Afetos · das coisas breves · Das palavras das cartas · Lunna Guedes

Estou mestre em abrir envelopes.

Engraçado como os rituais nos une… acho que já te contei essa história antes, por telefone. Os envelopes que eu preenchia tinham aquelas listas verde-amarela ao redor. Meu pai comprava em pacotes, já que eu os enviava aos montes para tanta gente. Isso começou com meus quase doze anos.

O programa de rádio que a gente ouvia tinha uma seção de correspondências. Ali, o endereço era anunciado e com isso, ganhei várias pessoas com quem eu trocava palavras. Entre tantas cartas, duas eram as mais esperadas. Por vezes, me perguntava como aquelas letras, no envelope, antes mesmo de abri-lo com cuidado podiam fazer meu coração acelerar.

Acho que posso dizer que foi meu primeiro amor. As cartas traziam cada vez mais declarações de amor e a vontade para tudo dar certo gerava torcida ferrenha desde o carteiro que traziam elas em sua bicicleta amarela até os empregados da fazenda que vigiavam comigo a cada quinze dias, o moço de uniforme amarelo e azul surgir lá no alto da estradinha. O namoro ficou sério e ele chegou um dia, como uma história de livro e que durou enquanto durou.

A outra carta que eu esperava ansiosa era de um rapaz com nome de Eris. Dizia que vendia livros, discos e artesanatos em uma feira tradicional da capital. Falava de liberdade, de sonhos e perguntava muito sobre a cidade que ficava perto da fazenda onde eu morava. Queria saber sobre o padeiro e sua família, o padre, o dono da farmácia, da pequena livraria e me mandava postais da capital, com seus prédios exuberantes e suas praças.

Quis meu retrato e mandou o dele. Já havíamos trocados muitas cartas, que eu lia para meu pai e irmãos e claro, todos os empregados ao redor da mesa, após o jantar. O pequeno retrato 3X4, em sépia e foi Antônio – o moço que tirava leite – que o reconheceu. Era o filho do padeiro, que sempre o atendia quando ia à cidade. Estudava na capital, mas nos fins de semana estava lá, na padaria, a ajudar o pai.

No fim de semana seguinte, lá fomos nós em caravana com as cartas em mãos para a cidade. Pernas trêmulas e coração acelerado, torcendo para que aquele amigo tão querido não fosse mesmo o filho do padeiro. As perguntas não cabiam na minha cabeça. Porque ele mentiria, ou melhor, porque não disse que era dali, do mesmo lugar que eu?

E era ele mesmo. Que nos reconheceu e entre os berros de meu pai e irmãos pedia desculpas, enquanto o pai dele não entendia o que se passava ali. A explicação era que ele queria saber se eu dizia a verdade através das perguntas que ele fazia. Que quando eu falava da família dele era como um abraço nele, distante. Rasguei os envelopes ali, na frente de todos. Magoada demais por ter sido usada comecei a selecionar as pessoas com que trocava cartas, mas nunca deixei de escrevê-las, mesmo quando não enviava.

Com a mudança de cidade, os envelopes foram para um baú e só foram ganhar mais companhias anos depois. Hoje, ainda troco as cartas com algumas pessoas que a internet me trouxe e outras daqueles tempos de rádio. Ainda vibro com o barulho do carteiro que estranha eu receber envelopes ao invés das faturas. Ele sempre repete que aqui dou vida à função dele.

Mariana Gouveia

das coisas breves · Lunna Guedes

Deslizar de alegria nos cortes que o silêncio impôs.

Aqui, o dia foi parado, sem vento e sem nuvens. Talvez, em função do Dia dos Mortos. O céu azulou e parece aquele dia comprido, que nunca passa.  Lembro-me de meu pai que dizia que nesse dia sempre chovia. Se eu for seguir o que disse a moça do tempo mais cedo, a frase do meu pai vai ficar em vão. Não vai chover – ela disse – mostrando o mapa em um vermelho intenso na tela da TV.

Vi mais cedo em uma entrevista uma mulher que vende flores de plástico. Pensei em como é triste flores de plástico no cemitério. Parecia feliz ao relatar as vendas. Havia uma fila imensa de gente com suas flores nas mãos em meio ao engarrafamento. Vivi o mesmo vazio que você sentiu aí. Aqui também os pássaros quietaram. Você falou sobre a pipa a flutuar e volto meu olho para o fio em frente minha casa. Um esqueleto de pipa foi largado ali e me incomoda em dias de ventania, ela presa num fio que oscila para lá e para cá, como se pedisse para ser retirada.

Agora a pouco começou a trovejar e a ventania derruba as folhas do ipê no quintal e o esqueleto da pipa começa sua cantilena. Acho que a tradição do meu pai sobre chover nesse dia vai mais uma vez se cumprir.

Mariana Gouveia

Lunna Guedes

Alçar voo sobre as respostas guardadas

Gosto de novembro sendo seu… Acho que te esperava há tempos, para esse novembro seu. Assim como gosto do pássaro azul ser nosso. Sanhaço é o nome dele. Quando ele passou a fazer parte de nossas conversas, passei a chamá-lo de: azulzinho.

Acredita que ele fez um ninho em meu vaso? Nasceram três lindos pássaros azuizinhos. A mamãe passou a dominar a varanda. Tivemos de mudar a rota de sair da sala por causa dela. As manhãs foram barulhentas em um cri-cri até que o som deixou de ecoar no ninho-vaso e o quintal ganhou mais três aves serelepes a voar por aqui.

O calendário parece mais apressado nesse penúltimo mês do ano. As canções natalinas começaram a tocar nas rádios e as lojas espalham em vitrines o vermelho e branco. Confesso que não gosto mais desse alvoroço. E nem sei dizer se gostei algum dia.

O calor abafado mais uma vez faz com que eu abra os braços para o vento, que derruba as folhas no chão, enquanto os pássaros voam por aqui.

Mariana Gouveia

Afetos · Das palavras das cartas · Lunna Guedes · Projeto Fotográfico 6 on 6 · Scenarium Livros Artesanais

6 on 6 – Nossa casa.

Disse-te: uma casa.
Não falávamos há meses e isto
foi tudo o que te soube dizer:
uma casa, tenho uma casa.
Arrumei primeiro os discos, depois os filmes,
só então os livros, as loiças.
Como quem se abrigasse da chuva,
pendurei os primeiros quadros.
Quatro: estrada, mar, mulher, coração.
Começou a chover quando me perguntaste
se te convidava para jantar.
Era desnecessariamente Julho
e dentro de casa chovia tanto.
Disse-to, confesso, sem esperança
– apenas porque uma casa
é muito grande para guardar na boca.

Filipa Leal

Bambina mia,

Já é dia 6 de novo e agora, de outubro. A primavera que plantei na parte lateral da casa floriu. Não sei se ela resisti os 40º que acontece aqui. Nesse mês, tenho que te falar sobre nossa casa. Minha-sua-nossa porque é assim que sinto meu lugar para além dos muros, da rua de cima e o seu quintal aí, parte nosso…

Lembra-se do “nosso” azulzinho? Pois bem! Ele veio fazer do meu vaso de trevos a casa dele. Aí, com você aconteceu isso também – lembro-me bem. Mudei até a rota de meu caminhar pela varanda, até que ele esteja pronto e suas crias também para mudarem de lugar, já que o quintal tem espaço mais do que suficiente para eles.

E não é que ele serviu de exemplo para o sabiá laranjeira – que tem até uma “piscina” no meu quintal, agora tem também um ninho no telhado da varanda. Quase não percebi, a não ser pelo vai e vem dele aqui dentro. Não é que minha casa se transformou em nossa casa mesmo?

Acho que esse é um dos meus lugares daqui de casa. No fim do dia, minha casa mesmo é o quintal e a varanda é a porta para ele.

É nesse canto que posso ver o céu e suas nuances de fim do dia. E parece que o céu pegou fogo mesmo, tamanho o calor que faz aqui. Tive poucas casas na vida. Uma de pau a pique, quando eu ainda era criança e o quintal era uma fazenda inteira. Depois, quando mudamos para a cidade, uma casa de calçada alta, de onde eu via a TV pela janela da vizinha. Outras, foram apenas morada. Um lugar de paragem, porque havia outro lugar para ir.

Nessa casa – que te ofereço como sua também me possui há mais de três décadas. Cada canto desse lugar conhece minhas alegrias, meus pensamentos, minhas dores e meus tormentos. Em tantos momentos, o quintal me abraça. Em outros, o quarto me acalanta… A varanda me liberta nas tardes de café feito na hora e o pão de queijo assado. É um lugar de ninho, de nascimentos, de jardins, voos e pousos. E de portas abertas sempre. Vem?

Bacio,
Mariana Gouveia
Projeto Fotográfico 6 on 6
Scenarium Livros Artesanais
Participam comigo:  Lunna Guedes, Claudia Leonardi – Obdulio Nuñes Ortega –
Roseli Pedroso – Silvana Lopes

Scenarium 8 · Scenarium Livros Artesanais

Beda – Nos aposentos fechados para os dias

Tropeço nas coisas que eu esqueci pela
sala. O interruptor acende ao meu toque
e a luz pálida ilumina lugares que prefiro
não ver. As fotos estão dispostas em fila
no móvel. Ao lado, a agenda esquecida
pela manhã. Na geladeira, não há quase
nada comível. Apenas um tomate que
escapou da última salada, alguns biscoitos
recheados e um iogurte com data de
validade suspeita.
A mente me leva para lugares onde eu
gostaria de estar. A rua de cima e a casa
com seus quintais floridos. Da janela,
vejo vultos das folhas do
hibiscus mutabilis que dançam
a melodia noturna e brincam com a lua
que desafia o equilíbrio da cortina.
Não gosto desse espaço oco de solidão
dentro de mim. Converso com os
cachorros para evitar a sensação de vazio

que me atinge. Parecem tão solitários
no sono de cada um que nem me ouvem.
Abanam o rabo por instinto,
sem despertar e continuam a sonhar
com o mundo dos cães.

O chuveiro me chama para o banho.

A melodia da água caindo quase me
acordou desse transe. Mas o silêncio dos
cômodos e a ausência de sono nos meus
olhos, tão abertos, esfregam na minha
cara, o quanto essa casa estava cheia de
vida, de gente, de presenças.
Eu estou só — não sei se esquecida ou
abandonada. Pela primeira vez,
em não sei quantos anos, que a cama
é só minha. Ao deitar ouço os sons dos
meus ossos e das molas do colchão.
Rangem em conjunto e depois se calam.

Tão angustiante. Pior é o som que vem lá
de fora. Sirenes gritam à noite
e eu sei que alguém se feriu na casa
de cima.

As vozes se misturam em ofensas.

Conto carneiros, estrelas… agrido
o travesseiro. Ouço o meu nome num
tom sussurrante vindo lá de fora.
Viro de lado. Canto canções
de antigamente. Minha voz não é mais
a mesma e se mistura a outras tantas.
O sono não me pertence…
É dos cachorros. Abro a janela e deixo a
noite entrar, está tudo tão escuro.
Ouço os pirilampos nos galhos,
no quintal e lá longe, a lua se agiganta
diante de mim.

Mariana Gouveia
Texto publicado no Projeto Coletivo O Tempo Perfeito
do clube do Livro da Scenarium Livro artesanais
Estamos em Agosto e por isso, temos BEDA.

Scenarium Livros Artesanais · Sete Luas

Beda – no cais

Ph: Pinterest

Podia a curvatura da lua ser esse grafite rabiscado nos muros.
Com nome ilegível e pétala de flor, úmida de orvalho enquanto em sua fase de nova o jeito era ser. Apenas ser.
Saturno e seu júbilo e a sensação de pertença nós braços… do céu.
Queria te dizer que posso te ensinar o nome das plantas e qual flor ganha força nessa fase de lua. Posso ser essa espera sempre, desse lado do cais.

Mariana Gouveia
Sete Luas – Scenarium Plural Editora
Estamos em Agosto e por isso, temos BEDA.

Afetos · Das palavras das cartas · Lunna Guedes · Projeto Fotográfico 6 on 6 · Scenarium Livros Artesanais

6 on 6 – Seis meses, seis fotos.

,,,
Eu enlouqueço com a doçura dos meses vagarosos
O poema dói-me, faz-me.
O povo traz coisas para sua casa
do meu poema.

Helberto Helder

Bambina mia,

confesso que assustei-me com os seis meses – a pergunta foi: mas, já!! – para logo depois repassar na memória todos os oito meses que já vivemos e morremos. Lembrei-me de que alguns meses foram arrancados de nós, como quem arranca a folhinha diária do calendário. Lembra-se de que em janeiro, dentro dos melhores momentos a gente os seis meses do ano anterior.

Já fevereiro, bambina, em nossas manhãs, o café e o livro de sempre, fazendo com que a rotina fosse marcada pelas conversas, risadas e choros. Os planos e a incerteza de que eles fossem interrompidos e o mês seguinte sendo companheiro da dor .

Sabe aquela frase que alguém sempre diz sobre o tempo? Acho que a gente apenas quis continuar e mesmo abril sendo o mais cruel dos meses – um poeta escreveu sobre isso – a gente riu entre lágrimas e suspiramos no cair da tarde. Acho que viver é isso… um dia e uma tarde de cada vez.

Te contei sobre maio e suas trovoadas por aqui, lembra? E também falei sobre como os caminhos literários me levou até as ruas de França, nas mãos de quem gosta de mim… e a gente aprendendo a aceitar esse vazio, mas também seguindo em frente, porque é o que nos resta fazer.

Junho nos acolheu tanto em saudades como em afagos. Outono passou ligeiro dentro das leituras de outono e quando demos por nós, os meses foram recompostos em escritas e superação. Ou seria apenas o viver um dia de cada vez?

E assim, seguindo um dia de cada vez, degrau por degrau vamos enfrentando essa ausência que nos afeta e nos enche de saudade cada vez que penso no tuo bambino. Confesso que, às vezes, parece que ele está aí e vai entrar de repente na nossa conversa com seu bom dia radiante e sua gargalhada majestosa. Sou muito grata ao universo por ter tido a honra de tê-lo em minha vida. Eu só queria te dizer isto e aproveitei essa carta para tal.
Quero dizer também que estou aqui, sempre… para o colo, mão estendida e todo meu amor.

Amo tu imenso!
Bacio
Mariana Gouveia
Projeto Fotográfico 6 on 6
Scenarium Livros Artesanais
Participam comigo:  Lunna GuedesClaudia Leonardi – Obdulio Nuñes Ortega –
Roseli Pedroso – Silvana Lopes

Afetos · Das palavras das cartas · Lunna Guedes

Catarina voltou a escrever.

Querida Catarina,

lembrei-me de que nunca te escrevi uma carta… logo eu, tão amante delas e mais ainda amante de seu lugar e claro que tinha que vir aqui hoje e brincar de festa…

11 anos traz muitas histórias contadas e emoções refletidas em textos que se eternizaram em forma de revistas. Se eu fosse colocar em termos técnicos você ainda é uma criança. 11 anos traz uma meninice doce, mas como sinto a maturidade nesses anos contados por aí.

Já te disse que amo seu lugar e que a cada visita me aconchego em suas palavras? E que cada texto em que você voltou a escrever me cabe na emoção das palavras. É quase um refúgio onde minha alma busca calma É onde você me leva pela mãos e nossas histórias e memórias se cruzam.

Auguri, Catarina!
Que venham mais 11, 12, 13, 14, 20…

Bacio,
Mariana Gouveia
Ps: quem quiser conhecer as palavras de Catarina o endereço é aqui.

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Chá de camomila, mel e canela…

Bambina mia,

hoje, pouco depois de falar com você fiz o chá, talvez movida pela sua missiva para Heloísa. O vento que esteve aí ontem, mudou-se para cá e arrastou as folhas todas pelo quintal. Um leve sorriso se formou aqui, por detrás do vidro da porta vendo a rebeldia de dezenas de folhas em redemoinho de vento.

Esfriou demais para o meu lugar e os 14º me deixa presa dentro de casa. O quintal sente o sopro do vento e a garoa. Onde já se viu garoar em Cuiabá? Pois bem! Já se tornou rotinas nesses dias de inverno. Sofro com a secura e a baixa umidade, mesmo com essa garoa que cai…

Sorvo mais um gole do chá que não seguiu a sua receita. Como não tenho chás de caixinhas, colho as ervas ao alcance das mãos aqui… Então, ao invés da baunilha, acrescentei a canela. Adoro esse aroma que se impõe sobre os aposentos. Há poucos biscoitos na lata e divido com os cães que se esparrama nos sofás, cabendo a mim, apenas um canto onde me encolho com a manta sobre os pés.

É tão estranho olhar no calendário e ver os dias empilhando uns nos outros e as estações são varridas uma sobre as outras também. Logo já estaremos ouvindo o “então, é Natal‘ nas propagandas e ruas. Como a gente conta esses dias feitos de faltas, memórias e saudades? Talvez, não precisamos contar… eles passarão como um sopro em um dia; em outros, parecerão anos e com isso a gente vai seguindo a rota que se desenha.

O chá serviu ao intento de aquecer o corpo e a alma e me preparo para a rotineira fisioterapia que se tornou íntima de mim. Preferia continuar te escrevendo, mas o relógio me acorda para a realidade do compromisso e sigo rua acima, enfrentando o frio que acontece por aqui. Na volta, preparo outro chá.
Aceita uma xícara?

Bacio,
Mariana Gouveia

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6 on 6 – Degraus

Foi descendo a escada, evitando despertar os degraus.

Lígia Fagundes Telles
Ciranda de Pedra

Bambina mia,

na rua de cima, quando me deparei com essa casa e seus degraus, lembrei-me de você. Não fosse só pelo projeto fotográfico, mas pelas casas que somem diariamente nas ruas de cima… essa casa, está abandonada há mais de 30 anos. Dizem que há uma briga por partilha de bens – essas coisas que os humanos adoram fazer – enquanto a casa que conheci logo que mudei para esse bairro, se desmancha aos meus olhos diariamente.

É até engraçado, bambina, enquanto alguns degraus vão se perdendo, outros são construídos. Esse, da foto acima, foi feito recentemente em uma ação de políticos. Liga a rua de cima com a avenida principal do meu bairro. Antes, ali, havia uma cerca de flores – o que eu preferia mil vezes – do que os degraus feitos de azulejos combinando e já causou várias quedas em dias de chuva. Não ganhou o efeito de ponto turístico que o tal político queria. É bonito, visto do outro lado da rua com as figuras dos cajus e viola de cocho, e só.

Por falar em ponto turístico, os degraus da igreja do Rosário ou São Benedito é o elo da fé dos cuiabanos e o santo. Hoje mesmo, tem a festa de encerramento da festa feita para o santo, mas não pude ir lá fotografar. A igreja é belíssima por dentro. Mas, como tem coisas que só acontecem aqui, a festa está acontecendo do lado de fora, por risco de desabamento. Ela faz parte do patrimônio histórico daqui, mas ninguém faz nada para mudar a situação.

Mas, sabe, bambina, consegui registrar a lavagem dos degraus dias atrás. É um culto à parte da festa de São Benedito, como preparação para os dias seguintes. Tem todo um simbolismo com a religiosidade e a limpeza não só da escadaria, mas também da cidade como um todo. Havia mais de mil pessoas entre cânticos, danças e ritos.

Eu ri tanto quando vi esses degraus, bambina, porque volta e meia a gente troca algumas canções francesas e eis que em cada degrau uma frase da canção de Piaf. Quase a ouvi cantando ali, num espaço “francês” para noivas. Não me deixaram chegar tão perto para fotografar melhor, mas lembrei de você e sorri.

E finalizo meus degraus com a flor quase a desabrochar… ela me leva à frase que iniciei essa missiva: Foi descendo a escada, evitando despertar os degraus. Parece que a flor sabe sobre o que a Lígia Fagundes Telles quis dizer. E é isso que também faço em um abraço silencioso no tuo cuore, para não despertar os degraus por aí.

Bacio
Mariana Gouveia
Projeto Fotográfico 6 on 6
Scenarium Livros Artesanais
Participam comigo:  Lunna Guedes, Claudia Leonardi – Obdulio Nuñes Ortega –
Roseli Pedroso – Silvana Lopes