Mãe, eu sei que ainda guardas mil estrelas no colo. Eu, tantas vezes, ainda acredito que mil estrelas são todas as estrelas que existem.
José Luís Peixoto
Mãe,
mais uma vez o calendário me leva para o dia de sua partida e o vento que atravessa meu quintal limpou todas as nuvens de chuva. Lembro-me de que chovia no dia em que você voou… e lembro da chuva molhar os flamboyants que circundava o cemitério e que fiquei brincando com as gotas nas folhas.
Hoje, o quintal nem ficou molhado… vai ter estrelas no céu noturno que se aproxima e mais uma vez vou cantar baixinho para você dormir. Revendo as poucas fotos que tenho é como se o coração não percebesse essa ausência… como se você tivesse logo ali, ao alcance das mãos, de um aceno, um abraço.
O tempo passa ligeiro, mãe, e mesmo sentindo como se fosse ontem, já se vão 43 anos… Uma vida inteira de saudade. Sinto tanta falta de tudo que não vivi ao seu lado e de tudo que você não pode saber de mim – embora, eu acredite piamente que de alguma forma, você esteve e está presente em tudo que fiz.
Os pássaros cantam finalizando o dia e o céu escurece rapidamente… Dessa forma, te ofereço meu amor sempre vou te dar notícias através das estrelas como você me ensinou.
Da viagem secreta ao fundo do coração trouxe um sono vertiginosamente profundo. a água e o ópio a ausência e o ritual a epígrafe e o punhal a prece e a pressa de partir. amadureço este inverno que é segredo. e o óbvio é uma oração em rodapé
Isabel Mendes Ferreira
Bambina mia,
Fui por aí, bem logo depois que o vento faz a curva rever meu povo e meu lugar. Ainda é inverno nesse calor que transformou tudo por aqui em uma única palavra: insuportável. Fui intimada a comparecer aos instantes de felicidade de minha sobrinha e confesso que depois que desci do ônibus, pouco antes da porteira, as memórias me levaram tempo adentro. O campo de canola, antes de mostrar a beleza amarela, que me lembra as tardes de agosto no lado direito após a cerca me atrai pelo cheiro. O amarelo me lembrou a baba do cachorro doido atrás da cerca…
Do outro lado, bambina… o manto branco – em rolos embalados para entregas – se impõe. Houve um tempo em que a gente colhia tudo na mão. O balaio que mal conseguíamos carregar ia se enchendo de plumas… parece que ainda ouço a voz do irmão que já não está mais aqui a orientar as fileiras. Para mim, parecia que a terra estava de noiva, tal qual Juliana ficará mais tarde.
À primeira vista, após abrir a porteira o olho alcança o gado sendo aboiado. Sabia que meu pai aboiava o gado entre um pasto e outro com os olhos de quem domava aquele mundo? A falta dele é perceptível em cada canto desse lugar. O engraçado é que ele sempre achava que tudo pararia se ele não estivesse ali, em cima do Azuleiro – seu cavalo de estimação – com seu berrante e o êêê boi – e não parou, bambina. A engenhoca continua igual… tudo roda como se ele estivesse ali, dando ordens e indicando direções.
Ele é quase uma sombra entre os peões e os gestos deles são os mesmos que ele fazia… quase o vi ali, entre a poeira e o gado indo para o curral. Acho que é isso que chamam de saudade, amore… o que sinto agora vendo de tão perto, com os sentidos aguçados nos cheiros da terra pisada e nas lembranças que invadem meus pensamentos dentro da minha história. Ainda em um ontem, eu era a menina na garupa do alazão a aboiar junto ao peito dele.
Sem falar no Chuim – o boder collie que nasceu logo depois da cerca, ao lado do curral – que parece sentir minha chegada e me espera no triiero, como se eu nunca tivesse partido. Como se os dezessete anos dele não fizessem a menor diferença desde quando o peguei no colo pela primeira vez. Sempre perto a me acompanhar nos campos, atento a qualquer barulho. E a cada volta minha age como se eu nuca tivesse ido, como se ele soubesse que eu faço parte do lugar, assim como ele, que já deixa seus filhotes tão iguais a ele.
Não fosse por tudo dito antes, o cheiro da cozinha me carrega ao colo de mãe… dos quitutes feitos ali, pela senhora sorridente de sempre, que me viu crescer naquelas paragens… que acompanhava meus movimentos à beira de um fogão de lenha… A viagem era para o casamento da minha sobrinha e o meu lugar voltou no tempo, nos arranjos debaixo da velha árvore que nos viu crescer. Porém, eu viajei nas lembranças. Na falta dos que não estão mais aqui. Das coisas miúdas que mesmo se colocasse mil fotos não traduziria o sentimento que senti. Fui ali, bambina, para abraçar os meus, em uma viagem feita dentro da minha saudade.
Quando a vida passa e o tempo e seus sonhos passam juntos, o mês desanda a correr dentro dos dias. A estação muda as cores e o sentido e a secura amarela as folhas enquanto a ave espreita o vento que muda o tempo – mas eu nem tenho tempo. O moço que se encanta pela cidade pequena cria histórias que não existe dentro da minha história. Ele passa silencioso na imensidão da manhã. Culpa o sistema pela vontade exagerada entre voar e sentir. Não sente urgência na palavra amor e a paisagem traz a fumaça do mês que ainda nem veio. Podia ser um nome em sentido de asas. A palavra curta definida no pouso. O jardim a crescer com as ervas daninhas. Se eu pudesse, apagaria os instantes diante da dor e o século seria o momento seguinte que ainda não vivi. O mapa a desenhar as partes dos atlas. O muro feito de prego e o verbo era suspirar.
Não teve missa, o domingo. A igreja fechou para reforma. A oração foi designada para as casas. O vento veio fazer parte do momento. A asa trouxe o número da sorte. Vai que muda a estação e a previsão do tempo erra. Entende a certeza da vida. Ela é ilusão de sopro. Vai até onde ninguém pode alcançar. Há ocasião que é boa para voar. O espelho mostra a verdade inversa. Busca a poesia na cura. O sossego no silêncio é quando o voo grita e as acrobacias no céu pedem pousos. É utopia a certeza do espaço. O abismo é a pálpebra quando abre e o horizonte é a linha imaginária na superfície. O dia destinado ao veneno não é adequado para rezas e uma esquadrilha faz movimentos no céu. As asas, do avesso, rastejam.
Alguém me pede para ser árvore quando em minha escolha sou folha.
A vida empresta-me a graça do amanhecer e se alaranja no meu quintal. Detalho para ela a profundeza do que vejo. Um sabiá laranjeira voa ligeiro entre o telhado. Carrega no bico algum galho seco pra construção do ninho – eu acho. As nuvens roubam matizes do sol e se banham numa mistura de todas as cores do arco-íris. Falo pra ela do canto dos pássaros. Do bem-te-vi que duela comigo em quem viu quem primeiro. A vida me dá bom dia pela manhã e eu alaranjo diante de tanta doçura. O sanhaço azul quase cai ao roubar a água do beija-flor. O bebedouro quase não se aguenta e ainda assim ele se equilibra e busca matar a sede. O céu recebe de braços abertos o sol e já não faz mais frio e falamos do tempo. A poesia acontece mais uma vez nas estações diárias que ela coloca em minha vida.
Tinha medo da noite e era dia. Vasculhava as paredes todas atrás de lembranças. Buscava as digitais dela nos objetos que tocou. Na parede, do lado esquerdo da porta, as horas sem ela corriam ligeiras. Voavam feito aves no céu. Em algum canto, rabiscou um coração com o nome dela e foi nesse momento que um arco-íris cruzou o céu de ponta a ponta. Era quase imperceptível. Mas parecia ter zoom ao olhar para a parede do lado esquerdo da porta, quando via as horas a voar e o vento agitava a cortina. De noite, parecia que as asas brilhavam e dançavam saudade olhando para ela. Por isso, tinha medo da noite.
Era quando os fantasmas surgiam em forma de asas.
Mariana Gouveia Estamos em Agosto e por isso, temos BEDA.
nem nos sonhos dos homens inconstantes Me procure no azul do céu, nos galhos secos na relva que oscila ao ganhar do vento, o beijo molhado
Não me procure nos cantos dos pássaros noturnos, esses vagueiam em busca de luz. Me busque nas manhãs sem segredos onde o sol encaminha para mais uma rotina.
Me procure nos voos das aves que anunciam e se preparam para ganhar a liberdade do dia.
sirvo-me uma xícara de café enquanto te escrevo… o tempo passa dentro das nuances dos dias e esse café me lembra tanto você. Aliás, tantas coisas me lembram você. O cheiro da pimenta do reino, do pão de queijo, do milho verde e principalmente o cheiro que antecede a chuva.
Engraçado como me perdi nos dias depois que você se foi… hoje seria um dos dias em que o locutor do seu lugar leria essa carta para toda cidade ouvir e seu olho brilharia ao se reconhecer nela. Seu sorriso se alargaria e seus olhos se amiudavam. Sinto falta desse sorriso, pai. É apenas mais um dos dias dos pais que passarei sem você e acho que você tinha razão quando dizia que o tempo é o remédio para tudo, até mesmo para amenizar a saudade.
Pai, agora que o tempo já sobrepôs sua ausência acho que fiquei mais calada. Dei para conversar só – com meus silêncios – e percebo que não sei nada dos seus voos. Antes, bastava um telefonema, uma chamada de vídeo e te alcançar ao lado da janela ou na soleira da porta a espreitar a rua.
Às vezes, fico só pensando em tudo que não fizemos mais juntos e de como seria seu conselho diante do meu problema…, mas tudo isso, pai, é apenas para ponderar dentro da falta que você faz. Em um dia como hoje, você ficaria à espera de seus filhos e dos abraços, mesmo que fosse por telefone. E foi isso que eu vim fazer… te abraçar para além desse espaço.
Feliz Dia dos Pais!
Te amo infinitamente! Mariana Gouveia Scenarium Livros Artesanais Estamos em Agosto e por isso, temos BEDA.
,,, Eu enlouqueço com a doçura dos meses vagarosos O poema dói-me, faz-me. O povo traz coisas para sua casa do meu poema. … Helberto Helder
Bambina mia,
confesso que assustei-me com os seis meses – a pergunta foi: mas, já!! – para logo depois repassar na memória todos os oito meses que já vivemos e morremos. Lembrei-me de que alguns meses foram arrancados de nós, como quem arranca a folhinha diária do calendário. Lembra-se de que em janeiro, dentro dos melhores momentos a gente os seis meses do ano anterior.
Já fevereiro, bambina, em nossas manhãs, o café e o livro de sempre, fazendo com que a rotina fosse marcada pelas conversas, risadas e choros. Os planos e a incerteza de que eles fossem interrompidos e o mês seguinte sendo companheiro da dor .
Sabe aquela frase que alguém sempre diz sobre o tempo? Acho que a gente apenas quis continuar e mesmo abril sendo o mais cruel dos meses – um poeta escreveu sobre isso – a gente riu entre lágrimas e suspiramos no cair da tarde. Acho que viver é isso… um dia e uma tarde de cada vez.
Te contei sobre maio e suas trovoadas por aqui, lembra? E também falei sobre como os caminhos literários me levou até as ruas de França, nas mãos de quem gosta de mim… e a gente aprendendo a aceitar esse vazio, mas também seguindo em frente, porque é o que nos resta fazer.
Junho nos acolheu tanto em saudades como em afagos. Outono passou ligeiro dentro das leituras de outono e quando demos por nós, os meses foram recompostos em escritas e superação. Ou seria apenas o viver um dia de cada vez?
E assim, seguindo um dia de cada vez, degrau por degrau vamos enfrentando essa ausência que nos afeta e nos enche de saudade cada vez que penso no tuo bambino. Confesso que, às vezes, parece que ele está aí e vai entrar de repente na nossa conversa com seu bom dia radiante e sua gargalhada majestosa. Sou muito grata ao universo por ter tido a honra de tê-lo em minha vida. Eu só queria te dizer isto e aproveitei essa carta para tal. Quero dizer também que estou aqui, sempre… para o colo, mão estendida e todo meu amor.
Alguém fez um grafite no muro da rua de cima e a ave sente a mudança da estação. Daqui a pouco será primavera e o tempo ainda insiste em não passar. Amanheceu com vento… e o frio pousou na árvore. Escrevi uma carta mentalmente, um rascunho por dentro que talvez vá para o papel… ,amanhã — se eu me lembrar das palavras.
Às vezes, essas rotinas de escrever são apenas lembranças de um tempo que se foi. Penso no bordado que desenhei no tecido e abandonei sobre o criado mudo. Entre as linhas coloridas que vão criar os matizes do voo do pássaro e as agulhas espetadas à espera de minha vontade — ou tempo — no bastidor.
Sinto uma tristeza amena, curta. Como se a sombra saísse do anonimato e se tornasse personagem principal de uma manhã insólita.
Enquanto isso as Pétalas voam na rua…
Mariana Gouveia Estamos em Agosto e por isso, temos BEDA.