das coisas breves · Lunna Guedes

Deslizar de alegria nos cortes que o silêncio impôs.

Aqui, o dia foi parado, sem vento e sem nuvens. Talvez, em função do Dia dos Mortos. O céu azulou e parece aquele dia comprido, que nunca passa.  Lembro-me de meu pai que dizia que nesse dia sempre chovia. Se eu for seguir o que disse a moça do tempo mais cedo, a frase do meu pai vai ficar em vão. Não vai chover – ela disse – mostrando o mapa em um vermelho intenso na tela da TV.

Vi mais cedo em uma entrevista uma mulher que vende flores de plástico. Pensei em como é triste flores de plástico no cemitério. Parecia feliz ao relatar as vendas. Havia uma fila imensa de gente com suas flores nas mãos em meio ao engarrafamento. Vivi o mesmo vazio que você sentiu aí. Aqui também os pássaros quietaram. Você falou sobre a pipa a flutuar e volto meu olho para o fio em frente minha casa. Um esqueleto de pipa foi largado ali e me incomoda em dias de ventania, ela presa num fio que oscila para lá e para cá, como se pedisse para ser retirada.

Agora a pouco começou a trovejar e a ventania derruba as folhas do ipê no quintal e o esqueleto da pipa começa sua cantilena. Acho que a tradição do meu pai sobre chover nesse dia vai mais uma vez se cumprir.

Mariana Gouveia

3 comentários em “Deslizar de alegria nos cortes que o silêncio impôs.

    1. I believe it fulfilled its role as a kite… here in Brazil today, we celebrate the Day of the Dead. The text refers to that. Thank you for commenting. Hugs.

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