A chuva chegou junto com os trovões escureceu no meio da tarde. Confesso que estava com saudades de acender as luzes durante o dia e ler um livro deitada no sofá enquanto a goteira da cozinha faz o ploft ploft no balde que coloquei lá.
Fiz o café desviando do balde e voltei ao livro de poesias Heloisa Helena Garcia que ela fez em homenagem à mãe dela… lembrei-me de minha mãe e de como ela tinha medo de chuva como essa que cai agora. Na verdade, ela temia a fúria da natureza e fazia vários rituais para agradar a mãe terra e assim, quando viesse a chuva, essa seria mansa e tranquila. Sem os raios e trovões que a fazia sobressaltar e refazer a inspeção nos espelhos de casa para certificar se estavam cobertos pelos lençóis brancos.
Não puxei a ela nesse sentido. Adoro esses temporais estrondosos e os raios que cortam o céu. O cão se deita ao meu lado e espia meus movimentos. O moço daqui de casa diz que o mundo está acabando lá fora, uma metáfora para a tempestade que ele tem medo também. Gosto de ficar sob a água caindo. Traz um instante de felicidade para a alma.
Sempre conto para ele quando chove assim sobre minha aventura no telhado. Subi as escadas e deitei-me sobre as telhas e espiei o céu e seus rompantes entre relâmpagos, raios e trovões. Os irmãos gritavam por mim, temendo que um raio tivesse me acertado e eu evaporei… Me divertia ouvindo as teorias do meu sumiço enquanto a noite corria. Acho que cochilei quando percebi meu irmão mais velho me puxando pelo pé.
Depois daquele dia fui proibida de subir as escadas, que foi parar num canto da parede da casa pelo lado de fora enquanto minha mãe soltava uma ladainha dos perigos que passei. Ele sempre escuta atento a minha história como se fosse a primeira vez que ouve. Pede mais uma xícara de café enquanto a chuva cessa lentamente. Acabo minha leitura enquanto os Aleluias – os bichinhos da chuva – buscam a luz da lâmpada e a noite chega de vez no meu quintal.
Mariana Gouveia

minha querida poeta-filha-mãe – lendo seu texto, senti o gosto fresco da chuva, ouvi o som inimitável dos trovões e puxei a coberta do amor maternal sobre meu colo cheio de gratidão.
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Ohh, Helô! Grata tanto! abraço carinhoso.
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