Corredores, Codinome Locura

b.e.d.a – Brancura

Brancura

É quase um pecado a brancura da pele.
O toque, rezo – quase.
o silêncio é quebrado pela respiração suave – ou rápida…não sei.
O roçar provoca barulho interno de carícias na alma.

É quase uma tentação a brancura da pele.
Como se tocasse fosse manchar de digitais… as minhas –
Tinha a disposição do encanto e de ficar por horas e horas, ali… Só a olhá-la.

É quase um suspiro a doçura da pele.
Eu a toco. Respiro.
Quase um origami de amor.

Mariana Gouveia

*b.e.d.a — blog every day april — um desafio que surgiu para agitar os dias de abril e agosto nos blogues e comemorar o Blog Day.

Corredores, Codinome Locura

b.e.d.a – Brisa

Brisa

Não pude ver.

Apenas senti a brisa e tinha certeza de que estava ali.

Mariana Gouveia

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Corredores, Codinome Locura

.b.e.d.a – Parabéns, Cuiabá!

Cuiabá querida,

O dia se rompe e mais uma vez te espio da janela. Meu caso de amor com você é o bordado que crio ao longo dos dias.
Cheguei aqui menina e trazia a esperança de ser abraçada por você e sua gente. Suas ruas antigas, os casarios e os quintais com suas árvores e frutas. Você era a cidade verde e muitas vezes foi só eu e você nas madrugadas no rádio onde minha voz alcançava além dos seus domínios.
O tempo foi nos tornando íntimas e meu amor por você foi crescendo, assim como você se agigantou tão rapidamente aos olhos do mundo.
Hoje, 38 anos depois eu já te pertenço.
Somos partes uma da outra. Em seus 301 anos agradeço pelas imagens que me proporciona todos os dias.
Feliz aniversário!

Mariana Gouveia

*b.e.d.a — blog every day april — um desafio que surgiu para agitar os dias de abril e agosto nos blogues e comemorar o Blog Day.

 

Corredores, Codinome Locura

b.e.d.a – manhã acontece no equilíbrio da asa…

Um avião cruza o céu e o pássaro voa em sua rotina de ninho.
A libélula em seu ritmo de pouso, e eu, na docilidade de sua voz, voo.
Tudo vibra na delicadeza do instante.

Mariana Gouveia
Cadeados Abertos – Diário das Quatro estações
Scenarium plural Editora

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Corredores, Codinome Locura

Inquilino invasor

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Chegou o primeiro
como posse e herdeiro
quis amor a nada fez

e o segundo
achou-se dono do meu mundo
falou de um amor profundo
e ali ficou de vez

e com isso achou que não mais precisava
agradar porque gostava
e ficava ali quietinho

E o terceiro chegou como o derradeiro
colocou em mim poesia
e quando eu percebia
já era dono do meu mundo
e eu já dava carinho

como inquilino, invasor do meu direito
fez bater forte meu peito
e tornou-se ilusão
tão senhor do que eu vivi
e de tudo que eu senti
já era dele meu coração.

Mariana Gouveia

Lunna Guedes · Portas Abertas - Codinome Lucidez · Scenarium Livros Artesanais

Carta à Maria

rasga todos os mapas, as cartas marítimas e geográficas
esquece os caminhos que não são teus
cartografa apenas as ruas da tua infância e a tua aldeia  
guarda no peito a trilha
das saúvas vermelhas
e das lagartas de fogo da tua alma
e segue
no rastro dos caracóis dos muros que vieram ao chão
viaja, se possível, navega — voa!
Nydia Bonetti

 

 

Querida Maria,

 

É verdade que você se transformou. E se eu fosse detalhar resiliência, seria teu nome que estamparia nas camisetas que usaria todos os dias.
Lute como uma garota! – eu diria – e não seja normal – as pessoas normais são chatas e sem histórias.

Quando me deu sua história, era um dia chuvoso e as palavras se uniam em tom de desabafo e você, ali aos meus olhos nua e crua. Resiliente e aspirante no modo amar. O medo em cada gesto e um desejo absurdo de falar.

Você me usou para ser voz e ao mesmo tempo me silenciei e dei voz a você. Fui seus passos aqui do lado de fora e testemunha do amor que foi plantado e que virou esse romance que traduzo nos gestos de quem ama o amor.

Hoje, Maria, você ganha ares de vencedora e coloca um ponto final naquela história que dói e recomeça a contar seus momentos a partir do belo, da casa com quintal, dos chás de cidreira e noites de amor.

Talvez você se encante por essa nova vida. Talvez você se inquiete com alguns momentos, mas o que posso garantir que tudo se trata do destino.

E do destino, você não tem como fugir.

Mariana Gouveia
O lançamento de Portas Abertas – Codinome Lucidez,será no dia 30 de novembro, às 19 horas na  Casa Laranja… em São Paulo.

Corredores, Codinome Locura

Revolucionária

Ph: Brooke Shaden

Não se pode falar de livro da infância… ela arriscou. apedrejam-na.
Ainda assim, ela não se contem, 
quer construir uma cidade usando a força de homens que saibam assentar tijolos – untar formas de bolo com delicadeza é um acessório à parte. Sonha com Macunaíma, grita preguiça na esquina. Cria revoluções – micros, macros Transversa, leva a vida na flauta. Em época de consumo se constipa só para não usar as moedas guardadas em porquinhos com coração. Ah, esse jeito de usar o batom, tão dela que esforça para esconder seu estado legítimo de Órion. Traz dentro da bolsa um cisco, que usa quando a lonjura bate nos centímetros da distancia de casa. Adora artes. Sente falta da escola, mas estuda nos mapas as cores de um estado que fica ocre no mapa. Vai entender, essa moça. Nunca lê as bulas! Nunca lê! Extraterrestre! Extraordinária!
Mas, revolucionária.

Mariana Gouveia

Meus Livros · Projeto Fotográfico 6 on 6 · Revista Plural

Projeto Fotográfico 6 on 6 — minhas noites!

Eu gosto muito das horas despretensiosas. A beleza mora nelas.
Joakim Antonio
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Confesso que minhas noites são feitas de silêncios. Ou de monólogos intensos pelo quintal. Quando o sol se prepara para a troca com a lua, minha cidade – que dia 8/04 completa 300 anos – se transforma em silhuetas através das janelas do ônibus. Aspiro ali, o lugar de fé, também o prédio mais alto da cidade e a respiração acalenta nas sombras o que foi o dia.

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E dependendo da fase, lá vem ela dominar o decanato e ascendente. Cada tempo tem sua necessidade e ela em sua fase de cheia invoca os deuses e faz o cabelo engrossar e mais uma vez, nessas noites eu relembro as lições do pai.

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No meu quintal, nas minhas noites, às vezes, a lenda acontece na caixa velha de eternit e o eco se renova perto do pé de vento. Era ali que as histórias eram contadas e é ali que minhas noites são feitas de sopros. O calor, quase sempre, é asfixiante e bem embaixo do pé de ipê o cogumelo arrebenta e a frescura toma conta da alma. É onde aconteço dentro de minha história.

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Há noites em que ela surge em vírgula e me vejo lunar nas minhas noites. Chamo um nome, lembro do uivo, refaço rituais que aprendi quando criança e sou pura fascinação. O céu ganha minha atenção e conto histórias que nuca esqueci.

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Nas histórias, o que me envolve é a lua – e na ausência dela minhas noites ficam ocas, vazias – e o céu é meu templo. Realinho os mantras e faço orações para o universo em todas as fases de lua e de quebra, ainda ganho estrelas.

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E para finalizar, sou colo do pássaro de todo dia que em minhas noites é aconchego para além da alma. Ali, no varal, pouco antes de deitar ele vem em oferta de carinho e poesia.

Sou quase extensão de histórias que se aninham entre si e fazem de mim o que sou hoje: uma insone nas noites sem lua. E como diz um dos meus poetas queridos Joaquim Antônio: “Eu gosto muito das horas despretensiosas. A beleza mora nelas”.

Mariana Gouveia
Projeto 6 on 6 – Editora Scenarium Plural – 2019 Participam também desse projeto: Lunna Guedes Obdúlio Ortega Maria Vitória

Corredores, Codinome Locura · Das palavras das cartas

Projeto 6 missivas — uma carta para seu autor favorito

“Dou respeito às coisas desimportantes
e aos seres desimportantes.
Prezo insetos mais que aviões.
Prezo a velocidade
das tartarugas mais que a dos mísseis.
Tenho em mim esse atraso de nascença.
Eu fui aparelhado
para gostar de passarinhos.
Tenho abundância de ser feliz por isso.
Meu quintal é maior do que o mundo”.
Manoel de Barros

 

Fico imaginando como começo essa carta e escrevo mil vezes – dentro do meu exagero conhecido – bom dia, mestre! Ou seria boa tarde? Também tentei o Querido Manoel, Caríssimo e achei que ficou um tanto quanto comum. Como se começam as cartas para quem a gente se dobra e reverencia sem ser muito igual?

Vi que Drummond em uma das cartas que te escreveu usou simplesmente seu nome e me encoraja apenas a dizer:
Manoel,

Hoje venta muito no meu quintal e desde cedo penso nas palavras que quero te dizer. Talvez você gostaria de saber que aquela menina que chorou ao te entrevistar, cresceu. Ganhou poesias vida afora e abre os braços para dançar com o vento.
Ah, é, eu falava do vento no meu quintal e a leveza das folhas correm para um canto do muro. Olhando de perto não tem tanta folha seca no pé de algodão. Mas como cai!!

Quero te contar dos calangos que vivem aqui, entre meu muro e a parede da casa vizinha… já vi muitos e até fotografei eles e seus olhinhos assustados. Sempre os salvo dos cães que por vezes, são mais rápidos do que eles. Cada vez que vejo um, lembro de você e de seu poema que fala da lagartixa. Tem até a Rabicó, que perdeu parte de seu rabo em uma dessas fugas desastradas da Lolla e Yoshi.

Aqui, a vida me parece ensaiada dentro de poemas seus. Quando as borboletas enfeitam meu pé de Maria Sem Vergonha e cismam de brincarem nas minhas mãos, quando a nuvem chacoalham dentro da bacia de água e a lua banha dentro do balde e arranca meu riso, quando os insetos vem morar no meu pé de boldo – hoje surgiu a lagartinha que mede os centímetros – e eu carrego a ilusão de que seus poemas foram desenhados aqui… bem no meu quintal.

Tenho sorte de ter olho para o encanto. De ver imagens nos estuques das paredes do muro. De ver o portal que dá lugar para minhas emoções esparramadas na grama verde e de poder viver o lambeijo dos meus cães quando deito no chão. De enxergar coração em tudo que é coisa.

Tenho sorte porque lá fora, para além dos instantes de encanto, o mundo está de ponta cabeça e não sei se você gostaria de vê-lo como se apresenta hoje. Talvez, aqui, no meu lugar seja um daqueles achadouros que você criava em seu mundo.

O meu quintal é desabitado de realidade e levo ele na bolsa sempre que saio calçadas afora para viver o mundo real e lá, quando o baque vem em grau maior eu retiro um pequeno bocado para sobreviver.

O mundo está moderno demais e atravessado. Então, eu busco como escape essa inteireza de criança que meu pai ainda acha que sou e com isso tento dar verbo às coisas que me rodeiam e bem ali, no cantinho do espaço imaginário, perto das lanternas chinesas eu te abraço e agradeço pela inspiração que me ofereceu diante da palavra e tentando entender a cor dos pássaros faço o verbo esperançar renascer cada vez mais dentro de mim.

Um abraço,

Mariana Gouveia
Projeto Uma Carta por mês –
Publicada na Revista Plural Trezentos e Sessenta
Editora Scenarium Plural Editora — uma carta para seu autor favorito
Participam: Lunna Guedes |  Maria Vitória | Adriana Aneli | Obdulio Nunes Ortega

Corredores, Codinome Locura

Inquilina

Inquilina
Foi me visitar,
como se fosse casa…
asa,
foi em mim: voar como
se árvore fosse,
moradia
Foi como se eu fosse chuva.
Água.

E como se eu fosse sede
me bebeu…
– e na imensidão do mundo, eu,
peregrina


Foi me visitar,
como se eu fosse jardim
aí, de mim!

Uma inquilina mora em mim.

Mariana Gouveia