Corredores, Codinome Locura

Sabes

 

 

sabes a renda
o instrumento,
o riso

sabes o aconchego do filigrana comum das mãos…
sabes de todas as estações
sabes da cor que me banha de luz
dos enigmas que a palavra traduz
sabes do paladar da flor.
Do meu amor, sabes tu.

 

Mariana Gouveia
*imagem: Karol Marianna

Corredores, Codinome Locura

é nos meus poros que você respira

 

Precisava falar o meu segredo
do silêncio gritar dentro de mim.

Precisava dos teus joelhos pra amparo
o meu corpo tem as tuas digitais
e teu cheiro
e teu gosto

me tatuei inteira de você
é nos meus poros que você respira

Mariana Gouveia

* imagem: Howard Schatz

Corredores, Codinome Locura

essa mulher em mim

 

Eu amo essa mulher
que me ama,
me toca,
me toma.

Guarda nelas os desejos mais profundos.
Que me mostra sutilmente para o mundo.
Que me guarda
Em caixinhas de segredos
Como se bailarina em caixinha de joias fosse…
Como se eu fosse doce,
Como se fosse.

E eu, amarga.
Amo essa mulher que me larga,
Que me busca,
Traduz-me em dicionários exclusivos
Que me lê em poesias como livros.
Amo essa mulher que é flor, que é poesia,
melodia.
Que me enche de encantos todo dia.


Que é mulher em mim
Que se confunde com meu nome,
Com o que amo, que me chamo.
Nem percebo que quem me respondeu
É essa mulher que sou eu…

Mariana Gouveia
*imagem: Karina Marandjian

Corredores, Codinome Locura

Meio ambiente

 

se minha pele é rua
eu me ofereço toda

para que percorra nela teus caminhos, dedos,

nua,

sou tua via

se minha pele é sede

ofereço-te água

para que nela banhe

umidifique e seja minha via

se minha pele é árvore

eu raiz

folha e fruto dessa paixão que não me cabe

sou natureza tua.

Mariana Gouveia
* imagem : Chris Cosco

Corredores, Codinome Locura

Fico a mercê das horas.

Fico a mercê das horas.

O relógio me cata a procura de tempo.
Enquanto viajo para dentro do aconchego, o espaço viaja dentro de mim.
Respiro ansiedade para o encontro. Sei que vou sentir saudades, mas vou.
Às vezes, é preciso enfrentar as lembranças. Reviver instantes de ontem.
Colher sorrisos de crianças que brincam. Conhecer outras que nasceram e são tão minhas que se misturam em mim.
Hora de pintar nas emoções do dia a cor do amanhecer, o tom elevado que desponta horizonte afora.
É ali, dentro da memória que busco esperança.
O dia já é quase e a noite já foi.
Amanhã já é quase hoje e é pra lá que eu vou.
Vou colher vontades e respirar melodia no riso que ainda vou viver.
Às vezes, é preciso repor a energia perdida.
Hora de voar.

Mariana Gouveia
*fotografia: Marc Lamey

Corredores, Codinome Locura

Costuras

Costuro as pontas dos dias nos olhos do pássaro de todo dia, que depois de uma – mais uma – briga pelo espaço chega sem penas no rabo. Mas voa com pose, de quem sabe costurar com o bico, o ninho.
Costuro o bordado no tecido enquanto ele me espia do varal e meu olho viaja para dentro das lembranças do tempo em que minha mãe costurava a colcha com o que sobrava dos tecidos das costuras que fazia e dos retalhos pequenos aproveitados no giramundo para segurar os filhos na arte.
Observo a costura do livro Lua de Papel III, que releio pela terceira vez e aspiro a destreza da artesã que transforma sonhos com papel, palavras e cetim e as memórias ecoam em poemas, poesias e arte dentro do que se pode costurar.
A vida é esse instante tão pequeno que passa feito voo de beija-flor ou linha entre um tecido e outro, uma agulha e o papel, um ponto arrematando o dia que aconteceu.

Mariana Gouveia
No bico do beija-flor beija a flor.

Corredores, Codinome Locura

No bico do beija-flor beija a flor…

Ele chegou até a mim em um dia frio, quase igual a hoje, há 10 anos atrás.
Caiu do ninho feito no meu xaxim de orquídeas e nem percebi que ali tinha um ninho. Era meu aniversário e embora ele não tenha nascido nesse dia, é nele que comemoro os nossos aniversários.
São 10 anos ele aqui, entre os quintais vizinhos e o meu.
Ele conhece os desvios para atravessar os quintais e vir pousar em minha mão. Dei-lhe o nome de Chiquinho e ele atende quando o chamo… Vem, voa, e mora no pé de algodão, com rasantes nos pés de ipês e nas flores que plantei para ele.
Dorminhoco, não pode ouvir @mariagadu cantar Dona Cila que vem pousar na minha mão. É um dos meus amores e possuidor da liberdade que encontrou aqui.
Nos seus milhares de voos, pouso e beijo.
Feliz aniversário para nós dois!

Mariana Gouveia
No bico do beija flor beija a flor.

Corredores, Codinome Locura

Eu era a estranha perdida

Eu era a estranha perdida

Parada na manhã, no meio do nada.
Caótico trânsito dentro de mim.
Eu era a estranha perdida e ninguém conhecia.
Vozes me indicavam a direção.
Rumo a lugar nenhum.
Não sabia o endereço, nem conhecia nada além do corpo dela.
A mão, pedia toque.
Sobrava solidão nas estrelas.
E a vontade exagerada no olhar.
Foi assim que amanheci em tua roupa.
Cheiro de pele molhada.
Cheiro da chuva que vi escorrer na calma
de uma manhã onde desejei ser vidraça.

Mariana Gouveia
*Fotografia: Facebook

Corredores, Codinome Locura

Ela era todo sabor

 

A porta entreaberta denunciava o que estaria por vir. Tocou lentamente nos sonhos. Era um costume antigo. Desnuda diante de si mesma, ela sentia-se bem. Enquanto tocava-se imaginando não imaginar nada, absorvia uma cumplicidade divina emanada pelo silêncio.

O vento estragara a possibilidade de um deleite ainda mais profundo na frente do espelho. Os pelos arrepiados pelo auto prazer reverenciavam, aos poucos, a pele sedosa que protegiam.

A calcinha estava bem confortável. Os detalhes em miçangas e um bordado especial nas extremidades do tecido davam um toque de requinte ao que se bastava.

Havia fogo escapando pela pele. Abaixou-se vagarosamente, Respirar.

Numa parte do sonho ela chegava. Havia ocupado a porta e o vulto era apenas reflexo sentido. Não apagou nenhuma luz, tampouco as chamas de si. Ao mesmo tempo em que experimentava o tato do prazer materializado em líquidos claros e consistentes, puxava o próprio cabelo, de maneira suave, punindo-se pelo desejo do orgasmo solitário mas junto com ela.

As cortinas iam de um lado para o outro. O vento que soprara rangendo a porta dança, ao passo que ela faz-se de violão: dedilha e escorrega, onde as notas musicais são expressas pelos gemidos tímidos em lá menor. Todo o corpo reage ao testemunhar seu momento sublime. Os suores percorriam as curvas suculentos e rebolavam sobre as curvas dela. Contração total dos músculos: cruzou as pernas tentando prender para dentro todo o gozo do qual fugia há anos. Não conseguiu.  Fora de si, ela continuava lá. Mas a inocência não estava mais nela.

Entorpecida por todo o ocorrido. Logo depois tomou o banho mais leve de sua vida, colocou a mesma calcinha  que usara, repôs o vestido de bolinhas verdes que ela adorava. Ela era todo sabor… E ainda é.

 

Mariana Gouveia
*imagem: Tumblr

Corredores, Codinome Locura

As borboletas nascem pela manhã.

Eclipse lunar e o quintal se prepara para o nascimento. A mudança acontece de dentro para fora e as sombras refletem as asas que logo voarão e alcançarão a liberdade.
A flor da pele, o brilho e a dor da metamorfose, porque as transformações são necessárias.
O que é frágil se fortifica no inesperado.
As borboletas nascem pela manhã.

Mariana Gouveia
Projeto: Na rota das borboletas – do voo ao pouso.