Das palavras das cartas · Lunna Guedes

Carta em Vermelhos Tons

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Bambina mia

“Sei dos crepúsculos, das manhãs, das tardes,
Medi minha vida em colherinhas de café”
Lunna Guedes

 
A tarde surge com prenúncio de mais um temporal e pensei em você. Os Vermelhos Tons me traz uma certa nostalgia.
Caminho com você pelas estações e cruzo as calçadas contigo.
Em silêncio. Gritante, às vezes, como uma menina travessa que solta da mão do responsável e corre adiante, pela rua.
Vou aos poucos descobrindo lugares, visitando seus caminhos antigos e posso até detalhar os matos que crescem nos fios desgastados das calçadas.
Os tons de cinza das ruas me atinge. Mas, sinto paz aqui, quase uma redenção para uma alma em burburinho nos últimos dias.
Dentro de uma sexta-feira a promessa se cumpre e aqui estou eu, sendo apresentada ao espelho de seus tons rubros, com toda paixão que a cor causa em mim.
Tropeço na possibilidade de ser. De poemar Cecília para você rir. Sim! Imagino você rindo com meu jeito moleca – dizem sempre que sou assim – moleca.
Atravessar as ruas e saborear no ar o cheiro delas, os aromas das suas feiras e a cor dos tomates que escolhe para o molho, que já antevejo, e posso sentir o gosto na boca.
E no fim do passeio, bambina, abro o pacote de vento que trouxe. Desses que levanta as saias, assanha os cabelos e faz arrancar risos. Te convido para abrir os braços e saborear a dança do vento.
É aqui, nesse cenário inventado que visito o seu. Que abraça a minha alma e me acolhe como uma flor acolhe a borboleta.
Encerro essa carta com as suas palavras em Junho, para seu menino amor.
Lá onde os lilases de Junho floreiam amor e foi onde te descobri. Quase como gestar de novo essa amizade que em mim, floresce sempre como se fosse desde sempre.O cheiro do chá me convida para mais uma lembrança e ainda bem que não perdemos o hábito de escrever missivas.

Bacio
Mariana Gouveia

Das palavras das cartas · Lunna Guedes

em meio a um turbilhão: uma resposta acalma a mente e o coração

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Cuiabá amanheceu com nuvens grossas e o pé de vento que mora no meu quintal dançando com as folhas de tudo que é planta e fazendo o pássaro balançar no bebedouro.

Bambina mia,

…Acordei ainda madrugada com notícia de uma morte. Alguém importante do meio da imprensa e da política partiu. A partir daí, o dia foi de correria e de movimentos. Entre notas e manchetes, lamentos e choros, assim correu a manhã.

O sol apareceu mais bravio do que sempre. Ardia a pele e embora entre todos os atropelos, a vida continuava acontecendo magias no meu quintal.
E como a vida continua apesar de tudo, havia um aniversário para se comemorar hoje – mesmo sem festa – *ela ganhou flores, e fez uma manhã pesada se tornar leve entre risos, emotions e carinho.

*Ela é a quem chamo de minha Jane. Companheira de momentos bons e ruins. Mulher com jeito de menina traquina e sempre antes das apresentações nos eventos, mesmo entre timidez – ela odeia microfones – ela dizia: Me chamo Jane…eu, me atrevia para acalmá-la, dizer: e eu sou Tarzan. E era riso entre as pessoas. Desde então, ela se tornou minha Jane e eu a Tarzan dela. oooooooooooooooo… O dia foi diferente, estranho, com jeito de luto e ao mesmo tempo de festa – como pode? – Estranho esses sentimentos que me movem e por vezes, pesam em mim.

Mas, como a magia sempre preenche meus dias e o encanto me surge em forma de palavras, veio essa missiva que iluminou minha tarde. Alinhavou em mim costuras de paz na alma. Deus é sempre generoso comigo e a natureza me traz gente que me inunda a alma. E veio ela..  e adoçou um dia intenso, extenso com minhas cores desenhadas em letras que esparramou em meu coração e que sorvo até agora o sabor da delicadeza. É quase chá de flores que rescende em todos os aposentos da casa.
E assim, encerro o dia. Com a alma em transe pelo simples poder que as palavras trazem. O poder do carinho e que devolvo para você, embrulhado em papel de presente e o laço do meu abraço…

Bacio,
Mariana Gouveia

Das palavras das cartas · Lunna Guedes

Carta à minha bambina aos cuidados do outono

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Querida L

Aqui é primavera e você brinda, vive e comenta outonos. Os dias me dizem mais de você do que pensa. Eu caminho no meu quintal – descalça – em sua homenagem. Eu “chovo” sobre as flores que se abrem em minha velha caixa de eternit. Coloco a mão na terra e comemoro teu dia, teus momentos e tuas missivas. Abro meu caderno de receitas e anoto aquela que você adoraria experimentar. Também tenho a alquimia da arte de cozer. E penso que hoje eu declamaria Borges enquanto preparava uma massa para você.

Descobri com uma amiga barista como se faz um café especial. Não entendi muito bem como seria esperar que a água não deva ser fervida e sim, aquecida no limiar onde as bolhas começam a agitar a água – é alquimia, menina! Ela diz. E essa palavra – alquimia – me leva até você. Que usa as palavras e as transforma em poesia, em encanto e em tudo que eu queria escrever. Ouro puro, no quilate exato das palavras!

Visito lugares que você visitou através de seus olhares. Caminho com as mãos entre os bolsos, junto com você, respeitando seus silêncios e descubro que se há algo que posso desejar é seu abraço, para confirmar a quentura que já sei como é. Costuro momentos que conheci através de você. As fitas de cetim se transformam em laços. Esses laços que o destino traça e une pessoas em diferentes mundos.

Esse laço que te presenteio num abraço. Hoje, a noite deu-me seu presente. Se pudesse, mandaria o cheiro que rescende no nome da flor que se abre para te dedicar momentos – dama da noite.
A dama da noite se abre e dizem que ela faz isso uma vez ao ano e justamente hoje, ela faz a festa aos olhos seus…

Que a vida te seja bela. Que te seja leve os dias. Mesmo os mais complicados.
Que seu ombro seja forte o suficiente para carregar os fardos que por ventura sejam direcionados a você. E que nunca te falte uma lambida de cão, um riso de cumplicidade e uma palavra que mereça ser escrita. Que o outono continue a te encantar e assim, você continua a nos encantar sempre.

*poderia ter escrito isso tudo em italiano, para ainda mais delicar-te nos momentos – essa palavra delicar-te não existe – eu a criei. Mas, de italiano só sei poucas palavras. Treino-as todos os dias parar renovar meu carinho per te.

bacio
Buon Compleanno!

Mariana Gouveia

Das palavras das cartas · Lunna Guedes

Carta à minha bambina aos cuidados de Outubro.

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O Outubro aqui é rosa e eu aspiro Exemplos em palavras tuas. O calor não me permite o café, é quase como estar em um forno e ainda assim a brisa morna me leva até você.

A palavra missivas me cai como música. Cheiro o envelope pardo e pinto ele com a cor do seu sorriso. O meu vestido florido canta a primavera que ainda passeia no meu quintal.
As papoulas, vindas como sementes ganham folhinhas verde esperança em um vaso que cultivo, reverencio e “faço chover” nele todos os dias.

Meu tempo, tão contado em minutos nesses dias loucos, avesso às minhas poesias, reverbera em mim vontades, que planto e amadureço em mim.
Vontade plantada de ver esse riso solto, de lamber focinho do cão…de pular as poças d’ água e de ficar apenas em silêncio…é impossível eu ficar em silêncio diante de tantas impossibilidades. Flor de viagem plantada no meu quintal.

Exemplos antecipando desejos de abraçar e conhecer o riso largo. De estender conversa sobre o personagem principal de amar.

Exemplos contando histórias que aconteciam. Ainda hoje o noticiário falou algo sobre isso – lembrei –
Mas o movimento de ter nas mãos a fita que ela costurou e ler as palavras que ela escreveu e a frase dedicada a mim – sonhos vão além de sonhos, seu pai falou um dia. Realizá-los é a meta. Seja a amora no quintal, o boldo que floriu lilás ( e eu só sentia o gosto amargo pela boca adentro) e o carteiro que já me conhece e sabe que nunca vou estar na hora da entrega e que ele amorosamente faz a gentileza de voltar na hora em que tem alguém em casa.

Não fosse isso, hoje, eu não escreveria essa carta. E a mágica de uma lua enorme invadindo a sala e eu, dignificada no olhar não cantaria Bocelli o hino que me leva até você.
A melodia interrompe os gritos da noite, o latido do meu cão, o cri-cri dos grilos debaixo da pedra de amolar, que tem a minha idade – Sim! Eu tenho uma pedra de amolar facas que já era antes de mim, e quando meu pai mudou me confiou a herança única de levar comigo a pedra que ele buscou em uma aventura que escrevo em outra carta.

Amanhã, amanheço com o dia o calor, que segundo a meteorologia muda o tempo em quase todos os outros estados, mas que aqui, continuará esse mesmo calor que aquece a pele, a alma, a vida

Mariana Gouveia.

 

Das palavras das cartas · Lunna Guedes

Das cartas que escrevi…

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Querida L
Abro o dia de amanhã e é como se um envelope fosse aberto. Adoro o cheiro. Trazem histórias dentro dele.

Somos o contrário – Eu possuo os dias, com seus voos rasantes de beija-flor anunciando o normal do milagre que me acontece todo dia – enquanto você adora os silêncios gritantes da noite que te rodeia.

Às vezes, as coisas me acontecem como milagres. Ei-lo hoje, em forma de cheiros de envelopes rondando meu lugar. Acho que essa sensação dentro de mim se chama felicidade. E foi você quem trouxe. A primavera irrompe o muro do quintal e traz a delicadeza da flor do hibisco onde uma borboleta pousa.

Trovões fazem sua festa no céu anunciando uma tempestade. O vento sacode as folhas do pé de canela e o cheiro invade as  salas do escritório e eu aspiro vontades.

Vontade de chá, de silêncios, de sair sem rumo sentindo a chegada da chuva. O céu muda sua cor e eu fico apenas a espiar da janela esse dia que cheira primavera.

Quase que para além, das palavras eu ouço o vento que o menino grava para sua mãe e envia feito mensageiro em um vídeo só para dizer que lá pelas bandas da casa deles choveu também.

Contou as poças d’água no quintal. Do ninho que algum pássaro perdeu por causa do vento, das mangas ainda verdes e que frágeis vão virar comida de pássaro no chão. Finaliza dizendo que lá para os lados do meu lugar um sol fraquinho vence a chuva da primavera e faz presença onde meus cães sentem minha falta.

Falta pouco para o dia findar. Tão pouco, que quase sinto que é amanhã, onde começará tudo outra vez.

Mariana Gouveia

Caderno de Notas

Pé de vento

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         Apenas os espelhos esvoaçam em redor da cabeça morta violentamente sobre ideias.
E a imagem conglomera-se.
Oh cabeça, escuro labirinto duplo,
madeira trémula, espelho espelho,
com sua imagem de um lado delirante,
e sua arguta flor, seu pássaro cheio de sons emplumados.

(Herberto Helder)

Em frente da casa dela tinha um pé de vento. Morava ali desde quando era menina. Bastava passar pelo o portão e o vento surgia rotineiro nas saias dos seus vestidos, nos seus cabelos. Havia um menino que brincava com o vento. Corria a empinar sua pipa. Nessa hora entrava para dentro e dava as costas para a noite, que se desenhava lá fora.
E o vento se tornava enfurecido na janela. Assoviava amedrontando as cortinas.
A árvore tão forte e que já era grande quando ela nasceu, retorcia seus galhos e espalhava suas folhas pelo quintal. Durante o dia aventurava-se a enfrentar o vento. Saía devagar e debaixo da figueira e abria os braços e dançava. Trazia o riso de louca no olhar. Enfrentava vez ou outra o desafio de ser ela mesma, ali, na rua nua de risos. Janelas fechadas, portões que rangiam em sintonia com o vento. Ninguém nas calçadas perdidas. Nenhum som se ouvia pela rua inteira. Apenas o menino que corria com sua pipa ladeira abaixo. Parecia voar e olhava para ela com medo. Sentia isso. Seu olhar percorria o olhar do menino e ao sentir o medo dele entrava na casa de novo e dali da janela, entre as cortinas medrosas, olhava o vento dominante. Sabia que ria dela.

Olhava a mesa e havia ali, deixado pela mãe o copo de água e o comprimido. Lembrou do cata-vento que ganhou para brincar com o vento e que ela preferia usar os dedos imitando um. Alguém dissera que o vento ali, era amigo. Alegrava a alma. Mas, ela não sabia se isso era verdade. Nem sentia se era.
O que era verdade, vinha da palavra loucura que assombrava os dias. Tremia nos silêncios dela. Via ela estampada nas lembranças que insistiam em percorrer todas as noites os mesmos caminhos.

Na casa dela os objetos mudavam de lugar. As fotografias ficavam na cozinha no balcão cheio de tecidos do lado da máquina de costura, onde a mãe ficava o dia todo e parte da noite debruçada fazendo roupas para as pessoas. As fotografias ali, entre as linhas e agulhas. Volta e meia via a mãe espiar os parentes nos retratos amarelados pelo tempo. Percebia que chorava às vezes. Havia sempre uma cadeira na varanda que atrapalhava o corredor. A cama da mãe era na sala. Mas, ela desconfiava que a mãe não dormia nela há muitos anos. O sofá, que ficava perto da pia, já tinha o corpo da mãe tatuado do lado direito.

Havia mais janelas que cortinas. Esqueceram o rádio ligado e o gato de porcelana que ficava a olhar o pé o tempo todo e a mãe sempre dizia que havia ganhado no dia do casamento morava na mesa ao lado das taças que ninguém nunca bebeu nada nelas e embaixo de um quadro sem definição alguma e que ela nunca entendia porque a mãe ainda mantinha um quadro ali. Era um quadro bordado por uma bisavó ou tetravó. Tinha não sei lá quantos anos. Um rosto bordado que acabava em vários outros, onde as linhas haviam sido rompidas por uma limpeza mais abusada.

Assim, ela passava os dias e durante a noite ficava com as cortinas abertas, para que a luz da lua entrasse e seus dedos ágeis imitavam cata-ventos. Via a treva engolir a noite e o dia ir. Assim como ela ia sempre embora para dentro de sua loucura no fim da noite. Ia embora com o pé de vento.

Mariana Gouveia

 

*Este post é parte integrante do projeto Caderno de Notas – Quarta Edição, do qual participam as autoras Aurea Cristina, Claudia CostaFernanda FarturettoLunna GuedesMaria CininhaMariana Gouveia e Tatiana Kielbeman

 

Caderno de Notas

A noite é quando tudo se junta dentro de nós.

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Tropeço nas coisas que eu mesma esqueci pela sala. O interruptor acende ao meu toque e a luz pálida ilumina lugares que prefiro nem ver. As fotos dispostas em fila no balcão, a agenda esquecida ainda de manhã. Na geladeira, não há quase nada comível. Apenas um tomate que escapou da última salada, alguns biscoitos recheados e um iogurte com data de validade suspeita. Respiro resignada.

A mente me leva para lugares onde eu gostaria de estar. Talvez nem desejasse tanto, mas era exatamente onde me caberia nesse instante.
Da janela, vejo vultos das folhas do hibiscus mutabilis que dançam a melodia noturna e brinca com a lua que desafia o equilíbrio da cortina.
Não gosto desse espaço de solidão dentro de mim. Converso com os cachorros para esvair a sensação do sozinha que me atinge, mas parecem tão solitários nos sonos de cada um que nem me ouvem. Abanam o rabo quase que instintivamente para voltar a sonhar no mundo dos cães.

O chuveiro me convida para o banho. A melodia da água caindo quase me acorda desse torpor, mas foi só a solidão desamparada que esfrega na minha cara do quanto essa casa foi cheia de vida, de gente, de presenças. Eu estou só. Pela primeira vez em tantos anos que não lembro quantos. A cama é só minha e isso é mais angustiante do que os barulhos que ouço.
Conto carneiros, conto estrelas, canto canções e o sono vagueia pelo lugar onde os cachorros dormem. Fugiu da minha cama, acelerado, como se adivinhasse que as lembranças e a tal liberdade conquistada não são coisas para se viver dormindo. Por companhia, só a lua que agiganta diante de mim e do vazio da solidão.

Mariana Gouveia
*Este post é parte integrante do projeto “Caderno de Notas – Quarta Edição”, do qual participam as autoras Aurea Cristina, Claudia Costa, Fernanda Farturetto, Lunna Guedes, Maria CininhaMariana Gouveia e Tatiana Kielbeman

Caderno de Notas · Lunna Guedes

Lua de papoulas

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*Imagem: Tumblr

Li apenas o prefácio do Livro Lua de Papel, que será lançado hoje e o primeiro capítulo é como água para quem tem sede do que vem ainda para ser sorvido, servido e tocado.
A coragem de escrever sobre um tema tão debatido hoje e ainda assim tão cheio de preconceitos é de inspirar, respirar e dizer em todas as palavras o que me tocou. Lá, na história que não li eu me vejo em cada uma a desvendar a reação e a controvérsia do que é “normal”. Nos meus guardados no baú, as folhas já amarelando de um tempo que nem tinha computador e os desenhos dos dias vividos tal qual como se alguém escrevesse agora.
Eu poderia usar o nome de alguém aqui, modificar, ou pegar apenas a letra inicial. Eu a chamaria de M e contaria das madrugadas risonhas no meu quintal contando estrelas. Poderia falar de infinidade de coisas e de afinidades de personalidades. Ainda assim, seria capaz de descrever cada palavra que foi trocada e de cada carícia dada.

Ela me deu Maio de presente e fez em meu outono florescer a primavera. Cada dia, em espécie de flor eu era vivificada na estação dela. E a mim, só era permitido voar. Enquanto a vida segue seu curso eu sonho.
Alguém lê poesias, escreve cartas, manifesta. Outro, não faz nada. Apenas caminha. Lunna lança livro. Enquanto ela visita um jardim de papoulas para avermelhar de cor o meu mundo.
Eu a amo.
Ela é quase silêncio preservado em sua intimidade. Eu, grito explodido em quatro ventos. Eu a exponho mais do que ela deseja e assim, mansamente ela aceita meu jeito de ser. A metade dela que posso oferecer e ainda assim, ela nem imagina que eu sou inteira dela.

Não sou nenhuma das personagens. Poderia ter sido. Poderia ainda ser. Tudo é tão novo e tão estranho. Distante e tão aqui. Vou estar presente onde não estarei fisicamente. Vou estar fisicamente onde não estarei no coração. Por que meu coração viaja, abraça mudanças, lamenta erros e ri diante das sensibilidades. Atravessa oceanos e mora ali enquanto durante o dia, Lunna anseia pela noite que vem. Pelas palavras que alcançarão o mundo e pela história que tão belamente descreveu. Poderia ter sido a minha. Mas não foi. As folhas se misturam e confunde-se em datas.
As mudanças se infiltram aqui. Sei que ninguém espera um mundo novo amanhã. O preconceito ainda estará dominante e absorvido, Mas escrever sobre o assunto é um sinal de que, as diferenças podem ser  respeitadas.
E dentro de todas essas mudanças ela ainda viverá dentro de mim nos Maios subsequentes e em todas as estações.

Mariana Gouveia

*Este post é parte integrante do projeto “Caderno de Notas – Terceira Edição”
Scenarium Livros Artesanais

Caderno de Notas

Assim passam os anos…

Assim passam os anos

8 de maio de 76.
Menina eu, ainda…onze anos corridos na leveza da vida. Tranças, risos, bolo de laranja. Brincadeiras no quintal. Os sete irmãos na corrida um do outro e todos de todo mundo.
Flor colhida no campo. Presente de amor.
O chá na xícara, a oração para os santos. O coro dos sete filhos. E ela, vibrante. No vestido de florzinhas miúdas, também de tranças e o bolo dividido entre todos. Era festa. A fogueira crepitava. A noite tinha a companhia da lua, das estrelas. O cheiro de flores do campo no ar.
Havia sido um dia especial.
8 de maio de 80.
A adolescência me roubava os dias. A xícara trazia o simbolismo do bolo. Já não eram os sete ali, juntos. Uns, não podiam entrar no hospital. A roupa era de um verde-pálido, uma camisola usada pelos pacientes. De onde estávamos, o bolo era cortado. A fogueira acesa, o parabéns cantado e a reza muda. Ao invés de felicidade, pedíamos saúde para ela.
O riso dela, mesmo longe, ecoava dentro de nós. Uma carta escrita e lida. Uma música pedida via rádio e o locutor junto com a gente canta a mesma melodia. Ela, distante, ouve e parece que nunca havia saído de lá de perto deles. Ela mesmo me disse isso um dia.
8 de maio de 82.
Já não podia mais a xícara, nem o bolo. A hemodiálise era alternada em dias. O parabéns quase em silêncio. Ela na janela, e nós no pátio do hospital cantávamos bem baixo, para o que a lei do silêncio permitia. A lua definia que era outono. E ela só chegaria até a primavera daquele ano.

Nos outros 8 de maios que vieram ela não era mais fisicamente. Ela estava na xícara, no bolo, no chá. Nos ensinamentos, na arte, no artesanato. No crochê feito. No olhar do filho que parece mais. Daquela que ri igual. Os setes nunca mais estiveram juntos ao mesmo tempo. Mas, em cada 8 de maio, enquanto os anos passam, cada um ao seu modo a faz viva. Era como se ela nunca tivesse ido.

Eu pego as fotos antigas. O álbum amarela e percebo nos dias que, assim passam os anos.
O cheiro do chá de hortelã invade o quintal. A lua, em diminuto mundo, mingua do tamanho da minha saudade.
O caldeirão de feijão que ficou comigo, o jogo de xícaras, e uma quebrou a asa na mudança depois da ida dela. O bolo já não é mais feito. O sabor da laranja evapora na saudade que ela deixa mesmo depois de 32 anos.
Parece que foi ontem. Mas, é hoje. 8 de maio de 2014.
A menina só existe no coração de poesia que ela bordou em mim e fez de mim o que sou e em cada dia que passa eu tento ser melhor, alma e espelho dela. A coragem, ordena em mim lugares todos os dias pelo mesmo hospital. As dores são outras, mas a fé é tão igual.
Os seis, cada um em um lugar diferente e eu aqui, com eles no coração e na mesma voz digo:
Feliz aniversário, mãe!
Mariana Gouveia

_ este post é parte integrante do projeto “caderno de notas – terceira edição” do qual participam as autoras Ana Claudia Marques, Ingrid Caldas, Lunna Guedes, Mariana Gouveia, Tatiana Kielberman, Tha Lopes e Thelma Ramalho.

 

Caderno de Notas

Se você é real por que você não vem?

Eu clave de sol,você clave de fá

“O Bosque existe!
É um dos meus lugares mágicos,
onde minha imaginação
anda de mãos dadas com a realidade.”

(Lya Luft)

Fecho os olhos e penso na possibilidade de a tocar. Embora seja sonho ou imaginação é assim que a toco: como se sagrada fosse.
As mãos desbravam a textura de sua pele e descobre o caminho suave do desejo.

Quase em prece eu fico idolatrando o encontro. Minhas digitais quase sinais de seus poros. É assim que pretendo encontrá-la. Entre quase o delírio e o prazer. Entre quase o delírio e a imaginação. A boca antecede o toque, saliva da vontade que emana em mim.

Chego descalça que é para tocar o chão com os pés e sentir a temperatura do corpo vibrar e subir como o sol que banha as flores do jardim. São os olhos dela que o céu refletia naquilo que eu via.
Desenhava corações em nuvens e era a voz dela que eu sabia e sentia na canção que tocava.

Era a claridade do espaço do abraço que havia. Do calor do corpo. Do tremor das mãos. A essência do dia parece pintura de Monet. O seu vulto na janela só suaviza o momento. Vou ao encontro dela. Calma, serena, úmida. Sedenta, ávida e desejosa. Era mais do que um encontro de mãos que se tocam, se descobrem e se completam. Como elos, se envolvendo, onde uma começa, a outra termina e inicia tudo de novo, até o ápice do amor.

A cortina dança na leveza do vento, eu respiro amor, respiro ela. E como se uma canção ela fosse, dedilho meus versos, poesia de pele e som. Falei dela. Com ela e me contou coisas dos astros, das estrelas. Revelou cenas do futuro: eu e ela de mãos dadas e o paraíso era um jardim;

O jardim que chamo de bosque, de floresta, que é onde a encontro. Transformei minha forma de ver a preto e branco e a colori de mundo, natureza. flor.

Ela era várias infinitudes, com ela agia de modo que não tivesse uma parte, mas, ela era inteira… Seu corpo, loucura e fonte das minhas manias. Meu mundo particular.

 Tão intensamente como se não houvesse mais ninguém. E não há.
Podia ser quase um sonho. Talvez tivesse sido. Mas também não era. Foi real. Podia ter apenas sobrenome de flor e ela era o jardim.

Mariana Gouveia *Este post é parte integrante do projeto “Caderno de Notas – Segunda Edição”, do qual participam as autoras Ana Claudia MarquesIngrid CaldasLuciana NepomucenoLunna Guedes,Maria CininhaTatiana KielbermanThelma Ramalho e a convidada Mariana Gouveia