Afetos · das coisas breves · Lunna Guedes

Um dia se despiram para o sol (e foram felizes)

Quando ouço falar de livraria, lembro-me do pequeno salão de minha infância, onde grande parte dos livros empilhados em grupos de dez não tinha capas – alguns, faltavam até páginas.

Havia anotações em diversas cores, feitas por algum(a) leitor(a) em uma frase que gostou. Eu adorava mais as anotações para tentar desvendar a pessoa por trás da canetinha neon.

Bem mais tarde, quando cheguei na cidade grande, as livrarias não me cabiam. Os funcionários não conheciam a sensibilidade. Ou pouco conheciam de um autor ou outro.

Não era livraria… eu deveria chamar de generosidade a partir do momento que conheci Maria Eudes. Mãe de um amigo querido, radialista se transformou em minha melhor amiga. Na primeira visita à sua casa, no seu quarto, as prateleiras acima da cama continham uma infinidade de livros.

De escritores que eu conhecia, outros que não sabia quem era e ali, no aconchego daquele quarto, mais do que trocar impressões sobre literatura, Eudes me abraçava em gestos de fazer minha comida preferida, de emprestar os variados livros e de me dedicar sua gargalhada que ecoava no pequeno apartamento como se fosse o riso próprio das paredes.

Os sábados – todos – eram dedicados a ela. Seja em leitura compartilhada, abraços entre quiabos e arroz, massas e vinhos e o tiramissu de sobremesa sempre. Todos os sábados, pegava dois ônibus, atravessava a ponte que dividia minha cidade da dela. Descia perto do aeroporto e seguia pela ruazinha cortada por um córrego até o seu condomínio.

Cada vez, havia livros novos ou algum que eu não descobrira antes… o chá sobre a mesa e as bolachinhas de nata… o cheiro do forno ligado, a dança entre a mesa de centro e as risadas. Ali, era minha livraria grátis e meu lugar de viver. Com ela, descobri mundos novos e no artesanato que criávamos havia o amor em forma de doação.

Os fuxicos de tecidos coloridos, as bonecas de pano, os colares de sementes e as caixas de presentes. Dividíamos conhecimento e amizade… abraços e risadas e algumas brigas também. Eudes era radiante como o sol e a gente tinha de saber como tocá-la…

A pandemia a levou e depois disso nunca mais consegui atravessar a ponte… nunca mais meus sábados foram os mesmos e as livrarias do meu lugar não me cabem… mas, o sol dela que se dividia em três meninos lindos me acolheram como luz do sol em manhãs nubladas e a gente cultiva a saudade dela e transformamos em amor.

Mariana Gouveia

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