Corredores, Codinome Locura · Das palavras das cartas

b.e.d.a – Meu irmão

Meu irmão querido,

Na minha memória, de todas as coisas que vivemos as mais marcantes tem você, com um capim na boca ou sendo o dono da bola no campinho da fazenda. Tem você com medo dos bichos e dos meus rompantes mato afora…

Poucas vezes eu disse te amo – disse algumas vezes, é verdade – em poemas, cartas ou mesmo perto. Seu jeito meio sisudo inibe, ás vezes… mas o meu amor, tenho certeza de que você sente todo dia. Somos oito irmãos e você sempre foi um guardião… ali, mão estendida, feito protetor e sem coragem para dar bronca.

Sabe, lembro-me também das camisas brancas de uniforme marcando sua presença no guarda-roupa e quando você ganhou o mundo e foi cuidar de sua família, eu fiquei meio órfã…

Na casa antiga já não havia você na espreita para ver se eu fazia alguma arte. Já não havia os quadros de campeões de todos os estados na parede da sala e não havia sua presença mais em silêncio me esperando em qualquer canto da casa.

Hoje, eu sou pura emoção… passamos dias difíceis e diante da bondade do criador, mesmo sendo portador de uma doença complicada – insuficiência renal – você se recuperou desse vírus que está matando famílias inteiras.

Eu louvei, vibrei e chorei pela sua coragem, pela sua fé e por ouvir tua voz me dizendo que venceu…

A gente sabe que ainda teremos dias complicados pela frente. De recuperação, de força, de fé e de muito amor. Tive pessoas maravilhosas que fizeram de tudo para te dar suporte e nos dar suporte. Nem posso citar nomes para não cometer injustiça… mas, como lá, em uma festa de santo, você era meu par… sou seu par para toda vida.

Te amo sempre!

Mariana Gouveia

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Corredores, Codinome Locura · Das palavras das cartas

Para além das serras nobrenses…

As pessoas
intensas
imensas
e densas
são feitas
de barro,
de sopro…

De barro
para que as
sementes
germinem.

De sopro
para que as
sementes
se espalhem.

Tudo mais
é pedra,
é vácuo.

Oswaldo Antônio Begiato

Mestre,

Um dia, um sábio da aldeia me falou sobre lealdade e confiança. Sobre amizade e respeito. Perguntou-me se eu confiava em você e meus olhos brilharam para além das serras de Nobres e disse a ele que eu acreditava mais em você do que em mim. Ele soprou a mão dele e colocou aquele sopro na minha e com as mãos justapostas fez referência e disse que se havia algum homem na terra que merecia confiança, esse alguém era você. E que você tinha o dom da amizade.

Me falou de suas idas nas aldeias e de como você agia com cada tribo de uma maneira tão intensa que todos te adoram. Eu ainda era novata na saúde indígena e lembro-me da maneira que você me ensinou a entender todas as tribos. E ali, entendi sobre o que o sábio da aldeia quis dizer. E quando seu abraço me acalentou em dias difíceis eu entendi o seu dom da amizade.

Poucas vezes, eu vi pessoas que realmente se preocupavam/preocupam com os indígenas. Poucos os entendem como você. A sabedoria da terra te ensina, mas a bondade de seu coração, põe em prática.

Descobri que a melhor maneira de homenagear os indígenas hoje, no dia atribuído a eles, seria te homenagear. E tenho certeza de que eles concordariam… você espalha a semente da serenidade ao lidar com eles e você é o “chefe” que eles adoram.

Mestre, falar de você vai além das etnias e tribos. Falar de você é falar de amigo, de sabedoria e de humanidade. Que isso seja espalhado por onde você passar e que todos os espíritos guerreiros estejam contigo em prol do bem maior.

Obrigada por me acolher, me apoiar, me instruir e ser essa mão estendida sempre… que a beleza das serras nobrenses te renove todos os dias… (essa última parte foi apenas brincadeira… rs).

Mariana Gouveia

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Caderno de Notas · Das palavras das cartas · Scenarium Livros Artesanais

As cidades estão cheias de passado

Estou de volta pro meu aconchego
Trazendo na mala bastante saudade
Querendo um sorriso sincero, um abraço
Pra aliviar meu cansaço
E toda essa minha vontade
(Dominguinhos)

Querido lugar,

Enquanto atravesso a ponte de madeira ouço o barulho do rio a serpentear por entre as árvores. Devo te confessar que o bosque perto do rio é meu lugar preferido nessa cidade onde nasci e cresci. Posso fechar os olhos e mesmo assim, reconhecer cada árvore, cada pé de fruta, cada trieiro que me leva sempre ao mesmo tempo, mesmo tanto anos depois.

Estou de volta, para rasgar as promessas feitas em um tempo de felicidade. Um tempo em que as fotografias em preto e branco tingia as paredes da sala cheia de cor no riso dos irmãos.

Parece que as coisas não passaram por aqui. Até a ave noturna é a mesma – pelo menos o canto – e isso atiça minhas memórias anos atrás quando vim aqui me despedir. Naquele tempo, meu coração possuía o encanto da juventude e jurei nunca esquecer esse lugar e prometi voltar assim que pudesse.

Não sei quantas noites, de olhos fechados, cruzei a ponte nas lembranças e me sentei de frente a esse rio com suas margens cheias de memórias e chorei. A alma não queria ter saído daqui. Foi ali, o primeiro beijo em um amor que nem lembro o nome. Também foi ali o tombo e a perna quebrada para tantos dias e onde a primeira borboleta pousou na mão e me fez criadora de asas. Aqui, as lembranças têm o cheiro de roupa limpa e vem na memória o ritual da minha mãe a quarar os lençóis de linho nas pedras do lado enquanto cantava uma canção regional do lugar.

As ruas mudaram, é verdade – não há mais os paralelepípedos na rua principal – e a matriz ganhou uma fachada moderna. De resto, a minha cidade está cheia de passado… no colégio em que estudei, a pintura ocre é a mesma de que eu me lembrava e o portão range como se chorasse por eu ter ido. O mercadinho da esquina – que era nosso e um tio comprou, ainda tem os potes de doces expostos e o sabor do pé de moleque, baba de moça e maria mole é quase uma oração.

O tempo não passou… sou eu ainda, a menina a decorar poemas no banquinho da praça e as tranças presas com a fita de veludo laranja a ecoar saudades.

O tempo passou, sou eu mais uma vez, de frente com meu passado que me transformou em tudo que sou hoje e que reativa a memória com os sabores, as cores e as lembranças de um tempo que insiste em morar nas fotografias da estante. A relutância em tirar fotografias me faz sair emburrada em quase todas, mas a família toda reunida em frente da casa para registrarmos o amor em dimensão de tempo, um dia.

Mariana Gouveia
Carta publicada no Caderno de Notas
Scenarium Livros Artesanais

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Caderno de Notas · Das palavras das cartas · Scenarium Livros Artesanais

É meia noite no fim dessa página.

Para eliminar o sofrimento, elimina-se a memória.
Uma cirurgia aparentemente simples, única solução.
Só que eu não consigo, tudo é vivo dentro de mim”

Ignácio de Loyola Brandão

Querida minha,

As minhas mensagens, na milésima tentativa vagueiam como se oscilando entre palavrões no quintal, pudesse te alcançar. Como seu nome fica tateando as paredes parecendo fuga? E você, sendo ausência dentro do vestido solto todo de poá?

O amor é esse vento de inverno. Revolve as folhas no quintal e causa encantação aos seus olhos quando o sépia o invade. Já te contei dos diferentes formatos das folhas daqui?

Invento os verbos enquanto o relógio atinge o ápice da noite e rabisco mais uma vez seu nome dentro de um coração mal desenhado.

É meia noite no fim dessa página. Há uma réstia de luz invadindo o espaço da cortina lilás. O dia, daqui a pouco, renasce e fica esse amargor na boca como se o ontem fosse apenas uma parte a mais do que não vivi.

Meia noite é quase um poema e nas paredes tateadas rastreio impressões tuas, de um tempo em que nunca esteve aqui.

Os relógios do tempo moderno piscam em uma luz azulada. Você sabe que de vez em quando chove aqui e as gotas cantam canções da minha infância? E que os ipês florescem fora do tempo em algumas noites fora do tempo?

O inverno não amadurece no tempo aqui, minha querida… Ultimamente, ele tem chegado fora da estação e causa arrepios na pele, esse vento que canta lá fora…as flores – que antes se abriam no cerrado – moram no meu quintal e invade a varanda com suas garras e o perfume suave do que amarela a manhã – que já surge além do horizonte – enquanto percorro a casa inteira e seus aposentos vazios de presença.

Há ali, no canto, a estante recheada de livros e cada um traz a história descrita, vivida e sentida. Há os bibelôs imóveis – as corujas e o galo de Barcelos entre as xícaras com as borboletas pousadas, inertes esperando o amanhecer.

A solidão e sua negritude na escuridão me lembram a frase do meu pai que dizia que “é no ápice da escuridão que o sol nasce” e ele vem em ritmo de solicitude. Na esquina, o moço da reciclagem canta sua canção de amor que nunca acaba. A solidão é essa moça com vertigem e cheia de incerteza.

A curva entre o canto e o pé de amora imprime no muro um coração às avessas e o musgo seco do tempo das chuvas detalha imagens que não sei quais são, mas parece que conheço de algum tempo. A meia noite, é quase o que antecede o dia. O relógio parece até que faz pausa quando no ápice da hora, o instante se faz.

Deparo com a minha figura insone no espelho do corredor e vejo ali, na estranheza da humana que apenas se recolhe em saudades… de tudo que não vivi.

Beijo,

Mariana Gouveia
Carta publicada no Caderno de Notas
Scenarium Livros Artesanais

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Caderno de Notas · Das palavras das cartas

E depois o dia voltou como habitualmente…

                                                                  E depois o dia voltou como habitualmente…
Marguerite Duras


Querida minha,

Escrever-te, é essa falta de fôlego na alma. Até onde o coração, feito de palavras, alcança seu amanhecer? Até onde, esse mesmo vento invade tua quase manhã – enquanto aqui é madrugada – e balança ao mesmo tempo as cortinas das janelas, nesse lado de cá?

Mas aqui, ainda era noite e a solidão das horas fazia com que no quintal nenhuma luz brilhasse. Eu já te disse que em muitas noites que passei em branco foi ouvindo o tic tac do relógio marcando o tempo sem você? E que de olhos fechados o vácuo entre a madrugada e o sol raiar lá fora, passa uma imensidão de tempo dentro dessas mesmas horas?

Devo confessar que morri em muitas dessas noites brancas. De uma página em branco, ninguém se livra. Havia corredores imensos em minhas veias que se fechavam. Pássaros noturnos traziam os sons da noite e ainda era meia noite e meia. Os vagalumes invadem a lateral do muro em noite sem lua e lá, acontece um ritual que admiro no escuro. Nessa hora, viajo nas lembranças da infância e quase esqueço desse fuso horário que separa meu sentimento da vivência.

Mas as lembranças saem e retorno ao vazio branco da noite. As lâmpadas da rua queimaram – ou apagaram – por algum motivo. Só tem uma penumbra tênue e quase embaraça as vistas quando vejo os vultos no quintal.

As sombras das árvores parecem fantasmas com suas garras sobre o momento que não passa. Às vezes, a vida dói! O conta gotas do floral é quase mantra diante da ansiedade oculta durante o dia. Como se o dia nascesse na liberdade desse sentimento! Como se a essência da planta invadisse a passiflora que desenha um botão na madrugada quente. O botão da flor é essa singeleza da cor que traz a beleza de noites imensas mergulhada no silêncio.

Na paisagem interior, as lembranças ecoam nos retratos expostos na estante, enfileiradas sob uma toalhinha de crochê. E me vi percorrendo mapas traçados na mente, com o dedo traçando teu nome nas vidraças, na poeira dos móveis que enfrenta a solidão junto com o licor de pequi.

Lembro que talvez, você nem entenda a palavra e nem o sabor exótico do meu lugar. Era tudo tão além da presença, que ainda escrevo como se você estivesse aqui.

E é tão lá essa distância e é tão aqui esse sentimento que simboliza tua falta na noite. Acho que te contaria uma história. Talvez, te marcaria na soma do amor enquanto os cães latem para alguma coisa que não consigo ver o que é. E os bibelôs parecem que conversam entre si e riem de minha insônia e falta de jeito para lidar com essa solidão.

Qualquer pergunta fica sem resposta e enquanto na rua reina um silêncio absurdo ouço o slogan da emissora de tv – plim plim – em alguma casa vizinha.

De noite, todos os gatos são pardos… – já li isso em algum lugar, mas é mentira. O Iglu – gato branco da vizinha da casa de baixo – passeia em cima do telhado como se estivesse em um desfile e os cães com sua gana de sangue rompe o silêncio da madrugada até que Iglu em sua pose de estrela atravessa todo muro como se provocasse os cães.
A madrugada chega dominadora. Quase refém dos ponteiros que insistem para o dia clarear.

Sinto o cheiro das ervas sendo tocadas pelo orvalho. A madrugada tem essa magia de tocar na suavidade das flores. O vento, é só um afago na alma enquanto chamo seu nome.

Cadê você que nem cabe nas letras? E quando a falta é só esse vazio de água, de maresia, de ar…
O que procuro nessa imensidão de noite quando a palavra rio ecoa feito onda? Só mais tarde entendi o que procurava – um mar.

Beijos

Mariana Gouveia
Carta publicada no Caderno de Notas
Scenarium Livros Artesanais

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Das palavras das cartas · Lunna Guedes

b.e.d.a – as hortênsias não são azuis…

Bambina mia,

acima de tudo 
tenho saudade de duas cores 
azul e
ver-te
Xilre

Ainda era madrugada quando a insônia bateu… Lembrei-me de que era nessa hora que você ia dormir. Esse tempo e o caos que se abateu sobre o mundo mudou nossos hábitos e vamos driblando as coisas que nos toca e nos choca. Eu faço revisitas quando a insônia bate. Vou aos lugares que me abraçam e dessa vez fui até você e sabe do que mais me lembrei? Do cheiro do seu bolo de fubá e voilá! Fui para a cozinhar fazer um bolo…

Um galo canta na vizinhança e coloco Léon para me acompanhar. Os pássaros já fazem algazarras lá fora e pego todos os ingredientes sob o olhar atento de Lolla. Já te falei que ela tem uma loucura por cozinha? Basta ir na cozinha e ela acompanha com olhar pidão, como se ficasse sempre à espreita de alguma lasquinha de qualquer coisa cair e vapt! Yoshi sempre fica na dele como se dissesse que os humanos dele não o deixaria sem comer nunca… menino marrento, que torce o focinho para qualquer coisa que se ofereça a ele e só depois resolve comer e daí, limpa o prato.

Vou adicionando os ingredientes lembrando da ordem de cada um seguindo minhas notas mentais, enquanto faço um café. O cheiro é um carinho na alma e hoje, no dia do café – rio quando lembro-me desse fato – isso de marcar dias das coisas me perturba desde criança… mas, isso, é história para outra missiva.

Os raios do sol já atravessam a janela e a forma vai para o forno. Aproveito os quase trinta minutos para o bolo assar e vou aguar as plantas. As suculentas estão cada vez mais bonitas e as minhas três espécies de trevo também… mas, meu olhar alcança o vaso de hortênsias plantado recentemente e os botões que já haviam começados a florir desabrocharam em tons de lilás… Lembrei-me de um texto seu em um dos blogs que não existe mais que falava sobre a cor. Não lembro qual… mas a alusão à cor e a você ficou marcado.

As hortênsias não são azuis como eu imaginava… são de um lilás que acalma e o vaso recebe a água do regador. Léon repete o refrão e a canção já é outra. Eu aspiro o cheiro do bolo enquanto um dos vizinhos deve ter feito café, porque os aromas se misturam aqui, no meu quintal. Quase grito que dou um pedaço de bolo em troca de uma xícara do café… Parece que o meu não cheira tanto assim…

Desligo o forno e minha memória tem você, tuo bambino e Jane dog… que assim como Lolla fica também à espreita dos farelos ou um pedaço qualquer. Sinto-me presa nessa lembrança e aceito ela como um presente para começar o dia.
Aceita um café?

Grazie per tutti!
Bacio,

Mariana Gouveia
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Caderno de Notas · Das palavras das cartas · Scenarium Livros Artesanais

Vez ou outra é preciso respirar alguns silêncios…

“só o verde fala neste tempo de silêncio 
somos gastos pelos ruídos do lado de fora das árvores  
espera, pensei em folhas 
e a primavera explodiu‐me na boca”
Maria Sousa


Sabe, Ana, a vida é feita dessas confirmações rápidas quando o assunto é felicidade. Quando é espera, aí, já demora muito. Já percebeu quanto tempo demora um minuto? É quase uma alquimia essa coisa de tempo… e o silêncio, Ana? Já viu como é difícil essa coisa de silêncio?

Quando não se quer ouvir nada, está lá o silêncio sendo voz silenciosa, ou gritos ensurdecedores na alma.

Vez ou outra é preciso respirar alguns silêncios, Ana… Vamos falar dessa alquimia de silêncio? Amanhece e lá estamos as duas com um oceano imenso no meio em silêncio. Você já sentiu quanto cabe de silêncio nessa imensidão de oceano? E já sentiu também quanto de vento canta em seu mar?

Ah, Ana, a pele é apenas a tradução do sentimento. O arrepio na pele é fase de silêncio, a voz que cala no peito e até mesmo o voo das borboletas brancas são feitas de silêncio e não sei se você sabe, Ana, mas até nossos diálogos são abraçados de silêncio.

O meu rio abraça seu mar em silêncio e dentro dessas vontades somos águas diferentes apenas pela geografia do mundo e suas separações. A vida tem essa blindagem naqueles que se amam. Seria tão bom gritar teu nome para ali, além da janela e teu riso ecoar atrás do muro, tal qual igual minha vizinha quando o gato dela invade – em silêncio – meu quintal e eu chamo por ela…

A gente troca de estações… somos adversas nas luas, nas marés soltas e no vácuo do tempo. Somos adversas nos fusos e no momento que a vida te acorda, o silêncio me faz dormir. A minha madrugada é quase sua manhã e é tão tarde esse tempo para além das tarefas.

Quando estou indo, você já volta… quando volto, você já não está e assim, somos silêncios que respiram uma além do mar e outra, além do rio. E é esse eco que reverbera aqui… um abraço de alma, feito de silêncio.

Beijo meu,

Mariana Gouveia
Carta publicada no Caderno de Notas
Scenarium Livros Artesanais

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Das palavras das cartas · Scenarium Livros Artesanais

Os meus heróis usam máscaras.

Caríssimos,

Enquanto o vento balança no varal e seca as máscaras que eu lavei, escrevo para vocês, que para mim, não têm rostos, apenas olhos atrás de máscaras de diferentes cores e formatos. Nesses olhos eu vejo o quanto de dedicação e amor vocês derramam, dentro do que é possível, para quem está sofrendo a doença ou até para os familiares.

Nesses tantos de dias de pandemia – que eu já perdi a conta e que para mim parecem séculos – eu pouco saí de casa e quase não precisei usar máscaras. Mas, vocês não… é diário e por horas seguidas e nos relatos que leio, nas histórias contadas em jornais vejo nomes por detrás de cada uma e muitas vezes, vi lágrimas também, além de medo e dor.

Eu nasci em um lugar onde as máscaras eram usadas em uma cerimônia que se repetia desde os bisavós, no mês de Junho e que meu pai sempre tratou de seguir, por isso, desde menina, eu e meu irmãos aprendemos a preparar a massa feita com a goma da mandioca e embolar os jornais, revistas e fazer a minha própria máscara. Moldava o contorno do rosto e dava a ela a figura que eu queria ser. Claro que eu sempre escolhia um bicho, e como meu pai dizia que cada um representava a sua natureza eu me via sendo ave, borboletas. O povo da frente trazia na face o interior de sua natureza e monstro cruéis apareciam. Era a cultura de um povoado, que aos poucos foi se desfazendo com a morte de algumas pessoas, que traziam a história na alma ou a mudança de cidade – que foi nosso caso – e as máscaras viraram histórias contadas aos filhos, nas noites de São João.

Mas vocês não! Embora, as máscaras fizessem parte da profissão, vocês foram obrigados a usar como equipamento de segurança enquanto salvam vidas ou veem algumas se perderem. Li relatos lindos em madrugadas de insônia sobre coragem, sobre marcas que ficavam estampadas nos rostos como se fosse uma prensa, sobre a vida tão frágil diante de um vírus que abalou o mundo. Parecia que eu estava diante desses filmes de ficção científica onde os mocinhos usavam roupas brancas, luvas e as máscaras não eram a base de efeitos especiais. Eram de pano ou de material que na verdade não protegia e por isso, muitos desses heróis também não puderam ser salvos.

Aprendi, que quando a batalha fica difícil o mais importante é quem estava do seu lado durante a luta, talvez mais do que a própria luta e tenho certeza de que em cada vida que se foi, um de vocês esteve ali, do lado e posso garantir que fez a maior diferença e eu poderia até dar nomes a alguns de vocês tão perto de mim… mas perderia o sentido dessa carta dizer que o João fez mais diferença do que a Marli, por que não teve um dia sequer desde que esse maldito vírus se instalou que um plantão não teve um rosto mascarado contendo uma lágrima pela perda, pela sensação de impotência, pelo cansaço, fadiga ou dor.

Em um sistema de saúde como o nosso, diante de todas as dificuldades que já sabíamos que tínhamos, o trabalho de vocês foi e é de maior importância. Poderia ter sido muito pior, se é que existe algo pior do que está aí. Mas sim! Poderia ter sido muito mais, porém, por trás de cada máscara de técnico, enfermeiro, médico, assistente social, fisioterapeuta e todos os outros profissionais de saúde tem alguém que se importa com o outro, com a vida que ali está e isso é de uma importância imensa nesse momento.

Em cada afago na mão, cada emoção repassada através do olhar, cada vontade de abraço que não pode ser dado há um herói que se emociona por não estar em segurança com a família, que se fragiliza porque não pode dar mais atenção para quem está sofrendo.

Hoje, digo que, de uma maneira geral, os meus heróis usam máscaras.

Obrigada pela dedicação e cuidado!

Mariana Gouveia

Carta publicada na Revista Plural Mask – Scenarium Livros Artesanais
Ph: Imagem retirada da internet.
b.e.da – Participam desse projeto:
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Corredores, Codinome Locura · Das palavras das cartas

Era assim no tempo das flores…

O que me dói tem um nome que não obedece a mapas: a memória é um tempo desavindo.

Rui Nunes

Cris,

Abri a estante dos livros e vasculhei em busca dos poemas que lemos juntas ainda lá na outra casa. Lembrei-me do baú com a cartas de Leonor que encontramos e foi dali que surgiu a ideia de escrevermos um diário juntas. A sua risada ecoando na janela quebrada, imitando a moça do diário foi uma das cenas mais lindas que vivi na vida:

O amor devia ser tecido como uma renda e enquanto os dias não passam e a vida passa em branco, eu sou só espera…”

Sabe, Cris, eu me casei, você se casou e os dias foram nos roubando as horas. Cada vez que marcávamos um encontro acontecia algo e a gente ficou cultivando a saudade como se fosse um vaso de flores. As flores que plantei aqui já floriram e a brisa traz o cheiro delas para dentro de casa. Era assim no tempo das flores naquela rua de terra onde a gente buscava o telhado de casa para falar de estrelas e do diário que a gente nunca mais escreveu. O pé de ipê floriu de novo, os girassóis que plantei estão tão bonitos e a flor do campo se vestiu de vermelho e só por isso, lembrei-me de você.

Hoje, eu senti saudades e resolvi te abraçar através dessa carta até que tudo isso passe e a gente possa de novo se encontrar.

Abraço carinhoso,

Mariana Gouveia
Adriana Aneli – Alê Helga – Claudia Leonardi – Darlene Regina – Lunna Guedes – Obdulio Ortega – Roseli Pedroso

Das palavras das cartas · Desvios para atravessar os quintais · Projeto Diário das quatro estações · Scenarium Livros Artesanais

O que conto de mim.

Minha querida,

O que eu conto de mim tem a parte daquela rua, onde o rio se dobra e o chuá chuá sopra ao ouvido enquanto durmo. O que eu escrevo tem esse riso de irmão sentado na porta contando meus defeitos e olho molhado de amor. Metade de mim no cabelo branco, com a ruga na testa, suor da sua pele magra, que o tempo contou nos dias. O que carrego é essa história e a terra a cavoucar meu pé… é a lembrança de quem está aqui e não está. Outro irmão que mora longe e a voz ecoa reclamando ausência. O que eu conto de mim é esse riso solto, a colina a desvendar as sombras. Com os codinomes de uma fada louca que desenhou histórias nos meus dias. O que conto de mim tem o cheiro do pai.

O leite servido na caneca esmaltada e a poesia que eu pesco, o ombro ali, e na boca que pronuncia o silêncio toda vez que a gente fala de amor.

É tudo uma reza cantada. O avesso da pele — o som do pássaro — e a ave exótica a cantar no quintal.

.

.

…o que conto é o terço em todas as cores espalhadas entre o dia que acontece dentro de mim.

Desvios para atravessar quintais
Diário das quatro estações
Mariana Gouveia
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