Lunna Guedes · Projeto Fotográfico 6 on 6 · Scenarium Livros Artesanais

Projeto Fotográfico 6 on 6 – Retratos

Desde pequena sempre fui avessa aos retratos.  É fato que, quando criança as fotografias eram coisas raras. Uma vez por ano, lá vinha o fotógrafo tão esperado pelos meus pais e vestíamos como se fosse para uma festa. A fotografia era tirada uma com toda família junta, e outra individual de cada um dos sete filhos.

O tempo foi me levando para os caminhos da arte, rádio e passei eu a fazer fotografia  e em cada uma das funções exercidas o registro era inevitável.

Os reencontros com a família, o carinho da irmã e o quintal da casa do pai. Ainda assim, me ver fotografada era estranho.

Nas brincadeiras, o riso em cenas inusitadas era o limite entre a máquina e eu. Registrar os momentos era quase um ritual onde quer que fosse. Em alguns instantes engraçado, antes da peça começar. Na preparação do ato e caracterização.

 

A natureza passou a ser meu foco e minha atenção. E mesmo em casa, passei a ter visitas para os cliques inusitados.

 

Nesses momentos, a intimidade era o grau maior entre a lente e eu e entre mim e a vida que se mostra gigante a cada dia.


Para mim, a fotografia é o momento certo de registrar instantes para sempre. Com isso, o retrato fica inspirado no momento. A vida é tão passageira e com um simples clic consigo eternizar o para sempre sempre…

Mariana Gouveia
Projeto 6 on 6 – Editora Scenarium Plural

Participam desse Projet0:
Lunna GuedesMaria Vitoria |Obdulio Nunes Ortega

Lunna Guedes · Projeto Fotográfico 6 on 6 · Scenarium Livros Artesanais

Projeto Fotográfico 6 on 6 – Outono

Cuiabá querida!

Queria dizer que já não tenho mais palavras para dizer para você que suas ruas na primavera tem um quê do seu próprio nome… mas, em seus 299 anos é no outono que te concedo um olhar melhor.

Você se transforma em uma cidade dourada, com o cheiro das folhas a espalhar o aroma da estação.

O outono, esse menino travesso que veio brincar no meu quintal e seu céu roubam de mim os suspiros e tão senhor de si, o sol de todo dia se modifica em cada fim de tarde.

Nunca o mesmo, nunca igual, sempre solene e as nuvens se embelezam ainda mais para mostrar para todos a magia da estação.

Ah, Cuiabá! De cidade verde você se põe dourada e enche de encantos quem vive aqui.Nas tardes amenas sua cor se intensifica como se quisesse mostrar que no outono sua dimensão de cidade grande amplia.

A moça que lê a previsão do tempo cita seu nome e fala da possibilidade do tempo dourar – ou sou eu quem te faço mágica na brisa leve que meus olhos alcançam para além da janela.

Suas aves no voo te faz tão menina… E, para mim, suas calçadas me acolhem em cada canto que vou.Tão gigante, etérea e tão senhora de si.

Tão bravia e ao mesmo tempo acolhedora com seu povo hospitaleiro.
Cheia de falhas é completa de fé.

Te escrever, quase às vésperas de seus 299 anos na mansidão dos seus quintais me faz refletir que já sou parte sua e levo seu nome por onde for… Mas é dentro da estação que cobre seus dias que declaro meu amor. Feliz idade, Felicidades, Feliz cidade, Cuiabá!   Mariana Gouveia
Projeto 6 on 6 – Editora Scenarium Plural

Participam desse projeto:
Lunna Guedes – Maria Vitória – Obdúlio Nunes Ortega

Lunna Guedes · Projeto Fotográfico 6 on 6 · Scenarium Livros Artesanais

Projeto Fotográfico 6 On 6 – Minhas manhãs

Nasço amanhã
ando onde há espaço;
– Meu tempo é quando.
Vinicius de Moraes

As minhas manhãs acontecem em frente a inquieta cortina lilás. Os dias nascem laranjas por aqui – com algumas raras exceções  – o barulho do rio atravessa a paisagem e o sol – companheiro diário – se acende. Era quase estender a mão e tocar o horizonte da infância e seus códigos indecifráveis. A rota do olho a buscar abrigo na paisagem. As memórias aquecidas no fogão a lenha e todas as outras manhãs ganhando sentido de uma.

As minhas manhãs são cheias de aromas. O capim dourado ainda orvalhado, o cheiro do café a atiçar memórias…
O perfume do sabonete logo após o banho… A pele a respirar poemas de saudades. Frases relembradas ao acaso. O cão da vizinha da frente que se chama Meia Noite a abanar o rabo enquanto levo as sacolas para o moço da reciclagem que – parece – vem na rua de cima.

Minhas manhãs tem as cores azuladas. O céu a desenhar mil corações e a palavra cantada na voz do homem da reciclagem entoando emoção. Os detalhes dos últimos dias como desabafo. A sorte que teve na semana passada quando encontrou a bolsa de alguém e conseguiu devolver. As histórias se tornando magia diante de meus olhos e o mundo sendo meu nas palavras do homem.

O quintal me acolhe com suas vidas minúsculas e expande na cena que me acompanhará o dia todo. Os cães e suas alegrias em brincadeiras eternas. O som da casa vizinha a acordar. Tudo torna especial minhas manhãs dentro das rotinas tortas. As plantas a receber a chuva que dou enquanto o regador cumpre sua função no jardim.

As aves diante de meus olhos e o pássaro de todo dia a costurar estrelas em minha alma. As mensagens de saudades escritas em um curto espaço de tempo…

O beija-flor a demarcar seu canto e o dia dentro de uma paz falsa a rabiscar saudades nas paredes das ruas. A rua de cima a me acolher ainda dentro das manhãs e os gestos de rotina da casa como continuidade das memórias. O vasculhar das coisas a procurar os gestos seus em cada canto. As palavras salivando nas asas do amor.

Como se no voar dentro do silêncio a manhã se fizesse voz e que por si só isso já fosse amor. Enquanto isso, o relógio nas minhas manhãs tem a vibração do segundo. É quase hora de ir viver o dia.

Mariana Gouveia
Projeto Scenarium Plural 6 on 6 –

Também fazem parte desse Projeto:
Lunna Guedes – Maria Vitória – Obdúlio Nunes Ortega

Lunna Guedes · Projeto Fotográfico 6 on 6 · Scenarium Livros Artesanais

Projeto Fotográfico 6 on 6 | O que te inspira

 É dentro de ti que toda a música é ave.
Eugénio de Andrade
Ave.

A minha principal inspiração vem em primeiro lugar – e os que me acompanham sabem – de asas – das mais diversas significâncias – e de voo, de pouso e ave.
E a ave dona do meu carinho e pensamento se chama Chiquinho e é esse pequeno beija-flor – já com 6 anos, que vive aqui no meu quintal.
Nasceu dentro do meu xaxim de orquídea em uma noite chuvosa e livre, resolveu dividir seus voos entre meus varais, os quintais vizinhos e o ventilador de teto da sala.
A inspiração vem enquanto seus voos rasantes me abraçam.

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“Tenho o tempo das borboletas, uma semana é uma vida”
Graça Carpes

Toque (borboleta).

Cada manhã habita -me a leveza do toque e isso me inspira enquanto o aroma das flores me abraçam. O silêncio traz o vento que pelas asas ecoam… a mão é o pouso de descanso e a poesia muito mais do que as pontas dos dedos.

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“O céu sempre me pareceu
tão masculino
todo azul
e com um deus morando dentro”

Simone Teodoro
Céu do meu lugar

Sempre deixo de esperar o que era espera para ser entrega. O céu do meu lugar é onde a inspiração me ganha. Sou menina – a procurar figuras nas nuvens – que se encanta e com os braços danço entre o azul e o dourado – nas manhãs ou tardes de sol… apenas espaços em branco onde cabe tudo dentro de mim, inclusive, a poesia…

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“… mas preciso de magia. Não consigo viver em preto e branco.”
Nietzche

A noite mágica no meu quintal

Quando anoitece, tudo muda de tom e som… O meu quintal ganha ares de magia e nos cantos dos muros, a floresta se torna minha e única. A noite me inspira e pira. A estação na pele.

A pele, na memória e o céu, infinito em sua magia me acolhe.

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“Chamo o vento.
Para dançar comigo.
Na copa do ipê”.
Dayse Sene

Os ipês da rua de cima

A rua de cima tem a inspiração do portal mágico. É ali que a inspiração mora – feito menina travessa – e corre dentro de mim, como se a liberdade morasse na voz do homem da reciclagem, na terra amarela da rua que o homem do riso fácil varre todo dia. Na rua de cima, os ipês nascem nas manhãs serenas e ganham vida dentro de mim.

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“Canta o teu encanto que é pra me encantar”.
Los Hermanos

 

Joaninha – encanto

 Quando se trata de paixão é dela que falo. Em cada canto da casa e do quintal ela está. Mora ali, no botão da rosa, na folha do pé de algodão e na inspiração que vem. Podia dizer que sou lembrada por ela. Que às vezes, um pequeno nada se torna gigante entre a singeleza da cor e no brilho que meus olhos ganham.

Muitas vezes, as inspirações vem de pequenos nadas que se ampliam e ganham contornos de plenitude.

É isso que ofereço – e entrego – me nas palavras – e se diante disso, eu conseguir te tocar, então, tudo terá valido a pena.

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Mariana Gouveia
Projeto Fotográfico 6 ON 6  | O que te inspira?
EDITORA SCENARIUM PLURAL – 2018
www.scenariumplural.worpress.com

Divã · Revista Plural · Scenarium Livros Artesanais

The end

The end

“The end” – foi isso que sobrou.

Resta em mim essa ternura, essa vontade de começar tudo de novo…
e o seu silêncio a ecoar canções dentro de mim.

Resta essa vontade de chorar e essa raiva… não sei do que e nem de quem.
Mas principalmente de mim.

Resta esse conhecer absurdo do que é sonhar e esse medo estranho de que a palavra esperança suma de vez da minha memória e da minha vida.

A canção que você gostava repete e repete e de tanto ouvir, já sei de cor as palavras, o ritmo…
Me proponho a ouvir pela última vez a sinfonia, e de tantas vezes ouvir e outras tantas acompanhar, eu já sabia de cor as suas palavras, e ia repetindo dentro de mim, antecipando a última, que seria o fim, sabendo que tudo o que é lindo precisa terminar.

Ah, eu fiz tudo que eu nunca fiz… eu cantei, eu dancei, eu teimei, eu… eu… eu te amei.
Não!
Eu te amo! Eu te amo com todos aqueles exageros de poetas em poemas de amor.
Te amo com a melodia soando no meu íntimo… Eu te amo com esse exagero louco do signo, com todos os desígnios doidos do destino.
Eu te amo com a melodia na pele a gritar claves na tatuagem de voos e sons em mim.

A música é bela porque a vida é rápida e não dura mais que o tempo da melodia… e você repete e você repete até saber de cor a hora que ela se encerra. E a memória te grita. E a memória me queima e me dá raiva.

Até o beijo… Dá raiva dos beijos que dei, dos que nem cheguei a dar e dos que não darei. Porque já é o fim.
Um dia te disse que te beijaria para sempre e você me recitou uma parte de um poema lido em algum lugar que não me lembro de onde:
“Que amante suportaria um beijo que não terminasse nunca?”
Que amante ia querer eternamente esse queimar, esse molhar, esse afago, esse voar de borboletas na barriga?
Que amor iria querer durar até o fim sem viver outro amor?
Que ouvidos iriam querer ouvir só uma voz e uma única canção?
E eu não soube te responder.
Daí, você muda a palavra para saudade. E muda a canção e vê na melodia a saudade. Chega a mastigar. Chega a doer… (ou você achou que podia ser feliz pra sempre, sua boba?)
Finais felizes só existem no cinema, em novelas e em livros e você não vive livros, nem novelas, nem histórias. Você vive ilusão.
Te vendem ilusão. E você compra. E de repente você se vê só, em meio à solidão e descobre o que é sentir falta. A saudade só floresce na ausência.

Floresce e você vive com medo de que morra. De que essa sensação te sufoque e ao mesmo tempo deseja que isso aconteça. E que a vida seja flor e que você seja flor sempre na minha vida.
É na saudade que nascem os poemas mais bonitos – um dia você me disse isso – É como a melodia que ecoa em voz e som… e nessa hora te vejo em tudo que toco.
Um dia te verei de novo?
A pergunta explode dentro de mim e me lembro de que te disse sobre isso uma vez em um poema que escrevi. Divino é o reencontro. É como o céu que se abre e aos poucos oferece todas as estrelas.

Porque eu desejo viver tudo isso de novo. Até mesmo essa saudade.

Então, diante de tudo isso o que me resta é esse monólogo dizendo tudo que sinto e queimando as últimas palavras que não me disse, fazendo de conta que nunca foi embora. Abrindo a porta para que a cada rumor de barulho pudesse entrar mais uma vez e tomar posse de mim e do meu amor.

E eu, na minha cabeça de vento declamando em silêncio o último verso: the end…

Foi então que, no último momento, o imprevisto aconteceu: parece que a música recomeça e eu acredito que o repeat errou… talvez tenha achado tudo tão bonito e tenha encontrado inspiração e era tudo um teste para ver o tamanho do meu amor e ali ficou a voz de Bethânia cantando Drama, repetindo palavras:

“Eu minto, mas minha voz não mente
Minha voz soa exatamente
De onde no corpo da alma de uma pessoa”.

E eu vou lá e desligo tudo. Apago todo resto que pode me ligar a isso…
Depois disso foi o silêncio.

É bem possível que o último verso tenha sido o primeiro…
mas eu quero tudo isso de volta…

Mariana Gouveia
Texto publicado na Revista Plural Inéditos & Dispersos
Scenarium Livros Artesanais
*fotografia: Adam Klaus

Das palavras das cartas · Lunna Guedes

Uma das minhas gavetas está cheia de pretéritos

 

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Bambina mia,

… enquanto te escrevo mio menino arranca as ervas daninhas no quintal – tenho de ficar de olho para que ele não leve entre elas algumas ervas que são remédios e que curam… Outras são folhas para o chá e que ele não sabe quais são – é uma espécie de vigia entre a palavra ” essa não… é poejo”… e o grito “Nãããooo! É alfavaca!”

Abril hoje é presente aqui – mesmo – com sua ventania quase frio. Trovejou aqui e você veio pelo meu chamado. Choveu e agora está aquele vento meio pingo meio frio que adoro. As cortinas dançam com isso e acho esse balé a coisa mais linda. As folhas do pé de algodão caem com esse sopro e arrastam no quintal como se chamassem atenção para a cena.

O vento é quase uma carícia na pele e recebo ele de olho fechado e alma aberta – de vez em quando danço com ele… vou para o meio do quintal e abro os braços enquanto ele levanta meu vestido – o pássaro de todo dia ronda meu lugar… chama atenção no varal de roupa com sua miudeza e chilreio… ainda não descobri como se chama o canto do beija-flor. Será que é floreio?

Hoje é aquele dia comprido que demora a passar. Trago nele tantas lembranças da infância. As histórias de meu pai e o mistério de uma data que todos vivem sem viver de fato o verdadeiro sentido dela. Confesso que por força de algo maior que não consigo definir sigo alguns rituais que meu pai seguia. Digo no tempo passado porque é algo que marcou minha vida – acho que sou a única dos irmãos que ainda faz isso – e pela primeira vez em muitos anos não vou seguir a procissão que começa lá em cima, na avenida. Já ouço o canto pelo microfone . Alguns rituais precisam ser rompidos. Alguma coisa vai mudando com o tempo ou são as pessoas que vão se tornando estranhas aos meus olhos e já não me sinto necessária em alguns lugares.

A vida tão cheia de verbos e frases feitas. Datas singulares que abrem a gaveta de minha memória tão cheia de pretéritos que sobram para fora algumas peças extras que tento decifrar ainda.  Coloco o envelope laranja junto com os outros. Aspiro o cheiro de palavras que se juntam e aceito seu convite. Dou-te a mão e vou contigo pelas suas calçadas e ruas.
Abraço-te e rio na sintonia da resposta  que sai ao mesmo tempo que a pergunta chega…

Bacio,
Mariana Gouveia
Projeto Missiva de Abril
Scenarium Livros Artesanais

Lunna Guedes · Projeto Fotográfico 6 on 6 · Scenarium Livros Artesanais

Projeto Fotográfico 6 on 6 | Scenarium…

Falar sobre os livros da Scenarium Plural para mim é como falar de filho. Você vai ver aqui aquela mãe boba que só admira cada coisa que o filho faz.
A Scenarium entrou em minha vida pelas mãos de Lunna Guedes e foi amor à primeira vista, ao primeiro comentário e depois disso tivemos tanto de primeiro/primeira que até hoje tenho primeiros lances com ela.
Dessa descoberta veio as realizações de sonhos e tudo que aconteceu está aqui registrado em posts, poemas, cartas e fotos.
Mas, hoje, venho te mostrar a minha Six Top List dos livros que a Editora publicou e que te convido a conhecer:

Lua de Papel I, II e III
Lunna Guedes

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Lua de Papel não é só um livro. São três! Não é só uma trilogia! São histórias que se encontram e encantam.
Eu, amei cada um deles e enveredei pela história de uma maneira que ficava torcendo para que no próximo capítulo fosse além do que a autora descrevia. Lua de papel me fez viajar, sonhar e ficar como se estivesse dentro do livro, quase à beira da janela e bastava fechar os olhos e respirar e eu já era parte do livro…
Me apaixonei por cada personagem e muitas vezes tecia meu diálogo com elas. O livro me surpreendeu em seu final cativante e encantador.

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Dentro de um Bukowski
Aden Leonardo

“para o que existiu e foi deixado sob o lago
– aquela imensidão do esquecimento, do dia a dia. Um “B” lado oposto da realidade,
debaixo das estrelas”.

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Dentro de um Bukowski me levou/leva para dentro dos delírios. Aden me leva em uma viagem onde me deixo levar pelo lirismo latente.
Ouso, camuflo, domino, choro e rio junto.
Com ela eu não conjugo os verbos, eu os engulo e devoro. Talvez eu solte o grito que ela guarda. E literalmente viajo com ela pelas estradinhas – entre ida e volta – de Minas.
Confesso que enquanto “viajo” pego alguns atalhos dentro da paisagem e isso se transforma na melhor parte da viagem.

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A construção da primavera
Adriana Aneli Costa Lagrasta

“Ele está certo, do verão amo a tempestade, que estranhamente se antecipa no outono, este ano.

“Percorria o vidro com a ponta dos dedos, respirava fundo – como quem morre – e misturava o lado de fora ao lado de dentro…”

Compartilhei desta chuva de hoje… a de sempre… a memória: somos 60% água, matéria líquida aconchegada à passagem do tempo”.

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Adriana Aneli primeiro me embriagou com seu Amor Expresso. Sorvido, bebido e adorado. Além da simpatia – e simpatia é quase amor – e da materialidade do livro apreciado em um trabalho lindo do Atelier Flávia Taiano – que te convido a conhecer – os 50 mini contos me levaram à tardes mornas, aspirando o cheiro do café enquanto degustava o livro.
Já A Construção da Primavera me trouxe o ritmo das estações. Dentro de um projeto lindíssimo: O Diário das Quatro Estações – do qual me orgulho imensamente em fazer parte – Adriana te pega pega mão e te leva o ar supremo do outono adocicado pela sua poesia, à doçura da primavera em plena construção, ao inverno mesmo acinzentado e florido e um verão de luxo puro dentro das palavras dela. Com isso, ela constrói não somente a primavera, mas todas as estações derramadas de poesia.

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Scenarium
Plural North and South

Estamos sempre à beira. podemos quebrar a espinha ou virar o mundo. não é questão de escolha, às vezes. mas pode-se reconhecer, pelo menos, que à beira sempre está presente.
estamos sempre à beira. há os que percebem. há os que sentem somente frio na barriga. não há volta, o frio na barriga não perdoa.

estamos sempre à beira. entre nortes e suls, estaremos perdidos (como se quisessemos direção…); entre lestes e oestes, a mesma falta, o mesmo desapego.

estamos sempre à beira, mesmo quando caímos.

à margem, à beira, norte e sul.
Claudinei Vieira

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Com Plural North and Soul e o poema de Claudinei Vieira falo do Projeto Plural e toda diversidade e gama de poetas magníficos que nos presenteiam com participações especiais nas quatro edições durante o ano. A Plural é uma revista de luxo onde a troca e a pluralidade te faz singular dentro da literatura. A arte inserida desde o projeto ao formato nos torna parte da ideia, do contexto e por fim, da poesia dividida entre uma gama de autores que embarca na ideia da Editora.

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Septum
Lunna Guedes

gosto das madrugadas frias, com cheiro de chá quente na xícara… vinho na taça – um gole ou dois e os sabores se precipitam – gosto de um som a dizer suas notas e a pilha de livros a espiar-me, como se dissesse: leia- me. Gosto de ver os envelopes vazios… com suas cores a dizerem possíveis destinos.
Meus mapas são outros…eu me movo através de elementos particulares. Vou de uma esquina a outra em busca de uma mesa de canto do mundo, da vida e do corpo. Cheque mate!

Lunna Guedes

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Quando Septum se abriu aos meus olhos eu mergulhei dentro do imaginário de Lunna Guedes. Não fosse pela delícia de vasculhar as palavras que tão bem me tocam seria pela jogada de mestre de Lunna de nos prender ao seu mundo. As histórias nos envolvem a ponto de acharmos que a história é nossa e que o personagem pode ser eu, você ou alguém conhecido… Septum traz a magia do sete. Do mês da primavera, do idioma diferenciado em explorar nosso pensamento na melhor forma de desvendar os mistérios onde os brancos são preenchidos entre o encanto e os gestos.
Septum é esse gesto pronto de entrega.
Lunna nos presenteia e oferece dentro das estações a sensação plena delas. Septum é o próprio presente do Outono e a docilidade da primavera…A sensação de sentir na pele o inverno e se aquecer no verão.
Então, te proponho um desafio: que você não se perca dentro das palavras. Ela sabe como surgem os personagens.
A jogada está dada. O próximo lance é seu.

**

O lado de dentro

Mariana Gouveia

A poesia de Mariana em ‘o lado de dentro’… é um dia de sol, passos pelo asfalto cinza que se acaba de repente e nos deixa a estrada de terra cercada por mato e seu cheiro de vida selvagem. Mas não se engane. A poesia de Mariana transita entre realidades-tempos-espaços e pousa direto na pele de quem a consome em pequenos goles.


Havia qualquer coisa de Santa,

mas havia, também,

qualquer coisa de louca

não sei se o jeito de olhar.

O atrever-se com as mãos

ou o recato do decote, tão íntimo.

Havia qualquer coisa de tímida,

mas, havia — também

qualquer coisa de exibicionista.

Não sei se o riso solto

ou a voz quase rindo, quase suspiro.

Havia qualquer coisa de pecado,

de sagrado também…

e profanava em mim

nas mãos que

me descobria a alma

Mariana Gouveia
Projeto 6 on 6 – Scenarium

Das palavras das cartas · Lunna Guedes

Seu perfume são acentos no livro de seu corpo

outro-lado

Agora que sinto amor
Tenho interesse no que cheira.
Nunca antes me interessou que uma flor tivesse cheiro.
Agora sinto o perfume das flores como se visse uma coisa nova.
Sei bem que elas cheiravam, como sei que existia.
São coisas que se sabem por fora.
Mas agora sei com a respiração da parte de trás da cabeça.
Hoje as flores sabem-me bem num paladar que se cheira.
Hoje às vezes acordo e cheiro antes de ver.

Alberto Caeiro, in “O Pastor Amoroso”
Heterónimo de Fernando Pessoa

Bambina mia,

A solidão abraça as paredes da casa…muitos braços para alcançar os vãos todos
a luz da vidraça enfraquecida pelo gesto da cortina…
O dia tem sua rotina quebrada entre o chuvisco, chuva forte, um sol ardente de meia hora e não fosse pelas histórias que a TV mostra eu nem me tocaria que é Natal. A casa responde em eco minhas perguntas… repete minhas frases lidas em voz alta.
Na casa vizinha o assado começa a ser preparado – posso sentir o aroma dos temperos todos – e a canção de uma dupla sertaneja de mulheres e que está em primeiro lugar nas paradas é repetida ao extremo e vira um mantra insuportável aos meus ouvidos.

As luzes da casa do vizinho lateral brilham em um pisca-pisca incessante. O cheiro do outono mesmo sendo verão vindo do bosque ao lado invade a manhã. O céu é uma aquarela de cores e seus matizes diversos. Lembro-me de um poema e os lilases outonais.
Fico a admirar como os tons mudam rapidamente. O que era agora a pouco já não é mais. Elevo uma prece ao universo e sua magnitude de beleza. Nos fios, os pássaros em seu estado de asas. Parece uma brincadeira o equilíbrio todo.

Anteontem conheci um cão… me seguiu até o ponto de ônibus. Não parecia perdido, nem faminto… apenas queria companhia, eu acho. E hoje ele apareceu no meu portão e parece que me reconhece. Acompanha o menino que entrega pão e que nem é mais menino. Mas não é dele – apenas o segue em alguns dias como se quisesse companhia – e assim vai vivendo livre dentro das ruas do bairro. Acho que vai voltar, já que agora sabe onde moro.

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Assim, começo meu dia na singeleza dos instantes.
Ouço os trovões todos e em seguida a tempestade anunciada chega invadindo esse domingo – lembro-me da promessa de ontem e realmente você esteve presente o dia todo… nas trovoadas, nos pingos da chuva, na leitura dos livros que editou e no cheiro que invade meu lugar e penso em tua rosca e teus aromas de infância – abençoo a chuva e seu estado de graça… Às vezes preciso de vento e ele chega rompendo as cortinas todas…

Algumas palavras traduzem os sons desse dia onde as canções se repetem nas casas vizinhas… as mesmas entre gritos estridentes de alguém que tenta cantar igual a dupla de nome estranho… Desse dia fica o cheiro de minha mãe como se fossem acentos dentro de minha memória. O cabelo preso no alto da cabeça, em tranças, o vestido godê num azul suave – quase céu – era assim que ela se vestia para o dia. Nos outros dias, ela era a índia solta, liberta, descalça e faminta de natureza. Comia de cócoras com as mãos em montinhos que distribuía entre os sete filhos, ali, alinhados em sua volta… Lia os livros – os poucos que tínhamos – a maioria puídos, alguns sem algumas folhas, mas ali em cada página ela criava outra história dentro da história, as fotonovelas que em sua maioria eram de artistas italianos – como tu – cuja história de uma agricultora que perdeu a família e vendia melancia na beira de uma estrada e no dia de Natal conhece o amor de sua vida nunca me saiu da cabeça. Posso descrever cada frase, cada foto… inclusive, o pedaço de melancia cortado quadrado e não em fatias, como costumamos fazer.
A chuva não cessa… faz o dia ficar lento em seu estado de ser. A vida germina no meu quintal.
Penso em proteger os casulos, mas deixo a natureza seguir seu curso e logo teremos asas a bailar por aqui.
Serei mãe de mais seres que voam e é dentro desse aroma de terra molhada que vibro a vida que se refaz em cada canto desse meu lugar, afinal o dia é mesmo para comemorar um nascimento.

Que assim seja!

Bacio…
Mariana

Das palavras das cartas · Lunna Guedes

Então é Natal!

“Jogue fora as luzes, as definições e fale do que você vê no escuro”

Wallace Stevens – “The man the blue guitar”


Querida bambina!

É Natal e daqui da varanda vejo apenas as luzes do pisca-pisca das luzinhas na casa do vizinho… chove aqui e teve trovão mais cedo – lembrei de você – e foi justo na hora que seu vídeo arrancou gargalhadas aqui.
O cheiro de algum assado nas redondezas me faz pensar que é Natal. Essa data me remete à infância e como você mesmo diz sobre o branco de teus dezembros… o que me recordo é o cheiro de mata, de fogueira acesa e das histórias que meu pai contava.
Hoje sei que ele enfeitava de lindeza nossas vidas com sua imaginação fértil. Essa data é apenas simbólica… já não tem mais o mesmo encanto ou fui eu quem mudei.
Acho que a data perdeu o propósito mas como toda magia deve ser cultivada que seja feita a vontade de todos.
Para mim, o mais importante é o dia-a-dia. É nele que me prendo e me guardo.
E através de você eu desejo que todos os dias para todo mundo seja vivido como se fosse Natal!

Bacio

Mariana Gouveia

Das palavras das cartas · Lunna Guedes · Scenarium Livros Artesanais

Carta à minha bambina com aroma de chuva

lunna


Escreve sempre que precisares, faz
uma lista de compras, uma lista de desejos,
anota todos os pedidos que deixaste
em poemas atrasados.
Escreve sempre que precisares
de mais um postal com selo e carimbo.
Escreve sempre que riscares
na tua agenda mais uma morada.

Margarida Ferra

Bambina mia,


Antes de te escrever eu saio para brincar com o céu. Pés descalços e braços abertos ao vento. Aqui o céu amanheceu lunnático e chamava seu nome a cada estrondo. As manhãs no meu quintal tem amanhecido com gosto de chuva a fazer aromas na minha cozinha… brindei sua vida com latte com café e o sabor inundou a manhã.
Refiz um roteiro com o mapa de tudo que vivemos e no contar das horas percebi que não me lembro sem você.
Parece que sempre esteve aqui. Na parte encantadora da minha vida  desde sempre com sabores, amores e presença.
Você está nas minhas histórias – e nos momentos de realizar os sonhos tem suas mãos nas costuras das linhas coloridas em realidade pura – e faz com que eu seja uma personagem da sua.
E quando vem a chuva ou seu anúncio de tempestade eu sinto a sensação do teu toque e seu nome entranhado nos trovões que acorda a natureza do meu lugar.
O dia, hoje, aconteceu fora das rotinas… Mas ainda assim, dentro do emaranhado da vida teci para você preces em forma de poemas… Que cada momento seu seja mágico e que essa magia faça você sentir minha presença mesmo longe.

Ti voglio benne!

Mariana Gouveia