Meus Livros · Portas Abertas - Codinome Lucidez · Scenarium Livros Artesanais

Portas Abertas: Codinome Lucidez. Uma resenha.

Por Marcos de Farias

Conheci Mariana Gouveia num entremez, no hiato entre um e outro ato da ópera. Aconteceu quando me deu na telha começar a registrar o meu tédio na rede, ocasião em que pari um blogue. Bem, na verdade verdadinha veraz não conheci realmente à Mariana, somente à distância, enquanto lia seus escritos, de modo assim fantasmal, internético.
Mariana, a Gouveia, desde o começo gostei de pensar nela assim, cerimoniosamente, como se me dirigisse a uma castelã. Dona Mariana, dos Gouveias. De Goiás e Mato Grosso adentro.
Falava do que mesmo? Já se me esqueço. Não, relembro, quero escrever sobre. Homessa, nunca termino um período!
Bem, PORTAS ABERTAS: CODINOME LUCIDEZ, livro de Mariana Gouveia, que escreverei deste jeitinho, com as maiúsculas nos lugares errados, sapecando um itálico se o editor de texto suportar. Uma resenha, minha ambição. Mas queria muito mais, queria que não fosse a resenha laudatória habitual. Queria, quero mesmo, que seja uma conversa aqui do lado de fora sobre o que ocorreu no lado de dentro. Que seja este um texto que soe como um assobio despretensioso.
De Mariana, primeiro, conheci seu estro. Uma escrita sedosa, no seu blogue O OUTRO LADO (PORQUE O LADO MELHOR É O DE DENTRO). Depois os livros, como este Portas Abertas, com páginas atadas por fitas.
Portas Abertas é um daqueles livros na linha da declaração atribuída a Clarice Lispector, “gênero não me pega mais”. Não é confessional, mas é. Não há o narrador onisciente clássico. Mas é como se houvesse e a quem eu chamaria de comedido. Há fluxo de consciência, também comedido, quase a medo de ser desrespeitoso, toca aqui e toca ali, mas nunca se aprofunda. Há fluxo, mas o que informa, o que se nos dá a perceber são as pequenas coisas. Um teto, uma boneca, uma janela, um sofrimento, uma fotografia.
Um monólogo da personagem, Maria, um livro-razão de sentimentos. Liberta do manicômio, mas com ele dentro de si, se reconstruindo com as peças que tem à mão. Refazendo-se com pequenezas diversas, agregando silêncios.
Os americanos chamam de “Revelatory Plot” ao texto literário que aparentemente prescinde do enredo. “Kishōtenketsu” é o termo japonês para uma estrutura que não atende aos padrões ocidentais da escrita definida por suas tensões. Quem leu Yukio Mishima irá entender. Existe um centro, um fulcro e dele a escrita se irradia e, portanto, não começa e nem finda, mesmo quando há morte, mesmo quando se propõem finais. Assim também o “Portas” de Mariana, simples até a medula, como se toda a coisa pudesse ser reduzida a um momento íntimo, a um ato banal se irradiando em teia, como um cobertor definindo relevos.
Falei de Mishima e me vem à mente um seu conto no qual o motivo condutor é uma garrafa térmica que ao ser aberta produz um som que assusta a uma criança e partir disto levamos um tempo enorme de leitura para perceber que trata da história de um pai, exilado em um país estrangeiro onde encontra uma amante do passado. Ou uma frívola concubina imperial que corrompe um homem santo e no processo alcança a iluminação.
Aparentemente sem ponto de ancoragem, “Portas Abertas”. Só a voz de Maria e o enredo dos dias.
Portas Abertas: codinome lucidez é um livro que tem primeira página, depois outras e mais outras.
E, se você o encomendar, virá atado em fitas (uma ideia linda, um achado da editora, a Scenarium) e necessariamente você cogitará que alguém o montou, assim, despretensiosamente, com fitas unindo papéis diversos.
Acho que é tudo o que eu tinha a dizer sobre o livro e sobre Maria e sobre Mariana, a Gouveia, de Goiás e Mato Grosso adentro.

Lunna Guedes · Portas Abertas - Codinome Lucidez · Scenarium Livros Artesanais

Carta à Maria

rasga todos os mapas, as cartas marítimas e geográficas
esquece os caminhos que não são teus
cartografa apenas as ruas da tua infância e a tua aldeia  
guarda no peito a trilha
das saúvas vermelhas
e das lagartas de fogo da tua alma
e segue
no rastro dos caracóis dos muros que vieram ao chão
viaja, se possível, navega — voa!
Nydia Bonetti

 

 

Querida Maria,

 

É verdade que você se transformou. E se eu fosse detalhar resiliência, seria teu nome que estamparia nas camisetas que usaria todos os dias.
Lute como uma garota! – eu diria – e não seja normal – as pessoas normais são chatas e sem histórias.

Quando me deu sua história, era um dia chuvoso e as palavras se uniam em tom de desabafo e você, ali aos meus olhos nua e crua. Resiliente e aspirante no modo amar. O medo em cada gesto e um desejo absurdo de falar.

Você me usou para ser voz e ao mesmo tempo me silenciei e dei voz a você. Fui seus passos aqui do lado de fora e testemunha do amor que foi plantado e que virou esse romance que traduzo nos gestos de quem ama o amor.

Hoje, Maria, você ganha ares de vencedora e coloca um ponto final naquela história que dói e recomeça a contar seus momentos a partir do belo, da casa com quintal, dos chás de cidreira e noites de amor.

Talvez você se encante por essa nova vida. Talvez você se inquiete com alguns momentos, mas o que posso garantir que tudo se trata do destino.

E do destino, você não tem como fugir.

Mariana Gouveia
O lançamento de Portas Abertas – Codinome Lucidez,será no dia 30 de novembro, às 19 horas na  Casa Laranja… em São Paulo.