Nasço amanhã
ando onde há espaço;
– Meu tempo é quando.
Vinicius de Moraes

As minhas manhãs acontecem em frente a inquieta cortina lilás. Os dias nascem laranjas por aqui – com algumas raras exceções – o barulho do rio atravessa a paisagem e o sol – companheiro diário – se acende. Era quase estender a mão e tocar o horizonte da infância e seus códigos indecifráveis. A rota do olho a buscar abrigo na paisagem. As memórias aquecidas no fogão a lenha e todas as outras manhãs ganhando sentido de uma.

As minhas manhãs são cheias de aromas. O capim dourado ainda orvalhado, o cheiro do café a atiçar memórias…
O perfume do sabonete logo após o banho… A pele a respirar poemas de saudades. Frases relembradas ao acaso. O cão da vizinha da frente que se chama Meia Noite a abanar o rabo enquanto levo as sacolas para o moço da reciclagem que – parece – vem na rua de cima.

Minhas manhãs tem as cores azuladas. O céu a desenhar mil corações e a palavra cantada na voz do homem da reciclagem entoando emoção. Os detalhes dos últimos dias como desabafo. A sorte que teve na semana passada quando encontrou a bolsa de alguém e conseguiu devolver. As histórias se tornando magia diante de meus olhos e o mundo sendo meu nas palavras do homem.

O quintal me acolhe com suas vidas minúsculas e expande na cena que me acompanhará o dia todo. Os cães e suas alegrias em brincadeiras eternas. O som da casa vizinha a acordar. Tudo torna especial minhas manhãs dentro das rotinas tortas. As plantas a receber a chuva que dou enquanto o regador cumpre sua função no jardim.

As aves diante de meus olhos e o pássaro de todo dia a costurar estrelas em minha alma. As mensagens de saudades escritas em um curto espaço de tempo…

O beija-flor a demarcar seu canto e o dia dentro de uma paz falsa a rabiscar saudades nas paredes das ruas. A rua de cima a me acolher ainda dentro das manhãs e os gestos de rotina da casa como continuidade das memórias. O vasculhar das coisas a procurar os gestos seus em cada canto. As palavras salivando nas asas do amor.
Como se no voar dentro do silêncio a manhã se fizesse voz e que por si só isso já fosse amor. Enquanto isso, o relógio nas minhas manhãs tem a vibração do segundo. É quase hora de ir viver o dia.
Mariana Gouveia
Projeto Scenarium Plural 6 on 6 –
Também fazem parte desse Projeto:
Lunna Guedes – Maria Vitória – Obdúlio Nunes Ortega
Dá muita vontade de acordar nas suas manhãs, Mariana…
CurtirCurtido por 1 pessoa
Dedico elas a ti, moço! Grata!
CurtirCurtido por 1 pessoa
Suas manhãs, curiosamente, tem um pouco das minhas e gosto de me perder nesse nosso orvalho. ti amo…
CurtirCurtido por 1 pessoa
Anche io que ti amo! Molto mais!
CurtirCurtir
O homem da reciclagem certamente sabe o que canta. Deve ser uma questão de coerência: ele, se quiser, não pode inventar as manhãs? Certamente ele é o primeiro que chega. E você? Bem, você canta a aurora, arruma as cortinas, ajeita o sol e compõe os orvalhos, faz um ou outro discurso aos pássaros e às abelhas…é sua função, você sabe. Abraços, que sempre os tenho para ti.
CurtirCurtido por 1 pessoa
Abraço recebido aqui. Ele cantarola as canções da minha infância!
Abraço meu
CurtirCurtir