Afetos · Lunna Guedes · Scenarium Livros Artesanais

Nos meus olhos, acumulam-se esquinas…

As minhas esquinas somam poucas e as maiores são as que ficam ao lado da floresta ou do curral. Nasci nessa casinha da foto, lá em 1965, no friorento dia 1º de julho. Até meus 12 anos, eu conheci como a palma da minha mão cada cantinho desse lugar.

Depois, mudamos para a cidade que era tão pequena, de poucas ruas transversais e uma praça onde ficava a igreja matriz. Minha casa ficava no meio da quadra, com alpendre e calçada alta e grandes janelas de madeira. Logo o destino nos fez mudar de estado e minha casa passou a ter varanda ao redor da casa toda e um rio que serpenteava a estrada. A natureza batia na minha janela todos os dias.

Cuiabá me conheceu aos 15 para 16 anos. A casa que eu não conseguia chamar de minha tinha a rua acima da porta e foi onde perdi minha mãe. Logo após a morte dela, conheci a casa onde aprendi a entender o novo mundo que me fora apresentado. A porta de madeira tinha chaves pesadas e janelas com trancas. A cidade grande me engolia e engolia meus sonhos. No quintal, plantei uma horta e criei meus irmãos menores. Meu filho nasceu no hospital que ficava a poucas esquinas da casa.

Foram dez anos ali, entre as esquinas de um bairro que eu sentia que era meu, das esquinas que eu sabia de cor pelos nomes e elas me levavam para o programa de rádio onde eu conseguia voar através das ondas. Até que cheguei aqui… onde a esquina fica a duas casas da minha e o quadrante do muro me traz visões de voos deslumbrantes e de luas em todas as fases.

O que sou aqui tem toda uma trajetória de todas as esquinas percorridas e vividas. É a rua que me acolheu e o lugar onde meus desvios sempre me trazem para a rota certa.

Mariana Gouveia

Afetos · Das palavras das cartas · Lunna Guedes · Meus Livros · Projeto Fotográfico 6 on 6

6 on 6 – Seis livros e uma xícara de chá.

Bambina mia,

Ainda ontem te convidei para uma xícara de chá e relatei meu ritual com as xícaras. Não me lembro se te contei sobre a importância do chá na minha vida. Aprendi desde cedo a providenciar o rito do chá, claro que sob os cuidados de bá e da minha mãe, por isso, quando chegou até mim o tema eu me animei para a preparação. O livro sempre é companhia para a xícara de chá de fumega ao lado, enquanto lá fora chove ou venta.

Atrevi-me a fazer os chás terapêuticos devido a uma gripe forte que me deixou de cama nesse início de ano. Coloquei em infusão as rosas amarelas – ricas em vitamina C e um antioxidante natural – e adocei com mel. A rosa amarela tem outras propriedades medicinais, mas eu me alongaria muito aqui para nomear todas.

Enquanto a manhã acontecia recorri ao chá de gengibre, cravo e canela. É anti-inflamatório e o combinado dos itens também ajuda no controle da glicemia. Optei pelo gengibre fresco e o aroma invadiu minha cozinha. Sabe, bambina, me trouxe lembranças da infância e do bolo de puba servido com esse chá.

A minha mãe tinha todo um aparato para os chás. As xícaras de porcelanas e os bules acompanhando as xícaras. Eram presentes de casamento. O caldeirão de água ficava o tempo todo em cima do fogão de lenha, já fervente. Mas eu, só tenho xícaras avulsas de minha coleção, e algumas possui o pires combinando. Nessa foto, o chá foi feita de erva cidreira, fresquinha, colhida do pé no quintal. É a melissa – outro nome chic dela – e suas propriedades vai desde calmante, analgésicas e anti-inflamatórias.

E para combinar com o livro Linhas, rabiscos e borrões em azul o meu preferido chá azul. Feito com as flores da Clitória Tematea… além de lindo, é muito gostoso. Com propriedades que melhoram desde a circulação, controle de glicemia, colesterol e o que torna ele mais legal, além do colorido, é que pode ser tomado gelado.

E claro que combinado com flores de alfavaca o chá fica mais gostoso ainda. Alfavaca que muitos chamam de manjericão de folhas largas e deixa a cozinha com seu aroma delicioso. Um dos pontos chaves dessa mistura é a ação antimicrobiana. De resto, é aproveitar a leitura e o chá.

Gosto de acrescentar ao chá de canela e cravo cascas de maçã. Alivia a tensão e ajuda na circulação e controle de glicemia. Porém, deixo claro que faço uso desses chás aqui desde pequena. Mas do que servir como medicamento, é necessário ter conhecimento de que você tomar alguns deles. A minha variedade de chás é grande e faço uso deles ao ler um livro, antes de deitar e sempre que sinto vontade. A preparação para mim se transforma em poesia.

Sei que te convidei para um chá, bambina e trouxe aqui um apanhado de minhas experiências e sobre a preparação, assim como algumas dicas para quem vier ler essa missiva… Além de saborear esse líquido com livros em mãos, o melhor mesmo foi sua companhia.

Grazie!
Mariana Gouveia
Projeto Fotográfico 6 on 6
Scenarium Livros Artesanais
Participam comigo:  Lunna GuedesClaudia Leonardi Silvana Lopes
Ps: para quem tiver interesse há muito mais sobre chás aqui

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Gosto da penumbra das madrugadas lentas.

Bambina mia,

a madrugada acontece serena e limpa. Dá para ver o azul escuro para além do quadrante dos muros. Caminho pelo quintal aspirando o chá de menta na xícara. Busco entre o escuro os pirilampos tão frequentes aqui, mas não tive sorte dessa vez.

Ouço algum pássaro noturno que não reconheço pelo canto. Uma brisa leve balança as folhas do coqueiro e o chá alivia um pouco a tosse e a febre. A noite foi longa e gosto de ver a madrugada chegando lentamente… a moça do tempo ontem alertou para um calor mais abrasante do que o normal e fico desejando que essa brisa dure a manhã toda.

Sinto no ar o perfume das flores da Orai pro nóbis e é certo que quando clarear o dia ela exibirá seus cachos cheios de flores cheias de pólen para as abelhas e borboletas. Um cão ladra e molho levemente algumas plantas e isso me faz lembrar de um poema de Casemiro de Abreu:

Levantei-me de madrugada. Reguei a buganvília.
O mundo já não é o que era

Volto à cozinha para mais uma xícara de chá enquanto ouço no quarto o ressonar do moço daqui. Logo o relógio despertará para o primeiro dia dele no trabalho depois das férias e já temos cinco dias vividos de janeiro, bambina. Os dias correm um após o outro e os meses virão… a cidade acorda, o cheiro de café e pão da casa da vizinha atiça uma fome que esteve ausente esses dias.

A manhã clareia e a vida pede urgência nos afazeres… sirvo mais uma xícara de chá. Aceita?

Bacio,
Mariana Gouveia

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As ruas desse bairro são pequenos navios…

Retomei a pouco tempo minhas andanças pelo bairro e faço isso em grande parte no fim do dia. Pego a guia – que Yoshi já antecipa para colocar a coleirinha – e seguimos para a rua de cima. Em alguns dias vamos pela manhã, o que me agrada mais ver o bairro acordando e o cheiro de café exalando das casas. O pão exala a fragrância em algumas casas, ou um bolo, ora de laranja, ora de fubá. Consigo sentir o cheiro do leite sendo fervido. Isso me leva para a infância.

Também gosto dos dias de chuvas e ver as gotas se transformando em diamantes nas flores, mas não posso negar a predominância do sol no meu lugar. O bairro tem a singeleza de todo mundo se conhecer e em minha caminhada quase sempre paro para uma conversa com as senhorinhas do projeto de leitura de anos atrás. Algumas pedem para retomar enquanto justifico a correria do dia a dia para adiar mais um tempo.

D. Albina sempre troca comigo as ervas e mudas de plantas. Temos uma paixão que nos liga de alguma forma pelo por do sol nos dias comuns. Sempre fotografamos juntas o sol se escondendo céu afora. Falamos do tempo, do crochê que ensinei a ela e nos despedimos no portão. São só alguns minutos, mas sei que faz grande diferença no dia dela e confesso que no meu também.

Nas ruas de meu bairro perdi pessoas e ganhei pessoinhas, vi pessoas irem e chegarem e vi um oceano de possibilidades sem ter um mar, guiados apenas por um rio logo abaixo das ruas tirar vidas, mas dar vidas também. Gerar sonhos e vitórias. Os barcos que levam os ribeirinhos ganham forças de navios na força bruta das mulheres que vencem e vivem ali.

Mariana Gouveia

Afetos · Lunna Guedes · Scenarium Livros Artesanais

Eu sou um navio sem mastro.

Desde que eu nasci meus pais me fizeram alada… então, a bússola que me leva e traça meus roteiros são as asas… as imaginárias e as reais. Diante do misticismo de minha bá ganhei a benção do voo e perante tantas fés eu me vi acreditando no impossível. Fui batizada na igreja católica e por supremacia me escolheram por madrinha – acho que um dos erros dos meus pais – uma das tias tantas que eu possuía. Acho que a vi poucas vezes…

Porém, a bá me batizou nas águas do riozinho que serpenteava a estradinha rumo à rodovia, logo abaixo da ponte e também me benzeu com as folhas verdes da floresta, no meio do acampado, ao lado da maior árvore onde brotava os cogumelos. E de novo, como para ser moldada no fogo, pisei nas brasas de uma fogueira feita em noite de lua cheia.

Acompanhei as festas de santos – todos – e rodopiei a saia de adolescente com os ciganos. Desde então, chamo minha fé de liberdade. Os que me conhecem me reconhecem quando veem uma borboleta, pássaros que veem na minha mãe e todo tipo de bicho que voa.

De resto sou a pessoa das nuvens, das chuvas e tempestades, do sol e seus raios matinais, sou do mato, da mata, do vento. É por isso que sou essa misturas de fés e para o abrigo da alma sou a oração da poesia.

Mariana Gouveia

Afetos · Das palavras das cartas · Lunna Guedes

Navega-se sem mar, sem vela ou navio…

Bambina mia,

A folhinha do ano passado e os calendários espalhados – com suas anotações de troca de gás, de dia de folga, de horas extras feitas – pela casa já foram para o lixo ontem mesmo. E aqueles ritos de último dia de ano passou batido por aqui.

Ainda há aqui alguns restinhos do ano outro… e como você falou em polaroide, não resisti e quis te mostrar o mar tão meu. Eu conheci o mar, bambina e vi a magia das ondas se debaterem entre meus pés e a areia fofa. Era um sonho antigo, você sabe e me senti navegando ali mesmo, rente a praia.

Tive alguns momentos ruins nesses 12 meses que se chamam de ano, e alguns poucos instantes de alegria na alma e no coração. Por isso, talvez minha expectativa seja apenas de que 2026 seja leve e tranquilo.

Já é o primeiro dia desse ano… aqui, ainda brigo com a tosse e com o calor insano. Não choveu como a moça do tempo anunciou e os fogos ainda pipocam em algum lugar. Acho idiotice vibrar por qualquer coisa a base de um estouro… prefiro o barulho do mar que gravei e vejo no repeat.

Um feliz 2026 para todos nós!
Bacio,
Mariana Gouveia

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6 on 6 – Quote literário

Um dia li num livro:
 «viajar cura a melancolia». 
Al Berto

Bambina mia,

Quando recebi o tema do último 6 on 6 do ano percebi que descobri os quotes com você. Claro que sempre teve uma frase ou outra mais marcante de um livro. Tenho inúmeras na memória… mas nunca fui de marcar com canetas os livros. Para mim, talvez movida por minha mãe, o livro era um objeto sagrado.

Talvez, por isso, doeu em mim rabiscar de lápis uma das frases que gostei em um livro que participei. Às vezes, uso um marca página ou uma folha para secar. De resto, sou alheia e até admiro quem consegue marcar com as canetas marca texto.

Acho que absorvo mais o momento, ou uma linha ou outra. Já bordei até, uma frase de um livro em uma camiseta, sob encomenda. Pena que foi em uma época que as fotografias não eram tão instagramáveis como hoje.

Já Ana – de Marte – adorava circular com corações e brilhos, com cores que eu nem sabia existir em cartas, livros, brochuras e eu brincava com ela dizendo que ela marcava até bula de remédio. Às vezes, nas marcações dela haviam até pontos de interrogações aos montes, para depois me perguntar quais eram minhas impressões sobre isso ou aquilo.

O fato é que o quote ou citação de uma frase tem a sabedoria de usar um mote para chamar a atenção sobre o que gostamos em um livro. Meu pai sempre me pedia para escolher uma parte de um verso que eu gostava. Mas, sabe, bambina, acho que ali, era mais pedagógico para eu memorizá-lo do que precisamente um ponto marcante do poema ou livro. Ele, em sua sabedoria, me incentivava dentro de sua simplicidade.

Para meu pai, a frase do Neil Arsmstrog sobre o homem pisar na lua ecoava em tantas histórias que ele repetia sempre que podia. Daria um bom quote, né? Mas, daí seria um quote lunático?

Havia um único livro de minha mãe que trazia infinitas marcações com a caneta vermelha. A Bíblia. Ela marcava os versículos e repetia-os entre as outras orações nas festas de santo. Eu já sabia de cor alguns que faziam parte dos Salmos… repetia-os em sintonia com a fala dela. E estranhava como ela “rabiscava” a Bíblia – que era sagrada aos olhos dela – e os livros que líamos não podia ter nenhuma rasura ou riscos. Não consegui resposta para isso dela. Pra mim, o quote é como um bilhete deixando recado mais bonito do que deve ser lido e aceito com o coração. Como esse é o último projeto do ano, deixo aqui, talvez, o quote do momento, sem risco ou marcação: Feliz Natal e um ano novo de frases para te encantar.

Bacio,
Mariana Gouveia
Projeto Fotográfico 6 on 6
Scenarium Livros Artesanais
Participam comigo:  Lunna Guedes, Claudia Leonardi – Obdulio Nuñes Ortega –
Roseli Pedroso – Silvana Lopes

Afetos · Lunna Guedes

Desci as escadas do dia.

Novembro tece seu último dia e logo pela manhã recebi a visita do corrupião. Já fazia dias que ele não aparecia e recebi como presente o voo dele no quintal.  Olho a folhinha pendurada na parede para marcar o dia em que troquei o botijão de gás. Percebo que amanhã já terei mais 31 dias para arrancar esse ano do calendário.

O sol abrasador do meu lugar queima a pele enquanto recolho as folhas do chão e troco a comida dos pássaros e lavo o bebedouro. É uma rotina prazerosa e cheia de conversas com eles que aguardam impacientes as frutas novas e a água fresca.

Acho que estou preparada para dezembro. Vou conhecer o mar e já sinto a ansiedade por isso. Penso no abraço do meu filho, no riso de crianças, no brilho do sol da cidade maravilhosa e suspiro.

O pássaro ainda vaga por aqui, busca a comida e o bebedouro do meu beija-flor e ouço trovões. Chamei seu nome como sempre e quase atrevi-me a te ligar…  as nuvens apressam e o vento e o sol se esconde entre elas. Ainda vejo a lua de relance enquanto te escrevo uma mensagem.

Foi bom caminhar com você por esse novembro de Ana Cristina César e seu. Um novembro de sol e de chuvas intensas, de flores com a estação quase se despedindo e de voos atravessando meu quintal.

As páginas adiante deixamos que se fazem, acho que para o ano que vem… abraço-te com meu carinho imenso.

Grazie Mille

Mariana Gouveia

Afetos · Das palavras das cartas · infinitamente · Lunna Guedes

A noite despencou e quebrou três estrelas.

Procuraram toda a casa, toda a terra,
Ninguém a achava.
Ela estava no telhado atrás da chaminé.
Olhava as estrelas e cantava.
Estava tão feliz e sossegada!
Olhava as estrelas e cantava.
Meu Deus, está louca ! Vamos levá-la.
Estava tão feliz!
Olhava as estrelas e cantava

Ana Hatherly

Bambina mia,

eu queria lavar algumas palavras antes de dizê-las para você. Queria fazer igual, lá na minha infância-juventude aonde ia para a beira do rio lavar os lençóis de linho que minha mãe bordava. Tudo era feito com tanto cuidado para não estragar as linhas. Eu lavaria com perfume de flores a palavra amor, só para deixar o meu abraço com cheiro de poesia para você.

As imagens do último ano passaram rápido na minha mente. Parece que foi ontem que eu disse Auguri! e já é seu dia de novo. Sei bem que será tudo novo e tudo diferente. Sei também que deve ser difícil esse primeiro momento, mesmo que haja trovoadas, esse reencontro com uma saudade estimada em falta. Mas, sei que os trovões são quase como um presente de volta e de amor.

Assim, como para mim, você se tornou um presente diário. É com você que me abro como se pudesse chover e te molhar com minhas histórias que se casam com as suas e que se tornam nossas. Com você, eu sou essa verdade que tão pouca gente sabe. E mesmo com tantos mil quilômetros entre nós sei a careta que está fazendo e até a próxima fala. Mas, isso não quer dizer que sei tudo de você, que é essa caixa de Pandora e que desenterra poesias e afagos no cão e na minha alma.

Algumas coisas nos liga… os mapas, a bússola, os livros, as músicas e as missivas. Deve ter mais de um milhão de coisas com nomes diferentes e significados iguais entre as mulheres da poesia que você me trouxe e a bá que te apresentei… entre qualquer coisa que em uníssono eu e o meu moço aqui dizemos seu nome ao menor sinal de Itália. Seja em comida, música e futebol. A lua em riso, a lua tão cheia, a lua de nomes estranhos e cores que fogem da nossa lua… da lua minguante, crescente e das fases que a gente diz divinal. E das estrelas – de Marte, que está em Sagitário agora – e de rotas geográficas que nos levam sempre para a anoite, onde três estrelas despencou…

A gente ri de amora madura, de sabiá tomando banho em uma saladeira que virou piscina de pássaro; ri de gato subindo escadas, de cão se escondendo debaixo do edredom e de memes engraçados. a gente ri porque é bom rir com você, mesmo que a mensagem só seja respondida depois da fisioterapia ou de uma reunião de última hora.

Eu te amo imenso e te desejo paz no tuo cuore… te desejo prazeres como os passeios com o cão, o café coado na hora, as suculentas dando filhotes e mais mudas encontradas nas calçadas por onde anda. Também desejo descobertas de livros novos, em sebos aleatórios, ou livrarias escondidas em uma ruazinha qualquer da sua cidade. Um pé de manacá da serra florido, ou um pé de ipê forrando a calçada com seu tapete de flores só para você fotografar e lembrar de mim.

Te desejo trovões-saudade, temporais-saudade, garoa e folhas pelos caminhos… ah, e não posso me esquecer das hortênsias azuis em um jardim qualquer a arrancar-lhe o riso… Mas, antes de tudo isso, te desejo coragem… de enfrentar a noite, de vasculhar gavetas, de reler cartas/missivas, de mergulhar nas lembranças e até para enfrentar o calor…

(acho que você entendeu sobre o calor)

Te desejo abraços, pessoas novas, estranhas – que se tornam as melhores pessoas pra você gostar e desgostar – e muitos rabos de dogs te cumprimentando nas ruas. E por fim, desejo bolo de fubá nas manhãs ensolaradas, risotos para um almoço qualquer e muito café – ou um pouco de tanto – e pão… com o cheiro acordando a vizinhança com memórias de quem sabe o que guardar no cuore e na mente.

Vou estar aqui sempre, se precisar, com todos os desvios e acessos liberados para meu quintal, minha casa, minha vida. Minha mão estendida te alcança mesmo quando na lonjura não te acho… quero que sua gargalhada ecoe sempre nas minhas mensagens e que o som dos pássaros seja a nossa playlist nas manhãs/tardes/noites de nossas vidas.

Amo tu imenso!
Auguri!
Bacio,
Mariana Gouveia

Afetos · Lunna Guedes

Subi as escadas da noite.

A chuva chegou junto com os trovões escureceu no meio da tarde. Confesso que estava com saudades de acender as luzes durante o dia e ler um livro deitada no sofá enquanto a goteira da cozinha faz o ploft ploft no balde que coloquei lá.

Fiz o café desviando do balde e voltei ao livro de poesias Heloisa Helena Garcia que ela fez em homenagem à mãe dela… lembrei-me de minha mãe e de como ela tinha medo de chuva como essa que cai agora. Na verdade, ela temia a fúria da natureza e fazia vários rituais para agradar a mãe terra e assim, quando viesse a chuva, essa seria mansa e tranquila. Sem os raios e trovões que a fazia sobressaltar e refazer a inspeção nos espelhos de casa para certificar se estavam cobertos pelos lençóis brancos.

Não puxei a ela nesse sentido. Adoro esses temporais estrondosos e os raios que cortam o céu. O cão se deita ao meu lado e espia meus movimentos. O moço daqui de casa diz que o mundo está acabando lá fora, uma metáfora para a tempestade que ele tem medo também. Gosto de ficar sob a água caindo. Traz um instante de felicidade para a alma.

Sempre conto para ele quando chove assim sobre minha aventura no telhado. Subi as escadas e deitei-me sobre as telhas e espiei o céu e seus rompantes entre relâmpagos, raios e trovões. Os irmãos gritavam por mim, temendo que um raio tivesse me acertado e eu evaporei… Me divertia ouvindo as teorias do meu sumiço enquanto a noite corria. Acho que cochilei quando percebi meu irmão mais velho me puxando pelo pé.

Depois daquele dia fui proibida de subir as escadas, que foi parar num canto da parede da casa pelo lado de fora enquanto minha mãe soltava uma ladainha dos perigos que passei. Ele sempre escuta atento a minha história como se fosse a primeira vez que ouve. Pede mais uma xícara de café enquanto a chuva cessa lentamente. Acabo minha leitura enquanto os Aleluias – os bichinhos da chuva – buscam a luz da lâmpada e a noite chega de vez no meu quintal.

Mariana Gouveia