Um poeta que a gente gosta – sei disso porque quando falávamos dele, suspiramos juntas – disse ser afinador de silêncios. Fiquei horas pensando nele calado. Só isso já é poesia para mim. No meu caso, os meus silêncios são barulhentos. Raramente fico apenas quieta. Nem meu lugar. Aqui, é barulhento mesmo. Até quando o silêncio impera. Sei que é contraditório e difícil de explicar.
No quintal, uma folha se arrasta levada pelo vento, uma criança chora na casa vizinha, o cão late para o gato que anda no telhado. As flores sussurram num vai e vem no caule e as roupas no varal conversam entre si.
O bairro por si só é calado… minha rua também, na maioria das horas…acho que o barulho é dentro de mim… em alguns domingos, em meio à solidão premeditada eu canto acompanhando o rádio. Canto baixo, só para mim mesma, para não espantar a vizinhança. Falo com os pássaros, as borboletas e o bem-te-vi que acompanha meu eu-que-te-vi em um dueto único.
Quando coloco as palavras no papel, monto elas na cabeça, em voz alta entre um andar de rodopio no quintal e assovio em outros instantes – um meio de chamar o vento – e ele responde. Já contei sobre isso para você.
Acho que talvez, por ter sido criada em meio a mais seis irmãos, a casa onde cresci era rodeada de barulhos. De risos, de brigas, até e de conversas que dependendo de onde eu estava saíam desconexas e inaudíveis, mas havia o murmúrio. Eu chamava pela bá, minha irmã caçula pela minha mãe, as irmãs mais velhas falavam sobre coisas de irmãs mais velhas e mesmo pela noite, quando nos deitávamos, o capim seco ecoava o mantra da colina, o riacho alargava a margem em sintonia com os grilos e a juriti piava ao longe.
Às vezes, quando em quietude, durante a escrita ouço a pergunta interna: mais que silêncio é esse? Penso que essa palavra é inabitável em mim. Lido bem com isso, porque nesse silêncio gritante em mim é que vejo poesias. Elas gestam aqui, porque como disse o poeta citado lá em cima: E todo silêncio é música em estado de gravidez.
Mariana Gouveia
