Afetos · das coisas breves · Lunna Guedes

Os trajetos são irreconhecíveis.

Aqui, os meus mapas atravessavam esquinas e me levavam para a rua de cima. Depois da casa laranja e da casa da calçada alta havia o pé de ipê rosa e confesso que mudei a rota para não ver aquele canto vazio. Arrancaram – já te contei – e a moça dona da casa, plantou gramas no lugar.

Quando cheguei aqui, a rua de cima tinha aura de encantamento. A casa laranja, o ipê rosa, a casa do moço da reciclagem, o quintal da menina Eva que teve de trocar o coração e hoje me acompanha até a terceira esquina, depois de fazer várias perguntas e volta aos pulinhos.

Dessa rua, conheço todos os cães e quando atravesso a avenida para o retorno em outras ruas, as “minhas meninas” do clube da terceira idade me acenam. Duas vezes por semana entro para ler para elas. O guarda do Correio responde meu bom dia com um sorriso e Dona Gercina sempre me pede ajuda em alguma coisa.

O dia surge quente – como sempre – e enquanto faço a caminhada recolho as tampinhas de garrafas descartáveis para o projeto Tampatinhas, que cuida de cães e gatos em situação de rua. Fico sempre impressionada com o tanto de tampinhas que encontro.

A cidade tão minha, o bairro tão nosso, cheio de casas coloridas e árvores no quintal foram tomando outras formas. É como se eu carregasse mil malas para longe de onde eu cheguei. O tapete rosa, das flores do ipê caídas só ficarão agora em fotografias… e a estampa do riso da menina de coração novo, que colocava a flor atrás da orelha e pisava descalça sobre elas também vai ser só uma memória. Um mapa que foi interrompido antes mesmo dela crescer.

Os andaimes não são visíveis, nem os homens de capacetes que viriam para começar a obra. A rua de cima ganhou apenas contorno para mim de um jardim que morreu.

Mariana Gouveia

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