício pela própria mãe, que promete voltar para buscá-la depois que estiver curada. Entregue aos cuidados de Mathilda — uma mulher que não enxerga pessoas, apenas números numa folha mapeados pela condição determinada por ela e, assegurada pelo Estado que só quer se livrar de seus “doentes”.
A jovem Maria percorre os corredores de sua nova-casa em meio a abusos e punições severas, tentando preservar qualquer coisa de lucidez.

Portas Abertas: codinome lucidez — Maria deixou o hospício com a ajuda do Doutor Arthur… mas, quando se deixa a escuridão, é necessário se acostumar a luz. Leva tempo e não é nada fácil identificar o que sobreviveu após tanto tempo vivendo entre loucos e, de repente, ter sua lucidez reconhecida…

E novamente, o projeto Diário das Quatro Estações me envolveu e surge Desvios para atravessar quintais. Lançado em 2020, em plena pandemia, e talvez, por isso, um sopro na alma dentro dos dias ruins.

Desvios para atravessar quintais… O Diário das Quatro Estações é sobre os dias aleatórios que avançam dentro do tempo e é feito da palavra que cabe no papel antes que sufoque o peito; é o retrato dos meses que ficam na memória das horas e no mapa feito dentro dos muros e para atravessar os quintais usei os desvios traçados no mapa que o coração costurava e mesmo quando desenhava asas na areia sentia que o pássaro voava e que possuía o céu inteiro .

Meus livros são artesanais. Costurados um a um, em costura japonesa pelas mãos da Lunna. O livro artesanal só é costurado quando você o encomenda. Portanto, cada exemplar é único em seu preparo. As histórias, as poesias, os poemas e até mesmo as cartas quando te alcançam já nos emocionaram bastante. Desde a escolha do papel, da capa e da maneira que fazemos chegar até você, mesmo que você não tenha o livro – ainda – mas lê em alguma das minhas redes sociais ou da editora algum pedaço de texto, poema, ou citações.

Há mais coisas na caixinha vindo aí… projetos feitos para te tocar e te emocionar. Espero que até lá esse laço se fortaleça ainda mais.

Por isso, te agradeço e te envolvo no meu carinho.

Abraço carinhoso

Mariana Gouveia

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Corredores, Codinome Locura · Das palavras das cartas

Carta à Terra

Querida Terra,

Dizem que você tem uma carta, que é basicamente uma declaração de princípios éticos fundamentais para uma sociedade justa, sustentável e pacífica… é estranho ter uma declaração com as regras que por princípios já devia ser assim. Cada ser humano deveria fazer de tudo para te proteger. Infelizmente, não é o que acontece.

Eu deveria falar sobre sobre isso, mas vou te lembrar de coisas que me alcançam sobre você. Seu cheiro, depois de uma chuva invadindo meu quintal é a lembrança mais terna que trago em mim. Isso também acontece quando rego as plantas. O orvalho da manhã sobre os capins me faz lembrar que você abriu sua caixa de joias e deixou seus brilhantes espalhados por aí.

As flores do ipê, que de tão dourado me leva para além da memória da minha infância. A diversidade que você pontua na fauna, na flora são tesouros que não sabemos nomear e muitas vezes, maltratamos. Acho que somos os únicos seres que destrói o lugar onde mora… os únicos que não valoriza a riqueza sob os pés.

Nesse dia, data que te atribuem e todo mundo relembra os princípios básicos para que você seja salva – amanhã, tudo volta ao normal – eu te reverencio… me curvo diante do rio e louvo teus seres, tuas matas, teus rios, tua vida.

O gesto é simples e simboliza que descalça sinto a energia vinda de você, de sua força e seu poder.

Que saibamos valorizar isso.

Te toco, te abraço, te vivo!

Mariana Gouveia

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Corredores, Codinome Locura · Das palavras das cartas

Pode ser em Cuiabá ou uma vila qualquer da França…

“Chaque grande chose naît d’un tout petit rien…”

Linda Sandra,

Comecei a habitar dentro das manhãs, nas pinturas que você cria e nas cartas que eu escrevia. Era como se eu pegasse em sua mão e caminhasse com você pelos seus caminhos. Ouvia as canções no idioma que adoro. Era quase um presságio de coisas que deveriam acontecer. Lá pelas tantas, acontecia em Paris. Ou em alguma vila qualquer da França. Ou nos cantos do meu quintal. Caia neve de sua janela e as cortinas dançavam com o rabo do cão. Andava pelas vielas de aldeias que nem sabia o nome. Eram tantos os detalhes que você desenhava em palavras, enquanto aqui, o sol ardia e meus cães corriam atrás dos pássaros que teimavam em ciscar a grama.

Eu morava ali, entre o mar e o rio. Nas flores do seu caminho diário… Entre os jardins suspensos e o seu. Pisava na terra pura, com cheiro de chuva nas manhãs onde o sol raiava e o orvalho parecia diamantes e o grilo misturava-se ao verde do lugar, enquanto dentro das palavras fazia as cores se misturarem na alma.

Colocava em cada envelope flores ou folhas secas… Lia poemas, folheava o livro que ensinava a rota dos meus quintais. E uma amizade nasceu dentro da arte. Era diário o entregar de flores… como se fosse um poema que ainda não nasceu. Um vento azul, um sopro de mar e essas coisas miúdas que tão bem fazem na vida da gente.

Deve encontrar cogumelos no caminho, enquanto aqui, o outono me traz eles nos cantos dos vasos de hortênsias. Vivia a primavera e pensava nas cartas coloridas que chegará aqui dias desses. Nos fusos que confundem o ritmo do tempo… enquanto você amanhece, eu ainda sou madrugada. Pensei nessa carta para te desenhar … Pois eu habito em cartas e com elas eu viajo até você.

Bisous

Mariana Gouveia

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