Lunna Guedes

Atrás dos olhos das meninas sérias

Ph: Pinterest

Foram várias as mulheres e as fé delas que me moldaram. Criada dentro da igreja católica, com meu pai devotando todos os santos de janeiro a dezembro, e na beira do rio, com os rituais indígenas de minha mãe, descendente da etnia Caiapó. A minha Bá me levava pela mão, floresta adentro, para exaltar a natureza. De pés descalços para adorar a terra. De olhos para o céu, para reverenciar o sol, a lua e todos os mistérios galácticos. Ela benzia e conversava com os animais. Tratava como divindade as ervas e os pássaros. Era uma bruxa para a maioria das pessoas, inclusive, para os meus irmãos.

Minha madrinha – que se tornou evangélica – e vez ou outra me forçava a ir aos cultos até eu me rebelar e deixar de chamá-la de madrinha. Passou a ser apenas a tia que me fazia fugir para o descampado quando chegava, com a bíblia debaixo do braço e com as irmãs da igreja a tiracolo, para nos evangelizar.

Nas redondezas da fazenda, em um acampado, mais perto da cidade, volta e meia uma caravana de ciganos se aportava ali. Com suas danças, roupas coloridas, brincos na orelha e a magia deliciosa – para meus olhos de menina – de ler a sorte, apenas olhando as mãos.

Havia um boato de que os ciganos roubavam as crianças. Depois de provar um manjar feito pela Dai, virei visita diária ou quase uma rami. A temporada por ali durava de três a seis meses. Dependia das vendas e do dinheiro que entrava na região.

Cresci nessa simbiose de religiões e de crenças. Mais tarde, meu pai me repassou a arte de benzer, como se fosse um legado que devesse ser seguido. Poucas vezes fiz a tal benzedura. Ser benzedeira era forte demais para uma menina-mulher saindo da adolescência.

Confesso que a fé me salvou diversas vezes. Em muitos momentos difíceis as portas das igrejas estavam fechadas. Hoje, essa miscelânea de crenças me faz acreditar em um poder maior… Oferecer amor vai muito além de um folheto com palavras e versículos bíblicos.

O amor é oferecido dentro do respeito, do silêncio e até de um abraço.

Mariana Gouveia

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