Afetos · Lunna Guedes

Dizemos, com os olhos, do silêncio, que não é mudez.

Acho que já te falei dia desses sobre como meu silêncio é barulhento e de como meu quintal absorve a quietude de forma plena apenas em alguns momentos. Na parte da manhã, a passarada atravessa os desvios das árvores e cantam aqui.

Percebi que ultimamente, alguns barulhos me incomodam. O som alto da casa da vizinha da esquerda, as pombas arrulhando em cima do telhado, as buzinas estridentes de carros que atravessam a esquina sem observarem a placa enorme dizendo: Pare – o que volta e meia causa algum acidente.

Mas alguns barulhos me encantam e você já sabe quais são… as folhas sendo levadas pelo vento, a chuva caindo no telhado, os chilreios de Chiquinho e outras tantas coisas.

Gosto do rádio tocando as músicas que eu gosto, o chiado da chaleira a me avisar que o chá pode ser feito e servido.

Acho que posso dizer que não sou muito de silêncios, meu pai também não era. Quando ele se preparava para começar o dia ele ligava o velho motor rádio e saía cantarolando as canções antigas. O arroio das vacas leiteiras, onde ele chamava cada uma pelo nome, o grito chamando pelo nome de meu irmão para levar o balde… Os muxoxos, o palavreado com os animais… poucas vezes vi ele em silêncio, quieto, aproveitando uma sombra, enrolando um cigarro de palha. Mas aquela quietude dele incomodava todos nós. A gente preferia o vozeirão nos chamando era sinal de que estava tudo bem.

Já minha mãe era a quietude em pessoa. Olho grande expressivo, e até a velha máquina de costura parecia entender aquele silêncio. O rangido da tesoura a cortar o tecido e ela ali, com uma mansidão dentro, com as vozes inaudíveis da alma a suspirar em alguns momentos na janela. Quando me deparava com ela de olho terno sabia que o interior dela gritava tudo que ela não podia falar… mas, bastava um de nós dizer a palavra mãe ela abria os braços em um sorriso que mesmo em silêncio falava de todo amor que sentia por nós.

Mariana Gouveia

das coisas breves · Lunna Guedes

Para que você vendeu o seu tempo?

Quando se trata de tempo, logo me vem à memória um poema de Graça Carpes: Tenho o tempo das borboletas… uma semana, é uma vida. Fiquei pensando na vida tão breve das borboletas que tanto amo e o que daria para viver em uma semana. Será que a borboleta branca que passou voando aqui estaria iniciando esse ciclo ou já seria o fim? Seria um tempo branco para ela? E depois disso, teríamos o efeito borboleta causando caos no universo inteiro?

Pensando sobre isso, lembrei-me do atropelamento de uma certa vez… vi quando ela bateu no para brisa do carro em que eu estava e pedi para parar o carro e antes que ela se queimasse no asfalto quente a peguei. Laranja, com listras pretas e uma risca branca nas asas e o tempo contado ali, nas minhas mãos. Ela reviveu e ficou ali, deitada na minha mão – fotos que ilustra o texto – e ao chegar em casa coloquei-a em um dos galhos do quintal. Logo ela voou. No dia seguinte a vi voando, entre uma flor e outra. Senti que ela teve o tempo dela provisoriamente adiado. Não sei se durou uma semana ou uma vida, porque ela seguiu os desvios do meu lugar para o céu afora. Acho que dentro do tempo de vida dela mesmo.

Por falar em tempo, gosto da música de Caetano que fala sobre o tempo ser um dos deuses mais lindos. Meu pai se referia ao tempo – clima – e ao tempo de agora. Ele adorava relógios e seu dia era cronometrado com suas tarefas tantas de homem da roça. Em alguns momentos eu o via dizer para meus irmãos: deixa o tempo correr… Ou vez outra: corra… não temos tempo.

A gente costuma dizer que o tempo está passando rápido demais e não dá tempo de fazer tudo que temos de fazer em um dia. Fica sempre algo para terminar depois. Em alguns dias, o tempo sobrepõe o tempo e aí já é quase dezembro.

De vez em quando, penso que guardo o tempo em potes e coloco no alto da prateleira. Mas também, penso em dias em que não duro um dia inteiro e assim, as encomendas ficam perdidas entre uma cesta de linhas coloridas e agulhas tortas.

Às vezes, me perco no tempo de uma poesia, ou na vida de uma borboleta, mesmo que dure apenas uma semana, ou no milésimo segundo que uma fotografia registra um tempo. Não penso muito no fim do meu tempo, mas gostaria também que ele terminasse em poesia ou pelo menos em uma sonata juntamente com os cantos dos pássaros.

Mariana Gouveia

Lunna Guedes

Atrás dos olhos das meninas sérias

Ph: Pinterest

Foram várias as mulheres e as fé delas que me moldaram. Criada dentro da igreja católica, com meu pai devotando todos os santos de janeiro a dezembro, e na beira do rio, com os rituais indígenas de minha mãe, descendente da etnia Caiapó. A minha Bá me levava pela mão, floresta adentro, para exaltar a natureza. De pés descalços para adorar a terra. De olhos para o céu, para reverenciar o sol, a lua e todos os mistérios galácticos. Ela benzia e conversava com os animais. Tratava como divindade as ervas e os pássaros. Era uma bruxa para a maioria das pessoas, inclusive, para os meus irmãos.

Minha madrinha – que se tornou evangélica – e vez ou outra me forçava a ir aos cultos até eu me rebelar e deixar de chamá-la de madrinha. Passou a ser apenas a tia que me fazia fugir para o descampado quando chegava, com a bíblia debaixo do braço e com as irmãs da igreja a tiracolo, para nos evangelizar.

Nas redondezas da fazenda, em um acampado, mais perto da cidade, volta e meia uma caravana de ciganos se aportava ali. Com suas danças, roupas coloridas, brincos na orelha e a magia deliciosa – para meus olhos de menina – de ler a sorte, apenas olhando as mãos.

Havia um boato de que os ciganos roubavam as crianças. Depois de provar um manjar feito pela Dai, virei visita diária ou quase uma rami. A temporada por ali durava de três a seis meses. Dependia das vendas e do dinheiro que entrava na região.

Cresci nessa simbiose de religiões e de crenças. Mais tarde, meu pai me repassou a arte de benzer, como se fosse um legado que devesse ser seguido. Poucas vezes fiz a tal benzedura. Ser benzedeira era forte demais para uma menina-mulher saindo da adolescência.

Confesso que a fé me salvou diversas vezes. Em muitos momentos difíceis as portas das igrejas estavam fechadas. Hoje, essa miscelânea de crenças me faz acreditar em um poder maior… Oferecer amor vai muito além de um folheto com palavras e versículos bíblicos.

O amor é oferecido dentro do respeito, do silêncio e até de um abraço.

Mariana Gouveia

Afetos · Das palavras das cartas · Lunna Guedes

De repente, faço uma anticarta, antidoto de páthos

Bambina mia,

Ainda tenho na memória o sabor da massa a dissolver na boca e o cheiro que exalava no dia. Alguém me disse que há dias em que os próprios dias acontecem e esses dias, que acontecem assim, aleatórios são os que ficam dentro da gente como se vestíssemos a alma com as lembranças.

A palavra pão agora sempre me leva até você, assim como a palavra lua, que está majestosa no céu de hoje. Enquanto refaço na memória seu roteiro na cozinha no ontem que pareceu hoje. O cão aos meus pés, à espreita dos pedaços que escapam e o vinho.

Sabe, bambina, eu que era de medidas agora meço no olho qualquer receita. E acaba por dar certo – ou não, como tu mesmo disse – e tudo bem também.

Agora, enquanto te escrevo o pássaro noturno se aproxima e não tenho nem um pedaço de pão para espalhar por ali, se bem que ele prefere o bebedouro do Chiquinho enquanto sob o telhado da vizinha a lua cheia surge sobre o quadrante do meu quintal. Coloco a playlist que leva seu nome, com as músicas que ouvimos aí e com as que me envia sempre. Seria essa a trilha sonora da saudade e da vontade de um abraço?

Faço mentalmente mais uma vez a lista das comidas que quero quando for aí… chego a salivar, assim como quando vejo as fotos dos seus pães… o cheiro da manteiga a derreter e a saudade de você que aquece meu coração.

Bacio

Mariana Gouveia

Afetos · das coisas breves · Lunna Guedes

As palavras se transformam de minuto em minuto.

Depois de ler sua nota eu atravessei uma avenida inteira de pensamentos. Falei com você dias atrás sobre inventários. Os meus, além do que já te contei ultrapassa para além da rua de cima e atravessa meu quintal. A pele que arrepia ao toque das farfallas, o canto do pássaro laranja, o olho miúdo do Yoshi a me acompanhar enquanto cuido dos afazeres, o ninho do azulzinho no me vaso de trevos…

E quando você fala de escrita sinto mesmo a primavera em suas palavras. Uma pilha de palavras impressas costuradas com fitas de cetim me traz você. E essa pilha eu levaria comigo… não faria parte do meu inventário, porque não é algo que se deixa de herança. Deve ser levado para onde eu for, ou pelo menos memorizado para ficar até a eternidade.

Já te falei como nossas coisas se juntam sempre que falamos. O tempo era outro, mas o meu milho lá da infância, esbarra na comida do tuo país. Os cadernos de capa dura, os diários aleatórios de outras pessoas que espreitamos como se fossem nossos.

As trovoadas de maio, a tempestade de qualquer tempo, o barulho do trovão que ecoa enquanto registro e grito seu nome… a poça de água onde seu cão brinca e as fotos de caixa de correios da vizinhança da sua rua… e a lua – você – que se alinha em todas as fases dentro do quadrante do meu quintal enquanto eu suspiro.

Mariana Gouveia

Afetos · das coisas breves · Lunna Guedes

Os trajetos são irreconhecíveis.

Aqui, os meus mapas atravessavam esquinas e me levavam para a rua de cima. Depois da casa laranja e da casa da calçada alta havia o pé de ipê rosa e confesso que mudei a rota para não ver aquele canto vazio. Arrancaram – já te contei – e a moça dona da casa, plantou gramas no lugar.

Quando cheguei aqui, a rua de cima tinha aura de encantamento. A casa laranja, o ipê rosa, a casa do moço da reciclagem, o quintal da menina Eva que teve de trocar o coração e hoje me acompanha até a terceira esquina, depois de fazer várias perguntas e volta aos pulinhos.

Dessa rua, conheço todos os cães e quando atravesso a avenida para o retorno em outras ruas, as “minhas meninas” do clube da terceira idade me acenam. Duas vezes por semana entro para ler para elas. O guarda do Correio responde meu bom dia com um sorriso e Dona Gercina sempre me pede ajuda em alguma coisa.

O dia surge quente – como sempre – e enquanto faço a caminhada recolho as tampinhas de garrafas descartáveis para o projeto Tampatinhas, que cuida de cães e gatos em situação de rua. Fico sempre impressionada com o tanto de tampinhas que encontro.

A cidade tão minha, o bairro tão nosso, cheio de casas coloridas e árvores no quintal foram tomando outras formas. É como se eu carregasse mil malas para longe de onde eu cheguei. O tapete rosa, das flores do ipê caídas só ficarão agora em fotografias… e a estampa do riso da menina de coração novo, que colocava a flor atrás da orelha e pisava descalça sobre elas também vai ser só uma memória. Um mapa que foi interrompido antes mesmo dela crescer.

Os andaimes não são visíveis, nem os homens de capacetes que viriam para começar a obra. A rua de cima ganhou apenas contorno para mim de um jardim que morreu.

Mariana Gouveia

Afetos · das coisas breves · Lunna Guedes

Um dia se despiram para o sol (e foram felizes)

Quando ouço falar de livraria, lembro-me do pequeno salão de minha infância, onde grande parte dos livros empilhados em grupos de dez não tinha capas – alguns, faltavam até páginas.

Havia anotações em diversas cores, feitas por algum(a) leitor(a) em uma frase que gostou. Eu adorava mais as anotações para tentar desvendar a pessoa por trás da canetinha neon.

Bem mais tarde, quando cheguei na cidade grande, as livrarias não me cabiam. Os funcionários não conheciam a sensibilidade. Ou pouco conheciam de um autor ou outro.

Não era livraria… eu deveria chamar de generosidade a partir do momento que conheci Maria Eudes. Mãe de um amigo querido, radialista se transformou em minha melhor amiga. Na primeira visita à sua casa, no seu quarto, as prateleiras acima da cama continham uma infinidade de livros.

De escritores que eu conhecia, outros que não sabia quem era e ali, no aconchego daquele quarto, mais do que trocar impressões sobre literatura, Eudes me abraçava em gestos de fazer minha comida preferida, de emprestar os variados livros e de me dedicar sua gargalhada que ecoava no pequeno apartamento como se fosse o riso próprio das paredes.

Os sábados – todos – eram dedicados a ela. Seja em leitura compartilhada, abraços entre quiabos e arroz, massas e vinhos e o tiramissu de sobremesa sempre. Todos os sábados, pegava dois ônibus, atravessava a ponte que dividia minha cidade da dela. Descia perto do aeroporto e seguia pela ruazinha cortada por um córrego até o seu condomínio.

Cada vez, havia livros novos ou algum que eu não descobrira antes… o chá sobre a mesa e as bolachinhas de nata… o cheiro do forno ligado, a dança entre a mesa de centro e as risadas. Ali, era minha livraria grátis e meu lugar de viver. Com ela, descobri mundos novos e no artesanato que criávamos havia o amor em forma de doação.

Os fuxicos de tecidos coloridos, as bonecas de pano, os colares de sementes e as caixas de presentes. Dividíamos conhecimento e amizade… abraços e risadas e algumas brigas também. Eudes era radiante como o sol e a gente tinha de saber como tocá-la…

A pandemia a levou e depois disso nunca mais consegui atravessar a ponte… nunca mais meus sábados foram os mesmos e as livrarias do meu lugar não me cabem… mas, o sol dela que se dividia em três meninos lindos me acolheram como luz do sol em manhãs nubladas e a gente cultiva a saudade dela e transformamos em amor.

Mariana Gouveia

Afetos · Das palavras das cartas · Lunna Guedes · Projeto Fotográfico 6 on 6

6 on 6 – Inventário


Para o caso de o silêncio te acometer 
e recordares a língua estranha 
que aprendeste a meu lado
 Para o caso de regressares
humedecendo as lembranças de luas 
Para o caso de o trópico te reclamar
 impaciente entre seus verdes
 Ou para o caso de ser noite na tua morada 
deixarei aberta a porta.

 Josefa Parra

Bambina mia,

achei essa coisa de inventário muito bonita… fiquei vagando por horas em coisas que eu te deixaria, caso pudesse fazer um. Pensei na xícara de chá – ou café, quem sabe – com as folhas de hortênsias enfeitar a mesa – por certo, eu te deixaria um canteiro inteiro de hortênsias azuis, mas não é tempo delas por aqui.

Um disco da Gal – vinil mesmo – com a música que você gosta e cantarolou enquanto eu estava ao seu lado em um ontem que vivi alguns dias por aí. Ainda ouço sua voz enquanto a voz de Gal ecoa no repeat.

Uma lua – ou todas as luas em suas fases – querendo beijar a flor do meu ipê, como se pedisse colo ou pouso. Acrescento aqui os eclipses e as variadas luas de cores que se misturam nas manchetes, como lua de sangue, de morango e por aí vai…

Uma declaração de amor cheia de doce, ou melhor, de chocolate – que você ama. Mas, por via das dúvidas, deixarei escrito em cartas, poemas, paredes e em áudio, para não restar dúvidas do meu carinho por você. Amo tu imenso!

A brincadeira de um pássaro antes do voo e já imagino um riso seu, daqueles risos serenos, em tardes mansas quando uma imagem te abraça. Poderia te dar também um dos azulzinhos – mas eles, já são seus. Ou nossos – ou todos os pássaros juntos em voos e pousos, em ninhos ou cantando. Um bem-te-vi, um sabiá laranjeira, um alma-de-gato ou uma espécie que ainda não sabe o nome. São seus.

Por último, bambina, para as noites frias deixo-te uma xícara de chocolate quente… daqueles em que o cheiro invade a vizinhança e aguça memórias. Poderia ser uma infinitude de coisas ou apenas poesias em um caderno de capa dura… ou um latte caramelizado que nem aprendi a fazer, mas que vou treinar até chegar na medida certa para seu sabor. Seis coisas são bem aquém do que eu poderia deixar… Mas, caso nada disso dê certo, deixo-te as lembranças das conversas e do meu amor por você. Ti voglio bene.

Bacio,
Mariana Gouveia
Projeto Fotográfico 6 on 6
Scenarium Livros Artesanais
Participam comigo:  Lunna Guedes, Claudia Leonardi – Obdulio Nuñes Ortega –
Roseli Pedroso – Silvana Lopes

das coisas breves · Lunna Guedes

Todas as manhãs travar o mesmo duelo.

Um poeta que a gente gosta – sei disso porque quando falávamos dele, suspiramos juntas – disse ser afinador de silêncios. Fiquei horas pensando nele calado. Só isso já é poesia para mim. No meu caso, os meus silêncios são barulhentos. Raramente fico apenas quieta. Nem meu lugar. Aqui, é barulhento mesmo. Até quando o silêncio impera. Sei que é contraditório e difícil de explicar.

No quintal, uma folha se arrasta levada pelo vento, uma criança chora na casa vizinha, o cão late para o gato que anda no telhado. As flores sussurram num vai e vem no caule e as roupas no varal conversam entre si.

O bairro por si só é calado… minha rua também, na maioria das horas…acho que o barulho é dentro de mim… em alguns domingos, em meio à solidão premeditada eu canto acompanhando o rádio. Canto baixo, só para mim mesma, para não espantar a vizinhança. Falo com os pássaros, as borboletas e o bem-te-vi que acompanha meu eu-que-te-vi em um dueto único.

Quando coloco as palavras no papel, monto elas na cabeça, em voz alta entre um andar de rodopio no quintal e assovio em outros instantes – um meio de chamar o vento – e ele responde. Já contei sobre isso para você.

Acho que talvez, por ter sido criada em meio a mais seis irmãos, a casa onde cresci era rodeada de barulhos. De risos, de brigas, até e de conversas que dependendo de onde eu estava saíam desconexas e inaudíveis, mas havia o murmúrio.  Eu chamava pela bá, minha irmã caçula pela minha mãe, as irmãs mais velhas falavam sobre coisas de irmãs mais velhas e mesmo pela noite, quando nos deitávamos, o capim seco ecoava o mantra da colina, o riacho alargava a margem em sintonia com os grilos e a juriti piava ao longe.

Às vezes, quando em quietude, durante a escrita ouço a pergunta interna: mais que silêncio é esse? Penso que essa palavra é inabitável em mim. Lido bem com isso, porque nesse silêncio gritante em mim é que vejo poesias. Elas gestam aqui, porque como disse  o poeta citado lá em cima: E todo silêncio é música em estado de gravidez.

Mariana Gouveia

Afetos · das coisas breves · Lunna Guedes

Impor-se a trama romântica da noite.

Quando a noite se aproxima o quintal se apresenta para mim, de forma diferente do que durante o dia. As sombras dos galhos ganham formas transformando minha insônia noturna em um terreno denso na imaginação. Sou insone, na maioria das noites. Uso a noite como companhia, junto ao cão que se deita aos meus pés, quando me aquieto.

Mas, antes de me aquietar, passo horas olhando o céu noturno. As estrelas parecem acenar dentro do quadrante do meu lugar. A mancha escura, de um musgo seco, grudado no muro parece os monstros dos pesadelos antigos. Têm olhos, boca e cabelos grandes – que se movem à medida que o vento sacode as folhas da palmeira.

Quando o cansaço bate, sento-me na varanda, olhos voltados para a estante da sala, com seus retratos de família em quadros antigos, e ao lado deles, o elefantinho de porcelana ao lado da coleção nova de Pessoa, que ganhei de presente em um desses aniversários. Lembro-me quando Fernando Pessoa e suas entidades chegaram até a mim em uma sacola de livros doados, A maioria sem capa e pareciam carentes de olhos para lê-los. Era uma coletânea com os livros que alguém se desfez. Acho que eu tinha 13 anos e devorei tudo em uma noite escura, apenas iluminada pela luz do lampião.

Havia aprendido com minha mãe a consertar capas de livros e revistas, usando a velha máquina Singer. Foi o que fiz nos dias que se seguiram. Eu ainda não entendia os diversos tipos dele – acho que ainda não os entendo – e só absorvia o que estava escrito ali.

Acho que eu era sedenta da poesia e possuía a natureza na alma. Em tantas noites, lá atrás, eu lia para uma plateia feita dos meus irmãos, pai e empregados. O guardador de Rebanhos de Caieiro tocava a todos ali, e antes que eu escolhesse qualquer outro poema, o nome saia em uníssono. Acho que todos eles se viam dentro daquelas palavras, escrita por um homem que viveu além-mar.

E nessas noites em que a melancolia bate aqui, o poema quase decorado pela alma salta da epiderme e releio baixinho para não acordar os que dormem no quarto. Quase me transformo na guardadora de rebanho dos meus sentimentos e da saudade.

Mariana Gouveia