Lunna Guedes · Projeto Diário das quatro estações · Scenarium Livros Artesanais

Septum

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“Que eu saiba pisar no instante seguinte
com pés de encantamento”.
Van Luchiari

  Isso aqui é um pouco de tudo!
Fios de um tecido. Retalhos de uma colcha. Pequenos cenários compondo uma paisagem.
Um punhado de fotografias espalhadas sobre a mesa, à espera de um álbum. Uma narrativa (viva) inacabada porque não acredito em coisas definitivas.
Tudo na vida é esse movimento… portanto não podem acreditar na imobilidade das linhas a seguir… que são tudo e nada… muitas coisas… menos um diário!
– em que momento da vida, de fato…se deve contar como sendo o ponto de partida da Vida? A data de nascimento que o documento aponta… serve como marco inicial apenas para o mundo dos homens.
Mas e para nós… “humanos mutantes” que somos? Qual seria o nosso “marco zero”?
Tudo que eu sei sobre a ocasião do meu nascimento é coisa alheia. História escrita e reescrita pelas figuras que se fizeram presentes à ocasião… mas em minha anatomia não existe uma única gota de consciência acerca de todos estes fatos… narrados com empolgação e emoção intensas… nos mais diversos momentos de minha existência.
– sempre me questionei ao longos dos anos quando é que EU realmente aconteci para o mundo?
A resposta, contudo, permanece em suspenso!

Lunna Guedes
Diário das quatro estações – Septum

Havia um burburinho entre as folhas do livro e as mãos dela. Mas o burburinho era meu, enquanto ela deslizava tão dentro das histórias e falava com o aparelho que tocava uma canção…
De repente, a mão desenhava letras e diante do mistério que se seguia aos meus olhos curiosos – ela criava parte do livro perante aos meus olhos curiosos.
E assim, como por encanto, eu vi a mágica ser criada.
Uma aura vinha da janela e emoldurava o cabelo dela e por alguns minutos dourou o quase prateado… ela nem percebeu, mas para mim, ali, ela acontecia para meu mundo. Uma figura que a vida colocou em meu caminho e desde então ela se recria em mim.
Para mim, ela renasce quando chove, quando trovoa, quando a tempestade acontece nos meus quintais…
Septum me mostra ela desnuda em palavras e encantos. Septum me devolve a bambina que de alguma forma se entranha em mim em carinhos que não sei explicar.

Mariana Gouveia

Divã · Revista Plural · Scenarium Livros Artesanais

Solidão tão minha

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Ph: Adam Klaus

Os corredores nunca foram tão longos e nem a solidão tão minha…Havia dores de ossos em todo canto – a moça de azul que hoje não vestiu azul via as dores como normal – preocupava-se mais com as dores da sua alma. Era olho distante do agora. Fosse ela reparar em dor – ali, era dor todo dia -não faria nada.
Os cartazes pedindo silêncio para a solidão dos outros. Alguém já não existia no vácuo entre o que era e será. Havia apenas o alívio de quem saía, nunca calmaria da dor. Eu escrevi a saudade enquanto era tempo. Era ali, no canto da mensagem que o coração batia.

Mariana Gouveia

Lunna Guedes · Scenarium Livros Artesanais

Septum – Outono

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” A esperança é uma lanterna dependurada nas costas
que apenas ilumina o caminho já percorrido “

                                                                                    Confúcio

É madrugada e eu me sinto só…completamente nua. E me vejo obrigada a vagar pelos espaços vazios deste lugar que sou. Esgotei as xícaras de chá. Li todos os livros que encontrei na prateleira. Assisti todos os filmes antigos que compõem minha lista de favoritos… e percebi nesta quarta hora… que não me resta outra coisa – apenas esta narrativa vazia… ou seria de inundação?
… alguma coisa transbordou aqui dentro e não deu tempo de fechar as comportas. Sinto-me a inundada por essa necessidade conhecida, tão antiga quanto eu.
Eu sei o que quero e preciso… mas ainda me recuso a este testamento em vida, porque escrever – para mim – é um ato de morte.
Você escolhe as melhores palavras, forma as frases com todo cuidado, tentando a sonhada perfeição.
Escolhe o que fica e o que parte. E no fim… não consegue um texto que agrade aos olhos – primeiro – e ao cuore depois…
E o que sobra disso tudo é a decepção que te encara de frente. E você não encara de volta. Recua. Amassa a folha entre os dedos e sai para andar entre os cômodos da casa – suportando em teus flancos o sabor amargo do fracasso.
A escrita exige doação, entrega, rendição… não basta o imaginário. Ela quer também a realidade e todos os desconfortos. Recusa o futuro, como se fosse um insulto-desaforo-afronta. Ela quer apenas o teu passado-presente. O teu melhor… e você sabe que é impossível se deitar sobre o papel sem render-se de corpo e alma esta simbiose indecente entre vida e morte, morte e vida.
As palavras são pontes…que nos ligam ao abismo que somos. Escrever é percorrer esse caminho frágil e perigoso… apenas de ida, nunca de volta.

 

Mas sem um mapa em mãos,
como saber o destino?

 Lunna Guedes
Diário das quatro estações – Septum – outono
Pág: 64
*imagem: Tumblr

A bússola me mostra a direção ao norte/sul/leste/oeste e daí, volto ao mesmo ponto de encantamento marcado no mapa. Mas que mapa? Septum nos faz perder a direção entre a vontade e o desejo de ler e embarcar dentro de cada estação.
Septum é a âncora que dá segurança e ao mesmo tempo, o vento que sopra e arrasta.
Não é magia…é bruxaria.
Septum te direciona e te faz perder…
e assim, te convido a se deixar levar…

Lunna Guedes · Meus Livros · Projeto Diário das quatro estações · Scenarium Livros Artesanais

Septum – Primavera

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…“ para aquele imaginário
em ebulição que desarruma o
‘concreto’…

Mais um dia se encerra em meus olhos…conta-se em algum lugar – como se fossem moedas – um punhado de minutos e um bando de euforias. A noite acontece ao mesmo tempo que a palma de uma mão estendida no ar cresce aos meus olhos. Admiro entre as linhas meia dúzia de moedas: douradas e prateadas.
Não se pode comprar o tempo, mas muitos tentam suborná-lo.
Era apenas um menino que me fez passar a limpo toda a minha vida anterior…revisei minhas notas, que são muitas, porque sempre deixo acumular as coisas, mas em algum momento – dentro da noite – eu me dedico a passar a limpo esses rascunhos.
É quando eu reescrevo páginas inteiras…reorganizo os espaços mentais e consequentemente tropeço em lembranças…
Sempre que me sento para escrever eu reviro minha pele, meu passado… sinto aquela velha monotonia que descobri no fundo de mim nos dias de infância.
O olhar enrosca-se facilmente em certos cenários: o balanço vazio, as mesmas mesas na biblioteca, a casa vazia, a rua silenciosa no começo da noite, o tabuleiro de xadrez pintado nas mesas da praça…
Eu sempre tropecei em ausências, solitudines…
Sempre encontrei a palavra nos meus cantos secretos e favoritos. Às vezes, sinto como se meus passos – pelas ruas da cidade – me levassem de volta sempre ao mesmo cenário…me aproximo da mesa, das peças e atravesso a ilusão que a vida molda, para que o diálogo não seja um poço onde se atira moedas para si mesmo. Avanço o peão…concedo o próximo movimento…e me coloco em estado de espera!

Notas de rodapé – gosto das madrugadas frias, com cheiro de chá quente na xícara… vinho na taça – um gole ou dois e os sabores se precipitam – gosto de um som a dizer suas notas e a pilha de livros a espiar-me, como se dissesse: leia- me. Gosto de ver os envelopes vazios… com suas cores a dizerem possíveis destinos.
Meus mapas são outros…eu me movo através de elementos particulares. Vou de uma esquina a outra em busca de uma mesa de canto do mundo, da vida e do corpo. Cheque mate!

Lunna Guedes
Diário das quatro estações – Septum – primavera
Pág: 77

Quando Septum se abriu aos meus olhos eu mergulhei dentro do imaginário de Lunna Guedes. Não fosse pela delícia de vasculhar as palavras que tão bem me tocam seria pela jogada de mestre de Lunna de nos prender ao seu mundo. As histórias nos envolvem a ponto de acharmos que a história é nossa e que o personagem pode ser eu, você ou alguém conhecido… Septum traz a magia do sete. Do mês da primavera, do idioma diferenciado em explorar nosso pensamento na melhor forma de desvendar os mistérios onde os brancos são preenchidos entre o encanto e os gestos.

Septum é esse gesto pronto de entrega.

Lunna nos presenteia e oferece dentro das estações a sensação plena delas. Septum é o próprio presente do Outono e a docilidade da primavera…A sensação de sentir na pele o inverno e se aquecer no verão.

Então, te proponho um desafio: que você não se perca dentro das palavras. Ela sabe como surgem os personagens.

A jogada está dada. O próximo lance é seu.

Mariana Gouveia

Das palavras das cartas · Lunna Guedes

No interior do silêncio: mais silêncio

“Eu nunca tive medo de escuro…

a noite foi sempre cenário das minhas invenções mais malucas.

No começo eu não sabia se dormia ou se fingia que dormia.

Não sabia se sonhava  ou se  inventava os meus próprios sonhos”.

Lunna Guedes

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Bambina mia

A noite conhece meus caminhos e meus cantos… O quintal ganha uma vida diferente da que acontece durante o dia. Há pássaros noturnos com seu canto diferenciado – quase um lamento…mas tão baixo que quase penso que fui eu quem imaginou o canto.
As folhas ganham formatos estranhos na sombra da noite e o céu tem dimensão de um portal para o silêncio. Elas dançam umas com as outras, posso apostar. De cima do telhado, parece que elas ganham vida além dos galhos.
Já te contei que de vez em quando deito no telhado para ficar olhando para as estrelas? Subo a escada que leva até a caixa d’água e ali ao lado deito para espiar as estrelas e a lua – que sempre me leva até você – e para não romper o silêncio canto baixinho: Luna tu…
O silêncio não é tão completo dentro da noite… mas no interior do silêncio o plim plim da tv me lembra que há mais alguém insone nas redondezas.
Hoje não tem estrelas. Tem trovões que me lembra você e alguns raios ao longe e o cheiro de chuva no quintal… mas tem lua e um halo enorme a emoldurar o brilho dela.
Choveu a noite inteira e grande parte da manhã. As flores ganharam o encanto das gotas e agora dormem na suavidade do tempo.
A medida que o relógio avança eu fico só com as memórias do que vivi durante o dia. Quase escuto o ressonar das pessoas e já em terra firme no meio do silêncio sou apenas eu e a silhueta do pássaro de todo dia que me acompanha dentro da noite. Lembro de você menina e seu texto a desenhar a noite e nessa hora uma moldura se abre dentro dos pensamentos e caibo dentro de sua história.
Hora de entrar para dentro e fechar os olhos para o sossego de quem reclama sobre o meu não dormir. Logo será hora de te encontrar dentro da minha manhã.

Bacio
Mariana Gouveia

 

Projeto Missivas
Scenarium Livros Artesanais

Lunna Guedes · Projeto Diário das quatro estações · Scenarium Livros Artesanais

Sim, ela também escreve diários…

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Ela já escreveu diário e ela ainda escreve diário e descreve dentro dele a rotina de sua cidade – várias, dentro de uma – ora nas madrugadas a vasculhar calçadas; ora nos tropeços entre os estranhos e as personagens que busca em cada sombra, olhar.
Ora, o amor e as tempestades que ama.

Ela escreve diário e em cada dia registra momentos únicos.
Os que já li e os que ainda não vi, mas que sei belos diante da alma que expõe nas palavras que escreve.

Aguardo Septum como quem espera a primavera e já adubo a emoções para quando folhear o diário dela.

Ela escreve diários e também escreve missivas – como costuma dizer – porém, dentro das palavras que encanta ela faz ainda melhor quando costura sonhos

Ela é Lunna Guedes e junto comigo e mais duas lindas que apresentarei nos dois próximos dias, lançaremos  Diário das quatro estações. Pela Editora Scenarium livros artesanais.
O lançamento será no dia 27 | 08 | 16 – a partir das 16h
Biblioteca Mário de Andrade
R. da Consolação, 94 – Consolação
São Paulo.
E eu espero você lá!

Mariana Gouveia

 

 

Das palavras das cartas · Lunna Guedes

Carta à mia bambina aos cuidados de Fevereiro

Carta à mia bambina aos cuidados de Fevereiro

 

“No cotidiano
sou nuvens
Às vezes, choro
N’outras, eu
chovo”
Elke Lubitz.

Ah, bambina! Fevereiro chega como previ e detalhei para você mais cedo. As trovoadas trazem você aqui para o meu quintal. Já choveu tanto e agora, entre o espaçar das nuvens vejo o sol brigar com as gotas que caem. Parece até que eu estava te esperando e você veio. Desde ontem você anda rondando meus pensamentos. A tempestade me trouxe seu nome quando cantei a canção que lembra você.
Busquei alguns temas que enviou e passei a andar por eles, descalça, para que a magia aconteça aqui dentro.
As aves festejam que só, esse tempo. Cantam, me espiam e ficam ali, a sentir a chuva enquanto eu me encanto.
Com esse tempo, meu quintal ganhou mais presença. De cores, de amor e de flores. Há plantas novas a enfeitar a parede lateral. Jasmins pequenos que durante a noite exalam o perfume – exótico – de uma noiva. Explico. As flores nascem em forma de buquê e toda vez que olho para elas, me lembro do buquê da noiva. Bobagem minha.
Os trevos estão que é flores só. E a Maria-sem-vergonha não para de florir. O jardim está em plena pompa. Pronto para a festa diária que faço aqui.
Como posso considerar verão se o mês que passou foi todo primavera?
Bambina, as novidades abraçam meu coração em uma forma doce de amor. A vida me trouxe maresia de presente e vivo lendas mitológicas no meu quintal. Sou que é chuva em dia de sol, como agora. Até pareço personagem de uma história e se existe um estado de felicidade, estou dentro dele.
Fevereiro chega e eu já quero antecipar os dias. Talvez eu seja uma das poucas que pularia – olha que contradição – esses dias de Momo. Me dá preguiça.
Atravesso a rotina do dia. E já vivo Alice plena. E você sabe do que falo. E com isso, te abraço no doce agradecer por você na minha vida. A leve impressão de estar aí, seja no voar de uma farfalla ou em uma joaninha na roupa do teu menino me dá a certeza de que longe não existe entre nós.

Amo tu!
Grazie mille

Bacio,
Mariana Gouveia

Das palavras das cartas · Lunna Guedes

Carta à bambina aos cuidados do amor

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Bambina mia,

Aqui o dia amanheceu nublado e esse tempo me faz lembrar você.
Na madrugada, trovejou. O céu parecia festa de ano novo. Os raios lembravam os rojões e os trovões, os fogos. Confesso que detesto fogos e rojões – por causa dos cães – mas, hoje, foi essa impressão que tive. E ocorreu-me o pensamento de que o céu fazia festa para você.
Pareceu Maio e seus trovões que você ama tanto e quando o dia clareou uma garoa fina cobria o quintal e minhas flores ficaram com aquelas gotículas que parece suor na pele.
Saí para caminhar um pouco e te levei comigo – sempre levo – mas hoje, foi especial.
Fui despejando em cada passo, palavras para que o universo ecoasse e levasse até você meu carinho.
Refiz nossas conversas e nossos silêncios – às vezes – e pude constatar mais uma vez o quanto sou abençoada. Sua presença em minha vida me torna melhor.
Cada vez que lembro de você é como se fosse uma continuação de um encontro que já houve antes mesmo de nos encontrarmos. Não queira explicações sobre isso. Não poderia explicar.
A sesnsação que tenho é de você na minha vida desde sempre e é com essa sensação plena de abraço que te envolvo no meu carinho, hoje, mais do que nunca.
Sorvo o chá enquanto penso em Jane Austen, autora que você adora e é com uma frase do livro Razão e sensibilidade que te abraço:
“Seus olhos erravam por aqui, por lá, por toda a parte, maravilhados. Ela viera para ser feliz, e já se sentia feliz..”

Che tu sia felice!
canterò per te la canzone che mi ricorda di te:

“Only you can hear my soul, only you can hear my soul

Luna tu
Quanti sono i canti che rissuonano
Desideri che attraverso i secoli
Han solcato il cielo per raggiungerti

Porto per poeti che non scrivono
E che il loro se non spesso perdono
Tu accogli i sospiri di chi spasima
E regali un sogno ad ogni anima
Luna che mi guardi adesso ascoltami”

baci mille

Mariana Gouveia

Das palavras das cartas · Lunna Guedes

Carta à bambina com aromas de café

Carta à bambina com aromas de café.

Hoje, o dia amanheceu normal. Se bem que comigo nunca nada é normal. O bem-te-vi pousa na árvore e eu canto sempre a canção que me lembra a ave.
Repito com ele o “bem-te-vi-eu-que-te-vi e o dia ganha a normalidade na rotina.

Ainda antes era agosto e a fumaça cobria meu céu e a ansiedade banhava meu coração e daí o abraço se deu e a alma que antes já sabia o sabor, ganhou cheiro de cartas abertas, cadernos lidos, livros apreciados.

Você, bambina, que já era de cuore, se transformou raiar de paixão. Pele sentida e encoberta pelos braços e o riso no sotaque mais paulistano italiano que já vi.
Fecho os olhos e posso estender a mão e te toco. É você ali, ao alcance do paladar e dos sentidos. História costurada na minha.

O mês era outro e parece que foi há um ano. Sinto aqui em mim ainda, o precipitar do cheiro de sua cozinha e não era café. Era pão e chá. A delícia do cão molhado a esfregar em mim. As histórias contadas quase em alta rotação, porque o relógio me avisava a hora.
Setembro foi folha caída, doída, rasgada e tirei ele do calendário. Sabemos porque.

A vida deve ser saboreada assim, na beleza e no sabor majestoso do café. E escrevendo-te na memória do ritual que sigo. O meu coador é de pano – ainda – contrariando minha amiga barista e deixo ferver a água em borbulhas e ela quase morre. Diz que o ponto é antes da fervura.
Depois, só depois é que bebo. Beber não, pois é quase um absorver o cheiro e gosto em um só lugar. Você sente o líquido invadindo teu corpo e produzindo as sensações prazerosas na alma.
E é assim que desejo que tua vida seja. Saboreada ao máximo diante da xícara diária que te é oferecida.
Meu pai sempre me dizia que café “bão” é o café puro.O nosso, ele mesmo colhia, torrava, moía e fazia. Usava o coador de pano e a xícara esmaltada verde abacate com desenhos de florzinha. Um dia, o apresentei o café com creme.

Luxuosamente servido numa xícara branca que eu tinha. Ele se maravilhou! Quis repetir. E durante alguns dias, meu desafio era criar novos tipos de cafés pra ele. Desde o capuccino ao macchiato. Mas, a paixão dele foi o írish coffee, feito com um uísque comum que eu tinha na época. A cada descoberta de uma nova receita ele se empolgava e o mais impressionante é que mesmo empacotado à vácuo ele sabia que tipo de café era aquele – a terra roxa proporcionava um sabor inigualável ao café – ele dizia.
O Arábica tinha essa ou aquela particularidade. O Robusta melhor era o produzido em Minas Gerais.
Quando por fim, ele retornou pra sua casa, um dia antes, no arrumar das malas, empacotando o moinho e o torrador, ele me disse: Durante anos eu havia sorvido os melhores cafés da vida. Aqueles que eu mesmo plantava, colhia, escolhia e preparava como artesão para beber. Achava que era assim e pronto. Mas, experimentando outros tipos descobri que a vida deve ser vivida igual ao café. Com novos experimentos, com novos sabores, com outras atitudes. O café para ser apreciado e soltar seu sabor passa por etapas diversas antes de chegar a nós. E por último, a fervura faz com ele exale teu aroma e com isso, convida todo mundo que é captado pelo cheiro a tomar um café. A nossa vida, é igual ao café, minha filha. Passamos por tantas coisas, enfrentamos tantos desafios. Somos torrados, moídos, catados, escolhidos e quando a “fervura” nos pega o que deve sair de nós é o aroma de nossa alma convidando a todos que percebam para saborear a nossa vitória.

Mariana Gouveia

Afetos · Das palavras das cartas · Lunna Guedes · Scenarium Livros Artesanais

Tempestade para uma bambina aos cuidados de Maio

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Eu rejeito a tristeza
Soberba e vã
Sobressaio entre muralhas
Engano raios
Adormeço trovões

Renas Barreto

Hoje amanheceu aqui com seus trovões, bambina. Maio veio tempestade quente de um céu rugindo e ventos nervosos. Raios cortam o céu como se partisse ele com um golpe só, o cinza – que você adora, toma conta do dia.

Acordei assustada com um barulho nas janelas. Era uma libélula que ficou presa dentro da sala, por um descuido meu. Sempre faço a vistoria antes de deitar. Vago nos quartos procurando algum vestígio de bichos alados que insistem em povoar meu lugar.

Foi quando maio – o seu – veio passear por aqui mudando a rotina das histórias. Não sei porque essa palavra tempestade vem ocupando  assombrosamente minha vida. Muitas vezes, num bom sentido. Outras, nem tanto.

Gosto das palavras úmidas, dos cheiros que elas me trazem. Seja chuva, seja orvalho, gota e esse mar imenso que cai agora. Embora, a palavra chuva me banha mais na alma do que nos pulos que dou de braços abertos, como se essa chuva de hoje, enquanto penso em você me benze, me lava e me prepara para uma imensidão de coisas que virão.

Gosto de ver meu beija-flor no seu banho de chuva. É a vida úmida acontecendo aqui, dentro do meu quintal. Tudo soa diferente dos costumes rotineiros. Não molho o jardim. Ele todo respinga alegria e a terra já exala o cheiro que tanto gosto.

Parece gosto de infância, de paletó de flanela xadrez, de leite fervido com eucalipto que minha mãe fazia no fogão a lenha que aquecia a mim e aos meus irmãos enquanto lia para nós.

Sempre fiquei com a impressão de que ela inventava algumas das histórias. Lembro de cada uma como se fosse hoje. Os cheiros nos leva para esse passeio insistente da alma em visitar passados, e nas lembranças minhas, o cheiro, tem o maior elemento.

Cheiro das folhas molhadas, cheiro do leite fervido. Do café. Da fumaça do cigarro do meu pai, que olhava a chuva da janela. Essa mesma janela que trago sempre na lembrança que é de onde te espio. Chego a empurrar a chuva para você. Imagino sua cidade cinza e o seu cão no sofá de sempre, em seu silêncio puro e acolhedor.

Hoje, trago-te essa tempestade. Ela desaba aqui. Também guardo-a em palavras nas histórias que escrevo, que leio para um dia, num abraço poder derramar sobre você meu carinho. De alguma forma, mesmo que não possa ouvir, o céu ruge aqui como se nos ligasse no mesmo ponto das vontades de chuva.

Dizem que o tempo mudará e que o inverno antecipará seus dias por aqui. Confesso que não acredito muito na meteorologia. Porém, se tudo isso acontecer, teremos um frio histórico aqui. Um lugar que chega aos 40º em sua maioria dos dias, qualquer 20º já dá para pensar nos cachecóis – esses que você adora e que para mim, tem sua marca registrada – e nos paletós.

O dia pede urgência. Fervo o latte para o cappuccino. Canto “Luna, tu. Tu rischiari il cielo e la sua imensità” e deixo meu bacio envolvido pelo barulho do céu que desaba aqui. Hoje, sua alma morou em mim.


Mariana Gouveia